30 de dez de 2011

Para o novo ano

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Vou sapatear por aí
Na calçada dos dias
Desprender ritmo
Nas pedras duras do tempo.

O meu assobio
Será de um alegre comboio
Dentro do sol de Inverno.

Acredito
Que a glória me visitará
Em todos os dias
Da minha doença.
Contando-me as maravilhas do mundo.

Tudo farei para abrir mais os olhos
os ouvidos
a boca
o nariz
a pele
a cabeça e o coração. -

Para que entrem tudo e todos
- o bom e o mau disfarçado de bom-
Num banquete da alma sem congestões,
Pressões e depressões,
Apenas agridoces insatisfações, medos e paixões.

Saiba eu
Matar e ressuscitar a fome de vida todos os dias.
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20 de dez de 2011

Búzio de luz

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O meu sol é a memória de uma janela com luz
A que um búzio de calor assobia…
E entra pelas frestas de frio como um aquecedor ventilador de baixa potência
Ou um prisioneiro que se traz moribundo…

O meu sol é terno!
Faz sentido quando chove
E tropeça no céu como as crianças…

O meu sol é manco como uma criança deficiente
Desfilando de muletas na festa de Natal da escola,
Fazendo toda a gente chorar…

O meu sol gravita à noite, a esconder-se da lua,
E mija-se a rir contra os muros da errância…

O meu sol é um doidivanas que lava as mãos
E se deita em conchinha
Quando o outro se levanta…

O meu sol é negro e ri-se disso!
Mas abraça as nuvens
E raia-se no cabelo escuro delas…

Tenho, à custa do meu sol, marcas nos ombros,
Gotas sinceras de ácido clorídrico a escorrer-me no peito…
Almas doridas como tatuagens
E um jeito de lamber lágrimas que a ninguém arranca infelicidades
Mas que faz sorrir,
Porque é tosco…

O meu sol é uma fogueirita de Novembro que não dá nem para assar castanhas.
Mas o meu sol é só meu!
É meu!
Inventei-o porque não existia
E quase morri sem o ver…


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19 de dez de 2011

a casa

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a casa
aberta ao Inverno
,sem medo da chuva e o cigarro entre os dedos,
Conta-me que os dias
são apenas brinquedos.

Pela sua porta entro com alegria e um princípio de medo.
Nas sombras da luz,
Há sempre um segredo.

Atam-me à casa uma correria de crianças.
Soa a dança de um salão,
Cheira a terra molhada e tarte de maçã.
Há um sono de gato num sofá.

No cabide da entrada
Penduro o cansaço
Inspiro fundo
suspiro profundo
E avanço no espaço.

Escorre magia líquida pelos salões.
Os velhos ensinam os novos
A arte de ver,
Pelos olhos de outras televisões.

Vejo relógios: são casas abandonadas
Pelas horas que brincam lá fora
aos cavalos selvagens.
Ninguém as chama para dentro,
Nem para almoço, nem para jantar
Nem para dormir, nem para acordar.

Percorro tudo
Com passos delicados
Como quem teme
Que o resmungar do velho soalho
Me desperte de um sonho.

Encontro na cama de um quarto
Uma mulher nua com quem me pareço
Dispo-me e deito-me
Amo-a e adormeço.
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16 de dez de 2011

Dia

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Acordo sempre nu.
Não há tecido que me pese
No desdobrar dos dias.

Em cada despertar
Choro
Como quem quer respirar.

Abro a janela.
E o mundo
É. para mim.
Harmoniosa dissonância
Escondendo seu fim.

Navego o dia
Com q.b. hipótese de naufrágio.
Torpe jangada de poesia!

Pelo descaminho
Descubro ilhas desertas
Onde me ecoa a voz,
E territórios povoados
Onde a vida não tem nós.
Sou em multiplicidade…
adulto criança velho
aldeia vila cidade.

À noite creio que adormeço.
e morre uma borboleta ou uma simples traça.

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15 de dez de 2011


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I wish I was a rock star,
Sliding trough the bright lights
Just for a bigger fall…








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14 de dez de 2011

Bonjour tristesse

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A tristeza acordou com a fome
De quem esteve a hibernar
Lambia-lhe os ouvidos
um mundo cão a definhar

Caminha pelos dias
A quem chama de compridos
Entre as horas ajoelhadas
Para a esmola dos mendigos

Educada por boas famílias
Cumprimenta todos na passada
Os que vêm no seu sentido
E do outro lado da estrada

Muitos lhe dizem boa noite
E bom dia pela manhã
Aos que não a cumprimentam
Ela diz “até amanhã.”

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13 de dez de 2011

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Não explico os meus poemas ou o que escrevo!
Ainda que eles sejam óbvios, não faria sentido. Posso, se quiserem, explicar-vos o caminho que fiz: as íngremes ruas que desci com pés de marioneta ou subi arrastado por fios de linho e néon

É diferente o rio Douro quando nele se vê um abismo possível ou a luz que ele serpenteia à noite se vê do chão com um pé na cabeça. A beleza dele não enche de lágrimas quem nele se viu quase assassinado por animais semelhantes. Talvez as ruas de Paris, de Montmartre, gozem também desse romantismo sobre-humano de procurar na errância uma cura para a dor. Uma dor que inventa braços para se doer mais e mais longe e que, quase sem querer, abraça o mundo.

De que valeu a Van Gogh ter cortado a própria orelha? De que valeu ao maior génio da história universal ter feito a si um mal ainda maior? Morreu! Estupidamente (talvez) no seu mundinho fechado, pedindo a Deus perdão por ser quem era, fustigando-se (talvez) por nunca ter conseguido abrir as pernas a uma prostituta que ele amava e onde queria sepultar todos os beijos…
Talvez!

Confiai em mim quando vos digo que o maior génio da humanidade morreu incógnito! Que o mais pacífico dos homens morreu sem prémio Nobel, ou a saber o que isso era! Que o maior fodilhão da história sofria por isso e não se gabava…

Que o melhor escritor era analfabeto!
E não sabia como, numa leira de terra, ajoelhar as suas sementes…

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12 de dez de 2011



Fui apanhado a fazer amor
À luz do dia!

Que querem?
Gosto de amor com a luz acesa
E odiar no escuro…


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