23 de jul de 2009

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA V – Capítulo Último

Olho para o pulso para ver quantas patadas amanda o meu Ozyviza e… Sacré Bleu! - Já passou quase um ano!
Vesti as calças a correr e, sem me lavar convenientemente, vim para aqui cumprir promessas mas… não me ocorre grande coisa. Vou cheirando os dedos enquanto penso no que tinha para vos contar. Não sei, não me lembro, algo me tolhe…

Encosto as unhas ao nariz, inspirando com mais força, e rapidamente percebo os motivos da minha amnésia. Um odor a sal grosso estava distraindo-me! Bem sabeis porquê…

Muitas senhoras têm vindo de Lisboa para me dar banho e coçar os meus costados com pedra-pomes. Sei bem o que elas querem: - que amnistie a veracidade das minhas memórias em detrimento do bom-nome dos seus filhos. Nunca! Os vossos filhos são uns drogados, - digo-vos eu que vi, com estes olhos que a terra há-de fazer cara feia quando os rilhar! E em avulsos pensamentos vos direi o que vi!

- Vi-os sem força nas cordas vocais para agradecer uma fêvera canibal que lhes pus com um garfo no molete aberto, para não morrerem de fome;
- Vi-os a comer bolachas que disseram saber a merda, sem que eu as tivesse sequer passado no terminal das minhas nádegas;
- Vi-os de cabeça baixa a apertar cacetes, quando a gaja dos The Sounds atirava as coxas para o ar, provocando erecções bastante satisfatórias;

Todos os conselhos que lhe haveis dirigido, abortaram no primeiro esticão. Sossegai, contudo, pois eles não foram os piores… só foram os outros a seguir.

O pior de todos foi um loiro. Não, não era o gajo que se apresentou ao “people” antes de encontrar o seu “spot”. Falo, como já deveis ter reparado, daquele frango com urticária que parecia vir de um festim de famintos; aquele anjo loiro de asas rachadas que grunhia dor num tom quase inaudível ao ouvido humano e que, tão sabiamente, Tónio Cuco baptizou de “Lambido pelo Diabo”, inaugurando o mito, testemunhado e abispado por Anatoly Zerka e por mim.

- O caldo verde no Punkalhoto soube-me a bacia de lavar louça com detergente e rodela de chouriço; a roulotte dos drogados junto à ponte serviu-me o pior prego da minha vida. Ele há bifes e bifes, mas o tranche de fêvera que me serviram, a fazer de prego num molete azedo, parecia trinchada dum porco enforcado acometido de suicídio com nojo de si mesmo. Depois fui ouvir poesia…

- Lembro-me de um ciganito que queria ser lambido nas sobrancelhas pelas transeuntes que passavam. Tónio Cuco engrossava a brincadeira, estimulando-as com promessas de felicidade e orgasmos intensos. O ciganito chegou a falar para a televisão, disfarçando a moca que deveras carregava. Portou-se bem, o Moço do Chapéu. Sslaaaaaaa!...

- Eu e o ciganito falamos com deus nas margens do rio Tabuão. Não com deus, - O criador, mas com dEUS, a banda. Queriam saber se as águas eram amenas (provavelmente para andar sobre elas sem resfriados nos pés). Imbuído de uma hospitalidade lusitana, o Moço do Chapéu explicou aos nórdicos: “assim que a água chega aos testículos, a dor é insuportável!”… eles sorriram de agradecimento e partiram!

Voltei a cheirar as unhas e perdi-me! Por isso vou passar para o último dia de borga. Rumamos a Ponte de Lima para uma almoçarada das boas. Único senão: - Uma terrível vontade de vandalizar a porcelana…

