10 de mai de 2010

Profissão: - Desterrado com part-time

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E não é que ela me arrancou da cama quase às três da manhã! Caprichos de grávida sem um desejo em concreto. Pergunto-lhe se quer comer, se quer alguma coisa em especial… queres que vá buscar fora? – Que não, que só quer ver-me cozinhar…

Não é fácil viver com a poesia!

Não somos propriamente uma família de talentos. Ela é o que é, como as palavras são o que são, e não se pode dizer que as palavras sejam talentosas, por si só. Eu vivo de recursos…

Perguntam-me pela vida, o que faço… e cada resposta é sempre uma novidade com família e prateleiras de supermercado à mistura. Na verdade, ainda não sei responder. Vivo deste amor sem gente, sem praia nem cabana nem alianças de qualquer tipo visíveis, suficientemente capazes de fechar capítulos e mudar de assunto com algum conforto.

Se ao menos a poesia me amasse e, por onde passássemos, ela me desse a mão; ou estivesse lá como um pai para os nossos filhos ranhosos que pedem gelados na feira…

…Mas a nossa casa é um bordel com o mundo todo e cortinas, e eu sou a esteira de palha onde a poesia vem fumar um ópio e partir. Como um coveiro-viajante que semeia jazigos de família, e parte, ciente que atrás de si só vem morte.

Cabe-me a mim o provimento do lar. Suar as estopinhas para manter o orfanato e esfregar escadas. Não escondo os copos vazios. A minha desgraça é célere para quem nela se quiser deter, como numa novela. Os meus filhos choram um tipo de febre que pode muito bem ser gangrena hereditária. Mas nem por isso os amo menos. Dou-lhes nomes como se dão aos tumores e aos animais domésticos sem ração diária.

Existo numa estação de comboios com filhos pela mão e mamas secas. Não me perguntem quem sou ou o que faço. Eu conto histórias aos meus meninos para que eles não deixem de sonhar…
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