29 de nov de 2011

Mãos que demos

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Mãos que demos quando ambos
Éramos eu à janela, tão por nós a sentir…

Tomando o sol por um deus que eu desenhava a querer que existisse, e adorando aquele bem como um luto perpétuo que, ao fim da tarde, me vinha lamber as lágrimas.

Era criança! E era livre, quando às crianças se permitia serem livres e ignorantes e, no meu caso, ir de bicicleta até onde pudesse ver de longe a casa da menina por quem eu queria morrer!

Três beijos. Roubei-lhe três beijos!


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28 de nov de 2011

Os cães ladram lá fora

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Os cães ladram lá fora.
Fazem um barulho ensurdecedor.
Eles não têm mais que quatro patas,
Eu não tenho mais que meio amor.

E meio amor é como nada!
É o realizador embriagado a ler o guião.
Sozinho e sem actores,
O take estala e cai no chão.

Corta...

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26 de nov de 2011

Sol de Outono II

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Sob o ouro do Outono
Vejo que a minha vida
é uma sombra esticada a lamber o chão.
(Persegue a própria perseguição)

Estou cansado de me remoer.
Corro
Até que o destino me olhe cansado
ofegante como um cão
desde o fundo da rua.

Paro.
Recupero fôlego nas sombras frias de pedra
onde se dilui a razão
(Na outra margem acena-me a paz – nua.)

Sinto-me.
Eu. Sou só eu outra vez.
A vida seguiu a sua vida.

Ainda assim.
Não me sossego
e dentro busco como cego
minha porta da saída.

Porta de entrada
no meu sonho intangível
de existir por entre as coisas
na quietude do invisível.

24 de nov de 2011

Sol de Outono

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Na proa da alma
Embatem ondas de luz
(Tempestade de sol outonal)

No paraíso que se fez hoje
O sagrado banha o banal.

Navego dia dentro
Num pacifismo drogado
Veja a beleza sinuosa       esgueirando-se
Atrás do futuro
Atrás do passado

Agarro tudo ao nada querer
Beijo
O novo dia a nascer.

E adormeço na tarde de um muro
Onde me sonho eterno viajante  
De mochila calções e bibe

Vou dentro de um comboio
Com a vida a fazer-me companhia

Conta-me uma lengalenga aborrecida
“Será sempre presente
Até envelheceres
Até morreres
E voltares a nascer

Para voltar a morrer
E nascer
E morrer
E nascer
E morrer…”

E conta-me que “Só se vive uma vez.”
Convido-a, sereno,
A sair na próxima paragem.
Ela diz-me que não pode sair sem mim
e só resta uma estação.

23 de nov de 2011

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Um copo de vinho bom e um aquecedor metálico, daqueles que parecem cortinados de tiras; por cima, um tacho de água com folhas de louro para purificar o ar – um truque aprendido com um desses génios vivos que ainda dão entrevistas e fumam muito. O resto é rotina. Escrever como se amanhã só cá estivesse um resto de mim, uma pele de gordura amarela e uns bons quilos de carne que será uma pena não dar frita para um canil. Que fazer? Nem essa última vontade me respeitam! Que belo e macabro cenário! Os seres humanos frios de terror, os cães de barriga cheia, lambendo o focinho, serenados a um ninho como pequenas jiboias. E eu, como agora, rindo-me sinceramente. Num fungo, primeiro. Em vários fungos depois, até me abrir numa gargalhada larga que daria por certo às costelas um tempero especial…

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22 de nov de 2011

Em resposta ou sublimação do post "Era um país sem gente que por isso não era um país mas um deserto abandonado..."

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Pois é, meu caro amigo. Bem precisávamos de uma juventude activa, não só para trabalhar ou ser o motor da sociedade, mas para ser também o coração dela. Esse foi sempre o seu papel mais relevante – ser o coração! Confrontar os mais velhos, exigir deles a humanidade que o tempo lhes parece roubar. Um filho adolescente quer-se revolucionário, defensor de causas, quer-se indignado contra a guerra e a fome no mundo, quer-se solidário para com os mais desfavorecidos. 

