26 de out de 2012

O Emigrante das Sensações



Nas tuas mãos de prata, amor, eu deponho o meu coração vencido
E parto!

Parto sem olhar para trás,
Como se nas costas do casaco de couro a luz me empurrasse para um universo francês
Apátrida

Desmemoriado de história e de futuro, ao cimo da rua
Num quase silêncio que arranca à boleia, para sempre, como todos os ruídos que se desvanecem
Ou como os automóveis a que não prestamos devida atenção e que, muito possivelmente, desaparecerão também para sempre dos caminhos por onde riscamos as nossas vidas em fórmulas matemáticas,
Parto-me…

Olhando para o que de mim resta,
Para os cacos de bibelot sem tempo de se compor ou colar,
De se remediar,
Deito ao chão tudo o que fui como quem está com pressa para ir de férias, inebriado pelos aromas de um protector solar.

Ao fim da tarde,
E já em terras de Espanha,
Sepulto o coração em pensamento nas tuas mãos de prata,
Onde à sombra do estandarte mais formoso do meu país
Ele possa bater e medrar como um texto perdido
Ou apenas órfão de pai…

Perdoa a herança
Mas não há outro país onde tão bem a dor se vele
Senão onde a Saudade se alumia a si própria…

Levo comigo os vícios
[sempre se levam os vícios em viagem, ainda que para trás fique uma gaveta cheia de boxers]

Vou para onde comece a vida quase de novo, com um cigarro de avental atrás da orelha para fumar nas traseiras de um restaurante, aquando de ir levar o lixo…

Não me procures!
Chorar-te-ei várias vezes no balcão dos bares, provavelmente aos sábados,
Quando uma data qualquer me vier lamber uma orelha

E amar-te-ei sempre e também o nosso país
Porque falhamos os três!


22 de out de 2012

a fábula da vila das casas desfeitas

(a partir do poema Gacela de la Muerte Oscura, de Federico García Lorca)

as luzes não souberam que a noite havia chegado,
os homens não souberam fechar os olhos cansados
e foi assim que o medo se apropriou da nossa vila,
cavalgando, irascível, por entre muralhas desabadas,
batendo à porta de casas desfeitas por sonhos autistas.

as palavras não encontraram o nosso sentido sublime,
as camas continuaram feitas de lavado, fogos-fátuos,
onde renasceram em segredo os nossos negros outonos.

o mundo fechou e baixou um pano negro sem estrelas
e nós tentámos brincar às escondidas com o medo.
mas ele, dormido durante quentes dias, soube que nós,
decretos e manias, éramos ainda crianças de mãos sujas,
não pelas brincadeiras mas, agora, pela lama da mente.

o nosso corpo é o armário onde nos trancamos
no escuro. nos tremores. no outono. outra vez.

sempre.

dentro do medo somos um cometa gélido.
dentro de medo a razão é carne pútrida.
dentro do medo somos a morte a respirar
e as desertas ruas onde o tempo se deita e prolonga;
e os inundados tanques públicos com vida desbotada da verdade;
e as pisadas casas por um sol canonizado e perfeito;
e os parados carros ao passar de um comboio fúnebre em chamas.

o pesadelo não acaba e a fábula não tem a moral prevista.
cada letra deste poema é um medo que pede olhares vagos.

mas lê-me até à última palavra
porque nela nada encerra,
nada morre,
tudo pode ser reavido,
mesmo que perdido estivesse de antemão.

o teu olhar tem um mundo inteiro.
viçoso e válido, livre de bicheza e sem proprietário,
para plantares nele o sonho das maçãs
- venenosas para a gazela da morte escura.

acorda e vislumbra!
tocámos terra segura: Esperança.

21 de out de 2012



Tu magoas-me na realidade virtual
Onde a dor do corpo começa nos olhos,
Onde a música e o espasmo acendem pequenas fogueiras,
Onde um fantasma dança no ar do cubículo real.

Há esperança numa cara que adormece absorta
Num vídeo que vi na Internet
E há de tudo numa expressão que chora
Quando nela queremos ver as nossas próprias lágrimas.

Há um jogo
Que se brinca na garganta
E que é por onde a comida passa e o vinho faz o seu caminho natural
Que torna o pescoço no centro de tudo…
Do coração que esgana,
Do cérebro que desata nós com fórmulas matemáticas,
Dos passeios de faca em carrossel…
Há de tudo num sonho
Quando a predisposição para sonhar é inconsciente
E a máquina sobe ou desce
Conforme as escadas que tem de cumprir.

Viver
Dar um passo, vários passos
Deixar sem olhar para trás um casaco…

Começar a correr e a sorrir
Na estrada…

Sem estrada!

