12 de out. de 2010

ULTIMATE SEX POWER FEST II

.
Porque as coisas boas da vida são para repetir, pelo menos duas ou três vezes e onde der mais jeito, serve a presente para anunciar a realização do II Ultimate Sex Power Fest!
É isso mesmo! - Parece que a malta gostou e quer perder o resto da vergonha que ficou do ano passado. Pagasse ela imposto ou valesse dedução e não seria esta gente tão ligeira a livrar-se assim de pudores!


Um conselho:
- Vós que tendes ainda bom-nome, pintalgai-vos de azeite, fazei o sinal da cruz e correi a abrigar-vos onde a peste da sarapantice vos não suba pelas pernas. Mas cuidai de vos não acercar do Convento de Alpendurada no próximo dia 6 de Novembro, pois ele estará empedernido… e os cavalos que por ali passarem, puxando carroças, relincharão nervosos e o cocheiro terá de lhes chegar mais um bocado no lombo, com o céu a ameaçar trovoada.
Por Pevides, o vinhateiro de Cafarnaum, fugi deste local como o diabo se chispa da cruz!


Feitas a advertências, passemos ao que interessa:

Sensível ao finca-pé do nosso público de Susies e Lucy’s, que notaram na machonaria do ano passado certa moleza (que vergonha!), impôs-se fazer algumas alterações ao protocolo, a começar pela indumentária.

O tema deste ano é o Rockabilly, esperando-se por isso uma certa rebeldia (não confundir com rebaldaria)! Rockstars, tatuagens e (casacos de) cabedal; popa, pala e/ou pé de gesso também se aceita. Quem tiver na garagem um Ford Mustang ou um Camaro de 60 também o pode trazer, desde que tenha gasolina para a noite toda…

Nota: - Jagunçada com cabelinho “à foda-se” dá direito a chuto no lóbulo esquerdo!

As meninas deverão manter-se castas nos oito dias anteriores ao festim, para que todo o espírito da festa se lhes incarne pelas narinas às primeiras lufadas de couro e Brut.
De forma a não ofender a minha masculinidade, estando para aqui a dar dicas de toilette e maquilhagem, usando um vocabulário que não domino, postarei fotos para que se inspirem.



No que ao menu diz respeito, pode dizer-se que é mais ou menos o mesmo, sendo de salientar, para este ano, a inclusão na carta de um granizado de pomba, vinho fino e sortido à descrição.

Também não haverá carreira, pelo que, se calhar, o melhor é alugar um carro de praça ou ir de mula.

A brincadeira custará 20 fests por cabeça, que deverão cair no meu bolso a tempo de saldar uma dívida no Brasil. Por isso, vamos lá a despachar que eu não estou para ficar sem os dedos!

E, por ora, é tudo. No caso de haver algum problema ou dúvida, venham ter comigo que eu tenho sempre para vós uma palavra amiga.
.

7 de set. de 2010

Ode ao Woodrock

.


Não sou de um tempo…
Como dizem os velhos de um tempo que passou
Sem que realmente o tivessem podido tomar como seu.
Envelheço, apenas, como de resto toda a gente…

Mas se de um tempo falasse com pompa e circunstância
E propriedade,

Se de um tempo falasse com galões,
Bufando as unhas,
Polindo-as no relevo das condecorações
Alfinetadas ao peito,

…falaria do Woodrock!

As amizades que ali fiz e
Me fizeram,
As que consolidei,
As decadências sinceras a que me entreguei –
Porque quis! –
E não porque se me impunham, e creio
Ter sido ali sempre respeitado
Por garantir
Uma honestidade de carácter que cabe bem em dois cubículos.

Não sou de um tempo…
Mas para o tempo em que me atiram
Não havia o Woodrock,
Embora o sonhasse então por linhas travessas…

Para muitas pessoas é só um bar! – Eu não as censuro –
No dicionário, um bar é um bar e/ou, quando muito,
Um pub!

Mas um dicionário não é certamente um livro de poesia
E eu, não sendo realmente um poeta
De escrever livros,
Leio um parágrafo,
Releio ou viro uma página de cada vez que lá vou…

Arrisco o tempo que será um dia o dos outros
Por um capítulo novo, agora,
Que amanhã nem sei se meu será…

Mas subo as escadas que um dia desci por outros motivos
E o Woodrock empurra-me o coração para bater…

Para cima…

Como a um crente,
Como a um verdadeiro crente
Que se renasce sempre a entrar com Alzheimer
Por uma nave estrangeira…


.

26 de ago. de 2010

Don't burn candles because of the the ozone lair

.


They say
“When God gives you a talent,
It also gives you a whip”.

Well,
My talent isn’t writing
But it dresses with it,
Like a painted whore
Or a fuck’in shemale…

It also may happens that God
Have a twisted sense of humor
Or a degenerative disease
And just gave me the whip…

Thanks anyway,
I mean, - it’s fair!
But I ain’t gonna burn some candles
Because of the ozone lair…

You may say that I’m a loser
Or just wrote a note on a previous life
To become like this.
You may pray for me…
No! You cannot pray for me!

I’ll be fine with some dirty old dumpsters
Remembering me for that genocide of flies
Last summer…
Or for that dream
With crocodiles smoking dead rats
And dancing…

Thanks anyway,
I mean, - it’s fair!
But just don’t dare to burn some candles
Because of the ozone lair…








(PS: Please recycle it, Kate…)

13 de ago. de 2010

Ultimate Sex Power Fest II

.


Olá a todos os meus docinhos!
Eu sou o Menino de Talho, aquele que debaixo do firmamento tem resposta para tudo e mais uma carrinha de caixa aberta… ou, simplesmente, o vosso Kompensan ocasional para quando a vida se torna aziaga.
Ocorreu-me dirigir-vos esta missiva oral a propósito do segundo capítulo da saga Ultimate Sex Power Fest. Parece que o certame deste ano contará com a presença de muitas estrelas do meu imaginário erótico, quase todas marcoenses e com página no Facebook. Eu queria muito ir, mas parece que a organização está com algum receio que eu vá para lá fazer besteiras.
Ora, vós sabeis que eu sou um rapaz doce e, apesar de não ser rico, dais valor ao facto de eu ter privado com a nata intelectual deste país. Filósofos e poetas, músicos, viticultores…

Serei lembrado para a posteridade como um homem altamente moderno e viajado, que ensinou à vida quase tudo o que ela sabe, quando ela própria era só dois dados e uma Florett ao fim-de-semana, e corria para a discoteca a meter uns rupinóis

Sou de um tempo em que as crianças rebolavam alegremente em campos de malmequeres e faziam barrelas, pontapeavam-se nos testículos e se levavam divertidamente aos postes, condicionando sem consciência a sua vida sexual para o resto dos dias… eram tempos despreocupadamente felizes!

Veio depois com a puberdade esta vontade, esta insatisfação permanente que me jogou injusta e directamente para o top dos maiores pervertidos sexuais portugueses.
Por todo o lado se inventaram calúnias. De toda a parte vieram pais com tochas flamejantes, gritando palavras de ordem, cada um exigindo na ponta faiscante das suas forquilhas, o meu pequeno Desidério Antunes de Olivença e Sá, como se de uma salsicha Nobre se tratasse…
As portas começaram a fechar-se. As pernas um pouco, mas nem tanto. Onde antes se empalavam as filhas, passaram a orar as mães, chegando de capote, em coches de alta cilindrada e volúpia nas mãos para as minhas campainhas.

Hoje, desejo ardentemente participar nesse magnífico evento que é o Ultimate Sex Power Fest mas, para que tal aconteça, necessito de um indulto, uma carta de alforria lacrada com o sangue quente de uma virgem e uma moeda de três vinténs.
Apelo à vossa generosidade sexual. Libertai-me desta masmorra de privação e pedi aos vossos pais que me não persigam mais… e um pouco de uísque velho, para nos celebrarmos em paz.

Atenciosamente vosso,


.

28 de jul. de 2010

Três anos de tristeza à frente

.


Ele andava com três anos de tristeza à frente
E de cada vez que abria a boca,
Comungava ou chorava gente…

Foi no maior fogo que se pode imaginar
O retrato do seu tempo…
Vieram depois setas e avionetas
E o mato que havia para arder no ar
Ardeu ao sabor do vento…

Ele andava com três anos de tristeza à frente
Tocando num piano, à noite, as lágrimas que eram para a-
Manhã…

E antes que o mundo o pudesse salvar,
Porque ele andava com três anos de tristeza à frente,
Atirou-se para a frente de um carro
Que fazia marcha atrás num acidente.



.

Mrs. Roscoe

.


Mrs. Roscoe
Shared a whole night with me
At the Morgue.

I served wine for two
And an erection
Between sheets and funny laughter…

Mrs. Roscoe
Mrs. Roscoe
We’re soul mates and lovers
With bandages.
Oh! Oh! Mrs. Roscoe…

She was trying to make songs
For those on the wrong side of the road
Gain a bit of wheel on the back teeth
And lot's of rubber on a false leather seat…

I thought that was funny and laughed.
She felt the same way too.
Honored me with a blowjob, so mean
And, meanwhile, called me Stu…

Mrs. Roscoe
Mrs. Roscoe
We’re soul mates and lovers
With bandages.
Oh! Oh! Mrs. Roscoe…



.

26 de jul. de 2010

Cadernos da escola

.

Ah, os meus cadernos da escola!
Tão cheios de conhecimento
Como da minha falta
De vontade para o reter.
Vou lá de vez em quando
Ver onde deixei o que pensava
Quando voava das aulas para longe…



.

Dia de praia

.
Levantas a cabeça da toalha, impondo ao pescoço uma ligeira dor panorâmica, e olhas para mim sem consciência de eu estar existindo na tua órbita. Pareces estar num transe hipnótico, como que dormindo ainda na cantiga distante de crianças felizes, compassada pela areia mastigada das pessoas em movimento. Tudo está bem e te parece possivelmente possível. Nada que ameace, portanto, a clarabóia do firmamento onde te banhas. Garantia de nova incursão pelos domínios do indominável.

Deitas-te no meu pensamento.
O mar dilui-te e o sol canta para ti uma canção dourada.
.

