22 de jul de 2012

Kit Deus ou L' enfant Terrible


De onde vem esta vontade de ser tudo
E botar-me depois a um desterro de leitugas como se fosse nada?
Embrulhar-me finamente no passado em película aderente,
Em folha de alumínio
E deitar-me ao lixo…

Não te sei explicar, pai, quem sou!
Mas não posso mais correr contra mim
E serei teu pródigo filho
Enquanto um elevador de acrílico transparente,
E sem poço,
Me guiar sobre o mar…

Carrego uma dor no espírito a que só a morte de um filho que nunca terei
Se pode assemelhar
E chamo-lhe Poesia,
Amor,
Violência doméstica…

Não, pai,
Não te sei explicar quem sou!
Mora em mim o desprezo minimal que trucida os afetos
E a combustão que expulsa os nados;
Mora em mim um próprio deus
Que traz num kit embutido os próprios pregos…

Não sei pôr-me nas tuas palavras,
No teu relógio (que é o mesmo de toda a gente
E só não é apenas o meu),
Ainda que nele sempre haja todo o tempo do mundo para mim…

Deve ser a isso que os tios e tias francesas chamam d’
Enfant Terrible…


Nenhum comentário: