26 de ago de 2013

a prece do assobio


uma flauta celta anuncia a tua onírica chegada.
pelos campos e escarpadas onde florescem e morrem homens,
propaga-se uma melodia harmónica que suplanta o canto das pássaros.

os dias que saboreámos juntos, como se rebuçados fossem,
são o paladar que ainda hoje me envolve o músculo mais fraco.
és a linha do horizonte que bebe o sol e alavanca a lua.

a noite recheada de estrelas vai sangrando luz.
escrevo. penso enquanto escrevo. paro. o tempo passa.

o brilho do teu significado trago-o na lembrança, a quente,
como o sol que aquece os corpos em agosto e os incendeia.
a mudança de estação é cruel para a nossa noção do tempo.
pára! estes motivos, pode ser que alguém os leia.

o teu corpo existe. longe. podes estar a dormir, podes estar a rir,
podes estar a fazer  mil e uma coisas, e algumas não as imagino...
resides nos meus pensamentos, nas possibilidades, nesta noite.

sou a Lua ,com a luz esbatida no rosto.
sei que numa era por anunciar terás o sol todo bebido
e trarás um dia novo pronto me abraçar.

porque tu és a palavra. és a vida. és eterna. és agosto.

 

15 de ago de 2013

15 de Agosto


O vazio de emoções faz-me olhar de uma ponta à outra do espaço - de uma porta à outra, de um interruptor ao outro, de um suspiro ao tédio… e tudo pelo meio é um excesso desnecessário onde me encontro a perfilar magias.

Os cães ladram a nada como a pôr o sentido deles às coisas; um helicóptero dos incêndios atravessa a coroa de eu estar pensando em sons para apagar um fogo algures; O mundo arde com ginásios de gente a suar para emagrecer, mas nada é tão castrador ao espírito como a lengalenga das procissões. Cantos de Maio em Agosto desmaio…

Toca o sino amiúde e sobem ao céu foguetes a arder mais na tarde, já de si cansada e febril. Os miúdos passam a ferro o vinco nas mangas dos pais por uma pistola de fulminantes, rasgando-lhes a determinação ante o depor aos pés da virgem santa um ramo de flores. Coitada! - bem lhe compreendo a expressão! - fustigada em Agosto por choramingas e sobre isso um calor de velas…

Os miúdos quedam-se de braços caídos a olhar para cima os pais e ficam tristes também porque eles choram em silêncio. E só depois o algodão doce, o bailarico proporcionado pelo teclista em cima da camioneta; os adultos dançando com solenidade uma inenarrável brejeirice à porta da igreja; o padre novo esgaravatando as golas da batina com um esgar enérgico de calor entre os sorrisos; o padre antigo, postado ao sol com a sobranceria de uma coluna dórica, esquecido para a agressividade dos elementos, fulminando com o olhar… ora desaprovando o refustedo nas palavras do teclista, ora a pôr freio no rebanho tresmalhado. Ambos tão desvirtuando os ensinamentos de Cristo como ofendendo a Deus, nosso senhor…

E as crianças também, - diabólicas! – correndo à frente da igreja, fintando o bulício e a apanhar coisas do chão como andorinhas a catar primaveras, inocentes de benzedura...





5 de ago de 2013

O mais miserável herói


os pássaros da minha terra têm a liberdade rasgada,
tal como este povo, que os fita como fátuas velas.
são agora estátuas de memórias dissolvidas em nada,
levadas pelos mares onde se danaram caravelas.

é verdade! permanecem conservados os versos ainda,
que esta terra elevaram corrompendo clássicas epopeias.
triste sina cantar a pátria, o rei decrépito e a sua vinda,
mas a isso condena a fome e a necessidade das plateias.

somos talvez o mais miserável herói que a literatura conhece
pois, mesmo apesar dos golpes, em nós a revolta não cresce.

pela perfídia do orgulho necrófago, Lisboa está morta!
não a cidade! essa pouco importa!
(pois que viva, se do estrangeiro obtiver concordância!)
o que morreu foi a esperança,
de lonjura em relação à substância.

pode ser que um dia retorne Ulisses e nos pague a fiança…