22 de jul. de 2010

A Chave

.
Tens quase quarenta, um par de boxers e uma t-shirt vestida. Passaste a noite a pé, emboscado no sofá a fumar e a beber. Estás só. Estás miseravelmente só, com uma janela aberta que te deu ar a noite toda e te cobra agora com o sol da manhã. Num momento de lucidez, olhas em volta à procura de algo que se perdeu no caminho e quase te apetece destruir todos os objectos, por estarem tão estáticos. A começar pelo relógio de parede…

Não tarda, chegará com duas voltas na fechadura, a mulher da limpeza. Uma senhora de trato e gostos simples, reservada a um nome, mas que te guarda a chave de casa para vir aos sábados aspirar e despejar os cinzeiros… enquanto dormes.
Nunca falhas os pagamentos e deixas sempre uma pequena atenção, mas sabes que mais tarde ou mais cedo ela te vai deixar um recado e a chave em cima da televisão. Depois irá, provavelmente para nunca mais se cruzar contigo, com os pés mais leves à sua própria vida.

Ficarás outra vez só, na companhia dessa chave que sempre negaste às tuas ex-namoradas. Pensas nisso com o olhar fixo e sorris pelo nariz um espirro de canário.
.

20 de jul. de 2010

O Escolhido para arrumos

.
Venho do café sem grande esperança com as mãos nos bolsos, subindo para ou descendo ocasionalmente o passeio. Tudo normal, portanto, a caminho de casa.
Tenho hábitos que poderia chamar de rituais se não fossem tão vulgares. Um copo, o cinzeiro à distância do braço e um isqueiro em cima do maço. Tudo muito simétrico para não interferir com os movimentos do rato. Tudo muito direitinho como uma máquina de botões que importa mexer de quando em vez. E escrevo. Escrevo-me sem grande dom ou memória, parco de vocabulário e sem coragem (talvez) para a disciplina que se impõe aos centracionistas do mundo que o iluminam a partir dos vãos. Sou um poeta menor, um remediado, o palhaço equilibrista que deixou cair todos os pinos porque lhe batia o coração, um montador de trapézios escolhido para arrumos…
Mas dependo disto por extensão como um amputado depende de próteses para se equilibrar ou um humorista de piadas, ainda que sem razões para se fazer sorrir…
Não escrevo em código, não sinto velado, não espero que me entendam mais por ser quem sou. Escrevo para mim, à boleia do primeiro aluimento de terras que me leve às chuvas torrenciais, onde me cuido e lavo e corto as unhas.
Reinvento depois o mundo real das manhãs, com carros sob os viadutos que são pessoas com horários para cumprir, e vou deitar-me, irresponsavelmente, realizado como um puto que arriscou a vida, sem notar, num tanque ou aquaparque…
.

16 de jul. de 2010

Deus Sex Machina

.


Sinopse:

Deus chamou a si toda a humanidade para uma grande festa, gastando em espectacularidade o bastante para unir todos os povos e credos, satânicos redimidos, eremitas e ateus. Da noite para o dia, extinguiu-se a fome e todos puderam viajar de avião com os seus amuletos e merendas para ouvir Deus num palanque.
Esta é, basicamente, a história do único homem que faltou a esse encontro…



Continua...
.

A outra

.
Queixas-te de mim porque me vou. Porque te deixo. Para escrever! À luz das coisas mundanas, é-te quase impossível achar na minha fuga alguma razoabilidade, e por isso duvidas deste amar incorpóreo que me faz escrever cartas de amor para ninguém. Não sabes ao certo o que sentes porque te falta “a outra”, tampouco valeriam, para te dar nome ao ciúme, as fotografias tiradas por um detective contratado.

Consome-te uma rejeição que adia beijos. O teu guarda-jóias [sem conotação sexual] trocado por uma câmara de horrores que me debulha por inteiro e me expõe o corpo ao sol, empalado.

Torno depois para os teus braços, lavado em sangue e suor, não como um Cristo deixado crucificar-se por um propósito maior, mas descido da cruz, como um enfermo das sensações, com direito a sepulcro. E tu acolhes-me…

Para nós, bastar-te-ia que eu escrevesse, em vez de uma ode monumental, os nossos nomes à navalha numa árvore. E corresse atrás de ti e te agarrasse num riso profundo e pusesse uma flor no teu cabelo, como fazem os amantes despretensiosos antes de se deitarem a uma sombra.

Não julgues que eu não sei! Amanhã direi que o aqui e o agora realmente importam e tu vais olhar-me de soslaio. Pensarás sem dizer que me tenho adiado a vida toda, que te tenho tratado como um objecto, que “a outra” não é mulher para mim…

E eu sei disso,
Como um viajante à espera do comboio…
.

Decadência

.

Recaí quase todos os dias este ano,
Acordando sempre para o lado da dor
E tarde para os castings

Dois dedos de vodka
Pela manhã
E o resto do dia
A ver televisão
Com os pés descalços.

É tarde para começar de novo
É quase noite para começar tudo outra vez

E falta um verso,
Falta sempre um verso…


.

9 de jul. de 2010

S/ título

.

Que merda não ser suficientemente sincero! Discorrer, sem norma ou lei, como um cão que partiu os cadeados todos e só voltou porque tinha fome. Devia ser isso o poeta que não sou! Deveria evitar o dogma, fugir das verdades universais, rejeitar qualquer movimento de braços que me levasse a uma frase mais bem conseguida… cuspir-me, sem espelho nem misericórdia, sempre que uma ideologia, que não fosse ser agricultor, me toldasse a vontade de mudar o mundo para melhor.


.

1 de jul. de 2010



30 de jun. de 2010

Incompleta

Serafim dos meus sonhos...
acompanha-me nesta valsa,
por mim inventada,
mas muito desejada.
Eleva-me como um astro,
adorna-me com os fios d'água,
que da tua nascente vêm até mim...
Em meus cabelos se tornarão,
finos, sedosos e de um perfume virgem,
sem origem...
Meu rosto será de areia,
que aquecida pelo sol,
descanso dará ao teu corpo...
Meus olhos, de película verde,
serão feitiço para te prender,
e unir duas almas,
sem nunca pensar no abandono,
deste tão amado sonho...
incompleto....

25 de jun. de 2010

Manifesto contra as gajas boas

.

De há uns tempos a esta parte que certo tipo de mulheres perfeitas (com corpos perfeitos, entenda-se) me entediam, esmorecendo por consequência a minha vontade de as cobrir. Falo desses protótipos de mulher celeste que abrolham nas revistas masculinas como pop-ups em sites porno; daquelas com potencial para serem chamadas à Selecção Nacional das Namoradas de Jogadores de Futebol e que, mesmo sem convocatória, formigam pelos estágios como nassas de pássaros ou favos de mel.

Estou cansado delas, ainda que folheie primeiramente e sempre O Jogo pelo avesso e, instintivamente, lhes assobie um reconhecimento ou dispare um “Eh Eeii!” mais galhardo, seguido de um “Fuooda-se!”
É. Não parece mas estou cansado dessas tipas! Talvez ainda se não tenha reparado muito nisso mas estas mulheres que, em teoria, erigem o cânone de beleza feminina à custa de muita baba máscula, são abundantemente vulgares. Com esta mania de sermos todos bonitos de repente, vimos assistindo a um surto de poderosas que brotam dos ginásios como licenciados em Relações Internacionais das universidades, no final da década passada. A beleza, no entanto, tem mercado. E como a competitividade está agora na moda, as mulheres sujeitam-se a um delineamento de curvas capaz de pôr torneiros a suar e relojoeiros a tirar os óculos da ponta do nariz. Às vezes, ao sábado à noite, descubro o meu olhar desnorteado em coxas como o cão de um garimpeiro que atravessa a multidão, a lamber-se na miragem dos lingotes com mais quilate. Certo? Errado! Não consta que os cães tenham mais febre de ouro que os humanos a da carraça e, muito mais canídeas parecem as mulheres em relação ao ouro. Quem diz ouro, diz um amor deslavado em lágrimas pelo Cristiano Ronaldo, festas VIP, mamas novas, cartões sem plafond e um resto de tudo que vem por acréscimo como o Photoshop!

Eu não digo que as mulheres não devam investir no corpo. Até acho que devem continuar a investir como essas vaquitas que prá’í andam nas revistas a negociar aqueles triângulinhos de pano que falta para se lhes ver o parreco (gosto tanto desta palavra!). O problema é que a oferta de gajas boas está a aumentar, bem como a concorrência desleal na caça ao macho, levando muitas a recorrer às mais ancestrais técnicas de marketing, como é o caso do "bochecho na toilette”… um clássico muito em voga nos Estados Unidos.

Bem, isto de dizer mal das gajas boas está a custar-me. Por isso, vou mudar de técnica e falar das que eu gosto mais. Eu gosto mesmo é das francesas. Não tanto daquelas pitas que aparecem por aí à boleia do Erasmus mas daqueloutras que vêm embrulhadas como bombons nos filmes franceses, mesmo nos vintage (estou a falar de cinema de autor e não de porno, entenda-se!). Aquilo sim, são mulheres com substância, interessantemente cultas e tesudas, respeitosas como quebra-nozes e dotadas de um magnetismo capaz de arrancar pregos a um caixão enterrado numa cova com duas funduras. Nada que se compare a este fast-food de cantina cinematográfica americana.

Por isso, meninas, antes de julgardes o meu machismo, atentai bem neste esboço que aqui vos trago e pensai bem nos modelos de beleza que as revistas vos andam a vender. Achais mesmo que sois emancipadas? Não estareis a andar para trás, a tornar-vos mais burrinhas e plásticas? E os homens? – direis - Ah e tal, básicos… só pensam em coisa e foder… e protegem-se uns aos outros e não sei quê! Nós gostamos de sexo. Ponto final. Vós também gostais? Óptimo. Bora lá prá festa. Sexo é sexo e não deve ser complicado, isto é, por demais formalizado. Mas tenham presentes este pensamento: - enquanto as mulheres se servirem dele para atingirem os seus fins, nunca serão completamente emancipadas, nem os homens suficientemente despertos para a sensibilidade feminina. Tanga? Tanta conversa guarda a mulher para o fim do sexo e tanta vez lhe foge o homem a meio…


Nota dispersa:
Não se esqueçam que ser gaja boa, nos dias que correm, não basta. A beleza é efémera e o casamento também. Agora que penso nisso, perdoem-me o machismo, mas quase me parece que foram as mulheres que inventaram tanto o casamento como o divórcio. Não tenho a certeza, mas… hum huummm (tosse e pigarro) não sei… não sei…
Para terminar, nunca se esqueçam, meninas e senhoras, que são vossemecês que educam os filhos para serem os dominadores de mulheres, para lhes resistir às manhas. Nós temos a escolinha toda. Agora que penso nisso, isto dava um bom post para o dia da Mãe.


