5 de jun de 2013

entre cromos repetidos, mãos incautas e putos trafulhas


            juntos somos como um cromo autocolante. eu, por natureza, sou o cromo e tu és a cola que nos mantém no sítio certo da caderneta. podemos não ser o cromo mais raro, mas não nos troco por nada. gostava que soubesses disso, principalmente sempre que os nossos cantos se descolam ou vincam – pois a existência tem dessas coisas!... mas eu e tu sabemos: queremos ser mais do que um cromo; queremos, enfim, ser o velho que um dia, nostálgico da sua infância, folheará com as mãos enrugadas, beijadas pelo tempo, uma caderneta completa de memórias com sabor a algodão doce.
            no entanto, não queremos ser velhos. risco o que escrevi. à eternidade do nosso tempo só peço que nos deixe indeléveis e inalteráveis; que nos deixe por aqui e mais nada! não quero aprender o que a vida ainda tem para me ensinar e que me fará esquecer daquilo que a morte me prometeu: algum tempo só para mim neste solo minado pelos homens. e peço-te a ti que não pretendas aprender mais nada também!... de que nos serve saber usar o predicado se não formos genuinamente o seu sujeito? nunca seremos deuses, mas também nunca seremos idólatras. o nosso significado será sempre feito por nós, sem poemas, teses ou manifestos que nos elevem.

confia em mim! entre cromos repetidos, mãos incautas e putos trafulhas nós cá nos arranjamos.

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