16 de jan de 2009

Carta aberta ao Sr. Zerka

Caro Sr.
Escrevo-lhe obrigado à partilha de experiências pontuadas no trato das suas melodias trágico-irónicas, em particular àqueloutras clericais...
Eu próprio já experimentei as maravilhas que o vinho das santas galhetas pode proporcionar. Por alguma razão o padre da minha freguesia bebeu um petróleo dominical enganado. Soube mais tarde que, a caminho do hospital, teve de encostar para puxar um segundo grego que lhe incendiou as entranhas. Na rádio, "the Gasoline Man", dos Young Gods, regurgitou-lhe ódios musicais adormecidos. Não será, portanto, de estranhar que no domingo seguinte a homilia se centrasse na má influência dos ambientes e sonoridades roqueiras. Que bem me soube ouvi-lo! Palavras encorpadas, cheias e aromáticas, ligeiro travo, final longo e persistente que me fez revirar os olhos e lamber os beiços... Abençoado!

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Tou sim?... Tou?... TOU!... TOOOU!!!

De há uns tempos a esta parte, apareceu aqui ao lado (no Bestiário) a referência a um tal de Tónio Cuco e uma tal de Pinheirinha. Em relação ao primeiro, é bom que o indivíduo não seja mesmo cuco. Caso contrário, deito já as substâncias na pia… mas não deve ser. Esses gorduchos de bigode farfalhudo, que se exprimem no imperceptível dialecto do GeNeRês, costumam chatear bem mais. Pelo sim, pelo não, vou fumando qualquer coisita enquanto espero que o bicho estrebuche qualquer coisa. Se ele tivesse uma presença corpórea, era menino para lhe espetar um pau só para ver se uma botita dava sinais de vida…
Em relação a essa tal de Pinheirinha, tudo me leva a crer que seja uma árvore de Natal que alguém atirou pela janela e caiu aqui no blogue. Mas não me quero aventurar a chateá-la muito, até porque pode ser uma moça jeitosa a quem se deite a mão. Espero ansiosamente que ela se manifeste. Faz-me falta um tête-à-tête ou quiçá um rendez-vous. Oh lá-lá!!

Aproveito, já agora, caso esta gente continue a recusar mostrar o aparelho nos dentes, para meter as minhas cunhas junto do Sr. Mal. Conheço pessoas bem interessantes, capazes de ombrear com distinção e honra a possibilidade de se exprimirem na sua morada. Falo de nobres gentes como O Descendente d’Ourives; Javali, o Porco; Antunes, o Impostor ou A Cega Rali, minha supervisora no talho, uma senhora muito higiénica capaz de trinchar cabritinhos em Braille.

Sujeitado à sua sábia jurisprudência, subscrevo-me com elevada estima,


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10 de jan de 2009

Lisboa

"Devia ter sido professora de matemática." - Disse-mo quando terminamos o "número de sexo". Não havia gente a assistir mas ela parecia ter tudo calculado. Engatou-me num bar, levou-me para sua casa e deu-me de beber. Sentado ao balcão, percebi logo o jogo mental que impôs a si mesma assim que se desfez do jantar com a malta da empresa. Devia ter amigas mais liberadas a descrever-lhe o abstracto entre parênteses. Daquelas que fodem nas arrecadações ou se desmancham nas fotocopiadoras. O tesão delas levou-a a sair sózinha para despachar os demónios que lhe montavam os sonhos...
Achou-me reservado mas suficientemente vivido para lhe proporcionar qualquer coisa sem perder o controlo da situação. Queria manter os pés na terra mas esticar-se até ao céu sem perder a compostura. Decalquei-lhe isto enquanto dançávamos. Ela contava os passos. Eu trocava-lhe as voltas, mas sem parecer demasiado espertalhão. Estava encantado por financiar a sua desinibição mas não quis desequilibrar aquela equação de casino que ela jurava a si mesma controlar. Eu divertia-me mas, atenção! Terreno verde não é terreno seguro. Conheço muitos agricultores e muitos mais intelectuais. O terreno da razão é pantanoso e nem sempre se dá a sementes exóticas.
Sou gajo de balcão. Queria desinibi-la um pouco mais mas não regá-la com shots ou vodkas. Fui buscar-lhe um copo de vinho. Não me perguntem como o consegui num clube. Cada um inventa os seus propósitos e, quanto a mim, o mundo pode ser bastante enfadonho quando nos contentamos com os firmamentos que outros inventaram para a nossa própria alegria. Não quis que ela se embebedasse. Plantas biológicas carecem de estrumes mais refinados...
Ela recebeu bem a graça mas pôs-se a olhar em volta, não fosse o barman estar a rir-se dela, qual passarinha apanhada numa jogada batida. Nada. Tudo lhe terá parecido profissional e descomprometido. O DJ, já bem bebido, fez rolar "After Dark" dos Tito & Tarântula e toda aquela equação de cálculos se precipitou como flocos de neve. Ela agarrou-me e eu apertei-a. Ela apertou-me e eu agarrei-a. E beijámo-nos...

...Quanto ao resto, ide bater punhetas para casa seus filhos-da-puta!

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