PS: quem diz francesas, diz italianas e espanholas. O filão do cinema europeu é vasto e de alto coturno.

.

23 de jun. de 2010

Poesia ao entardecer

Espelhar poesia,
com palavras entrelaçadas,
entoadas ao som da cítara.
Espalhar poesia,
soltar os cabelos,
morder os lábios,
gestos,
sentidos,
votos,
promessas a cumprir...
Morder os lábios,
fechar os olhos,
deliciosas tertúlias,
tempos passados,
Soltar os cabelos,
lavar o rosto,
caminhar nua.
Espalhar amor,
Sou tua.

16 de jun. de 2010

Monopólio, o jogo

.

Cada vez acredito menos na bondade da raça humana. Talvez o meu pessimismo se deva a este ralhar pão de barriga cheia a que se convencionou chamar crise. Não sei muito bem o que é a crise, confesso! Mas creio tê-la percebido metaforicamente, imaginando-me a jogar Monopólio.

- “Um jogo fabuloso”, - disseram-nos – “que todos poderemos jogar de igual para igual, num mesmo tabuleiro, e todos poderão lançar os mesmos dados”.

Embalados pela emoção dos relatos, trocamos tudo em fichas e pusemo-nos a jogar, enquanto nos ensinavam as regras. Ao princípio, foi muito engraçado repassar a casa partida e sacar uns euros, bem como receber prémios de beleza na casa da sorte. Uma conta de água aqui, uma multa acolá. Nada de muito preocupante. Depois o espectro de ir para a cadeia mas, com um bocado de sorte, a gente até se livra. O pior é quando chegam as contas de Hotel em Lisboa, que a vida está má… mas a roda-viva mantém-se e o povo tem que se pôr a mexer e ir de férias, ainda que lhe falte o guito. Neste jogo, está fora de questão ficar a descansar em casa ou para a reforma no Campo Grande, sob pena de estancar a economia. Vêm depois as penhoras, os empréstimos em desespero, sem ética, a falência e a miséria…

Ficamos depois a ver os outros jogar, com tempo para ler as regras, e sem perceber muito bem onde começou a ruína do império. Sem recobro nem esperança, apontamos como bons portugueses para o fado e para a falta de sorte.

Perdido e sem nada a perder, permito-me a um exercício adiado - pensar livremente!

Começa-se a partida com o propósito bem vincado de evitar um duche no presídio. Depois, à medida que o jogo avança e o tabuleiro se avilta, passar uma temporada na cadeia para segurar as notas soa quase a refúgio. É, por essa altura, e com equidistância, que o jogo me parece tão real, acrescendo o facto de eu o estar dizendo e ser tomado por loser


.

13 de jun. de 2010

Banco de Jardim

.

A Morte exibiu-se hoje a um casal de namorados no jardim municipal. Tomados pelo veneno de amar sem condição, amaram-se e abraçaram-se até o ar de ambos se suster. Voaram depois, dançando numa espiral de pó.

Um casal de namorados suicidou-se ontem à tarde no jardim municipal. Os jovens, ambos estudantes no liceu local, ter-se-ão envenenado após uma discussão mais exaltada entre as famílias de ambos, que desaprovavam a relação. A comunidade estudantil organizou uma vigília no bar local com o intuito de cumprir as últimas vontades do casal suicida. O presidente da Câmara Municipal endereçou já as suas “mais profundas condolências aos familiares das vítimas, neste momento de dor e pesar”. O autarca aproveitou ainda para anunciar que “ haverá autocarros para levar as pessoas a casa depois da vigília”, tendo em conta que o casal suicida desejou “uma grande festa, do tipo ‘Sábado à noite’, mas durante a semana”, para festejar o adeus de ambos. Espera-se, por isso, uma celebração com lágrimas e muito álcool à mistura.
A Morte, presumível responsável pelo fim prematuro dos jovens, continua “a monte”, pesando sobre ela a acusação de “homicídio involuntário e conduta indecente”.

Levados ao abismo por um mesmo toque de pífaro, lançaram-se dois amantes a um poço de calor onde se forjam fragrâncias. Abraçaram-se na queda e foi preciso um pé-de-cabra para lhes roubar o tesão dos ossos…
Os funerais são rituais que os vivos inventaram. O exercício da morte quer-se breve como uma conta simples, sem muitas equações. Um morto quer-se sonolento, respeitoso e hirto. Se preciso for, partem-se-lhe os maxilares, ainda que ele tenha passado a vida a gritar. Porque um morto é um morto e convém, para os que cá ficam, que ele pareça descansado.

…E ninguém disse que dava tudo para sentir o que eles sentiram, num banco de jardim!


.

9 de jun. de 2010

Cão-Gulliver

.

Eu fiz da minha vida uma obra de arte
Que foi, de onde estava com os outros
Que viviam, olhar-me a partir de Marte.

Julguei-me alto como um Adamastor,
Abrindo edifícios de três placas,
Por dentro, com o telhado à cintura…

Os braços comandados
Como quem guia o céu…

Chove,
E os carros passam luminosamente
Do outro lado do vale
Em pequenos pixéis.
Eu adormeço a olhar para eles, como um Cão-Gulliver
Abraçado às telhas…

Doem-me as pernas!
Doem-me tanto as pernas…


.

6 de jun. de 2010

Corrente sanguínea

Sobe e desce a harmonia das coisas.
Ora no auge, é:
Desenvoltura, avanço, progresso e alimento das células vitais,
que dão forma ao Amor Universal.
Ora desnivelada e em regressão , é:
caos interior, perda pessoal de valores,
desajuste que conduz à perda do cordão umbilical,
fonte da Beleza terrena e supra-humana.
Na perda todo o ser se reduz a poeira,
a um buraco negro distante e desolador,
pois o medo entope a corrente sanguínea impedindo o agir.

25 de mai. de 2010

Ler Pessoa à tarde e Baudellaire à noite

.

Ler Pessoa à tarde e Baudellaire à noite. Isso sim é refinamento! Não é ler para a tarde e para a noite como um louco declamante, buscando fora um satélite de alumiar dúvidas. É antes deixar-se tomar por uma volúpia que varre quartos desarrumados.
Um luxo! – dir-me-ão com navalhas no bolso – somente acessível a preguiçosos que dão tiros no trabalho. Não digo que não, mas detenho-me em perspectiva nos anos que se perdem a correr para um campus, não para desamarrar e exponenciar a qualidade do pensamento, mas para aprender grandezas racionadas e outras miudezas adequadas a um mercado de trabalho.

Não concordo com este modelo de educação que vigora no mundo ocidental como uma grande moda. O Capitalismo é perigoso porque, sendo um modelo que situa o capital no centro do seu próprio paradigma, toma a natureza (a vida) como um recurso consumível, atirando, não raras vezes, tudo o que ela representa para as suas roldanas periféricas.

O Modelo capitalista tem as suas vantagens. Julgo que o próprio Agostinho da Silva o postulou, em doses moderadas, como um caminho a percorrer para libertar o Homem do trabalho e da fome. Por outras palavras (que serão igualmente uma interpretação das suas), caberia ao Capitalismo providenciar maquinaria suficiente para trabalhar em vez do Homem, deixando-o com mais tempo livre para se cumprir como “um poeta à solta”. Sou totalmente fiel a esta ideologia que não posso precisar se era a dele - às vezes, o encanto leva-nos para paixões sem providência…

Convém não esquecer que as “Conversas Vadias” do Professor datam… vinte anos. Não creio que ele visse com bons olhos, hoje, o rumo que a sociedade tomou. No entanto, ele tinha (ainda tem) razão. Que falta nos fazem estes líderes sem ambição de poder!

Agostinho da Silva não gostava de rótulos, mas isso não impediu que muita gente lhos pusesse - não por maldade, mas por necessidade, como ter um objecto na mão e não saber em que gaveta o guardar. Correndo o risco de cometer o mesmo erro, não posso deixar de lhe reconhecer a humanidade e uma certa visão, sem horizonte para derrotismos, que lhe dava aquele ar de avozinho rijo. E é curioso ver como ele rabiscou com optimismo sobre os malefícios das ideologias a longo prazo.

Era o maior! Jogou por todos os clubes e nunca assinou por nenhum…


.

24 de mai. de 2010

O Poeta

Num lugar onde o mar acaricia a areia e o sol,aquece e bronzeia os corpos dolentes,o Poeta soFre de amor sentido.Ao remar o barco para o porto do esquecimento,procura em debalde retalhar memórias,a ofertar ao tubarão, supremo- pontífice,dos amores negados e renegados...Um exército de soldados espicaçava ,como um cão raivoso,o seu coração destroçado,por um amor que parecia desvanecer...Como memorizar a dor sem voz,de uma alma dilacerada pela espada da negação sentimental ?Um naufrago dá à costa,vitima da rebentação das águas e da barbatana mortífera do tubarão,guardião dos infortúnios de amor.Uma voz, vinda de longe,desperta o corpo aparentemente sem vida,num suave entristecer da lua,das marés que vão e vêm ,ao compasso de um amor falhado...

17 de mai. de 2010

A Carroça do Poder

.
A Carroça é d’ ouro e passa como um diabo a correr
Sob um foco de sol a parecer divino
Com nuvens abertas…

Eu olho para ela como um camponês que parou de trabalhar e se apoia na enxada para ver passar a banda. É bonita, de facto. Um veículo espantoso que situaria entre a Arca da Aliança e um coche ou diligência. Corre-lhe atrás um exército de peregrinos em euforia como as crianças descalças de um ermo, à passagem de um forasteiro bestial.