Com o chamado ‘fim das ideologias’ (esse chavão agrilhoante à defesa de nada e à sujeição a tudo) e os ‘estímulos à competitividade’ como género de virtude (a promover quem melhor trepa pela coluna dos outros) não é de estranhar que os jovens se sintam perdidos. Porque estão. Estão os jovens e estão os adultos. Também eu me sinto perdido e mais perdidos se sentirão aqueloutros cuja ‘competitividade’ atirou para o caixote dos iogurtes em fim de prazo ou fora de validade.

Não, amigo, não és Jonh Lennoniano! O mundo é que deixou de ter coração para a música! Como tu disseste (e muito bem!) “com a economia em cima a empurrar tudo para baixo” e a meter num trolley para despachar. Não fomos nós que desgraçamos o nosso país e o mundo, ainda que nos façam sentir isso. Meteram-nos num jogo de Monopólio com promessas de prosperidade e fortuna e todos achamos muita piada aos dois contos de passar na Casa Partida. Ficam-nos aos poucos com a Companhia das Águas e Electricidade, com as Estações e não falta já quem deseje uma saltada à Cadeia para se redimir de males maiores. Quando lhes pedimos satisfações sobre o jogo, dizem-nos que é preciso fazer sacrifícios, que foi preciso ter Sorte. Queremos mudar de jogo e não pode ser. Agora é preciso ir até ao fim! Chegamos ao fim. Basta deste jogo! Falimos, perdemos, ok. Vamos mudar de jogo! Não dá. Isto afinal não era um jogo. Perdeste tudo, vais continuar a perder, mas ainda é preciso amealhar-te esses dois contos de renda de cada vez que passas na Casa Partida. Estás mesmo chateado e queres sair daquilo. Não podes. Vendeste a alma ao diabo e não há nada que te deixe saltar daquele vagão infernal! A não ser que…

… 99% dos jogadores se canse a sério e diga: “Ok, ladrão, passaste-nos por cima de todos os valores e, por isso, vamos dar-te o último privilégio de nos poderes chamar caloteiros para o resto da vida. Estás mais rico do que alguma vez sonhaste, banha-te nisso! Mas não vamos mais jogar o teu jogo!” 

Depois disso, é preciso começar do zero. Unirmo-nos como uma família, trabalharmos cada um 8 horas por dia e, dessa riqueza ajuntada, ir pondo de lado um dízimo que sustente o que, por nós próprios (como seres humanos e não como números!) somos incapazes de providenciar. E isso, como nos ensinou Agostinho da Silva, é Saúde, Sustento e Saber. Eu acrescentaria a esses três ésses - a Justiça. Mas Justiça a sério, daquela cega que não levanta a venda para piscar um olho; Saúde porque não podemos todos ser médicos e enfermeiros de nós próprios; Sustento porque seremos um dia velhos e precisaremos de comer na mesma. Sustento também pois que adversidade aí virá? Não sabemos. Que catástrofe natural nos levará num lanço de vento a casa e a roupa, a comida?; Saber porque não somos suficientemente capazes de, por nós mesmos, inventar o que é preciso ou ensinar aos filhos tudo aquilo que eles queiram aprender para fazer. Por muito que o quiséssemos, por muito cultos que fossemos, nunca seríamos capazes de lhes ensinar todas as artes e profissões. Quando muito, ensiná-los-íamos a ser o que nós fazemos ou quisemos ser.

Quanto ao resto, temos que descentralizar o sistema e restaurar o espírito associativo. Privilegiar a honra e valores como a dignidade e o respeito pelo próximo (trabalho hercúleo, sobretudo caseiro).

É utópico? Bem sei que não. Utópico é continuarmos a manter um bando de pançudos monopolistas que nos cobram 3 euros por cada voto, por ano, mentindo-nos com quantos dentes têm mais um saco de próteses, e chamando a isso Democracia! 

