22 de out de 2012

a fábula da vila das casas desfeitas

(a partir do poema Gacela de la Muerte Oscura, de Federico García Lorca)

as luzes não souberam que a noite havia chegado,
os homens não souberam fechar os olhos cansados
e foi assim que o medo se apropriou da nossa vila,
cavalgando, irascível, por entre muralhas desabadas,
batendo à porta de casas desfeitas por sonhos autistas.

as palavras não encontraram o nosso sentido sublime,
as camas continuaram feitas de lavado, fogos-fátuos,
onde renasceram em segredo os nossos negros outonos.

o mundo fechou e baixou um pano negro sem estrelas
e nós tentámos brincar às escondidas com o medo.
mas ele, dormido durante quentes dias, soube que nós,
decretos e manias, éramos ainda crianças de mãos sujas,
não pelas brincadeiras mas, agora, pela lama da mente.

o nosso corpo é o armário onde nos trancamos
no escuro. nos tremores. no outono. outra vez.

sempre.

dentro do medo somos um cometa gélido.
dentro de medo a razão é carne pútrida.
dentro do medo somos a morte a respirar
e as desertas ruas onde o tempo se deita e prolonga;
e os inundados tanques públicos com vida desbotada da verdade;
e as pisadas casas por um sol canonizado e perfeito;
e os parados carros ao passar de um comboio fúnebre em chamas.

o pesadelo não acaba e a fábula não tem a moral prevista.
cada letra deste poema é um medo que pede olhares vagos.

mas lê-me até à última palavra
porque nela nada encerra,
nada morre,
tudo pode ser reavido,
mesmo que perdido estivesse de antemão.

o teu olhar tem um mundo inteiro.
viçoso e válido, livre de bicheza e sem proprietário,
para plantares nele o sonho das maçãs
- venenosas para a gazela da morte escura.

acorda e vislumbra!
tocámos terra segura: Esperança.

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