A Carroça é d’ ouro e não pára ou estaciona.
Os homens querem subir para ela
Como se fosse a melhor cona,
As mulheres ser levadas nela
À carona

O mundo verga-se à sua passagem e as tribos convocam os seus mais bravos guerreiros para lhe porem uma bandeira. Para trás fica uma História mal contada de glórias com muitos pés estropiados, atirados sem nome para a valeta.

O chão da História é o leito de um rio de sangue amnésico por onde a Carroça passou e conta-se às crianças como o vir de uma fábrica de armamento com operários nutridos e felizes…

A Carroça é d’ ouro como os cabelos suados de uma criança que dorme com febre. E não parece letal...
.

13 de mai. de 2010

O Luto

Desceu a calçada vestida de preto...

Sobre a cabeça,um lenço de fina renda,

dá ao rosto um ar sereno e impenetrável.

Seus passos prendem um corpo lânguido

a pesadas mortalhas.

Para onde vais Maria das Dores?

-Vou soltar o grito que trago no peito,

Afogar as mágoas no leito do rio

onde desaguam as lágrimas dos que sofrem.

Vou ao encontro da bela donzela

que me espera à janela,

lá no beiral,

na outra margem do rio.

Anseio o toque das suas mãos,

o despertar de uma caricia morta,

o beijar de aguarela amorfa,

que um dia ninguém pintou.

Desceu a calçada ladeada de casas,

descalça entrou no cemitério...

Lágrimas, caixão ao centro, luto, o preto...

O pesar , cova, flores, terra, lápide,

flores, palavras, poucas...

Nasceu e morreu...

Reticências... reticencioso ritual,

preto no preto , caixão à cova selado.

Volto à pedreira abandonada

.
Volto à pedreira abandonada sem cadastro nem infância. Soçobra uma perplexidade paralítica que ficou para guardar a obra no repente de se acudir a um fogo ou ir almoçar. Uma esperança solitária que não chamou por ninguém por achar que não era preciso, e se foi acomodando àquele buraco, com solicitude.

Passaram-se invernos e a pedreira virou estação de serviço para os carros da noite que chegam e vão. Os motores roncam em potência e os faróis alumiam restos de chuva na poça onde vêm beber magros diabos e puristas de gritos perfeitos.

Ah, a pedreira ecoa como um inferno silencioso onde a luxúria sibila uma cantilena que a mão dos homens não arrancou ao abandono das pedras que ficaram.
.

akldglfahfçlhfçuafhdçqufhdq

É como se as minhas palavras ao embaterem no teu entendimento me atingessem de ricochete de um modo mais audível.
Da mesma forma as tuas palavras sentam-se em mim como num puf.
E venho para casa a escrever enquanto conduzo, com medo de me esquecer das frases mais importantes, e repito-as na minha cabeça como um menino em recado.

Ahhh!!

Caramba já me ia esquecer!!...uma coisa que vinha a repetir para mim, no caminho para cá...

...que às tantas essa necessidade de alcool, ou de forçar a melancolia, que os poetas têm, surge porque eles não querem ser "um fingidor"... que ...." finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente".
Porque sentimos e queremos deitá-lo cá para fora, mas depois começamos a dar voltas à cabeça  na procura da descrição que melhor retrate o criminoso que vimos em fuga...mas ele foge-nos da memória...ou reinventa-se...e já nem estou com paciencia para estar para aqui a escrever, e começa-se a notar vestígios de borracha por todo o texto, e estou a escrever numa posição desagradável...
... e até trepamos paredes na procura daquele verso-albúm contentor de um milhão de imagens bem ilustrativas daquilo que nós não vemos ou vimos muito bem... como quem vem de viagem e diz:

-ó pá não dá para descrever por palavras!!...tinhas que ter ido...tens que lá ir ver com os teus olhos... as fotos não demonstram o lindo que aquilo é!!".

Mas massacramo-nos na mesma, porque ao fim e ao cabo, é essa a nossa mais real dieta alimentar.
Somos como aquelas pessoas que enquanto falam, nos tocam constantemente no braço e dizem:

-" 'tás a ouvir?"..."escuta!"
(e tocam-nos outra vez...e mais outra...e outra vez...Que chato caralho!!!)

-Podes falar sem me tocar no braço? Eu estou a ouvir!!!
(...mas aí está ele de novo a tocar-nos no braço sem dar conta disso.)

Amanhã continuo porque estava a escrever numa posição muito desconfortável, a ficar sem bateria no portátil, a corrigir-me demasiado, e a começar a sentir que o poeta " finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente", e agora não tenho whisky, nem  mp3-carregado-de-músicas melancólicas na minha mesinha de cabeceira...

12 de mai. de 2010

O Grande Esfregão

.


Eu sonhei que o mundo era aberto e tinha uma porta a sair de casa, com pessoas ao fundo das escadas para me abraçar. Eu corria para elas, descendo os degraus em lanços de três para me abraçar também. Íamos depois trabalhar como numa comuna alegre, descendo a rua em cantoria. Inventávamos um deus para dar graças de sermos tão felizes e não para lhe pedir coisas… um deus satisfeito que olhasse para nós como um ancião com crianças a dançar de roda…

Mas algo perturbou o meu sonho, como se me agarrassem com força pelo braço ou uma serpente tivesse assobiado no meu paraíso sonâmbulo. Impressão minha? Talvez. Resquícios de uma vida anterior que a detergência não esfregou? Não sei. Todavia, o suficiente para me perder nos cânticos, a olhar para trás… um braço amigo resgatou-me do susto e a cantoria prosseguiu, bifurcando na entrada para os campos de tomate-cereja...

Comi pouco ao jantar, inventei uma desculpa salobra para não fazer amor com a minha mulher e dormi mal. Aquela cobra perseguia-me em pensamentos e, muito antes de o sol nascer, já eu lhe tinha inventado um rosto com nome. – Diabo! – uma expressão que os nossos antepassados usavam para agregar e corporizar concentrações de energia negativa, com significado místico, quando as explicações científicas escasseavam.

- A sério? – disseram-me, - mas em que mundo é que tu vives? Desde o Grande Esfregão que não ouvia uma coisa tão ridícula! É óbvio que todas as pessoas têm uma pulsão positiva e outra negativa! Um lado animal que te consubstancia às circunstâncias de existires num corpo, e um outro virtual – provocado pela educação que recebeste. Qual é a tua dúvida?
- Não sei bem! Aquela cobra não era animal…
- Era como? Viste-a bem?
- Não. Eu não a vi, nem sequer sei se era uma cobra, mas ela pairou em mim como uma existência sobrenatural que me deixou alagado em medo, com os poros todos alerta…
- Diz-me uma coisa… tu nunca foste Filmado, pois não?
- Não… - confessei, com estio e vergonha, como se fosse virgem e tivesse contado uma estória sexual que toda a gente tivesse acreditado e aplaudido… - não, nunca fui Filmado! - reconfessei-me com um orgulho que tira as calças e se mostra amiúde, murcho...
- Eu logo vi! Mas relaxa, eu não vou contar a ninguém. Conheço um médico que grava em HD...


continua...
.

10 de mai. de 2010

Profissão: - Desterrado com part-time

.
E não é que ela me arrancou da cama quase às três da manhã! Caprichos de grávida sem um desejo em concreto. Pergunto-lhe se quer comer, se quer alguma coisa em especial… queres que vá buscar fora? – Que não, que só quer ver-me cozinhar…

Não é fácil viver com a poesia!

Não somos propriamente uma família de talentos. Ela é o que é, como as palavras são o que são, e não se pode dizer que as palavras sejam talentosas, por si só. Eu vivo de recursos…

Perguntam-me pela vida, o que faço… e cada resposta é sempre uma novidade com família e prateleiras de supermercado à mistura. Na verdade, ainda não sei responder. Vivo deste amor sem gente, sem praia nem cabana nem alianças de qualquer tipo visíveis, suficientemente capazes de fechar capítulos e mudar de assunto com algum conforto.

Se ao menos a poesia me amasse e, por onde passássemos, ela me desse a mão; ou estivesse lá como um pai para os nossos filhos ranhosos que pedem gelados na feira…

…Mas a nossa casa é um bordel com o mundo todo e cortinas, e eu sou a esteira de palha onde a poesia vem fumar um ópio e partir. Como um coveiro-viajante que semeia jazigos de família, e parte, ciente que atrás de si só vem morte.

Cabe-me a mim o provimento do lar. Suar as estopinhas para manter o orfanato e esfregar escadas. Não escondo os copos vazios. A minha desgraça é célere para quem nela se quiser deter, como numa novela. Os meus filhos choram um tipo de febre que pode muito bem ser gangrena hereditária. Mas nem por isso os amo menos. Dou-lhes nomes como se dão aos tumores e aos animais domésticos sem ração diária.

Existo numa estação de comboios com filhos pela mão e mamas secas. Não me perguntem quem sou ou o que faço. Eu conto histórias aos meus meninos para que eles não deixem de sonhar…
.

8 de mai. de 2010

Quase perfeita

.


Verborreia-me na tua beleza,
No toque de fogo que pões com a mão nos cabelos
A escorrer-te as costas nuas…

Tão dona de ti,
Tão foda-se todos os homens
E fazeres cara-feia às mulheres que te tentam beijar.

Tão dona de ti
Como de te pores vadia, quase
Inocentemente.

És como um pássaro de pessoas livres...
E não há nada mais agrilhoante do que ser um pássaro de pessoas livres!
Porque uma coisa é seres livre como elas
E outra é seres branca de viver a vida toda à sombra…
Sem a ascensão de olhar
Com que um escravo contempla
O pássaro simples.

Deves chorar muito
Como quem tem uma caixa qualquer onde se vai ver
De vez em quando…

Uma santa mexicana que ninguém conhece
Ou uma pedra do monte que te guarda os segredos…

Deves ser assim, ou talvez não…
Mas isso,
Tudo ou nada quase interessa
Para o querer foder-te
Tanto…


.

