28 de mar de 2015

Caderno de contas

Duas pernas mergulhadas no rio
agitam a calma do sol a morrer a Ocidente.

O amor não é mais do que isso:
duas pernas irrequietas que brincam,
remexem a água e tocam a lama,
o fundo,
onde estilhaços de garrafas quebradas nos cortam os pés,
enquanto as mãos ficam livres para lançarmos pedras ao rio
e os olhos ficam atentos à contagem do número de ricochetes
que anotamos no velho caderno quadriculado
onde multiplicamos todas as divisões que o mundo nos fez.

1          2          3          4          5         
6 saltinhos x 1000, vi eu,
e afundou-se a pedra filosofal à sétima milhena que beijou a água por nós.

Julgo que isso tu também viste…

O amor é infantil.
É uma merda pequena quando cais ao rio
e não és tu a tua própria foz.

Ao chegares a casa encharcado e triste,
nunca sabes muito bem como te deves explicar.

- Ainda na semana passada te pus a razão a secar – diz-te a tua mãe,
zangada e consciente das tolices que o mundo produz e reproduz.
Porque as mães são assim e aborrecem-se com merdas pequenas.

Em seguida, tomas um chã quente, anoitece e tentas dormir
ainda escutando os rumores das águas.

O rio continuará sempre lá,
tal como as pedras e o teu caderno de contas,
e provavelmente, com sorte, ainda terás pernas e mãos quando acordares,
basta não despenteares a infância toda nestas noites de inverno.

26 de mar de 2015

Oras Mortas



Somos como doidos
e dançaríamos interminavelmente até nos doerem as solas dos sapatos
E os sapatos se confundirem
E a gente se pisar

Não são horas para se pensar nisso –
a luz do vermelho já acendeu
E é audível
a pulsação do relógio

Odeio relógios

Abomino todas as horas da minha existência
Exceptuando salvas e horosas excepções
Em que me salvei de morrer afogado
No real de pedra ao sol
e ao sal

Hordas de sonho
Onde sou livre
E me sou livro

Hordas de galáxias e planetas
Carambolado sóis entre si
Luas como bolas-extra…

E sou nada
Absolutamente nada.
Resto para o infinito aquilo que a terra é
Para quem faz cimento

Não encontrei meu lugar no mundo –
Já estava ocupado quando nasci –
E de pouco me valem as quintas que tem meu pai…

Valho-me em ser miserável por condição
Gasto como herança em mão alheia
Tornado isto…

Onde amanhã o tornarei a ser

Mais ou menos a esta hora.

5 de mar de 2015

Acho que nunca disse porque gosto de escrever. Não creio que mo tenham perguntado ou o tenham posto assim, taxativamente. E isso diz muito da minha escrita ou talvez diga ainda menos. Não que isso faça diferença alguma, ainda que faça toda a diferença, como de resto tudo o que importa na vida.

A gente ama e perde-se e purga-se e
volta a amar.
Dá uma volta na rosa-dos-ventos e acha-se burra
infantil
deseja nunca ter dito uma coisa
nem ter feito uma série delas
que em suma é ter dito muito pouco
e ter feito muito menos do que se devia -
que é ter sido louco
e enfrentar a idade com um sinal de visto,
de corpo gasto
usado.

Lamento o que não fiz com doze anos
com dezoito
com vinte
com vinte e três
aos vinte cinco
vinte sete
trinta
aos trinta e três
à idade que tenho e não gasto.

Sou
assumidamente
um forreta existencial!
Lamento o dinheiro que gastei em impostos
e os votos que depus em outrem
para que tomassem decisões por mim.

O que deveria ter sido
nunca fui
Nem durmo as oito horas nocturnas que o meu corpo pede.
Cansa-me deitar à cama o corpo cheio de nada
sem que use das palavras para o esvaziar de tudo
completamente
e dormir um sono
em que dentro do sonho me ache dormindo,
esvaziado.

Sou magro, relativamente.
Não tenho com a beleza diatribe
senão com quem a tendo se vende.

A beleza abunda, nos dias que correm
de mão dada com a mediocridade
e me enlevaria cantar uma ode às putas do século XVIII
que eram de raíz menos putas
que estoutras que o mundo aplaude
em revistas.

Escrevo para me deitar bem.
E deito-me tarde.
Deito-me quase morto,
lavado,
E acordo sujo, doente,
como a roupa que dispo e deixo
para alguém lavar.