Por ordem de desespero, e enquanto o manjar não chegava, lá fomos, cada um na sua vez, agredir o estaminé.
Quando entrei no WC, um perfume celestial preveniu-me: - “A vida é tão bela! Porque não vais cagar a outro lado?”. A sanita, porém, olhando-me de soslaio, articulou a tampa como se de lábios virginais se tratassem, e com gulosos argumentos, disparou: - Ouve os teus intestinos. A Mãe-Natureza chama por ti. Porque não tapas o nariz e te sentas? Põe um bocado de papel nos meus lábios. Bem sabes que não tenho língua para me lambuzar. Vá, abeira-te de mim. Vem… vem!”
Oh! Volúpia de Faustos rendidos… que promessa de absolvição!
- “Vem, vamos fazer música…” – dizia a maldita, - e eu fui! Vandalizei-a, entontecidamente, com os olhos a cuspirem-se das órbitas…
Voltei depois à mesa, com as mãos bem lavadas, carregando na alma uma espécie de culpa que deve assistir ex-virgens suadas de arrependimento, a remoer uma inconstância cumprida... E Voilá! Cabidela… ou como diria Pessoa, no final do gigante Tabacaria, “o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o dono…” do restaurante sorriu…

Depois fomos à feira. Pegamos um touro para a fotografia e despejamos umas canecas geladas. Que ricas!

Depois viemos embora. Tristemente. A festa tinha acabado. Vale-nos a orgia do costume para suportar mais um ano…



PS: Paredes de Coura está aí à porta! O Beerfest foi um bom estágio. Nota-se que a malta está preparada. O rio Tabuão é o limite…

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21 de jul de 2009

Mata-Drógados, o Justiceiro da Noite

Por cada crime que cometo, há uma menina a cair no céu e um macaco a aparecer-me no sótão. Mais peludo entre os outros, com uma mancha ou uma marca distintiva qualquer. Outro? Mas isto é por acaso a Santa Casa da Misericórdia?

Suo durante a noite. Acordo para um desconforto de atleta que adormeceu de cansaço sem tirar o equipamento. Seco-me na camisa de véspera deixada ao acaso na cadeira ao lado da cama. Atiro-a depois ao chão, faço uma festa no cão que dorme comigo e deito-me para onde a sua respiração menos me incomode. Torno a acordar mais tarde com um ímpeto de testa franzida que os soporíferos não dobraram e acendo a luz do candeeiro para tomar notas, cruzar dados.

Eu,
Exímio apreciador de coxas e voyeur,
Sou um assassino.

Sei de cor a rotina dos drogados que resvalam, os nomes e alcunhas, os esquemas, o tamanho dos pés e o número que um dia foi o de contribuinte. Presenciei atrás de árvores os seus assaltos a moradias, fotografei crimes hediondos. Registei com perfeccionismo a criatividade, o ímpeto e o rigor na execução dos planos, assim como o discernimento e ligeireza de pensamento que os fez abortar missões de risco. A tudo isso dediquei (e venho dedicando) atenção.

Não sou suspeito. Não me perco em manobras de diversão muito elaboradas. A descrença faz de mim tão suspeito como o velhote das missas, a senhora da frutaria ou o gajo do banco. Se fosse apanhado, os vizinhos diriam que eu era uma pessoa perfeitamente normal, muito respeitador, que nada os faria crer-me na pele de um monstro.

A lei é fraca e os polícias são os primeiros a duvidar dela, fechando os olhos como aqueloutra figura vendada à porta dos tribunais, convidando à troçada cega. Ora, eu não tenho muita paciência para caricaturas. Gosto delas, são engraçadas e tal, ajudam-nos a perceber a realidade de uma forma desempoeirada, mas são um recurso rebuscado para se dizer o que se pensa, de forma a evitar camisas de força maiores. A lei não se atreve a punir os causadores de desconforto, por os considerar simultaneamente seres humanos e metamorfoses desresponsabilizadas resultantes de contextos específicos.

Ora, a mim não me pesa na consciência deixar um corpo abraçado às coxas pelo avesso no fundo de um poço, desde que não reaja à lanterna que lhe aponto por fim aos olhos, antes de me ir embora. Não me dói. Não choro pelo cadáver que inventei, tão-somente pela criança que um dia teve lágrimas e cresceu para descobrir um amor falhado.
Não sou a favor das prisões, mas também eu sou um resultado de contextos sociais e nessa forma me fiz Super-Herói em consciência…

E enquanto houver velhinhos agredidos e roubados, saltará ao caminho dos seringas o… Mata-Drógados!