7 de mai. de 2010

Sem título

Dou por mim feliz num dia de chuva.

Às vezes dou por mim feliz. E queria que o entendessem literalmente, ou seja, acho-me feliz como se estivesse fora de mim a apreciar a minha própria felicidade. Aqui à tempos encontrei-me assim feliz como um “guardador de rebanhos” desses que sabem a verdade e são felizes. E dei comigo a pensar que a felicidade deve ser isso, a capacidade de estar bem sem nenhuma razão aparente.
Sem nenhuma razão...aparente.
Sem nenhuma chave certa do Euromilhões, sem descontos, promoções ou outras complicações...

Sem.

Também pouco me importa a vinda do Papa. Ou melhor...importa... preferia que não viesse.
Certa vez escrevi o poema que agora releio. Parece-me verdadeiramente sintético de como me sinto nesses dias. Os poemas para mim são equações que revelam a sua vida interior à medida que os solucionamos. Como fruta que, quando mordemos, se desfaz em sumo que nos escorre pela boca da alma. E rimos como crianças com os queixos pegajosos de açucar.

O tal poema:

Deixei-me estar...
até desaparecer,
até que tudo em mim fosse ôco,
transformei todo meu corpo
num instrumento de sopro
e ofereci-o ao vento.

Não escondo o quanto me alegra ter escrito isto.
Não quero dar ares de Dalai Lama, porque não excluo os pequenos prazeres, nem nego a alegria de um aumento de ordenado, nem de chupar um Solero de frutos silvestres na mais quente noite de Verão. Sei o contentamento que provocam e me provocam. Mas é outra coisa o estar feliz.
É um para-além do contentamento, um estar em harmonia com tudo, nem que seja por um instante. É como algo que nos atinge. Como poder jurar que vi Deus a dobrar aquela esquina ali à frente. No outro dia, por exemplo, ví Deus no sorriso de uma criança desdentada. Também é frequente vê-lo ao pôr-do-sol de um dia quente, quando me sento em cima de um muro cheio de musgo, com as pernas cruzadas à chinês. São momentos de epifánia que nunca conseguirei descrever sem vos deixar a suspeita que fumei quelque chose.
Há tanta barafunda de coisas importantes à nossa volta... “já verificou isso bem”... “é preciso enviar isso assinado” “já me viu isso”... “chegue-me aí esse fax”... “o orçamento está feito” “ó caramba que chatice estes gajos sempre a ligar para aqui”... (e eu aqui a escrever, qual repórter de guerra no meio do tiroteio) e vamos para casa com coisas importantes ainda a ecoar na cabeça.
Por isso esquecemo-nos, e é normal, que somos pó das estrelas.
Sei o quão lírico isto soa, mas é tão verdadeiro como o orçamento que tenho que fazer, o termos uns avós em comum, que são um velhinho casal de estrelas. Não nos lembramos disso porque já foi à muito milhão de anos, e na altura não haviam Roleyflex's nem Polaroids, para que agora possamos recordar a união através de um albúm de casamento.
Então... nesses dias em que vejo no mundo uma luz diferente...talvez, mais não aconteça, que estar a ouvir a voz meiga desses nossos avós, não com os ouvidos, mas com todo o corpo e a alma, a apontar para um albúm imaginário e dizer “estas a ver esta estrela aqui!? É o teu tio Zé, foi uma grande estrela!! E esta aqui com esta permanente foleira?... Pois mas na altura usava-se!!
É a tua tia Fernanda!Foi uma bela estrela também? E este aqui?? Não sabes? Este pequenote aqui loirinho??”

...

Esta aqui és tu!

6 de mai. de 2010

Rapaz que rí sozinho.

Tenho um amigo que é um eremita dos tempos contemporâneos .

Vive dentro da sua solidão.
É um homem sem perfil, sem interesses e...sem rosto. Um homem de poucas palavras e erros ortográficos.
Um homem que se publicita pouco e de quem nunca se sabe notícia que não venha directamente da sua boca. É, apesar de tudo, um homem normal, sem nenhum ar de Jesus ou Buda, sem qualquer aspecto de salvador iluminado. Este meu amigo passa pela vida sem deixar rastro digital. Sim, é silenciosa a sua caminhada, mas quando fala canta, e quando canta conta. É provável que vocês também o conheçam...de vista. Acredito que o tenham visto mas isso não chega para que lhe empreguem o verbo conhecer. Dizer “Sei de que sujeito se trata” é o mais correcto.


-“Ah já sei! É aquele rapaz que está sempre sozinho... e às vezes rí sozinho!”


É esse mesmo.


“Parece um alienado!”

É...

     É mesmo o que parece. Mas não o é menos do que tu. A coisa da qual ele se aliena é que é diferente da tua... e da minha. Aliás aquilo de que ele se aliena é daquilo que te aliena a ti...e a mim. Ambos estamos alienados da alienação de cada um e é uma pena que assim continue. Uns falam demais e não dizem nada...é verdade. Mas também há gente que se cala demasiado porque se cansa de tanto falar para si própria. No meio deste rio de confusão tentamos construir pontes que nos unam as margens e por onde fluam pensamentos transportados dentro de contentores (não de chapa mas de palavras). Depois esperamos receber a troca justa por esses pensamentos que com tanto cuidado fomos regando até florirem em verso, e oferecemo-lo um ao outro como uma flor se oferece a uma mulher. E quem oferece flores não pode esperar menos que um beijo, um sorriso ou um olhar cúmplice. Mas não raras vezes fazemos pontes muito frágeis porque negligenciamos no material com que as construimos e a coisa não dá em nada que se veja.
     Um dos materiais que não pode faltar é o olhar aberto, brilhante, o olhar que mergulha dentro do outro, e o excesso de alcool com que muitas vezes construimos essas mesmas pontes deixa-nos os olhos muito pequeninos e o brilho que reflectem não é brilhante.
     Este meu amigo de que vos falo, embebeda-se nos olhos de todo aquele que lhe fala a cantar, droga-se da sua música, e fuma-lhes os sonhos e os devaneios como um charuto de ar puro. Disse-me ele que, no dia seguinte, acorda com uma ressaca de alegria e se ri o dia inteiro. Quando acorda acompanhado acontece-lhe, não raras vezes, descobrir que ela era mais bonita do que lhe parecera na noite anterior.

Ele contou-me que é por isso que muitas vezes sorri enquanto os outros pensam que está sozinho.



Tenho um amigo que é um eremita dos tempos contemporâneos .

Vive dentro da sua solidão.
É um homem sem perfil, sem interesses e...sem rosto. Um homem de poucas palavras e erros ortográficos.
Um homem que se publicita pouco e de quem nunca se sabe notícia que não venha directamente da sua boca. Este meu amigo passa sem deixar rastro dígital...
Tenho um amigo que não tem facebook.

4 de mai. de 2010

Sobre os prazeres

Decidi entrar no cabaret, de carrinho por trás e a pés juntos, sem medo de cartões vermelhos.

Vou ser polémico. Deliberadamente polémico e provocatório.
Queria-vos falar de algo que me anda a quilhar o juízo.

É o seguinte:

Beber shots é estúpido. Ficar bebado é giro, mas por sistema é entediante e triste.Passar o Domingo de ressaca é igualmente estúpido. Fumar é igualmente estúpido.
Não peço que me perdoem por isto. E não me importo que me digam que sou estúpido e tenho a mania que sou bom, porque eu já sei disso. Eu no fundo no fundo tenho é a puta da mania que sou melhor que os outros. Mas é mais lá para o fundo do fundo, porque no fundo no fundo até sou muito bom rapaz, embora não tão no fundo mas mais à superficie do que o fundo do fundo de ter a mania.  Vocês sabem...
Sei que pareço moralista, mas o estar a ouvir Patricia Barber fez-me pensar que isto era mais praseiroso que fumar um milhão de cigarros na vida. Há muita gente que se identifica com filmes tipo “into the wild” e há muita gente que diz “fuck the sistem”, pois é...”fuck the sistem”, e fuck a cultura que nos põe o cigarro na boca de modo tão natural como a nossa sede... de shots. Anda tudo tão triste com o sistema, tudo com tanta vontade de ir para longe da sociedade, quando não percebem que o fugir dela começa com gestos tão simples como deixar de fumar.

É que já sei qual é a porra do argumento: “Os prazeres da vida pá!! Comer , beber, fumar, foder.”



Sim! E qual deles preferem?
Sejam honestos...




Foder não é?

Fumar é fácil, é só questão de passar o sacrificio de ter que fumar os primeiros, até que deixemos de tossir, e depois meter as moeditas na máquina. “Oh Rui liga aí a máquina!”; beber também é fácil...”é mais 5 shots aqui para o povo”, mas Ui!! que carita de desagrado que fazemos quando mamamos o shot!! Dir-se-ia que não é coisa muito agradável. Já foder...
Não é dificil para quem promete casamento, mas para quem pede amor descomprometido como duas passas de cigarro, não é tão fácil. Fica caro porque tem que se levar a gaja para o estrangeiro.
Acreditem não sou o nerd que pensam. Emborracho-me bastante amiúde, mas tenho perfeita consciência do que quero quando bebo mais um shot. Desinibição para lhes ir pedir lume, dizer que não fumo e levar com um olhar que dói mais que um estalo.

Antes que se gerem confusões quero dizer que não sou contra o prazer, antes pelo contrário, sou a favor do quanto mais melhor. O que eu defendo é a diversidade. É urgente construir um mundo mais denso de prazeres. Não podemos afunilar a enorme diversidade de prazer à solta pelo mundo para a a quadrologia simplista do comer-beber-fumar-foder.

E eu pergunto-me tanta evolução para quê se provavelmente o homem-macaco fodia mais que nós?

