4 de mar de 2012

Onde poderia ter falhado


Onde poderia apenas ter falhado
Fui horrível!

Onde o universo abria para nós uma autoestrada e os braços
Eu vi um atalho,
Um resto de razão onde estacionar a vontade de percorrer-te
Para te não acidentar…

Puxei de uma última baforada de fumo
Como se nela concentrasse o mundo todo e as suas feridas
Todas as doenças, todos os cancros, toda a dor…
E,
Guardando-a para mim,
Como um louco que abriu a caixa de Pandora
Fugindo apenas com a Dor numa mochila para fazer canções,
Acelerei sobre o morro na valeta onde a responsabilidade fazia uma curva…

Esbaforido em câmara lenta,
Em luz, em sonho, em liberdade,
Com um piano nos ouvidos
Periclitando em pezinhos de lã nos agudos...
Caí ridiculamente como um brinquedo menor
Com as rodas para o ar…

Ameaçou o céu, nos dias seguintes,
Um clamor que previa trovoada…
E o sol no cemitério parecia cansado, extenuado…

Choveu depois, talvez
E aquela música alegre do Benny Hill
Fez de novo o mundo rodar…


.

Somos um bairro a arder
Eramos já um excesso de luz,
Mas só quando as chamas
Lamberam
a padieira dos nossos olhos
fomos o bairro que ardeu
nesse primeiro verso,
onde eramos, ainda,
um bairro a arder
Porque o desejo nasce
Ao ver-te
Vive no querer-te
Morre no ter-te
E o coração pulsa por um simples respirar
Quando o desejo
Já não alimenta o sonho
Nesse império de sonhos
De quem ama as nuvens que passam
Como amava o Charles…
…Baudelaire.
.

2 de mar de 2012

Um copo para terceiros


Deixa-me pôr na mesa um copo a mais
Não venha, por caminhos transviados, um louco tocar-nos à campainha -
Ou um espírito –
Encher-nos de receio a mesa com alegria…


A Knife (considering revision)


I can’t be loved because I’m a knife
And you want a slice of me…

You may rejoin watching me
Dancing trough lavender fields
Like a foreign lover…

You may find a perfume in my skin
That I always had,
A bit of glamour,
A distant solitude that rimes with sunset by the sea
While eating escargots or seafood…

And I’ll be glad, you know
Overwhelmed…
Till one of my demons start whistling a requiem
By dinner time…

I’m a knife, my love
And I want to spoon you from your abyss
But I’m to damm scared to cut you in two…

You wanna spoon me too
As if madness could be extracted, like a fly,
From a letter’s soup…

But you can’t!
Stop being a Jane Birkin
I’m bitter because I have too…

I Love you!
But I’m just a cube meal…


1 de mar de 2012

Brasil


Há na música brasileira, particularmente naquela MPB dos mitos, um sossego melancólico que me põe ‘de bem com a vida’. Ares atlânticos (provavelmente!) porque noto isso também quando escrevo à beira-mar… ou tento, apenas.

Ora, essa volúpia de búzio, aliada ao eco distante de um pandeiro, faz para mim um tal sentido como conversar de família com tios estrangeiros. O Brasil não é o nosso país irmão. É os nossos primos e primas do estrangeiro! E nos parecem sempre mais divertidos e interessantes, muito graças a uma convivência social diferente. Nem melhor nem pior. Diferente, tão só. E eu, português, gosto muito de me imaginar em realidades estrangeiras como se, quase à socapa, me enfiasse sob o édredon dos sonhos alheios…

Não sei se isto será um reflexo ou apenas a minha criatividade infantil, calçando sapatos de adulto. Não sei. Mas divirto-me (contornando provavelmente a História) a imaginar que os portugueses, que por lá passaram há séculos, tenham infligido no código genético local, e em gostosas brincadeiras, um pouco do nosso fado… e de lá tivessem vindo, apenas, com um bolso de memórias transviadas e a alegria das ressacas.

Quanto ao ouro, que encheu apenas a mão dos ricos, não creio que tenha lugar nesta equação...


PS: A música original é de João Gilberto. Mas como a visão do post é também uma cover da História...