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20 de jul de 2009

Beerfest

A festa foi bonita, pá! E antes que me avilte noutro tipo de comentários, gostaria de mandar um grande abraço a todos os lambidos pelo diabo que tornaram possível o Beerfest. A minha gratidão é honesta e não se esgota numa formalidade de etiqueta ou num reconhecimento pela rama. Explicar-vos-ei os meus porquês…

A vida devia ser uma festa com toda a gente a participar. Na era do virtual, troca-se o jeito dos pés para dançar por um programa de televisão com pantufas; a companhia de uma mulher pela pornografia; a nossa vida pela dos outros, num voyeurismo fotografado; “o calor da festa pelo tédio em vigor”…
Num mundo que privilegia as parecenças às vivências, tudo soa a oferta mas, cedo ou tarde, lá chega uma factura para cobrir as despesas, e o dia-a-dia retoma o seu aluguer.

Mas há, pelo meio, pessoas com bom coração. Gente que se inventa na felicidade dos outros sem lhes vestir uma camisa de obrigações. Gente que se inventa nas minhas melhores memórias, sem nenhuma certeza de as poder levar para algum lado depois de morrer, mas que me enchem de existência.

Não é uma ode à cerveja! É antes uma vénia aos génios que inventam a arte do encontro e se entregam a ela com nobreza. Não por interesse, mas por condição!

Não deixemos a festa acabar. É cedo…

A todos vós, um forte e sincero Bem Hajam!

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16 de jul de 2009

Melodias Trágico Irónicas 4

Será muito normal que um bombeiro ande constantemente a ouvir a musica "light my fire" dos The Doors?

Não é curioso que a canção preferida do carteiro seja "where the streets have no name" dos U2?

E uma mulher que se diz apaixonada e que ligue para a rádio local para o programa Discos Pedidos pedindo para passar "the widow" dos The Mars Volta, para dedicar ao seu amado marido, não é estranho?

15 de jul de 2009

Novos Oportunismos

Há coisas realmente altruístas que, pelo facto de o serem, ninguém se atreve a esboroar-lhe a parvoíce, sob pena de ser considerado parvo. Falo, como já devem ter reparado, do programa Novas oportunidades que, tal como um Reality Show, entretém as pessoas por um canudo mas não ensina nada a ninguém.

Oh heresia! Coisa feia de se dizer! – Mas muito fácil de explicar!

O programa Novas Oportunidades serve para certificar conhecimentos e atribuir graus de instrução a pessoas que, pelos mais diversos (e mesmo nobres) motivos não puderam ir à escola. No entanto, ao longo da vida, essas mesmas pessoas acumularam conhecimentos suficientes para se equipararem (e mesmo suplantarem) às outras que lá andaram. Tomemos como exemplo os nossos pais. Grande parte deles nunca fez muito mais do que a 4.ª classe e, no entanto, só com muita arrogância é que não seríamos capazes de reconhecer o valor das suas vivências e experiências. Os sacrifícios por que passaram durante todos estes anos, inventou-os para a existência com um leque de conhecimentos muito mais vasto e transversal do que um canudo da universidade com uma folha de papel timbrado lá dentro. Como tal, é de uma injustiça atroz que essas pessoas não tenham a mesma igualdade de oportunidades que uma pessoa formada na universidade. É injusto que se pretira toda uma vida de trabalho e suor e se dê mais valor a um acéfalo que fez a escolinha toda a chupar sugus.

Ora, até aqui eu compreendo. O que eu não concebo é que a solução apresentada para combater esta descriminação seja dar diplomas a quem não os tem, ainda que tenha conhecimentos para isso.