É por isso que eu venho com este discurso a cheirar a avózinha. Porque cheira-me que os nossos avózinhos pinavam mais e fumavam menos, ainda que ao olhar para eles agora não o consigamos imaginar. Aquilo é que eram bailaricos à séria! Talvez seja verdadeira a tese de que nessa altura tocar na mão de uma menina era o equivalente a uma foda selvagem nos dias de hoje, mas pelo menos sempre se lembravam disso no dia seguinte. É que é importante lembrarmo-nos das fodas que damos, pois essas memórias podem ser úteis em tempos de menos bonança.
Foder é bom e é por isso que já o fazemos à tantos anos e ainda não nos cansamos, porque esta coisa do copo na mão e cigarro na outra, é muito fresca, historico-antropologicamente falando.
Comer também é bom , mas ainda deve ser melhor. Devemos educar as nossas boquinhas para que possam apreciar mais e melhor, além de bifes e batata frita congelada. Os homens-macaco odiavam batata-frita congelada.
Para além de querer com este post (e eu sou arrogante o suficiente para pensar que posso mudar o mundo) falar-vos de diversidade de prazer, quero também introduzir o tema da gestão dos prazeres.

Exemplo:

Quantos de nós já ouvimos pessoas que deixaram de fumar depois de muitos anos a bronzear os pulmões dizerem: “caramba agora o bife até parece que me sabe muito melhor”. É que sabe mesmo!
E ora aqui esta... essa mesma pessoa que além de fumadora é também uma grande apreciadora das maravilhas gastronómicas. Acontece que um prazer anulou outro e é preciso reflectir se vale a pena sacrificarmos verdadeiras orgias do palato em favor de monótonas passas de fumo. Já sei que me vão dizer que não faço ideia do bom que é fumar um cigarro com um café depois do almoço. Talvez seja, mas também vos posso confessar o quão merdoso é beijar bocas a saber a fumo. Sim é verdadeiro quem diz que beijar boca que fuma é o mesmo que lamber cinzeiro.

Não pensem que sou um fundamentalista anti-tabagico, só acho que fumar é muito démodé.
Era giro na época da boquilha, mas agora que ningúem tem nojo de o pôr directamente na boca, e se constrõem poucos edificios em estilo arte nova, onde se dançam swings e fox-trots, é feio.
Só consigo perdoar quem fuma charutos ou cigarrilhas com ar de Mies Van der Rohe ou bebe wiskhy com pinta de Sean Connery.

Também acho pouco elegante ver rapaziada de 14 anos a curtir "Smell like teen spirit" de cigarro na boca. Essa juventude devia estar a ouvir coisas que eu não compreendo, deviam obrigar-me a compreender a sua música ao invés de ouvirem música que era fresquissima para mim à 10 anos atrás. O que eu gostava de chegar ao bar que nós sabemos e ver os putos a curtirem música que parece de tolos e não música que já pareceu de tolos.

Isto está a ficar muito longo por isso passo à síntese final.

A mensagem que eu gostaria de passar (e sei o quão messiánico isto parece!) é que é preciso começarmos a gerir melhor os nossos prazeres assim como renová-los. É tão somente isto.
Talvez a revolução que precisamos seja mais silenciosa do que pensavamos, talvez seja mais fácil do que nos querem fazer crer, talvez envolva menos sangue e mais sorrisos sinceros, talvez seja mais possível do que impossível. 



Seria maravilhoso que este fim-de-semana uma rapariga bonita me viesse pedir “lume” em vez de lumes, um beijo em vez de um shot.
Os beijos andam muito caros quando era suposto serem grátis.
 
Adoro beijos...
... por isso, beijos a todas e abraços bastante comedidos e de rabo empinado para trás a todos.

28 de abr. de 2010

Mergulho dos sentidos(continuação)

Enlaçados os corpos, as mãos quer de um quer de outro continuaram o frémito de uma mutua exploração.
Começou a despi-lo e a sentir a textura da sua pele que ardia numa febre de desejo . Perderam-se em caricias demoradas, pausadas, explorando cada recanto de pele, explorando cada beijo de mel arrepiante e vibrante. A cada toque era um latejar de sensações e inquietações... Os beijos sucederam-se por cada poro,por cada relevo daqueles dois corpos harmoniosos.
Lentamente ele percorreu numa" profusão de beijos, os cabelos dela, o pescoço, ombros , as pernas", até que a deitou na areia molhada envolvendo-a num êxtase hipnótico e sensual...
Demorava-se naquelas duas montanhas bem delineadas , beliscava e lambia os seus mamilos duros e ela gemia e contorcia-se. Foi deslizando pelo seu ventre redondo e firme até encontrar o seu delta de vénus...beijou levemente o seu clítoris já endurecido e palpitante e ela em pleno alvoroço segurou os cabelos dele e nesse instante ele introduz a lingua o mais profundo possivel e sentiu um jacto quente e molhado a sair de rompante...
De seguida introduziu um dedo na sua molhada vulva e em movimentos ascendentes e descendentes fê-la gemer e arfar como se estivesse possessa.
Estava pronta para receber o seu latejante membro, virou-a e ela ergueu-se e apoiou-se nos quatro membros como um polvo colado a uma rocha e sem demora investiu firmemente na sua aveludada e humida concha de prazer. Agarrou-lhe as nadegas impetuosamnete enquanto entrava e saia dela, num ritmo desenfreado enquanto ela estimulava o seu ponto de ebulição.
Ambos arfavam, perdidos em plena volupia de espasmos...
Enquanto massajava e apertava suas nadegas firmes tocava o seu anus e sentia um latejar cada vez maior. O desejo animalesco soltou-se e ele sentiu cada espasmo e vibração do seu prolongado orgasmo mas deixou-se ficar dentro dela, puxou-a para si até lhe tocar os seus mamilos erectos e no seu botão que pulava acima da sua humida gruta ... continuou aumentando a intensidade até que provou o tremor vindo do interior dela,seguiu-se um e outro e outro, orgasmos multiplos... Ambos se deitaram na areia ainda sob hipnose. Com os corpos quentes sob a areia molhada ficaram a olhar as estrelas e aquele luar mágico,suas testemunhas naquela noite estival. Ele procurou a mão dela e docemente beijou-a...Levantaram-se e foram banhar-se no mar .Dentro de agua flutuaram e dançaram uma valsa de movimentos graciosos. Passaram assim algum tempo até que ela mergulha e desaparece como num sonho.
Ele calmamente sai da água e dirige-se para o pontão , o vestido azul tinha desaparecido também...
Vestiu-se e resolveu caminhar pela areia ouvindo as ondas enquanto recordava a sereia que o fez dar aquele mergulho dos sentidos.

27 de abr. de 2010

Carta a um amigo que não vendia discos, mas oferecia livros

.

Meu amigo,

Bem sei que amas o teu piano. Pões-te nele a tocar como um braço esquerdo que segura o direito amputado. Tens um dom e um chicote e, ainda que este pensamento não seja totalmente original, foste capaz de inventar mais braços com a imaginação para te fustigares. Mas não te culpes ou chores por sentir demasiado, por teres visto por cima do cosmos a rodilha do mundo. Estiveste sozinho como perante um pôr-do-sol magnífico e não estava lá ninguém maior que o seres tu, como uma masturbação de fazer chorar.
Não juntaste dinheiro e podes bem vir a precisar de uma pensão de sobrevivência. Podias ter sido político se, por distracção do destino, tivesses vendido a tua maneira de sofrer o mundo a um espelho em que toda a gente se revê.

Receio que esta carta te não traga mais felicidade e, por isso, devia pedir-te desculpa, não fosse o teu desígnio viver uma cabana que se anima como um elevador sem paredes entre a merda e o absoluto. E é por isso, meu velho, que és grande e desajeitado como um régua de 70 cm. Porque o mundo achou por bem medir-se ao milímetro…

Não esperes, portanto, mais beijos. Ultrapassaste os cânones como um carro a alta velocidade e bateste o record de um desporto que não existe.

És, tal como eu, um estropiado que ouviu o mundo gritar por uma orelha rasgada e foi dá-lo a uma prostituta amiga. Levamos o pensamento sem corpo para guerras sem direito a resgate e pagamos por isso, como mercenários com vontade própria…

.

Memórias de Paredes de Coura - The Redemption

.
Ai estes primeiros dias de calor que sabem tão bem! O sol espraia-se pela tarde como se viesse de um longo período de hibernação ou de cantar a Nau Catrineta com putos de antigamente. A Primavera prenuncia sempre alguma felicidade. As crianças correm felizes pelos campos, descobrindo alergias respiratórias e o bem que sabe ser picado pelas vespas; os velhos batem a caçoleta e os orçamentos familiares ganham mais folga para prestações e gelados. Até os drogaditos parecem mais felizes, vendo brotar com esperança os cabeços nas suas plantas de solário…

Mas do que eu mais gosto é do cheiro das noites. – Uma rockada de cio enche o ar de perfumes sexuais e a malta bota-se a tomar refresco na esplanada. Depois há o Beerfest que a socialite Vicky Fernandes, no seu livro “Saber Estar”, desaconselha em absoluto… e Paredes de Coura que, talvez por esquecimento, não merece qualquer referência!

A festa foi gira, pá! Música boa e muitos sucessos gástricos. A escolha do gástrico para descerrar este capítulo de memórias, não é inusitada, uma vez que nas Warm Up Sessions alguém estourou na toilette. Quem testemunhou a mise-en-scéne, deixada pelo terrorista anal, chamou-lhe o “Ground Zero”… e diz que ali se chorou mais que em muitos enterros de família.

Apesar de tudo, este terrível acontecimento não roubou apetite aos convivas. O dia das bifanas, por exemplo, foi glorioso. Confesso que, antes de descobrirmos o Albergaria, comemos muito “gato por lebre” e, invariavelmente, lá chegou o fatídico momento de, uma vez digerida a ossatura do bicho, a Hello Kitty pôr o seu lacito de fora, lambendo a truce já de si bastante agredida pelos miados intestinais. Em desespero, houve quem tivesse ligado para a TelePuta a pedir o “Menu Felattio com cola, complemento de E0.50 de botão-de-rosa e 1 squirting de morango com topping de caramelo, bem como um Happy Meal com brinquedo sexual” para o Lambedor de Sobrancelhas e precursor do movimento AgroFreak Style

As tardes foram passadas no Arcada Fire, - esse belo cenáculo de epicuristas que vendia minis em resmas-de-três a E2,10, ao som do Vítor Espadinha. Pelo meio, saudamos com bastante reverência Samuel Etoo e o Fredie Guarin que por ali andava a passear a Katty Perry… uma linda demonstração de amor que nos deixou a vociferar contra os céus:
- E eu? A minha vida? O meu coração? – DESPEDAÇADO!!! (uma bela máxima que nos foi ensinada por aquele rapaz que tem contrato com a Nívea).

