27 de fev de 2009

Há dias, estava a escrever no blog e… esperem lá, a palavra blog dá erro. Claro, já me esquecia, blog agora escreve-se blogue. Que parvoíce a minha… estar a beber e não me ter lembrado que os linguistas andam agora a trocar as palavras todas. A esta hora, todos temos isso em comum. De facto, é de uma nobreza inexcedível a intenção de nos pôr todos a falar a mesma língua! Como se a grande Babel fosse uma obra continuada por engenheiros residentes, permitindo na sua velhice um bairro social a jovens estrangeiros, uma verdade inconsistente habitada, tida como um capricho de juventude desenraizada de existir com argumentos vincados e, ao mesmo tempo, semente.

E eu que levei lambadas por dar erros. Não me quero debater nas desenvolturas da educação, até porque as visões que se merecem à memória me surgem floreadas, romantismo de levar lambadas com pressa nas pernas para correr atrás da bola. Nesse tempo não havia o Magalhães. Aliás, o único Magalhães ao nosso alcance era o contínuo que se substituía ao professor nas lambadas. Para além dos meus pais, esses eram os únicos correctores informáticos de que me lembro.
Sem computadores, ou liberdade para estudar os dínamos do mundo com a minha espada de libertar, arrancada a um pinheiro, ou caída para fazer sonhar crianças, aquele quarto de costura, com um saco pendurado atrás da porta, onde a minha avó costurava e me contava anedotas brejeiras intercaladas por explicações sobre a importância de ser alguém na vida, era o meu canto dos deveres. Apesar de nunca ter perguntado para que era o saco ou de não ter recebido uma explicação satisfatória ao alcance da minha memória, aquele saco permanece em mim como as borrachas que apagavam os meus erros e me adiavam a brincadeira.

Salto no tempo. Penso em Camões e Gil Vicente. Ainda hoje sou quase incapaz de os tomar como antecedentes próximos. Vejo-os sempre como irrealidades históricas que existiram, fobias passíveis de tratamento, mas recolhidas ao sótão dos cobertores, onde os ratos discorrem em animada tertúlia a sobrevivência dos medos, entre sandes de queijo e uma cartada de charutos.

Tempos de escola com memória de sótão. Olho com algum desprezo a poesia ensinada com fórmulas matemáticas. Versos decassilábicos, campos cor de limão e um poeta que sofria de ausência, mulher amada, - queria fornicá-la mas, sobre isso, nada. Até Pessoa me desiludiu quando não quis escrever nada que fosse erótico. Mas escreveu, o fingidor, encapotou-se e ejaculou como os outros safados do seu tempo... E os professores que o sabiam, mesmo não sabendo, ocultaram-nos o devasso. Eu ponho-te lá fora! – disse-me a professora quando eu propus que o Álvaro de Campos poderia estar mocado quando escreveu o Ópiario. Nem este corrector informático admite a leviandade do poeta. A professora de filosofia saltou o Carpe Diem nas duas ou três páginas que sublimavam o Clube dos Portas Mortos como verdade maior de pensar livremente e arriscar um pensamento diferente, bacoco mas diferente…
Desculpem-me se não concordo com esta cartilha, mas eu, que sou campónio, fugia de casa à noite e refugiei-me na beira dos penedos, em casas abandonadas ou em construção, no refúgio de uma garrafa de lixívia que rodou para o monte e nós dissemos: - é para ali que vamos, e inventamos canções sem saber cantar.
Na potência de existir tinhamos outros nomes e um maior que nos abarcava. Escrevíamos poemas sobre dor e mar/ vou morrer de amor/ só me apetece chorar. E o sentimento que era sublime, ainda que sem argumentos, ganhou asas e cantou o universo pela rede de um galinheiro. Para não me acusarem de plágio, devo dizer que o F.P. Gigante disse uma coisa parecida num dos seus escritos (para o caso de pesquisarem por mim). Depois dele, as coisas complicaram-se para os poetas dispostos na dimensão em que ele sonhou, como se nos roubasse a um tempo que é nosso. Devemos também nós sonhar o amanhã, apesar dele nos acordar?

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Um comentário:

MADAME disse...

AS memórias são sempre algo bom, desde que não fiquemos nelas presas, como um golfinho na rede de um pescador. Senão rapidamente viramos carne para canhão.