Investem-se milhões para dar canudos em vez de formação. Ou seja, a lógica do canudo continua a vigorar. Continuar-se-á a dar valor a quem tem um canudo e não a quem acumulou uma vida de saberes. A linha é ténue, bem sei. Mas o que seria realmente importante e no que valeria a pena investir, seria na educação e na formação, combatendo, ao mesmo tempo a discriminação no acesso ao mercado de trabalho. Mas não. O título é que importa, o grau é que importa e quem quiser ser apreciado pelo valor que tem, obrigue-se a passar pelo esquema das Novas Oportunidades. E é se quer! Porque se for analfabeto e quiser ser jardineiro da Câmara Municipal, ainda que não tenha feito outra coisa na vida senão trabalhar no campo, vai ficar de fora por não ter o nono ano. Se ao menos lhe dessem a possibilidade de ser bom naquilo que é, e depois o ensinassem a ler e a escrever… talvez as Oportunidades merecessem considerar-se Novas. Mas por enquanto é mais do mesmo e muito dinheiro mal gasto…

Assim não vamos lá!

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8 de jul de 2009

Conspiração com Bisnetos II

Tenho adiado a publicação deste segundo capítulo, não por preguiça ou falta de vontade, mas por dificuldade em balizar o que importa ser dito, sem perder o fio à meada ou deixar-me enovelar na emoção do discurso. É sempre assim! Quando falamos de temas capitais como a Política, a Religião ou Futebol, a métrica que vai de alhos a bugalhos pode ser tão densa como ténue. Como se para ir à raiz das coisas, tivéssemos sempre de entrar num labirinto de canalizações subterrâneas. Em suma, justifica-se nessa complexidade, tanto o meu atraso como a ideia de chamar Conspiração com Bisnetos a esta série de cartas.

Não sou anárquico! A Anarquia assemelha-se-me, muitas vezes, a uma casaca política da Teoria do Caos. Para os menos familiarizados com esta teoria, vou tentar explicá-la à minha maneira. Imagine-se por exemplo a cidade do Porto. Tem um espólio arquitectónico fabuloso, porém desordenado; tem edifícios lindíssimos, porém a cair aos bocados; ruas de uma riqueza histórica inexcedível, mas por onde é impossível passar de carro… Não defendo, obviamente, a destruição do património, muito pelo contrário! Imaginemos agora que um terramoto destruía a cidade do Porto. Morreria muita gente, choraríamos muito todas as perdas, tudo aquilo em que acreditávamos, blá blá, etc.
Finda a choradeira, teríamos de nos unir, pôr a trabalhar os bulldozers e lançar mãos à obra para limpar a merda toda e dar novo rumo às nossas vidas.
Surgiriam novas visões arquitectónicas com avenidas largas e ruas simétricas; os edifícios seriam independentes energeticamente e sem emissões de carbono; as linhas de metro e transportes públicos seriam mais rectilíneas, rápidas e eficientes; graças às novas tecnologias, poderia rapidamente tornar-se na cidade mais avançada e sustentável do mundo. Houvesse vontade e visão…
Isto não é Utopia. Lisboa, depois do terramoto de 1755 ganhou a preponderância necessária para se tornar na capital do país; no fim da II Guerra Mundial, a Alemanha era um país em ruínas, mas rapidamente se inventou como uma das mais preponderantes potências mundiais, assim como o Japão…
A Teoria do Caos é basicamente isto. Queiramos ou não, as catástrofes são, não raras vezes, revoluções sem encomenda.
Não tenhamos medo de encarar a verdade das palavras. Chamemos-lhe caos sem qualquer juízo de valor. Não vale a pena continuarmos em negação. O Capitalismo vem-nos ensinando a pôr de lado as palavras quando o significado delas engorda. Tudo é retórica para sossegar o espírito. O desemprego passou a chamar-se downsizing ou layout. Até soa a promoção…

