6 de mai de 2010

Rapaz que rí sozinho.

Tenho um amigo que é um eremita dos tempos contemporâneos .

Vive dentro da sua solidão.
É um homem sem perfil, sem interesses e...sem rosto. Um homem de poucas palavras e erros ortográficos.
Um homem que se publicita pouco e de quem nunca se sabe notícia que não venha directamente da sua boca. É, apesar de tudo, um homem normal, sem nenhum ar de Jesus ou Buda, sem qualquer aspecto de salvador iluminado. Este meu amigo passa pela vida sem deixar rastro digital. Sim, é silenciosa a sua caminhada, mas quando fala canta, e quando canta conta. É provável que vocês também o conheçam...de vista. Acredito que o tenham visto mas isso não chega para que lhe empreguem o verbo conhecer. Dizer “Sei de que sujeito se trata” é o mais correcto.


-“Ah já sei! É aquele rapaz que está sempre sozinho... e às vezes rí sozinho!”


É esse mesmo.


“Parece um alienado!”

É...

     É mesmo o que parece. Mas não o é menos do que tu. A coisa da qual ele se aliena é que é diferente da tua... e da minha. Aliás aquilo de que ele se aliena é daquilo que te aliena a ti...e a mim. Ambos estamos alienados da alienação de cada um e é uma pena que assim continue. Uns falam demais e não dizem nada...é verdade. Mas também há gente que se cala demasiado porque se cansa de tanto falar para si própria. No meio deste rio de confusão tentamos construir pontes que nos unam as margens e por onde fluam pensamentos transportados dentro de contentores (não de chapa mas de palavras). Depois esperamos receber a troca justa por esses pensamentos que com tanto cuidado fomos regando até florirem em verso, e oferecemo-lo um ao outro como uma flor se oferece a uma mulher. E quem oferece flores não pode esperar menos que um beijo, um sorriso ou um olhar cúmplice. Mas não raras vezes fazemos pontes muito frágeis porque negligenciamos no material com que as construimos e a coisa não dá em nada que se veja.
     Um dos materiais que não pode faltar é o olhar aberto, brilhante, o olhar que mergulha dentro do outro, e o excesso de alcool com que muitas vezes construimos essas mesmas pontes deixa-nos os olhos muito pequeninos e o brilho que reflectem não é brilhante.
     Este meu amigo de que vos falo, embebeda-se nos olhos de todo aquele que lhe fala a cantar, droga-se da sua música, e fuma-lhes os sonhos e os devaneios como um charuto de ar puro. Disse-me ele que, no dia seguinte, acorda com uma ressaca de alegria e se ri o dia inteiro. Quando acorda acompanhado acontece-lhe, não raras vezes, descobrir que ela era mais bonita do que lhe parecera na noite anterior.

Ele contou-me que é por isso que muitas vezes sorri enquanto os outros pensam que está sozinho.



Tenho um amigo que é um eremita dos tempos contemporâneos .

Vive dentro da sua solidão.
É um homem sem perfil, sem interesses e...sem rosto. Um homem de poucas palavras e erros ortográficos.
Um homem que se publicita pouco e de quem nunca se sabe notícia que não venha directamente da sua boca. Este meu amigo passa sem deixar rastro dígital...
Tenho um amigo que não tem facebook.

5 comentários:

Mané disse...

acho que conheço esse teu amigo! Talvez seja o amigo analógico num mundo cada vez mais digital!?

Anónimo Pralguns disse...

Pode ser... pode ser...

Sr. Mal disse...

Na era do virtual, a vida faz estupidamente a sua marcha num tapete rolante de frente para a televisão. Dizemos “como vai a vida?”, e não deve haver resposta mais correcta do que dizer “vai andando!”

Na era do virtual (da televisão, do Facebook, do Hi5 e Twitter, dos blogues, Chats, das Farmviles, da Pro-Evolução, da pornografia digital…) muitas raparigas deixaram de querer conhecer um estranho na discoteca (porque pode ser um tarado!) para mostrarem as mamas na webcam a muitos tarados.

É mais fácil falar por mensagens, desligar-se do mundo por um botão quando as outras pessoas nos estão a chatear. Não há paciência para uma vida normal, com pessoas sem botões ON-OFF-PAUSE-STOP nem controlo de volume.

É mais fácil, mas não é melhor. Também eu tenho um grande amigo que não usa nada dessas coisas. Ele diz-me que não é capaz de dispensar o contacto humano, e primeiro que o convencêssemos a ter uma conta de correio electrónico foi um suplício. Por motivos de trabalho, lá teve de ser. Mas é ele quem tem razão por querer ser mais humano e menos máquina…

Temos assistido (com a Internet) à maior revolução tecnológica da história da humanidade. – Tenho dito isto vezes sem conta! - e todas as grandes revoluções sociais a que o mundo assistiu tiveram uma alavanca tecnológica. Foi assim com o comboio no período da revolução industrial, depois com a rádio e a televisão, etc.. Invariavelmente, há coisas, como valores, que se vão perdendo ou ficando para trás. Mas é tão irónico que aquilo que, supostamente, nos iria unir mais, seja o que mais nos divide e aliena.

Desculpa o alongamento, mas este é um tema que merece ser debatido. Cada vez mais…
E também é curioso estar a debater este tema online. Até dá para rir de tão irónico que é. LOL

Anónimo Pralguns disse...

Sem dúvida. Mais irónico é impossivel, daí a graça. É bom referir já agora que acho a internet uma ferramenta cheia de virtudes. Muitas mesmo. A internet tem o dom de nos fazer mais felizes, tal como o teve o primeiro sílex em forma de "naifa" que hoje evoluiu para a bomba atómica. Eles só queriam matar um bichito para comer...
De facto Sr. Mal acertaste na mouche quando disses-te "Não há paciência para uma vida normal, com pessoas sem botões ON-OFF-PAUSE-STOP nem controlo de volume."
Mas alegra-me saber que hoje é sexta, e a sexta sempre tem uma boa dose de vida analógica!!
um grande abraço digital!
Viva a internet!
Viva...

Anónimo Pralguns disse...

Errata:
onde se lê: disses-te
deve-se lêr: disseste

já tinha idade para não me enganar nestas merdas