29 de dez de 2009

Peru

Vendo-me a um sentir
Que há-de vir
Como um peru criado em casa,
Assassinado à borracheira.

Não sei tocar piano. Gostava de poder chegar a casa bêbado, acender um cigarro, pôr o copo em cima e contar-lhe a noite toda com os chinelos de quarto nos pés…

A poesia desgraça-me! Sentir o mundo todo como se todo o mundo tivesse de sentir por mim e, ainda assim, ter de o levar na mochila, como um lanche, para o grande piquenique na montanha.

O pior de subir montes é ter de os descer depois de experimentar o absoluto. Perguntai aos drogados que entraram no céu “pela porta do cavalo”. Nenhum foi resgatado por helicópteros. Os que voltaram, tiveram a sorte de cair numa rede de circo, montada para trapezistas. Mas não voltaram a sorrir…

Viver com pessoas que dormem impede-me o barulho; o tempo não me incomoda e só os relógios me enojam.

A dependência é uma escravidão cotada de suicídio…


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24 de dez de 2009

MELODIAS TRAGICO IRONICAS 5 (especial de natal)

“Thank God it’s Christmas”, dos Queen é a música escolhida pela Gerência de uma conhecida rede de hipermercados para alegrar o ambiente dos seus estabelecimentos comercias.

“Last Christmas I Gave You My Heart” dos Wham, era a música que o jovem cardiologista trauteava enquanto procurava comprar o presente de natal para a sua esposa.

“All I Want for Christmas is You”, era a musica que rodava no centro comercial, enquanto um padre se demorava a passar pela montra da sex- shop, onde estava exposto o ultimo modelo de uma boneca insuflável bastante exótica.

“Let it Snow”, melodia tipicamente natalícia, tocava na rua movimentada da cidade já a noite ia alta e gélida, enquanto o sem abrigo tremia, repetidamente, com frio.


PS: Como bem podereis constatar, através das vossas vivências, existem pessoas nesta época do ano que oferecem/recebem o que bem lhes apraz; outros há, que simplesmente formulam desejos, sobre aquilo que gostariam de receber/dar e não se sentem pior, se não os mesmos não forem concretizados; também há, ainda, aqueles que nada têm e que nada desejam, muitas das vezes por estarem sozinhos, complemente á margem, ou na sarjeta da nossa sociedade. O meu pensamento está com estes últimos, através destas melodias…

22 de dez de 2009

Wine Festival - I Podcast

Sim, é verdade! Eu também lá estive a partir os cadeados todos e não só. Por isso, ponham o som no máximo e cliquem no título deste post para ouvir as coisas lindas que eu tenho para vos contar...

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14 de dez de 2009

SOBRE AS LEIS E A EXISTENCIA EM DEMOCRACIA

Hoje, é impossível dissociar-se a vida quotidiana em sociedade, da legislação, leis e decretos múltiplos; é impensável existir democracia e ordem pública, sem que hajam normas para reger toda essa existência, convivência e conflitos que daí são adjacentes. O homem, ao coroar a democracia como sendo o último bastião e o mais perfeito da coexistência humana em sociedade, veio criar com esse baluarte toda uma variedade de leis que permitem regular, orientar e definir os traços gerais que deverão ser seguidos como fio condutor para que se verifique uma perfeita convivência entre os diversos sujeitos.
O que primeiramente, seria apenas um conjunto de leis, em numero restrito, para que as pessoas apenas se orientassem por elas, depressa se tornou num emaranhado e complexo enredo de normas que logo vieram complicar, ou até, distorcer toda a realidade, a favor ou dos próprios legisladores e governantes, ou então dos mais abastados, influentes e poderosos. O que muito frequentemente se verifica é uma colossal maquinação destes últimos mencionados, para alcançarem o seu próprio bem, em nome da democracia. Usam destas habilidades para garantir, com segurança, o que injustamente vão adquirindo, para depois se apoderarem e excederem dos serviços dos pobres, pela recompensa mais medíocre possível. Destas tramas estabelecidas por os mais prestigiados da sociedade, em nome da democracia e dos desfavorecidos, fazem eles mesmos as regras. As fórmulas democráticas são o fruto maduro dessas ervas daninhas que os legisladores e líderes políticos das nações cultivam há muito tempo com o maior dos esmeros: Pervertendo costumes, indisciplinando valores e atrofiando a sociedade. Os maus exemplos de carácter que vão predominando nos altos tronos da democracia são tolerados pela indiferença duma sociedade obscurantista que convém às facções que a exploram e dela vivem.
Seria, pois de desaprovar o número interminável de leis e comentários ás mesmas, que muito amiúde e por força dos seus criadores, se tornam insuficientes para regular a vida em democracia. Desaprovar, sim, pois haverá maior maldade e injustiça do que obrigar o homem comum a obedecer a leis que mal conhece por serem inúmeras e confusas, tornando-se impossível a sua compreensão com clareza? E aqueles que mais habilmente manejam, deturpam e astuciosamente criam novas normativas, como contrapartidas e alternativas ou complementos das anteriores, para que dominem engenhosamente em seu beneficio todas as situações, não seriam também de desaprovar?
Nada importa á maioria das pessoas, que é quem mais necessita de saber, sobre os seus deveres, direitos e obrigações, que não hajam leis, ou que essas que são estabelecidas sejam vergonhosamente traiçoeiras, que só se consiga uma interpretação acertada e verdadeira após um prolongado e exaustivo estudo das mesmas, que se poderia estender por toda uma vida.
A democracia deveria assentar, essencialmente, em cuidar e desenvolver do interesse geral, relegando para outro plano, ou até mesmo desprezando, o campo dos interesses particulares. Ora, como é mais que sabido, na democracia de hoje o que mais se pode constatar são interesses particulares avançando por cima, bem mais por cima, dos interesses gerais, comuns a todos ou a uma grande maioria. A democracia deveria ser soberana, senhora de si mesma, segura e não susceptível, ou colocar-se a modos de ser corrompida por poderios, riquezas ou influencias aviltas á consciência do mais puro e justo dos homens, ainda que esse mesmo seja desfavorecido, quer pela sua condição social e económica ou por a sua origem genealógica. Deve a democracia, proteger os fracos dos atrevimentos dos fortes e os pobres dos possíveis abusos dos ricos e também do excesso da sua pobreza. Sendo, sempre, inspirada nos mais elevados conceitos, baseando-se na mais sólida moral, respeitando o mais vasto espírito do humanismo e equidade social. Contornando, combatendo e aniquilando a estreiteza de ideias e horizontes limitados, que têm como objectivo máximo, não raras vezes, a sobrevalorização e beneficio de elites.
Nas sociedades actuais verifica-se que quem não reservar algo para si, quem não se submeter ao egoísmo existencial, depressa perecerá, embora faça parte e esteja inserido, obrigatoriamente, numa nação ou num país que muito frequentemente tem posses monetárias para acabar com a mingua existencial das suas populações. Países e nações que ostentam bases e valores democráticos, mas que constantemente recusam dignar-se estender a mão á própria sociedade, exigindo, sem qualquer tipo de escrúpulo, que se nomeiem os dirigentes e responsáveis máximos para levarem ao rumo que melhor lhes aprouver as vidas dos que até então saíram sempre a perder com tais valores.

12 de dez de 2009

a propósito de dizer tudo e não dizer coisa nenhuma e, ainda por cima, não ter vontade de corrigir

Não tem sido fácil aturar-me,
Explicar-me.
O cortejo fúnebre já saiu do adro
E eu pintando à pressa o meu quadro.

A morte vem como altura de exames
Apanhando desprevenido
Um copo deixado meio.

Foi-se a vida como a de um cão.
O deus não existia,
E o morcão que tudo comia
Não falou em reencarnação.

E o universo que não tinha emoção
Continuou o seu caminho
Para lado nenhum.

Vê-se da lua a nossa desilusão!
Que pequenos somos,
Inventando, ainda assim, a depressão
Como se o chão que nos come não bastasse, e
Ou inventar um poço para fora nos empurrasse.

Inventaram-nos com uma enxada na mão
E uma certeza motivada para a competição.
Uns encontraram terreno fértil para cultivar
E os outros, sem querer sepultura,
Puseram-se a cavar.

Uns acharam água
E outros petróleo.
Uns acharam saibro e pedra dura
E outros aqueloutra sepultura.

Foi no que deu pôr toda a gente de enxada na mão.
A ideologia vigente residia no chão,
E os bisnetos dos visionários
A passar visionando com o nome dum avião.

A verdade dos poetas reside num só segredo:
- o adiamento do degredo
Reside no pressentimento de tudo existir com espaço
E a felicidade resiste num espaço de tempo
A que se pode pôr um laço.

Em suma,
Tudo o que existe pode ser apropriado.
Num bocado de ar pode fazer-se uma jangada,
Num veio de tesão pode existir uma gémea gemendo,
Ou uma namorada.
Num copo de vinho uma clareira
Numa cona fria, uma lareira.

Se abrisse agora a janela
Poderia estar nela se ajeitando uma coordenada
Uma nau procurando simetria
Com roldanas,
Um zepelim com pedais,
Libelinha gigante de conversar qualquer coisa
Antes de dormir,
Capitulando um fim de noite á janela
Com ar puro.

Mas a manhã vem
E a gente olha para tudo como um sonho esquisito
Que urge pôr terra em cima
Suspeita de insanidade.
Volta-se a fazer o mesmo
Como é do costume,
Fala-se de cumprir os sonhos
Que não são sonhos nem são lume…

Bebe-se um copo de água
Para tirar o gosto da pasta de dentes;
Acende-se um cigarro a caminho do trabalho,
Mudança abaixo, mudança acima…

Ajuda à vida o locutor da manhã
Que sempre se faz de palhaço contente.
E é impossível não ser fã
De alguém que parece nunca
Estar doente…


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10 de dez de 2009

Exorcismo

Eras tão linda e tão tudo e eu estraguei-nos a ver fotografias fora do contexto. Hoje o mundo é diferente e tu tens como eu, provavelmente, um parente, outros gostos e um filho. Eu era puro com todos os defeitos e não tinha defesas. Amei-te como um homem nu a dizer que amava e, depois disso, nunca mais tirei roupa da carne.

Hoje, não te queria para minha mulher. Talvez me levasse para a cama contigo, - isso sim – um rendez-vous para tomares de novo o meu cheiro e eu recuperar o meu coração. Mas tu és inteligente como o diabo e não devolves almas, tampouco te seduzem os estados alterados de consciência onde sou, emocionalmente, cientista do acaso e variável de ciência.

Não é por nada,
E eu bem sei que fazes colecção…
Mas, se não te importasses,
Eu queria de volta
O cromo
Do meu coração.

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3 de dez de 2009

Levantem-se muros

Tanta gente a queixar-se da existência de muros. Haja coragem para se dizer que há muros que fazem falta! O Muro de Berlim foi uma vergonha, ok! Mas foi uma vergonha porque ainda o é, porque dividiu pessoas que, à partida, estavam unidas. E em nome de quê? De um confronto de ideologias – comunismo versus capitalismo. Levantou-se um muro como quem faz um estudo de mercado e, por isso mesmo, não admira que o capitalismo tenha vencido…

Mas há feridas de guerra que precisam de tempo e compressas de muro para sarar. Levante-se um muro em Israel ou, se quiserem, na Palestina, se isso servir para estancar o sangue de inocentes. Deixe-se passar o tempo, - e acusem-me depois de fascismo quando vier a altura de deitar abaixo muros da vergonha. Mas, - lembrai-vos – enquanto houver muros na Irlanda entre católicos e protestantes e escassearem pedradas nos miúdos a caminho da escola; enquanto a Internet não provar que o tesão de uns é o tesão encastrado dos outros, a paz vale o que vale… isto é, a ausência de sangue derramado estupidamente.

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1 de dez de 2009

Carrousel des Morts ou o proto-manifesto para um carrossel com mortos

Caixa de música com bailarina no interior
Em película de terror…

Circo eremita
Cansado de público,
Compondo árias
Com tarefas diárias.

Senhores das clareiras herméticas,
Cientistas da fantasia,
Escultores de ferro velho
E nómadas dos cemitérios de fadas…
Dissidentes do orgasmo protocolado.

Todos os dias,
Uma bacia e uma canção.

O sol existe para aquecer frestas de luz,
E lamber os olhos dos monstros
Que espreitam pelas fechaduras
Dos baús.

Serpentinas de vento e mofo, entretanto assobiam,
Amarelas, vermelhas, azuis…

Vem depois o frescor e a noite.
As luzes acendem-se nos estendais de fio eléctrico
Como num pomar simétrico,
Cheio de lâmpadas.

Ouvem-se os primeiros acordes da afinação,
Electrocuta-se a realidade com a morte de um cão
E a magia acontece nas almas! –
Sem necessidade de palmas

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