27 de abr. de 2010

Carta a um amigo que não vendia discos, mas oferecia livros

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Meu amigo,

Bem sei que amas o teu piano. Pões-te nele a tocar como um braço esquerdo que segura o direito amputado. Tens um dom e um chicote e, ainda que este pensamento não seja totalmente original, foste capaz de inventar mais braços com a imaginação para te fustigares. Mas não te culpes ou chores por sentir demasiado, por teres visto por cima do cosmos a rodilha do mundo. Estiveste sozinho como perante um pôr-do-sol magnífico e não estava lá ninguém maior que o seres tu, como uma masturbação de fazer chorar.
Não juntaste dinheiro e podes bem vir a precisar de uma pensão de sobrevivência. Podias ter sido político se, por distracção do destino, tivesses vendido a tua maneira de sofrer o mundo a um espelho em que toda a gente se revê.

Receio que esta carta te não traga mais felicidade e, por isso, devia pedir-te desculpa, não fosse o teu desígnio viver uma cabana que se anima como um elevador sem paredes entre a merda e o absoluto. E é por isso, meu velho, que és grande e desajeitado como um régua de 70 cm. Porque o mundo achou por bem medir-se ao milímetro…

Não esperes, portanto, mais beijos. Ultrapassaste os cânones como um carro a alta velocidade e bateste o record de um desporto que não existe.

És, tal como eu, um estropiado que ouviu o mundo gritar por uma orelha rasgada e foi dá-lo a uma prostituta amiga. Levamos o pensamento sem corpo para guerras sem direito a resgate e pagamos por isso, como mercenários com vontade própria…

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2 comentários:

Anônimo disse...

escreve que eu leio rapaz.
escreve que eu leio...

Anónimo Pralguns disse...

escreve que ue leio rapaz
escreve que eu leio...