20 de out de 2013

Quiosque


Poderia até ser-me fácil falar de ti que te desconheço, como um amor de que se fala estrangeiro ou só por aí sem rosto a fazer coisas no mundo. Mas não. Custa-me! Não sei falar de ti senão que me ausentas e, no entanto, a casa onde me habito reza a perfumar-se de ti, como procissiando à minha frente um turíbulo de incensos. Roubas-me o ar! Roubas-me o ar todo e, no entanto, falham-se-m’ os argumentos para te acusar de saque em tribunal. O teu álibi é seres distante e de pouco me vale a dor em campânula e os olhos cegos…

Pudesse eu acusar-te de uma facada nas costelas ou de um chuto na cabeça aquando dormindo, fazendo a juíza sorrir. Pudesse eu em ser-me diferente obsequiar dos teus pezinhos a mexer enquanto dormes - guardar-me todo numa caixa de Pandora como se a vida toda e o que sou fosse o boneco doente de um ventríloquo asmático.

E levando-te pela mão a ver os foguetes eu seria uma vida nova, com sentido. E o nosso puto, como numa versão kitsch de uma pintura de Rafael, a gritar “ó pai” por uma pistola de fulminantes. E nisso o teu sorriso, ganhando largura, haveria de fazer rir a própria Senhora da Agonia. E eu levando aos olhos quatro dedos para disfarçar uma lágrima, queixar-me-ia do pó que fazem as motas. E tu olhando para mim… e eu olhando para ti… e depois tu outra vez, abrindo mais esses olhos magníficos, dirias:
- “Foda-se, pá! Esquecemo-nos de ir comprar o i.”

E o dono de um quiosque sorriria…


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