25 de out de 2013

USPF IV - FESTA VINTAGE/ RETRO



Invitam-se as senhoras mais chiques do burgo marcoense, naturalmente acompanhadas pelos cavalheiros mais distintos, a comparecerem naquele que será o evento mais glamoroso da década e, quiçá, de há quinze dias a esta parte – THE ULTIMATE SEX POWER FEST!

Altamente devoto à elegância das décadas de 40, 50 e 60 do século XX, pretende este acontecimento restaurar a estrutura sensual e o bom-gout que duas décadas, a ver moços com os boxers por fora das calças e pitas fotografando-se ao espelho, quase fizeram ruir.

No que ao tema ‘VINTAGE’ ( http://pt.wikipedia.org/wiki/Vintage_(moda) ) diz respeito, serão naturalmente permitidas variações de indumentária, abrindo-se o espectro de opções à iconografia RETRO, a seu modo parente do conceito maior.

Considerem-se, por isso, igualmente convocadas as luxuosas senhoras de família (milfs de época, vá), divas de cinema e Pin Ups, bem como as aeromoças da PANAMAIR.
No que aos cavalheiros diz respeito, se espera que compareçam muito bem penteados, envergando fato, laço ou gravata e/ou chapéu… Por Toutatis, rapazes, mostrai brio! Sede audaciosos!

Tanto para senhoras e senhoritas como para cachorrões disfarçados de apreciadores de scotch, poderá a série televisiva ‘Mad Men’ servir-vos de inspiração e compêndio. Aceitai a sugestão e ide pesquisar a essa modernice chamada Googuel…

Para o repasto revivalista assar-se-á um lombo de época com castanhas, delicadamente acompanhado com batatinhas de ir ao forno e ao céu, bem como um arrozinho branco provindo dos melhores campos de arroz da Birmânia e de Setúbal.
A este arrojo de sensações contra o céu da boca se assomará um precioso néctar, esmigalhado num coro de lágrimas pelos virginais pés das subadoras de Vilacetinho.
Para o grand finale, inspirado no melhor baile de 1953, haverá surtido inglês, bebidas de espírito e vinho fino, de colheita Vintage, pois claro! E uma novidade - aquela que será, daqui por diante e até nenhures, a bebida oficial do USPF (um licor altamente afrodisíaco) – Tangerine Dream!

E agora vá, correi a abrir guarda-vestidos e baús…

Ficai bem, minhas fofurinhas!



Nota: Aconselha-se a munição de profiláticos. A composição do Tangerine Dream é (asseguro-vos) totalmente natural, mas dá cá um coice na libido…


20 de out de 2013

Quiosque


Poderia até ser-me fácil falar de ti que te desconheço, como um amor de que se fala estrangeiro ou só por aí sem rosto a fazer coisas no mundo. Mas não. Custa-me! Não sei falar de ti senão que me ausentas e, no entanto, a casa onde me habito reza a perfumar-se de ti, como procissiando à minha frente um turíbulo de incensos. Roubas-me o ar! Roubas-me o ar todo e, no entanto, falham-se-m’ os argumentos para te acusar de saque em tribunal. O teu álibi é seres distante e de pouco me vale a dor em campânula e os olhos cegos…

Pudesse eu acusar-te de uma facada nas costelas ou de um chuto na cabeça aquando dormindo, fazendo a juíza sorrir. Pudesse eu em ser-me diferente obsequiar dos teus pezinhos a mexer enquanto dormes - guardar-me todo numa caixa de Pandora como se a vida toda e o que sou fosse o boneco doente de um ventríloquo asmático.

E levando-te pela mão a ver os foguetes eu seria uma vida nova, com sentido. E o nosso puto, como numa versão kitsch de uma pintura de Rafael, a gritar “ó pai” por uma pistola de fulminantes. E nisso o teu sorriso, ganhando largura, haveria de fazer rir a própria Senhora da Agonia. E eu levando aos olhos quatro dedos para disfarçar uma lágrima, queixar-me-ia do pó que fazem as motas. E tu olhando para mim… e eu olhando para ti… e depois tu outra vez, abrindo mais esses olhos magníficos, dirias:
- “Foda-se, pá! Esquecemo-nos de ir comprar o i.”

E o dono de um quiosque sorriria…


2 de out de 2013

Choques no nariz


Os narizes davam choques à chuva.
Dizia ele que…
Tinha descoberto que o que se sente deve ser dito. A morte de alguém fê-lo sentir essa urge. O que se sente, o que se sentiu. pensava ele na altura. Não pensava, sentia, achava, talvez fosse, talvez quisesse, talvez usasse o que achava, talvez ela não se importasse de achar que era não ser porque ela não parecia sentir ou parecia perdida ou só parecia ou não demonstrava ou nada importa, não importa, corroi-se, destroi-se silenciosamente tudo o que se diz, o que se finge sentir não existe.
Tinha descoberto que o que se quer momentâneamente, o capricho, o entediamento do amor, a paixão que se deve assentir, usar e matar. o que sentisse talvez devesse ter sido dito. o que se partilha… o medo, a surpresa, o expontâneo e o formigueiro na barriga, as estações parecem bonitas, o secreto é bonito, e a mentira camuflada no que se sente deve ser dita logo. logo para não se morrer sem ela. para se matar com ela. para a matar. ela parece não se importar. já não existe, já passou.
O que se sente deve ser dito…
Sentia ele que parecia que era afinal, parecia que sentia, parecia mesmo, não seria mas parecia. seria engano… as vezes que parecem ser engano, as que se esquece e simula-se, as que não existem, ouviram-te dizer o que sentes mas não existem, que as pessoas morrem em vida, que alguém sentiu, alguém disse o que sentiu, alguém morreu mas existe, mas morreu, o que se disse morreu, acabou.
Ainda não tinha descoberto que passa por quem achou que sentiu, passou junto mas não viu. disse antes de morrer mas ela já morreu. Então…
A verdade liberta,
a verdade não existe. A morte diz que torna tudo eterno. mas morreu enquanto sentia ou morreu o que sentia enquanto vivia.
Gosto do silêncio
"O amor dá choques no nariz" escreveram-nos um dia.