10 de jan de 2009

Lisboa

"Devia ter sido professora de matemática." - Disse-mo quando terminamos o "número de sexo". Não havia gente a assistir mas ela parecia ter tudo calculado. Engatou-me num bar, levou-me para sua casa e deu-me de beber. Sentado ao balcão, percebi logo o jogo mental que impôs a si mesma assim que se desfez do jantar com a malta da empresa. Devia ter amigas mais liberadas a descrever-lhe o abstracto entre parênteses. Daquelas que fodem nas arrecadações ou se desmancham nas fotocopiadoras. O tesão delas levou-a a sair sózinha para despachar os demónios que lhe montavam os sonhos...
Achou-me reservado mas suficientemente vivido para lhe proporcionar qualquer coisa sem perder o controlo da situação. Queria manter os pés na terra mas esticar-se até ao céu sem perder a compostura. Decalquei-lhe isto enquanto dançávamos. Ela contava os passos. Eu trocava-lhe as voltas, mas sem parecer demasiado espertalhão. Estava encantado por financiar a sua desinibição mas não quis desequilibrar aquela equação de casino que ela jurava a si mesma controlar. Eu divertia-me mas, atenção! Terreno verde não é terreno seguro. Conheço muitos agricultores e muitos mais intelectuais. O terreno da razão é pantanoso e nem sempre se dá a sementes exóticas.
Sou gajo de balcão. Queria desinibi-la um pouco mais mas não regá-la com shots ou vodkas. Fui buscar-lhe um copo de vinho. Não me perguntem como o consegui num clube. Cada um inventa os seus propósitos e, quanto a mim, o mundo pode ser bastante enfadonho quando nos contentamos com os firmamentos que outros inventaram para a nossa própria alegria. Não quis que ela se embebedasse. Plantas biológicas carecem de estrumes mais refinados...
Ela recebeu bem a graça mas pôs-se a olhar em volta, não fosse o barman estar a rir-se dela, qual passarinha apanhada numa jogada batida. Nada. Tudo lhe terá parecido profissional e descomprometido. O DJ, já bem bebido, fez rolar "After Dark" dos Tito & Tarântula e toda aquela equação de cálculos se precipitou como flocos de neve. Ela agarrou-me e eu apertei-a. Ela apertou-me e eu agarrei-a. E beijámo-nos...

...Quanto ao resto, ide bater punhetas para casa seus filhos-da-puta!

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