Habituamo-nos a contornar a realidade e tornamo-nos escravos incapazes de pensar por nós mesmos. Gajos sem ética, mas com muito dinheiro e poder, inventaram-nos uma Educação orientada para o curral. Fizeram crer a toda a gente que era importante passarmos vinte anos na escola a aprender um ofício específico, descurando todos os outros. Findo o processo, e incapazes de garantir a nossa própria sobrevivência, eles aparecem com côdeas de broa para nos seleccionarem como gado, em função das “necessidades de mercado”, vulgo propósitos monetários. Ou seja, escolhem entre nós os mais aptos a cuidar de um determinado parafuso da engrenagem, premiando os que menos valores humanos demonstrem na persecução dos objectivos.
Sem sabermos plantar uma couve, lançar um fio de sediela com anzol ou sequer atirar chumbo numa perdiz, vamos engrossando o cortejo dos desempregados e dos amarradinhos, com a mão estendida…
Poderão dizer-me que posso sempre abrir o meu próprio negócio. Pois posso. E posso até admirar quem persegue a via-sacra para cumprir os seus sonhos empresariais. O mais provável é que o faça porque, pese a falta de modéstia, até me julgo com suficiente capacidade para vencer nele. Mas, pergunto-me, não será essa uma forma de entrar no sistema, de aceitá-lo como ele é, de engrossá-lo, de me permitir aos seus defeitos? Sem dúvida que sim e, pese agora o meu idealismo, também eu preciso de comer as minhas sopas. Mas isso são contas de outro rosário…
O que me interessa com esta missiva, não é fazer despontar em mim a forma de ser grande e sustentado neste sistema. Interessa-me, isso sim, desmascará-lo porque é falso e vendido; porque concentra o poder; porque nos educa para a subserviência; porque nos educa para o conflito; porque nos inebria os sonhos com ideais consumistas; porque nos vende como mercadoria; porque nos rouba o ar dos pulmões e infesta de veneno os rios; porque ensina o endividamento; porque permite entendimentos de lei diferentes para crimes iguais; porque persiste na guerra; porque é impossível acreditar na paz enquanto as fábricas de armas continuarem a laborar; porque põe placas de proibição em tudo o que dá prazer; porque é intolerante e ensina os putos na escola a desprezar o próximo só porque é mais feio ou gordo; porque destrói a natureza; porque retira poder à vida humana; porque faz a corrupção parecer normal; porque poupa os corvos e persegue as pombas; porque justifica todos os meios para se atingirem determinados fins e, acima de tudo, porque ensina uma infelicidade sem entendimento que conduz ao vício e ao adiamento das responsabilidades, à existência virtual; porque adia o amor e faz-nos desejar ser más pessoas para suportar a existência com algum conforto; porque temos de lutar contra tudo e contra todos para sermos felizes quando, no fundo, o que mais desejamos é ser amados.

E é contra esta merda toda que se impõe largar uma bomba de Cultura e começar do zero. E não, não é depositando todas as esperanças num governante a falar de ventura que se vai fazer a grande revolução…


Continua…

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7 de jul de 2009

Obsessões

Olho-a quando passo por aquela vitrina situada na baixa da cidade.
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
Olho-a quando passo a passo pela baixa da cidade.
Falo-lhe quando tenho tempo, não obtenho nenhuma resposta
Passo e falo-lhe, falo-lhe e passo - não obtenho nada
A mulher de quem falo, á qual falo e não obtenho nenhuma resposta é MUDA.
E um mudo fica rouco de tanto estar calado.
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
É uma manequim muda, situada naquela vitrina da baixa da cidade,
É ela a quem falo e não obtenho nada,
A manequim calada e muda, a manequim...
Se é manequim e se é muda, então ser mudo está na moda?

Shiiiiiiiiiuuuuuuu!!

Miminhos

Eu quero uma cesta de piquenique
E uma mota com side-car
A tombar de putas…

Eu quero um capacete com cornos de marfim,
Uns sapatos iguais aos do Papa
Ou os cornos dele no meu farolim.

Eu quero um Ayatolah talibã a lançar girândolas
E fogo de cana no meu funeral.

O Territory dos Sepultura na marcha-lenta
E um bando de grávidas a segurar na placenta.

Ser enterrado com um par de sapatilhas ardidas
E o ministro da Cultura em stockings servindo bebidas.

Ser estrangulado pelos paramentos do padre até me vir
E uma mentirosa a gritar que me viu sorrir.

Um canibal a trincar-me os dedos
E uma placa a dizer: - Morreu de nervos!