Desapertar a camisa
Ganhar impulso
Sorrir mais
Cortar o ar com laivos de faca
Gargalhar…

Morrer gasto na valeta
Como um cão atropelado sem o devido enterro


Uma saraivada de palmas



Passando por um circo de província, abracei um palhaço que não parava de chorar nos bastidores
A cada saraivada de palmas, a vir de dentro da tenda, ele chorava mais
E agarrava com mais força a roupa que me cobria as omoplatas
E chorava no meu ombro
Chorava muito

Acalmou-se depois
Sentou-se numa grade de cerveja vazia, acendeu um cigarro e ficou ali a fumá-lo como quem vela, resignado, um cadáver

Tudo isto decorreu sem palavras, sem uma única palavra. Minto. Disse a meio da cena um ‘então?’ apenas…

Ele apagou depois o cigarro no chão com aqueles sapatos gigantescos. Não pude deixar de reparar que o fez, não com a ponta do sapato, mas onde por dentro dele o pé tinha mais firmeza. Senti-o aí, humano

Fez um gesto, uma espécie de ritual, penitência ou contrição, pegou na mala e entrou na tenda
Acolhido por uma saraivada de palmas e gritinhos de crianças

Eu continuei o meu caminho
Sem expressão,
Sem pensar

Enquanto me afastava dali
Ouvi na tenda tiros de metralhadora
E gritinhos de crianças

Eu continuei o meu caminho
Sem expressão,
Sem pensar

Uma nova saraivada de palmas
Eructou distante pela boca da tenda

Eu continuei o meu caminho
Sem expressão,
Sem pensar


19 de out de 2012

energia excedentária



às vezes, em noites perpetuadas,
olho para todos estes poemas,
mesmo para aqueles que já suprimiram o seu grito,
fantasmas nómadas numa terra abandonada,
e observo-lhes os contornos, as cicatrizes,
e, nesses momentos, não sei bem o que lhes dizer.
leio-os, sinto-os outra vez,  mas não tenho palavras,
conceitos que os tranquilizem e os façam dormir.
há instantes, os meus fantasmas exigiram uma pátria,
sepulturas ornamentadas para os seus corpos de éter.
perguntaram-me em que corrente se enquadram.
esbocei um sorriso exterior e quase imperceptível,
mas senti o embaraço nas têmperas,
as mãos subitamente trémulas
e, por dentro, o peito a bombear sangue demasiado rápido.
envolto no silêncio duradouro e perturbador
que caiu cerrado após aquela pergunta,
senti a razão e a lógica, cada uma apoiada na sua bengala torta,
a olharem para mim com um trejeito trocista;
o meu demónio interior a dizer-me não sabes nada de nada
e, em seguida, a dizer-me elas também não sabem nada de nada.

uma corrente, uma corrente, uma corrente.

eu preso, acorrentado, perante um sol inquisidor
que me queimava o corpo. brasas dentro de mim.
ferros quentes, manipulados talvez pelo meu demónio.
tratava-se de uma questão perfeitamente legítima,
ainda que injusta, que eu deveria ter antecipado.
percebo a necessidade, o conforto inerente a um rótulo,
e não condeno nem a pergunta nem o tom grosseiro
nem o dedo em riste com que a mesma foi proferida.
perdoo-os por isso, pois eles não podem perceber,
eles não fazem ideia da hiperactividade do meu demónio.

poderia ter facilitado as coisas,
ter respondido realismo mágico com um tom grave e solene.
esse seria, sem dúvida, o caminho mais conciso
para simplificar aqueles e este poema também.
o problema que se eleva é que a poesia não tem direcção,
não é uma estrada pavimentada e devidamente iluminada;
é, antes, distorcer os nossos lugares, plantar pomares ardentes,
esquecer o nosso tempo, os nossos propósitos individuais,
e, às vezes, esquecer os nossos próprios nomes - letras doentes;
é atravessar a terra por dentro;
é partir de um de um dos pólos do planeta,
esquecer o sol, contaminar o solo,
e sair no extremo oposto;
é passar os mortos, e ajudar um ou outro que se ergue;
é passar as camadas de terra de eras passadas e só parar para mijar;
é entrar nos infernos, na semente do pecado embrulhado em magma,
agarrar um demónio irrequieto e tentar o regresso.

e quando, na outra ponta do globo, 
voltarmos a olhar o mundo exterior, 
a noite,
perceberemos que o céu já não é o mesmo,
as figuras compostas de estrelas são outras,
e continuam a não haver caminhos certos,
continua a existir o espaço negro no céu a separar as estrelas.

há o frio exterior a envolver-nos
e o calor do demónio a manter-nos vivos,
a oferecer-nos um copo de veneno
e depois, ao longe, a mostrar-nos a cura.
             
[acabámos por não perceber quais são os nossos motivos!...
dá-nos uma definição - uma cama de feno!
diz-nos qual é o nosso peso e qual é a nossa altura!]

o vosso peso é nada, a vossa altura é nada.
a vossa corrente é o vento e, se vos perguntarem,
dizei que sóis a energia excedentária de uma central eólica.

7 de out de 2012

Tão dentro de mim


Tão dentro de mim
A cidade era deserta
E eu passeava como um semi-deus solitário
Ou anjo de trejeitos macios…

Em toda a parte, arquivos
E buracos de se pôr lá ideias concretas, como coisas
E amores formalizados, sonhos,
Fins de vida sossegados
Cadáveres…

Para tudo havia um sítio onde se pôr qualquer coisa
E tudo cheirava a morte
E tudo era nauseabundo como um cortejo funéreo de caixões mal selados
Tudo era uma realeza em que,
Se ali houvesse espécimes,
Talvez cães se aninhassem à passagem de um indivíduo.

Tão dentro de mim mora uma cidade onde me sinto claustrofóbico.
Tão mais dentro dessa existe uma outra
Onde por uma janela, a lua espreita singularmente
O cabelo de uma criança que dorme
Com a testa suada
E a acha feliz…

No sonho dessa criança,
Que sonha estar à janela a ver o mundo,
Há um bêbado que se deixa cair sobre os papelões do lixo
E aí se rebola entre caricas de Martini e borras de café
Até achar uma posição confortável para dormir…

Esse bêbado sou eu!