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Era uma vez um país sem gente que por isso não era um país mas um deserto abandonado...e só (sobreadjectivação pleonástica à moda de Paulo Portas).

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Escrevo numa tentativa de desprender um nó de garganta, talvez até com mais coração que cabeça, embora não considere patético o que quero dizer.

Eu, como muitos, cheguei a um ponto na minha vida em que quase tudo me “força” a emigrar: “vai enquanto és novo, se eu não tivesse tanta coisa a prender-me também ia”. Diariamente vejo gente que vai, e gente que já está a preparar as malas. Eu como tantos outros não consigo encontrar trabalho nas áreas que gosto, e vou-me sujeitando ao que há, enquanto luto pelo que gosto. Num país que parece não perceber o real significado de educação, cultura, saúde, justiça. E a economia em cima a empurrar tudo para baixo. É provável que eu também chegue a emigrar, chamar-lhe-ia antes, escapar-enquanto-é-tempo. Porque isto está a desabar, e eu a desabafar. No entanto devíamos todos estar imensamente preocupados. Teremos consciência de que se não lutarmos para motivar a nossa camada jovem recém-formada, teremos destruído todas as reais hipóteses de mudar o estado da nossa terra? Não é pela formação como facto isolado, é pela sua aliada juventude… perdida, sem voz, sem revolta séria ou gestos calados que mudam coisas. Porque é essa geração que tem a maior fatia de mudança possível. A população cada vez mais envelhecida sem dinheiro e sem energia, as cidades e vilas cada vez mais envelhecidas, vão precisar da reforma as pessoas e os lugares. Quem está reformado vive do que descontou e sabemos que é real o risco das reformas minguarem até descerem ao estatuto de esmola. Uma esmolinha para quem descontou a vida toda, dada como se fosse a um cão. Pois para que tal não aconteça é necessário que uma nova camada de trabalhadores activos exista.



É tão simples como isto, e não sei para que me alonguei tanto:

Se formos todos embora, Portugal ficará ao desbarato, enquanto todos continuam calados à espera que a crise passe, como se fosse uma questão de metereologia. A crise não passa se não for encarada como mudança feita por homens, e mais mulheres. Mas não há sinais reais de mudança. Os políticos acusam o nosso consumismo, sabendo no entanto quanto das suas politicas nos enredou nisso, enquanto os comerciantes acusam a nossa falta de consumismo.

Sei que o problema é sério, que resolvê-lo é difícil, e que estamos todos cansados. Sei que pareço um pouco John Lenniano ao pensar numa união que mudará tudo, mas caramba não é o país que não presta, somos nós que não o estimamos. Se for tudo para o Brasil, Suiça, USA, Luxemburgo, Inglaterra, Angola…Portugal fica sem gente, como já aconteceu no passado e teve consequências desastrosas, quando o país quis ser o mundo inteiro e ficou sem gente suficiente para tornar a sua terra de origem operativa e sustentável.

É preciso ideias… é um facto. Só nós é que podemos encontrar e materializar é outro. Para as materializar é preciso ser muito forte e passar por cima de muita merda é também um facto. Parece-me também um facto o facto de que as coisas só mudam se houver gente interessada nisso. Não são certamente os actuais donos do poder, pois em breve esses terão a sua reforma assegurada, e que reforma, ou um alto cargo numa empresa, e porque será que isso acontece todos sabemos. É uma pescadinha de rabo na boca que só nos podemos cortar a meio.

P.S. (post scriptum entenda-se) Por favor deixemos de fazer comentários do tipo: “eu não percebo nada de política, porque não me interessa para nada”, como se fosse uma virtude. Pode não ser defeito, mas seguramente não é nenhuma virtude, até porque parece-me que só torna as coisas mais fáceis a quem se aproveita delas para nos roubar.

P.P.S. Isto não é uma crítica a quem emigra, eu sou o primeiro a ponderar o mesmo, é antes um desabafo, uma vontade de que nos ajudemos a encontrar soluções, antes que todos escapemos-enquanto-é-tempo.