2 de jul de 2012

Domingo


I could almost cry
Because it’s Sunday
And I’m drunk again…

Mas as coisas não são o que parecem
E eu estou só comovido
Com o amor de duas pessoas
E o carinho que puseram num abraço
Como se o mundo todo estivesse a cuspir-lhes…


Eu sou só uma besta que cresceu aninhada
A uma dor nos tornozelos,
Daí que o meu ballet fosse quase original
Não houvesse já
Um campanário em Notre Damme…


Talvez enchendo o copo as lágrimas me caiam
Tanta civilização e comportamento incivilizado,
Tantos filmes e Lp’s autografados
Tantos livros
E as unhas rabunhando sempre as mesmas crostas…

Um tremor de mãos
E beijos d’ontem
É tudo o que me resta
E uma vontade de gastar tudo
Por não ter encontrado ainda onde tudo investir…

“Não te exponhas tanto!”

Quero lá saber!
Para mim o sol
Faz o mesmo que o sal ao bacalhau de seca…
É à noite que eu sonho através dele
A humidade de voltar a ser peixe.

Pode ser fugaz o amor
Como as purpurinas
Enquanto dura apenas um festejo
O amor é um estado de emoção
Que dura enquanto o sonho for real!

Vá, vai-te convencer
Que a vida é assim porque tem de ser
Mas leva uma corda
Para que te não falte nada!

….

Vá, me deixe ser vulgar
Beber e apanhar...

Eu subo para o balcão para trepar com estrelas
Ou apenas porque depois de ter nos meus beijos
O teu cabelo suado e sorridente
Tudo é vulgar
E pouco importa se alguém leva um chuto meu
Na cabeça…

Ser cínico nunca foi o que desejei
Por mais que force as lágrimas elas não vêm por ninguém
Ainda que pareça o furo de um vaso que se rega.

Sou uma dessas árvores secas de quintal
Que ninguém desfez ainda em lenha
Porque me deita água
Ainda
Um menino-deus com o seu baldinho amarelo de praia…


Não tenho solução
Ou não
Olho para uma ventoinha desligada
E quase sorrio de parecença
Porque ela é de ventar.

Penso no que sentiria um esgoto
Se lhe dissessem que era mau…

- Toda a vida fiz isto. Foda-se! Levei com a merda de tod' a gente e agora não sirvo…

Os que são de botar liberdade
Não são de balizar!
Percebo agora um primo engenheiro que, em criança,
Se quedava num morro a ver retroescavadoras
Junto ao campo de futebol onde jogávamos à bola…
E das nossas bocas de chiclas Gorila
Nunca se ouviu sequer alguém dizer: 4-4-2
‘Passa a bola, guloso’ – isso sim,
E isso, sim, faz-me sorrir
Porque cedo ou tarde
A K7 volta a tocar…

Sabem, a propósito, a história do nome da banda Doors?
Revi, com certo regozijo, no suplemento ‘Atual’ do Expresso de ontem:

“O nome da banda tem origem em Huxley, mas também este foi buscar inspiração a um poema de William Blake, que reza assim em português: ‘Se as portas da perceção fossem abertas, tudo pareceria ao Homem como é realmente: infinito.’ Amém.”


Confesso que me é um bocado difícil, depois de abertas as portas da perceção, balizar numa colher de açúcar a experiência do mundo todo com todos os seus sentimentos. Razão pela qual me acho incapaz de escrever um livro ou apenas um poema decente…

E pronto, foi este o meu domingo…


Nenhum comentário: