11 de nov de 2008

Carta de um libertino a um Juiz

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Exmo. Sr.

Escrevo-lhe, obrigado à defesa da minha honra, pois não encontrei advogado algum capaz de interceder por ela com mais honestidade, obrigada por minha justiça a manter-se impoluta e encimada por uma auréola de verdade.


Como sabemos, esperam-me desconfortos de variada espécie por me ter enovelado em sevícias com uma moça de 16 anos com pai rigoroso. Afianço-vos que me perdi de encantos por ela, não penso que de amores, pois nesses preparos me perdi com idade mais tenra…


Sei também com que resma de leis pretende Vossa Exa. carregar-me o dorso. Poderia até tentar compreender os vossos propósitos, mas creio em tal discorrer de papéis utilidade maior se me apertassem os intestinos numa serrania, se por acaso caçasse coelhos. Mesma utilidade pode dar Vossa Exa. a esta missiva se lhe parecer de conveniência, pois não lhe desejo mal, nem tão pouco apertar-lhe as mãos se um dia me aparecesse com uma obrigação dos seus mais distintos odores.


A mesma agremiação que lhe encomendou a aplicação da lei, poderá descansar em consciência, mas eu não. É que, enquanto eu me amanho a tentar convencê-lo da minha legítima inocência, os legisladores que o precedem e encimam encontrar-se-ão, em refasteladas desovas, louvando a bel-prazer as belezas da nossa espécie. Ora, como ambos sabemos, as formas que instituem os cânones do ideal feminino são verdes e magras, pueril e inocentemente juvenis, e apresentam-se nuas comme il faut


No que à construção artística diz respeito, tudo parece permitido e ainda bem. A classe retórica e, portanto, governativa, sempre acurou na sua ignorância, um cabimento feito aplauso para os artefactos que não domina. Haja verdade, quem a desobstrua das silvas e quem a poupe! – Sempre foi esse o meu firmamento.


Poderá contrapor-me dizendo que a sua classe não frequenta a libertinagem que institui o prazer no mundo; que não se atenta nas publicações da celebridade porca que vende o corpo, ainda que o influencie a comprar férias num destino paradisíaco (o que é isso? – pergunto-nos) …


Poderá dizer-me que a sua classe não se entretém com o mundo que dá valor às celebridades e se endivida frustrado com os ideais de felicidade vendidos pela televisão. E, se assim for, obrigo-me a crer que tanto os legisladores como os aplicadores da lei vivem num mundo diferente para o qual são convocados a legislar.


Bem sabemos que não é assim. As moças que desfilam e instituem os cânones da beleza feminina são menores de idade e insuflam o tesão a quem dele dispõe. Têm menos de 15 anos, são mulheres e “boas como o milho”.


Pese a sua sanha em tentar condenar-me, tudo isto é público e consentido. Permita-me, enfim, ciente da sua capacidade de armar uma esparrela aos miolos, que lhe segrede: -

“não é por ter cheiro de perfume e sotaque francês, que esta realidade vos exclui de encalhar na mesma esteira de merda dos seus pares”. Em boa verdade, a sanha de perseguir as pombas e poupar os corvos é matéria sobre qual já se escreviam monografias na Grécia e Roma Antigas, jurisprudências que, como sabe, fundaram o Direito Contemporâneo.


Por fim, para desgraça e choro do vosso violino de valores, devo dizer-vos: - não fui eu quem lhe roubou as virginais virtudes. Foi ela que me tomou para lápide e desprezo dos valores apreendidos. Não querendo para mim uma camisa de sete-varas, nem para ela uma pena de bestialismo por ter escovado um animal da minha envergadura…


Subscrevo-me à atenção das suas mais recalcadas virtudes,


Anarquista Juvenal ou, se quiser, Sr. Mal



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10 de nov de 2008

O MELHOR POEMA DO MUNDO

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos


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3 de nov de 2008

Era a estrear!!!

Uma das características que mais aprecio nas pessoas, mas que nem todas possuem, é a capacidade de serem genuínas nas diversas situações decorrentes da vida... Conheço poucas pessoas destas, os dedos de uma mão (não estropiada) chegariam para as contar. Hoje descobri mais um destes seres preciosos.
Tudo se passou no restaurante onde vou chafurdar, digo almoçar, diariamente. Ao entrar no dito estabelecimento reparei que contrariamente ao que é habitual, hoje o local estava muito bem frequentado no que diz a pessoas do sexo feminino... Uma das mesas estava ocupada por o que supostamente seria um pai (e quero acreditar que era) e uma deliciosa filha de vinte e poucos anos, ciente do impacto que a sua pessoa causava nos demais... Noutra mesa, logo a beira da anterior, estava uma solitária cliente, sofisticada, mulher de negócios que com certeza estaria somente de passagem nesta terriola... No outro lado da sala estavam ainda duas mesas, ocupadas cada uma delas com um casal em que as senhoras eram qualquer coisa de fantástico, boas, boas, boas... Intimamente, sei que os demais clientes já haviam reparado nas tais beldades, não fossem eles maioritariamente trolhas , sedentos de carne fresca.
Sem qualquer alarido emocional sentei-me e fui consolando a vistinha enquanto aguardava pelo repasto. Tinha investido na chafurda havia uns 5 minutos, quando um dos casais que ocupava uma das mesas do outro lado da sala se levanta para abandonar o local. Escusado será dizer que a Sra. mal deu o primeiro passo em direcção à porta foi comida como sobremesa um infinito numero de vezes (chegando alguns, inclusive, a repetir tão delicioso doce, sem se preocuparem com a linha). Ninguém ousou proferir um "ai" que fosse, mas todos suspiravam para dentro, havendo até quem se coçasse abruptamente.
Foi precisamente nesta cena do filme que tudo parou e eu descobri o ser com a tal qualidade...
Quando ninguém, nem os demais trolhas (como eu), teve a audácia de dizer palavra alguma, houve uma alma iluminada que sem qualquer embaraço, ou sequer levantar a cabeça para desviar os olhos da comida proferiu estas acertadas palavras: - «Era a estrear!!!».
Foi mágico o momento... discurso nenhum, feito por o mais sábio de todos os doutos encaixaria tão bem na situação.
Sorri-lhe, piscou-me aquele brilhante olho coberto de maldade e por momentos pensei que fosse o demónio, mas não, era também uma mulher que sabia apreciar a sua semelhante...

A propósito, o prato do dia era Massa à Lavrador e estava intragável, comi só sobremesa aquando da saída das demais fêmeas...