Não se julgue porém que as tiradas filosóficas ficaram por aí. Não senhor! Tínhamos tudo a nosso favor! – Pluviosidade mínima com possibilidade de boas abertas, cerveja fresca e um rádio pendurado no guarda-sol. Só para se ter uma ideia, aqui fica um cheirinho de hortelã para conaisseurs:


- “Espera aí um bocadinho que o tarado está a afiar a pissa!”
- “Santieiros abertos em flor”
- “Que rica alface para a minha grila!”
- “Acabei de lançar uma girândola na porcelana!”
- “As gajas nos chuveiros eram tão boas que até pus champô duas vezes”
- “Tu não vais de férias, vais de vinha-de-alhos!”
- Isto não é poesia! Poesia é quando um gajo num percebe!” (definição de poesia por Tónio Cuco, antes do jazz na relva)

Ah! E expressões a ter em conta numa boite:

- “Com essa boceta linda, matavas um autocarro!”
- “Queres beber, bebes da minha Seven Up

A certa altura, o humor foi ficando mais fraquinho devido à falta de ácidos gordos e Ómega 3, mas não o suficiente para impedir o ribombar das tendas. Porém, quando a inspiração faltava, a gente abeirava-se das barracas da $AGRES. Sacanas! Só vendiam espuma com cerveja. Excepção feita a duas meninas daquela barraca junto aos Toys inclinados. Quais? Aqueles junto à rede, em que um gajo tinha de pôr uma bota na tampa da sanita para não cair de ventas no caldo de mijo e pensos higiénicos usados. Sim, esses mesmos! Adiante. As moças da barraca tratavam-me bastante bem e uma delas até se lembrava de mim do ano transacto. De cada vez que eu lá ia (pedir informações) saudavam-me dizendo “Oh, meu príncipe!” – é verdade, embora tanta cordialidade se tivesse reflectido em parquíssimos finos. Mas, no cômputo geral, até se pode dizer que eram raparigas de bem e muito educadas…

No que diz respeito aos concertos, Patrick Wolf fez a actuação mais feminina do festival, Peaches a mais masculina; Nine Inch Nails sacrificaram um vitelo em palco “à garfada” e os Franz Ferdinand quase escacharam uma bateria que até estava em muito bom estado…

Para terminar, gostaria de endereçar aqui as minhas mais sinceras vénias a todos quantos me agraciaram com a sua paciência e companhia. Queria também dizer àquela espanhola que me veio pedir chiclas que, para o ano, não lhe perdoo. Para o espanhol que me veio perguntar se eu sabia onde arranjar MD’s, só tenho uma coisa a dizer:
- “Está descansado, hermano, que eu este ano levo-te um. Se eu não conseguir arranjar, conta pelo menos com o pára-choques de um carro, ok?”

Vá, agora ide todos fazer pela vida…
.

21 de abr. de 2010

Imortalidade

.

Hei-de morrer sem mesa posta, num quarto possível, sem nada de concreto para deixar ao mundo… como se o mundo precisasse da minha herança pesticida para florescer. Deveria poder rir-me se acaso não fosse aquilo que sou. Interrompi sonhos para fazer apontamentos como um palerma que abandona a sala de cinema para buscar mais pipocas. E para quê? Para, depois de morrer, ser chorado por umas roupas que ficaram no gavetão, num quarto que tantas vezes adiei por amor à boémia.

Houve um tempo em que desejei ser lembrado depois de morrer. Pus-me depois a pensar na longevidade dos faraós, detido em seus hieroglíficos pensamentos, e achei-me digitalmente consciente como um vídeo rebobinado. De nada vale aspirar à imortalidade, ainda que ter razão dure ou valha quinhentos anos.

Mas, ainda que no silêncio absoluto, como um cão atropelado que não vai para o céu, gostava que a minha morte fosse celebrada. Gosto de celebrações e, só de pensar nelas, inventa-se-me um sorriso maroto que flecte metade da cara, com MALícia…

Entender as coisas e as pessoas rouba-nos inocência. É como secar o sumo de um limão antes de o espremer. Cai-se de cabeça na almofada e ela é fofa. Deixo a porta aberta, pelo sim e pelo não…


.

20 de abr. de 2010

No comboio

.

A meio do caminho, faço uma pausa na leitura e pouso o livro no colo como se capitulasse uma viajem dentro de outra. Olho pela janela sem noção de estar abrindo atalhos ao espírito. Igreja de sensações sem esperança, missionário descontratualizado vagando à margem por uma cidade de pecado, sem penitência de jangada para as corridas de néon.

Passo como uma lanterna apagada que se ilumina para o mijo dos grafittis e para as pedras com ferrugem, chorando cada uma a sua lepra. Sou, acidentalmente, um turista que se perdeu do guia e achou a consciência num beco de lixo com vísceras, - Verdade das povoações pelo avesso, rasgada em vértice e aberta ao céu como o desprezo em ferida.

A minha visão confunde-se com a história de um hospital abandonado ou um prédio inacabado… desmemoriado para entorpecer falências e acomodar juízos e prejuízos. Os ratos ratificam-me e podem testemunhar a realidade que os bulldozers expurgaram para os segmentos de recta, sem licença de construção.

Viajo com a certeza futurista de me ter dentro de um colosso-mecânico-pós-moderno-e-pessimista, no rebordo interior de um abismo suspenso com fichas de andar à roda. Tudo é metálico e se crava languidamente nos morros de terra assassinada como um corpo com baque a cair de costas; como se o grande cenário compensasse a treva no bastidor sem ar.
Divago por uma passagem de nível e tudo é funéreo como um sepulcro comunista. Até a mulher, que é bonita e se move no apeadeiro, parece alombar um escombro de violação…

Detenho-me um pouco mais na paisagem como se ouvisse um acorde de plenitude ventilada. A paisagem escurece e enxuga-se de pessimismo num rosto que se olha para os vidros, com trabalhadores da construção segurando o sono com optimismo, na mesma carruagem que eu. Confesso sentir alguma paz nas suas derrotas…

Estou calmo como se tivesse bebido um trago que me soube bem e fizesse, depois de acender o cigarro, um gesto de boca quase involuntário. Não me sobram restes de medo e fui, no entanto, e sem que ninguém notasse, vencido como num combate de boxe por coisa nenhuma, como se a mulher que mais amei instantaneamente tivesse saído na última estação.

Para trás ficou uma estação inteira de carteiristas e a impressão de lá ter deixado uma bagagem roubada… mas estou lavado como se tivesse feito um testamento ou viesse de um duche assobiando, com a toalha enrolada à cintura.
Sirvo-me do livro sobre o joelho para apoiar o cotovelo… encosto a cara no vidro...
e durmo também.
.

Velhice

.
A velhice deve ser isto: - uma disposição que não vence urinas e músculos sem dinheiro para um carrego de vinho com pão, solidão sem vontade para bibliotecas.

Admoesta-se a pele com sabonetes de aromas, mas o corpo que é velho não tem poros para se demolir a um cheiro de sabão no tanque. Enxerga-se o mundo por uma nebulosidade cautelosa que ascendeu às sobrancelhas para multar os mancebos que aceleram.

Diz-se com mais frequência “se eu tivesse a tua idade…”, mas sem aflorar a leviandade de um fim com raciocínio como se, à memória que já era, acorressem romances que nunca o foram…

Não há lei para os que abrandam nas bermas com tempo para se pensarem. Resta o perdão e um entendimento das coisas sem lei que se anuncia com amor às crianças, numa cumplicidade que saltou gerações
E brinca à mesa…
.

s/ título

.

Há uma grande mosca no quarto que não me deixa concentrar nos meus nadas. É como uma grande poça de óleo a inundar-me a cozinha, em maré de escrita.

.

s/ título

.

Deitaste fora um poema, ó poeta -
diz-me o sonho -
só para apontares dois versos...

.

16 de abr. de 2010

Onde estão as crianças?!

.
Onde estão as crianças? – Gritou alguém por entre a multidão, - e uma digestão de agulhas estoqueou o orgulho todo que havia naquela sala com santos de braços abertos. Os fatos ganharam vincos e os vestidos descoseram-se de pudor; desamarram-se os braços que seguravam as senhoras e o brilho todo daquela merda toda se desfez como uma bainha mal cozida, com as mulheres tropeçando de aflição pelo corredor da nave. Ninguém sabia o paradeiro das crianças e aquele juramento perante Deus, o Criador, finou a meio como um livro chato.
Estavam perto, felizmente, comungando da mesma fraternidade que os gerou infantes sem cerimónias e proto-adultos de sacristia.
.

14 de abr. de 2010

Universidade I

.

Eu queria era ser filósofo,
Poeta, escritor, artista… essas coisas todas.
Pronto. Está dito!

Bem sei que ser livre ou grande por uma estrada de pensamento não merece ordenado ou um prato com mais comida, só porque se ganhou asas, ainda que, por aí, se aspire desapertar os grilhões da escravatura. Não queria ter de me roubar a um merecimento de alimentos no estômago. Dito isto, de forma tão sincera como se não lê nas entrelinhas das biografias dos gestores mais bem pagos do universo, desvendo-vos a minha consciência profissional do mundo: - Não há profissão mais nobre que ser Agricultor!

Trabalho duro! Puxar da terra a sobrevivência sem danos colaterais, sem matar – isso sim – é Utopia!

Não raras vezes tenho sido acusado de preguiça pelos profissionais das ciências exactas. Engenheiros, gestores, marketeers, economistas, etc… todos eles de muito boa-fé – não duvido! – mas mancos como eu para se desenrascarem sozinhos. E termos bocados de papel na carteira não faz crescer couves num apartamento…

Andamos neste carrossel há séculos. É mau? A ver, vamos! Mas vamos primeiro por partes…

Uns imaginam e criam. Outros criam o que os outros só imaginaram; outros ainda, criam sobre o imaginário dos outros uma ideia nova que ninguém pensou. E isto é tão estúpido e necessário como querer descobrir quem surgiu primeiro. Se o ovo ou a galinha, o arquitecto ou o engenheiro, o médico ou o enfermeiro (a parteira?), Lisboa ou Porto, Braga ou Guimarães, o Norte, o Sul, Este, Oeste, a Lua, o Sol ou os planetas…

Estão a ver como isto é estúpido?

