17 de fev de 2011

Navalhas


Ela vinha da noite
E cheirava à lona molhada das tendas de circo…
Provavelmente mais bebida do que eu,
Que acordara demasiado cedo para uns dedos de vodka.

Tinha um pequeno sinal no pescoço
Que se abrigava como um fedelho na sombra dos seus cabelos pretos
E que eu mirava obcecado sobre o jornal.

Assumiu cedo uma posição de controlo
Tomando sem fraqueza o café longo que lhe expunha aquele sinal à luz
E por onde eu perscrutava toda a sua fragilidade.

Era perfeita para o meu carrossel em curto-circuito
E contra-mão!

15 de fev de 2011

S/ título


Às malvas toda a cultura,
Nem as malvas sei o que são!
Fumo um cigarro apaixonado
Ao fundo do balcão.

Devia ter-te pedido pelo menos um número
Estou a dois passos de ti e não tenho coragem para voltar
Sob pena de me achares idiota!

És lutadora, uma mulher a sério!
Eu ando pelo mundo com uma lancheira de desgostos
Que se escrevem…

Sabes, eu amei cedo,
O amor humilhou-me.
E quem assim ama cedo acorda tarde e cobarde para se impor.

Pus sempre em mísula as mulheres que amei,
Num altar inacessível …
Que burrice!

Pôr-te primeiro em redoma
E abraçar-te depois.

Deveria dizer-te que estou gravemente doente,
Muito mal do coração.
Que ele me foge,
Que ele se evade,
Que às vezes nem o sinto
E quando lhe falo me trata com violência;
Que não posso dizê-lo senão a ti
Porque dele depende um bem-estar que o rodeia.

Que ele está fulo comigo por causa de ti!

Provei do teu desgosto
E ele era só mel na minha boca
Porque me falavas e sorrias.
Amei-te os filhos como se fossem nossos
E eu sorria de manhã para a escola com uma festa no cabelo e
Um beijo na cara.
Eles zarpavam numa corrida feliz e eu convertia aquele nó das gargantas
Numa força capaz de esmagar as pedras dos muros.

Dourava-me no sol destes pensamentos
Quando uma treva me tocou no ombro
E assobiou distante.
E me deixou descalço na tijoleira…

O meu perpétuo desgosto,
O músculo que me falta para segurar o alter da vida,
Um exército de macacos no sótão, fardados e alinhados,
Capazes de te morder os filhos nas mãos e nos braços.

Quem ama, protege!
E se estiver só de passagem,
Como tanta gente que ama em viagem,
Não deixe mais do que levou
Nem leve mais do que encontrou…

O crooner canta aos solavancos
O seu coração que ficou para trás em lascas
Como cascas de maçã…