7 de mai de 2010

Sem título

Dou por mim feliz num dia de chuva.

Às vezes dou por mim feliz. E queria que o entendessem literalmente, ou seja, acho-me feliz como se estivesse fora de mim a apreciar a minha própria felicidade. Aqui à tempos encontrei-me assim feliz como um “guardador de rebanhos” desses que sabem a verdade e são felizes. E dei comigo a pensar que a felicidade deve ser isso, a capacidade de estar bem sem nenhuma razão aparente.
Sem nenhuma razão...aparente.
Sem nenhuma chave certa do Euromilhões, sem descontos, promoções ou outras complicações...

Sem.

Também pouco me importa a vinda do Papa. Ou melhor...importa... preferia que não viesse.
Certa vez escrevi o poema que agora releio. Parece-me verdadeiramente sintético de como me sinto nesses dias. Os poemas para mim são equações que revelam a sua vida interior à medida que os solucionamos. Como fruta que, quando mordemos, se desfaz em sumo que nos escorre pela boca da alma. E rimos como crianças com os queixos pegajosos de açucar.

O tal poema:

Deixei-me estar...
até desaparecer,
até que tudo em mim fosse ôco,
transformei todo meu corpo
num instrumento de sopro
e ofereci-o ao vento.

Não escondo o quanto me alegra ter escrito isto.
Não quero dar ares de Dalai Lama, porque não excluo os pequenos prazeres, nem nego a alegria de um aumento de ordenado, nem de chupar um Solero de frutos silvestres na mais quente noite de Verão. Sei o contentamento que provocam e me provocam. Mas é outra coisa o estar feliz.
É um para-além do contentamento, um estar em harmonia com tudo, nem que seja por um instante. É como algo que nos atinge. Como poder jurar que vi Deus a dobrar aquela esquina ali à frente. No outro dia, por exemplo, ví Deus no sorriso de uma criança desdentada. Também é frequente vê-lo ao pôr-do-sol de um dia quente, quando me sento em cima de um muro cheio de musgo, com as pernas cruzadas à chinês. São momentos de epifánia que nunca conseguirei descrever sem vos deixar a suspeita que fumei quelque chose.
Há tanta barafunda de coisas importantes à nossa volta... “já verificou isso bem”... “é preciso enviar isso assinado” “já me viu isso”... “chegue-me aí esse fax”... “o orçamento está feito” “ó caramba que chatice estes gajos sempre a ligar para aqui”... (e eu aqui a escrever, qual repórter de guerra no meio do tiroteio) e vamos para casa com coisas importantes ainda a ecoar na cabeça.
Por isso esquecemo-nos, e é normal, que somos pó das estrelas.
Sei o quão lírico isto soa, mas é tão verdadeiro como o orçamento que tenho que fazer, o termos uns avós em comum, que são um velhinho casal de estrelas. Não nos lembramos disso porque já foi à muito milhão de anos, e na altura não haviam Roleyflex's nem Polaroids, para que agora possamos recordar a união através de um albúm de casamento.
Então... nesses dias em que vejo no mundo uma luz diferente...talvez, mais não aconteça, que estar a ouvir a voz meiga desses nossos avós, não com os ouvidos, mas com todo o corpo e a alma, a apontar para um albúm imaginário e dizer “estas a ver esta estrela aqui!? É o teu tio Zé, foi uma grande estrela!! E esta aqui com esta permanente foleira?... Pois mas na altura usava-se!!
É a tua tia Fernanda!Foi uma bela estrela também? E este aqui?? Não sabes? Este pequenote aqui loirinho??”

...

Esta aqui és tu!

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