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Ode a um Capuccino Vermelho

Fiquei sem Net por uns instantes e, enquanto o Google se esgadanhava para abrir como uma virgem assustada, houve uma mosca que se deu ao desplante de parar no meio do ecrã branco a esfregar as patas de contente, metendo a cabeça entre elas como se ajeitasse o cabelo comprido ou coçasse piolhos. Só para me irritar. Apanhei-a num lanço e comi-a. Confesso que gosto mais de lagartas. Fico sempre com uma sensação de borboletas na barriga, como se estivesse apaixonado. Vem depois um Whisky de Mal a chover-lhes nas asas coloridas e o meu amor desbota. Dá para dormir mais descansado, ainda que sem antídoto ou remédio para as penas de corvo que me chegam à boca na metamorfose das manhãs.

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6 de jul de 2009

Entro às nove

Entro às nove
Com uma convicção que tem de durar até às cinco.
Espero uma semana,
Adio um mês,
Para o ano é que vai ser!

Vinte anos de escola
A esculpir um analfabeto sem mão
Para arrancar da terra o próprio pão.

Ganha-se depois um rosto de tristeza ao fim do dia e do fundo
E um copo com duas doses bem servidas
Para anestesiar as certezas que se tinha do mundo.

Abro depois as gavetas onde me pus arrumado
E deito fora as memórias irrelevantes para o meu passado.
Livro-me do pó, escrevo post-hits com letra bonita
E vou levar o lixo para o caixote do mundo
Com um cheiro de armário lavado,
Outra vez engavetado.

Troco de religião
E vendo os serviços do que valho a um outro patrão.
Levo para abate a furgoneta dos sonhos
E passo a andar de camião.
Troco a mulher que me ganhou os filhos
E saio a viver por baixo de uma pensão
De alimentação.

Procuro depois amor na solidão de uma puta
Sem mais coração para outra luta.
Deixo para trás um resquício de esperma sem herança
E saio para o espaço vazio sem dizer “boa noite” ao segurança.

Sinto o chão nos pés caminhando até ao carro,
E arranco para lado nenhum a fumar um cigarro.
Incorporo uma música triste a passar na rádio
E atalho voando
Para uma serenidade sem lágrimas no lábio.
Os arbustos gritam no vidro por uma estrada inventada,
O carro salta
E eu fecho os olhos para uma surdez que troca tudo
Por nada.

Virão depois buscar-me os ouvidos cheios de sangue
E a carne acessória que o distribuía com disciplina.
Silêncio sem consciência…

Ficarei nas palavras que escrevi,
Na carne que me comeu,
Na memória dos outros onde vivi.
Passarão depois dez ou duzentos anos
E a sepultura que me tiver os ossos engavetados
Dará lugar a outros estropiados.

Não valerá de nada guardarem o que fui.
Tudo morre para o que pensa o tempo,
E tudo vale para quem se beija ao vento…

Viver é sorrir amor ao momento…

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2 de jul de 2009

A Grande Viagem

Ir nu,
Sem dinheiro ou passagem, sem férias
Ou banho de véspera.

Esgrimir de raiz uma viagem
Sem reserva de hotel ou estalagem;
Vir de Paris com um bordel atrelado,
Arrestar com tremoços a alma ao diabo.

Fundar as mãos num veio de mar
E virem de Lisboa Tágides me pentear;
Um fraque de algas costurado por cachalotes
E o Adamastor a cobrar-me os calotes.

Subir de muletas à lua por uma escada de vindima
E cair de costas num abismo que me redima;
Acordar num pântano salvo por crocodilos
E uma merenda de avelãs trazida por esquilos.

Tocar a rebate os sinos de um campanário
E provocar um motim de galinhas no aviário;
Ovular desejo nas mulheres que passam por mim,
Oferecer o Benfica a um travesti de Turim.

Fazer check in com um machado nas costas
E um braçado de bacalhau às postas;
Partir as janelas do avião para entrar ar,
Aterrá-lo em segurança para depois o incendiar.

A Poesia a tudo me permite
E a morte, para mim, assoa a sinusite!
Pensar o infinito pode soar imoral
Mas, tal como a lei, é legal!...


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