17 de mai de 2013


Disseste-me…

Esta noite sonhei com pessoas mortas suspensas em ramos de árvore frágeis, sob a bruma noturna iluminada de luar. Sonhei que fugia mas não havia fim para a fuga. Sonhei que matava, e intriguei-me a pensar  “ se mato… terei sido eu?”

E eu…

Sonhei que te beijava. E que tu até precisavas de mim. Quem sabe um dia em vez de precisares de mim até me venhas a querer. Isso é que eu gostava. Depois, no sonho, senti que era tempo de te contar o meu segredo, se segredo é para ti. Nunca te cheguei a contar, porque só agora percebo claramente que, se sonhei contigo, passado todo este tempo. Se sonhei que eras minha, às tantas, é porque te quero.                                                  
Ora…                                                                          esquece.
Gosto muito de ti, só isso. Ou talvez a palavra amor seja muito fechada para o que sinto. Talvez não precise de te amar para te amar, e então te ame assim, sem te prender.

A sério? Poh! tens pesadelos mesmo fortes! Eu tenho sonhado com nada.é.

12 de mai de 2013

Nasceu anã minha estrela


Nasceu anã minha estrela e sem galáxia
a quem deva vassalagem ou compaixão,
mas ela é fonte de alimento para buracos negros
que aniquilam aquilo que sou ou seria
e deixam somente uma máscara de alegria,
que sempre coloco no rosto ao contrário
deslavado de esperança pelo pó do medo.

Eu sou a mentira com que me vou embalando,
eu sou o segredo que esconde o meu crime
– fito os meus olhos reflectidos no espelho
e depois lanço-os à janela que pinta sempre de janeiro
o mundo que engulo a custo
e que parto com aquilo que me sobra:
palavras vazias e lembranças de promessas sem país.

8 de mai de 2013

Breve apontamento



Caia-lhe o colar ligeiramente para o interior do peito.
        A pele de café da manhã valorizava-lhe o colar de pequenas pétalas brancas
As mãos de dedos finos, agrafavam perigosamente o embrulho…“cuidado para não agrafar os dedos.”
         Ligeiríssimo sorriso, quase impercetível.
Cabelo denso, feito para ser arrumado de um lado para o outro. Teimoso forte e belo. Mil cornucópias barrocas.
         "Raisparta" a memória, que tem mais de poeta que de repórter, sempre a derreter… sempre a derreter. Persistência da memória: abre-se um deserto com umas rochas muito mal espalhadas, e atrás dessas rochas, espreitam lábios,  olhos, o seu corpo, a sua pele.
         Na cabeça percorri todas as comédias românticas que vi até hoje, todos os livros, todas as estórias inventadas por quem já sentiu igual.
         Da boca apenas um obrigado e um bom dia, recibo no bolso, passos na direção da vida que continua.
Saio com a sensação que só nos apaixonamos verdadeiramente por estranhos e que estou a precisar de comprar meias, ou a única camisa que gostei, para além da que trouxe.

5 de mai de 2013



Não adianta pôr flores à poesia – ela não morreu!
Levar-lhe flores à porta? –
Ela não mora!
E se morasse saberia que a tua purga é falsa –
Logo não abriria.

Ama-te porém quando estás vencido
E lhe falas de coração…
E fala a tua língua se estiveres bêbado,
Ainda que para a profanação da alma isso pouco importe…

Uma coisa é certa:
Tens de ser livre primeiro e a todo o custo!
… que é dizer oferecer-lhe a tua liberdade
Para que ela te amarre.

E seres dela!

Porém, como no amor,
Tens de pôr-te a jeito de levar umas chapadas
Por quem amas.

Tens que defendê-la,
Não em seminários sobre o amor eterno,
Mas sobre todas as coisas…

Porque ela é mulher
E gosta de sapatos!
E os sapatos não são só de calçar…

Tanto pisam
Como entesam…


3 de mai de 2013

Sentimentauro



De todos os venenos que provei
Dos copos por onde bebi
Dos cigarros que fumei
Das esteiras frias onde me deitei
E me adoeceram…

Das bofetadas que me dei
E me doeram

Dos acidentes de automóvel
Ou ser levado em maca para uma sala de operações,
De forçar o peito ao mundo e ouvi-lo rachar
O mundo a rachar…

Nada me preparou para a fina flor
Do amor que te pus em redoma
E caí como Kong
Do alto dos meus sonhos
Contra um chão de formigas necrófagas.

Vende-se bem o amor a quem sente pouco…

Mostrar sentimentos não é para os homens!
O único sentimento que a um homem se permite é o KO
Dentro do ringue…
A única insegurança: - querer a desforra!

Lutar!
Lutar sempre!
Lutar, lutar, lutar…
E ser um bronco para mandar no amor,
Imune a perfumes…

Instalar andaimes firmes por onde os sentimentos possam discorrer
Como água da chuva
Para dar sentido à construção.

Faz sentido um homem à chuva em tronco nu
Como se ela não existisse,
Ainda que isso pareça estúpido num alentejano quieto à beira da estrada…
Mas os sentimentos são como as fotografias e não basta existirem para serem reais:
- Têm de ser bem tirados!