Pois bem, vai continuar…
.

3 ideias avulsas

.

Comprou um guarda-chuva
E um arco-íris
E foi para o deserto


É certo que Pessoa
Não guardava revistas pornográficas
No baú dos poemas


Quando o criador descobriu
As potencialidades da boca
Pôs cheiro no esperma.

.

12 de abr. de 2010

Aranhão e Guarda-Chuva

.

Ele era polícia e andava à chuva,
Ela era viúva de salão.
A ele chamavam-lhe o guarda-chuva
A ela, O Aranhão…

Ela fora em tempos Zaliou Renda
E aspirava ser actriz.
Sonhava ir, por Hollywood,
A Paris.

Ele tricotava rendas para caixões
Mas tinha o pé-de-meia furado;
Era rico a apostar nos milhões
Mas sempre a dar no dado errado.

Ela entrou virgem no cinema
Depois de um Mare Fettuccini
E o que meteu depois à boca, soube-lhe
A Fellini.

Ele coleccionava travessas e pratos
Mas custava-lhe adormecer.
Fez-se enriquecer na areia para gatos
Antes de enlouquecer.

Um dia ele fisgou nos seios dela
E ela colou no seu bumbum.
Cruzaram-se os dois na mesma viela
E foi isso que ambos tiveram em comum.

.

Desistente!

.
Tenho sido confrontado, por pessoas próximas, a propósito de um emprego recente que abandonei, a uma semana de receber o primeiro cheque. Desistente! Os meus motivos são válidos mas, para o que é preciso dizer, pouco importa nomeá-los. Da mesma forma, não pretendo fazer aqui uma expiação pública para as minhas acções, do tipo “minha culpa, minha tão grande culpa!”…

Conheço pessoas tristes que pedalam há anos na mesma bosta, incapazes de arriscar uma revolução que as torne mais felizes; pessoas que adiam a vida julgando viverem disso; pessoas socialmente integradas e com bons ordenados a levar porrada em sessões de bondage para se equilibrarem emocionalmente; exemplos de sucesso com faro para riscos de coca em sanitários públicos; tapetes persas cheios de lixo por baixo…

Também a exemplaridade se esquiva de mim. Tenho defeitos, características muito autênticas que me impedem de poder atirar para a cama um bando de mulheres, bem capazes de me fazer mais feliz. Mas, por alguma razão, acho-as renunciando a esse propósito. Umas desistentes, portanto...

Ninguém sabe ao certo o que é a felicidade. Sabemos que ela existe porque se manifesta nas pessoas. Através do amor, da realização, do riso, do prazer… sabemos, tão simplesmente, que ela existe no reverso do que nos faz infelizes. Soube isto por Agostinho da Silva, que achou alguma felicidade formalizada, fazendo “exactamente o contrário daquilo que nos faz infelizes”. Ora, perseguir este caminho implica renunciar e desistir de muitas coisas.

Felizes os que encontram o que procuram sem muito esforço. Felizes aqueles que sabem o que querem. Desculpem se não me penitencio por não ter achado o que procuro mas… a verdade é que não encontrei ainda o meu pote de ouro nem o meu amor. E não vou fazer juras de fidelidade perante o criador só porque estou a ficar velho para constituir família.

Não posso dizer que pouco me interessa o que os outros pensam. Gosto que gostem de mim e, nisso, somos todos muito iguais. “O espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente e não porque pensa”, dizia Fernando Pessoa. Gosto muito do que dizia esse falhado…
.

28 de mar. de 2010

Horas Mortas

.
É quase domingo e a bebedeira pesa nos ossos como chuva a mais no Inverno. Sai-se do bar e cada um carrega uma ideologia própria de ser livre e estar bêbado. Os carros circulam com um romantismo veloz, dentro de si próprios, ausentes para o realismo deambulante que trucida as avenidas. Alieno-me como quem faz de conta que vive para, ao fim, ao cabo e a meio do caminho, inventar hipóteses por uma estrada de alcatrão na minha cápsula de sentir com motor à frente e mala atrás.
Não tenho nada de novo para dizer. Não hibernei salvação alguma que pudesse ser jogada ao mundo para o salvar de si próprio e, no entanto, acho-me discorrendo sobre um nada que une as pontas todas.
Acendo um cigarro e despenteio-me buscando conforto. Bebo por um gargalo ciente de levar mais merda nos intestinos que rancor no peito, se agora me viajasse por uma vereda de silêncios.
Hoje mudou a hora! Atrasou. A mudança horária dá-se sempre entre a meia-noite e as zero horas. Dependendo da perspectiva, não é propriamente "hora de ponta", nem consta que acelere o trânsito intestinal…
...vá, não sejam porquitos!
.

18 de mar. de 2010

Mergulho dos sentidos

Seus olhares tocaram-se trespassando toda a plateia que os distanciava. Nesse instante, captado por tais vibrantes focos visuais, tudo o que os rodeava, a ele,os instrumentos,os sons, as vozes, a ela,os corpos de diferentes formas, estonteados e embrenhados na sonoridade, se esbateu e dissipou num vulto fantasmagórico.
Segundos passaram e as formas assumiram novamente os devidos contornos. O êxtase recolheu-se no interior de cada um. Ele lançou-se na música compulsivamente , seus dedos agarravam as cordas do seu baixo com tal vigor que tais vibrações fizeram-na estremecer e sentiu- se tocada por tal paixão,por tamanho ímpeto musical...
A noite prosseguiu até o concerto findar... Por entre o rubro da multidão ele viu-a afastar-se em direcção à praia.
Com receio de a perder de vista saltou do palco e correu até a alcançar. Ela esperava-o. À sua frente tinham o mar e uma lua redonda e prateada suspensa no tecto celeste.
Sem se voltar para ele, deu-lhe a mão e conduziu-o para um pontão onde a rebentação das águas se fazia ouvir à medida que se aproximavam... Já debaixo desse pontão onde o ar húmido predominava ela voltou-se de frente para aquele corpo másculo e sedutor e ficaram ambos a um passo um do outro.A sua beleza exótica despertara nele um invulgar desejo... agora diante dela sentia-se criança perante o olhar dócil e profundo vindo do ébano dos seus olhos. A sua tez morena e dourada pelo sol encerrava em si tesouros a desvendar. Lembrava-se agora que antes ao vê-la afastar-se e enquanto corria no seu encalço não atentou nas formas do seu corpo, fixara-se sim ,nos seus longos cabelos pretos que reflectiam o prateado da lua e o seu longo vestido azul com um céu desenhado acima da areia quente .Subitamente estremeceu... sentiu os seus lábios, aqueles mesmos lábios rosados que à instantes o fixavam com a mesma intensidade que o olhar hipnótico e místico dela. Ao mesmo tempo que o beijou suas mãos continuavam enlaçadas. Elevaram-se ... ele deixou conduzir sua mão até ao ombro dela, os beijos aumentaram de ritmo até que sua mão que continuava a ser conduzida pela dela, soltou uma alça do seu vestido azul deixando descair esse delicado tecido desnudando uma parte do seu peito deixando um dos mamilos a descoberto. Ela queria que ele a tocasse com o mesmo frémito com que tocava no seu baixo, como à instantes vira naquel palco à beira mar sonante.Assim agarrou com mais força a mão dele até tocar o seu mamilo duro como bagas. Cada beijo aumentava o calor dos seus lábios, fazia aquecer aqueles corpos... logo o vestido caiu na areia e as mãos dele deslizaram pela suavidade das suas formas com uma languidez tal que ela lançou seu corpo contra o dele como sinal que desejava ser possuída.

(continua)- Esta é a minha homenagem a uma ilustre senhora que acrescentou à escrita a sensualidade e o erotismo-Anaïs Nin

11 de mar. de 2010

Nojo de Relógios

.

Odeio os relógios porque não tiram folgas! Lembram-me aqueles patrões que não conseguem parar de trabalhar, exigindo aos seus funcionários o mesmo vigor. Mas é preciso ganhar a vida! - e eu sei-o de cor desde que nasci de borla, lembrado pelos meus semelhantes em porções de tempo como sal a mais na comida. Fiel aos ensinamentos de Agostinho da Silva, enxertado por mim à família como um terceiro avô, corroborei a sua visão de uma vida dada mas não sem esforço.

Sou preguiçoso, admito! Invejo com admiração aqueles cuja natureza enxota da cama como cães a fugir de pedradas. Mas uma coisa é ser ocioso de vício, sem argumentos para mais um copo de vinho, e outra é ser escravo de um ter que dizer agrilhoado que não deixa dormir. O resultado é, em suma, o mesmo: - uma inabilidade para as coisas que providenciam sustento!

Concebo-me, em pensamento, tolhido e magro como um escritor romântico oitocentista a contas com uma tuberculose de humidade - nos ossos e nos bolsos de bolor! - sem pressa para o crivo da rua que medeia o calor da tasca com a manta de fantasmas que se alevanta à janela de umas águas furtadas.

Sou aquele que se revolve na cama sem notar
E, tendo de contar como passa o dia,
Conta o sonho que lhe veio de noite,
Para no próximo se expiar....


.

26 de fev. de 2010

Paredes de orvalho

Abalei para os teus braços,

leves como uns lençois frescos,

quentes como a manta tecida

num Inverno de espera.

Os teus lábios toquei e teu rosto afaguei,

e, assim, revi junto do bater do coração,

as paisagens que pintaram e coloriram,

o corpo-espírito do que somos Hoje.

Rumo agora em direcção a outras paragens,

sempre com os olhos postos,

na pessoa que fui outrora,

na pessoa que sou agora.

Abalei para ti amor...

Numa casinha com tecto de estrelas,

paredes de orvalho e vento,

onde as janelas são as memórias,

do nosso contentamento