21 de abr de 2010

Imortalidade

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Hei-de morrer sem mesa posta, num quarto possível, sem nada de concreto para deixar ao mundo… como se o mundo precisasse da minha herança pesticida para florescer. Deveria poder rir-me se acaso não fosse aquilo que sou. Interrompi sonhos para fazer apontamentos como um palerma que abandona a sala de cinema para buscar mais pipocas. E para quê? Para, depois de morrer, ser chorado por umas roupas que ficaram no gavetão, num quarto que tantas vezes adiei por amor à boémia.

Houve um tempo em que desejei ser lembrado depois de morrer. Pus-me depois a pensar na longevidade dos faraós, detido em seus hieroglíficos pensamentos, e achei-me digitalmente consciente como um vídeo rebobinado. De nada vale aspirar à imortalidade, ainda que ter razão dure ou valha quinhentos anos.

Mas, ainda que no silêncio absoluto, como um cão atropelado que não vai para o céu, gostava que a minha morte fosse celebrada. Gosto de celebrações e, só de pensar nelas, inventa-se-me um sorriso maroto que flecte metade da cara, com MALícia…

Entender as coisas e as pessoas rouba-nos inocência. É como secar o sumo de um limão antes de o espremer. Cai-se de cabeça na almofada e ela é fofa. Deixo a porta aberta, pelo sim e pelo não…


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3 comentários:

anonimo pralguns disse...

Apetece-me bajular-te a escrita rapaz. Não porque andar para ai a bajular escritas seja o meu hoby, mas porque me agrada cada vez mais o que aqui leio. Sinto-me como aqueles garotos que dizem: tenho um amigo que vai ser um gajo imortal porque escreve como o caraças mas a malta ainda não percebeu bem isso, nem ele mesmo.
Mas corria o risco de me estar a armar em visionário.
Por isso digo apenas que escreves pa' caralho!

Fábio Ribeiro disse...

Ya, mesmo pa caralho!!! Vou começar a dizer aos meus amigos...

Sr. Mal disse...

Eh lá! Este domingo começa bem...