25 de mai de 2009

O Imperfeccionista

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Aqui cheira às minhas entranhas e ao meu pus. A minha presença empesta o ar como um quarto de doença, com lenços usados e copos de vidro vazios na mesinha de cabeceira; uma colher de ter comido sobremesa ou diluído barbitúricos.
A luz é frouxa neste prostíbulo mal arejado e vós continuais vindo para assistir ao espectáculo das minhas misérias circences, pagando ad eternum por um bilhete com data vencida. Circo velho que foi ficando e viu morrer, de coração e vício, os palhaços que conduziam as carrinhas. O trapézio ganhou ferrugem e uma chiadeira que se ouve quando venta. Só as aranhas se aventuram agora nele, em coreografias já vistas, mas com um trabalho sincero e sem rede que faz sonhar um casal de trapezistas reformados. A humidade instalou-se nos nossos ossos e em largas poças sobre a tenda de lona que, durante o dia, tentamos salvar empurrando a água por dentro com uma vassoura; os módulos de madeira rangem como as escadas de uma casa abandonada, ameaçando colapsar; a atenção do público divide-se entre a nossa encenação e o espectáculo dos pingos de chuva nas bacias, espalhadas um pouco por toda a parte.
Neste circo de velhos saltimbancos, só o freak show maturou.

Eu, Sr. Mal, serei o vosso anfitrião para esta noite! - Aristocrata maldito caído em desgraça. Nos galões descosidos do meu casaco, há uma nobreza que rasteja transbordante. Flor-de-lis entre ervas daninhas que crescem como pêlos nas orelhas.
Dizem que maltrato as pessoas com o meu feitio; que faço discursos filosóficos cortantes às empregadas que vêm fazer meios-dias e me empestam a morada com um cheiro desumano a lixívia.

Ando branco como o engolidor de espadas que, dias antes de morrer, abismava a plateia tragando o vidro das nossas lâmpadas fundidas.
Não vos prometo cá estar no próximo inverno mas enquanto o arco sob as costelas demandar pão e vinho, deverei andar por aí, entretendo-nos.


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2 comentários:

Anatoly Zerka disse...

É assim que mais gostamos de si... da sua actuação e da "água morrente" com que nos presenteia e dá a beber sempre que o lemos, como a um clássico escritor maldito!
Sento-me, também eu no meu divã já agastado de cabedal purpuro e aprecio o seu desempenho arrojado.
Perfeito esse seu (im)perfeccionismo, perfeito...

MADAME disse...

Muito me apraz ver que continuas em intensa revolução criativa. E no meio de tanto fedor e inferno térreo salvam-te os barbitúricos, pois só eles servem de desculpa a te teres esquecido de no dia anterior a esta publicação não me teres felicitado. E lá está... a imperfeiçao, meu imperfeito amigo. Maltratada não me sinto e tampouco esquecida. Aliás só quis mesmo meter nojo.

Beijos