31 de mar de 2009

Concurso literário

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Perdoar-me-ão os desgraçados que convivem com os infortúnios desta morada mas, por mercenários motivos, terei de apagar alguns poemas aqui veiculados. Pretendo levá-los a um concurso de beleza...
Pensemos neles como meninos que levo ao “desobriga” pela tutora e sábia mão de um Menino de Talho. Não se apoquentem. Voltarão cumpridos com renovado cardápio de doenças...


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27 de mar de 2009

Blindness ou a mesma (In)justiça de sempre

Não há muito tempo li o romance do Nobel, José Saramago, intitulado "Ensaio sobre a Cegueira", cerca de dois dias depois não quis deixar de "VER" o filme de Fernando Meirelles, "Blindness", inspirado nessa mesma obra.
Pessoalmente gostei mais do livro do que do filme. Ou melhor, ao ler o livro fiz o meu próprio filme e esse era bem mais noir que o do Meirelles. Acho que no livro há uma violência refinada, cheio de crueza em cada acção, e as personagens são rasgadas (literalmente) ao virar de cada página.
Cada vez mais Portugal se assemelha ao espaço físico onde a história da cegueira decorre. Vejamos: todos os dias somos bombardeados com acontecimentos vergonhosos - SENHORES que roubam; que abusam do poder; que fazem desaparecer provas e pessoas, melhor, que constroem a realidade a seu bel-prazer, sem haver nada nem ninguém que os pare, que os faça pagar por essa selvajaria desenfreada na subida para a avareza das suas vidas.
(refrão) Mas está tudo cego, ou ninguém quer ver?
A cegueira afecta todos os governantes, juízes e agentes de autoridade, quando neste país quase se cortam as mãos a quem rouba pão para comer, ou deixa de pagar a prestação mensal do carro e da casa porque a empresa onde trabalhava faliu ou está em processo de insolvência devido a gestão danosa dos administradores e a estes nada acontece... a empresa onde trabalhavam está em processo de falência, o que é certo é que estes colarinhos brancos vão á garagem e os seus porches e mercedes estão lá, brilhantes como nunca; e as mãos dos assalariados, onde estão? DECEPADAS, no caixote do lixo do desemprego e da reforma!!
(refrão) Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que acontece aos "chicos espertos" dos autarcas de Felgueiras; Gondomar ou Marco de Canaveses por abuso de poder, desvio de fundos e um rol sem fim de crimes públicos e outros dos quais não sei os nomes? Não acontece NADA! Comem, bebem e festejam as suas ilibações e escapadelas á justiça para mais tarde repetirem mais do mesmo.
(refrão)Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que vos digo é que estes biltres, abutres e cleptomaníacos só param de cegar a justiça e o povo nacional, quando tiverem um acidente e venham a falecer de MORTE VIOLENTA.

24 de mar de 2009

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA II

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Tenho recebido várias cartas de gente anónima, e outra cadastrada, a dizer-me coisas desagradáveis relativamente à minha falta de disponibilidade para tornar públicas as minhas memórias de Paredes de Coura. O que as pessoas pensam não acrescenta nenhum upgrade ao incómodo que os chatos, por si só, já me provocam.
No entanto, muito mais estimulado pelas demonstrações de carinho provindas de um grupo de fãs suecas (que tanto me têm aquecido nestas madrugadas frias), resolvi-me e disse para comigo: “Olha lá, ó Mal, tu não és preto nem presidente da América mas esta gente precisa de ser iluminada por ti…” Fiz um silêncio e depois respondi-me: “és capaz de ter razão. Não és burro, não senhor!” e mantive-me neste estranho diálogo até que alguém, agarrando o meu braço, gritou: “Ó senhor, espere aí! – olhe que o semáforo dos peões ainda tá vermelho!”…

Adiante,
Convoquei os meus doces nórdicos para uma tertúlia balear ao redor da fogueira em cuja ordem de trabalhos constava o descerramento do II capítulo das ditas memórias. Depois de um acrobático número de sexo, que aprendi quando vaguei em digressão com o Cirque du Soleil, dispu-las confortavelmente, abri uma botelha de scotch com o meu sabre, dei uma bombada valente e comecei:

- Chegamos um dia antes do festival, propriamente dito. Ultimava-se a montagem das tendas onde se iria improvisar o nosso harém. Nesse momento, começamos a ouvir os primeiros “Foda-ses” que se iriam prolongar até ao fim do festival. Era “Foda-se” para aqui, “Foda-se” para ali… Por cada sonoro “Foda-se” que se ouvia, logo um outro se lhe seguia, ecoando sem limites numa apoteose acéfala. Tamanho espanto, ainda que despropositado, parecia dever-se a um conjunto de fait divers (ou métiers?) com chancela da nossa confraria. Consta que, em ano transacto, a água dos chuveiros era fria e, um senhor que bem sabeis, se arrepiou com a sua frescura, vociferando um sonoro “Fôô ah ah- daa-sssse!!!”. E pronto! Aquela merda fez eco no tempo. Bonito serviço, Mike!

Bom. A sangria estava meio para o roskoff e depois de a acabar fomos passear para a vila à procura de comida, como cães de farejo. Só havia frango a sair. Mal eu sabia que esse era o único pito mastigado que me haveria de calhar em Paredes de Coura… mas terá havido coelho?...
Depois fomos ao talho encomendar corações de frango (não havia de puta)… paramos para sorver as primeiras diuréticas num café que não me lembro o nome. Creio que o dono desse café também não sabe o meu nome, e ainda bem, pois vandalizei a porcelana da toilette sem respeito algum pelos cus que lá assentaram praça nos dias seguintes…

À noite, cozinhamos para um regimento de herbanários. Viramos fêveras com a convicção de resgatar soldados moribundos das trincheiras da morte, numa guerra desigual. O vinho sumiu-se, as tropas ganharam novo alento e um propósito imorredoiro fê-los saltar da trincheira. Mas ao primeiro arranque, carnificina. O Homem da Ripa dizimou quase todos. Muitas baixas e éne louça para lavar… Um conselho: - nunca se deve fumar a camuflagem em tempo de guerra!


Pela madrugada, calhou-nos o carrego de uma adolescente com aspirações a enfermagem. Malta da Cruz Vermelha, portanto. Aterrou na erva com convulsões. As amigas da pobre onça estavam demasiado etilizadas para aquele exorcismo, que lhe revolvia as entranhas e lhe embravecia a voz…
Com ela sentada na grama, encostei a sua nuca aos meus testículos e agarrando as suas orelhas frias, abanei-lhe a cabeça com vigor, tentando expulsar o espírito maligno que a pôs naquele estado e que, teimosamente, se recusava a pôr-lhe as mamas à mostra. Meti-lhe a mão nas calças e, sentindo a formosura seca do seu fresco tufo, percebi que se tratava de um espírito benigno e, como tal, imotivável para misérias festivaleiras. Ainda arrisquei extrair-lhe por ali o demónio, e pelas traseiras, apanhando-o desprevenido. Em vão. O maroto era preguiçoso e teimava por um exorcismo profissionalizado, vulgo medicamente assistido.

O estado da saúde nas Universidades é sintomático da sindicância de males que devassa o país. A possessa não queria ir ao INEM. Dizia que aquilo ficaria no seu cadastro. Até podia ser conversa de bêbada (o que me parece um pouco rebuscado) mas se o álcool é vedado aos profissionais da medicina como é que se explica o estado de embriaguez afecto à maioria das suas práticas? E se as enfermeiras não podem tocar no álcool quem é que nos esfrega as feridas ou o rabinho antes de administrar a penicilina? E o éter? Foda-se, - o Éter!...

Ocorriam-me estes pensamentos de alto coturno quando, abraçado à dor de ter carregado um enfermo, mastigava silenciosamente um pão com chouriço naquela cabana que mediava a “Ponte do Tralho” e as casas de banho (ou de butano?). Acho que a urina tem aquele cheiro que arranha na garganta precisamente para evitar que, quem passe junto dos toys, se espicace a acender um cigarro… Estão a ver o mesmo que eu? Espero que sim. – Um girândola de gente cagadoira feita fogo-de-artifício em apoteose estelar. E eu a fumar um cigarrito todo contente… no epicentro daquele espectáculo de misérias sem pára-quedas. A malta a aterrar nas roulottes, no corrimão da ponte e o pessoal, ao passar, vendo as bilhas borraditas caindo do céu, desapertando instintivamente os cintos com uma bebedeira sem expressão facial…

Depois fomos para o Punkalhoto beber cerveja e falar de cinema. Longa-metragem de cervejas e muitos rolos de fita para achar a consciência na tenda. E não, ninguém levou este urso de ouro para casa…


Continua...

23 de mar de 2009

Operação Stop

Quando me disseram “a polícia está a fazer Operação Stop” resolvi pedir mais um shot e uma cerveja. Pelos vistos, a coisa ia durar até às sete da manhã e a minha segunda casa não tem camas para mim. Quando cheguei ao carro, consegui avistar a malta dos coletes amarelos. Estavam num cruzamento, encruzilhada de incómodos para quem vai lambido ou possuído pelo diabo. Ainda me passou pela cabeça dar um salto até à discoteca para fazer horas, mas a música é sempre tão fraca… fui buscar sandes e batatas fritas e fiquei no carro a ouvir Chico Buarque. Depois da ceia, mijei num canteiro, pus o relógio para despertar e deitei-me no banco de trás, onde dormi sem conforto nem cobertor. O purgatório do mundo, lá fora, esperava por mim com o seu rosário de punições. Gente sóbria e austera a saltar no tempo para me deter a possibilidade de matar alguém. Os criminosos devem pensar assim. Apesar de não ter matado ninguém, devo ser um, também, por encerrar um potencial de maldade sem cumprimento.
Fico no meu carro com as portas trancadas. A polícia, ainda que perto, pouco mais do que um encolher de ombros teria para mim se me roubassem. Durmo desligado do mundo na minha máquina assassina onde, esporadicamente, faço amor sem autoridade, atentando ao pudor.

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18 de mar de 2009

Para os que confundiram Epitáfio com...

TESTAMENTO:

Desejo doar o meu corpo a quem dele tirar melhor partido que eu. Tudo menos tráfico de órgãos. Quando muito (e preferencialmente), reencaminhe-se a genitália para um tarado que deseje cumprir-se em todas as línguas e nacionalidades. De resto, desejo ser trinchado às postas na seguinte disposição:

- As mãos ou dedos a um escultor ou guitarrista amputado
- As costelas, temperadas apenas com uma mão-cheia de sal, assadas em churrasco de madeira e atiradas da varanda aos meus cães ou a quem, achando-se capaz de competir com a sua gulodice, queira apanhá-las com os dentes.
- Os rins a uma velha boa, militante do sexo anal que, tendo os seus esmurrados de pancada, se veja privada de cumprir os divinos ensinamentos de Sade.
- A tíbia da minha perna direita oferecida ao Woodrock no Wine Festival, para se ter na prateleira, atrás das bebidas, autografada por Lambidos pelo Diabo. Se por acaso se fecharem as suas portas, enterre-se no Jardim Mágico numa alvorada sem testemunhas.
- O fígado para quem der e vier
- Os olhos para um ou dois cegos (não vá um ficar a rir-se do outro)
- Os dentes para apreciadores de nozes e avelãs
- A expressão encerada das minhas faces mortas em frascos a uma vara de padres
- Os ouvidos aos surdos e as orelhas (de preferência, com pêlos) disfarçadas num pires de orelheira servido num restaurante com estrelas Michelin.
- Tripas e restos de carne magra para salpicões canibais.
- O esqueleto a um conluio de necrófilas


Continua…


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14 de mar de 2009

Retrato de uma Falência

Pisamos uma linha de tempo que, vista da lua, não vale a métrica de um cabelo. Valemos quase nada e a roda, que ainda dura, foi incapaz de guardar para a história o nome do seu inventor numa campa de flores. E, mesmo assim, para quê? De nada serve a eterna glória se estiverem certos os ateus.Todos os dias, abrem falência fábricas de sonhos sem compaixão para os pensamentos realmente grandiosos. Não há freio que segure o tempo, e a morte, que é certa como eu estar escrevendo agora sobre verdades perenes, virá para todos como um exemplo de eu estar certo também, mas por estar vivo e não ter falsas esperanças na sua absolvição. Verdades universais e certezas absolutas guardam-nas os deuses no seu relicário de cemitérios. Os deuses que jogam à bola nas imediações das fábricas abandonadas…
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12 de mar de 2009

Pensamento do ANO

Se isto é um Cabaret e eu sou a Madame, então vocês são as minhas putas.

9 de mar de 2009

Pensamento do dia

A solução para o conflito Israelo-Palestiniano pode estar num homem-bomba que, ao estourar, atire uma moeda ao ar...

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4 de mar de 2009

Pensamento do dia

Este país não é para velhos
que bebem por cálices!

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Inauguração

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Não há paciência para um Deus que quer,
Para os homens que sonham
Nem para as obras que nascem…
Coitado do Fernando,
Gozar-se assim com os versos que lhe eram tão queridos!
Valia mais ter fodido a Ofélia comme il faut!
Quem sabe, ela teria gostado mais do seu Álvaro nos Campos.

Por cada troço de estrada inaugurado
Nasce um homem novo obrado por Deus
E o sonho cumpre-se numa mão cheia de votos.

Soubesse Pessoa, de antemão, que a sua poesia serviria o discurso político de circunstância e as fotografias que lhe conhecemos seriam bem diferentes. Menos chique, os bigodes atulhados de fluido vaginal e o olhar estrábico de quem não se ficou pelas bagaceiras no Martinho da Arcada. Hoje sem mesa reservada, lembrado como um pulha que partia mesas com cadeiras. A sua amada, Ofélia, uma pin-up desempregada, consciente da escrita que lhe escorria pelas pernas, amando o seu Pessoa, guardada para a história como um tesão sorridente de saias curtas.

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2 de mar de 2009

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A realidade acerta-se pela técnica dos relógios que evoluem e o tempo, que não teve freio, aburguesou-se a uma New Way. Dínamo de esquecer. Sem recobro nem esperança, a fotocopiadora é um museu que faliu. Não existem verdades universais. A arte pratica-se na potência de existir, sonho de uma ideologia sem memória. Nada é duradouro. Acreditar demasiado é vender a alma a uma existência sem vencimento. Tudo passa e o sol, que assiste à nossa mediocridade, continua entrando pelas frinchas de entulho universal que foram os nossos sonhos. Somos um bando de intelectuais idosos lançando sementes à terra, sem prognóstico de colheita ou seguro de terrorismo ambiental. Falimos todos os dias e o mundo reinventa-se em renovadas promessas. Fé dourada, luz que envelhece. A roupa guardada pelos nossos avós foi para um aterro sanitário, mortalha de um sem-abrigo abraçado aos próprios ossos, sobrevivente da fome e parente próximo do caixote que um camião do lixo levou. A minha mãe guardou toalhas com fio de ouro para que eu secasse os seus netos quando nascessem e eu vendi-lhe as esperanças à pornografia. Se o mundo parasse, eu acreditaria nele. Mas o carrossel da vida continua a sua marcha sem alma para travar sobre a carne que trilha os mais velhos. Não faço parágrafos. O único sentido para a vida é a morte. Não creio em verdade maior. Os cemitérios e os hospitais, as pedreiras mortas e as fábricas abandonadas são, para mim, monumentos de uma realidade que corre para a inexistência, questionada por ideais de felicidade. Acredito na minha verdade como na poesia dos faraós enterrada pelos desertos e não tenho mais perguntas para esvaziar o bolso roto de respostas onde meto as mãos, assobiando, cioso de coçar as minhas próprias misérias…


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