24 de fev de 2013

A Maçã e O Martelo


“E aqueles que foram vistos a dançar foram julgados loucos por aqueles que não podiam escutar a música”, Friedrich Nietzsche

De certa forma, é quase ridículo e irónico estar aqui eu, parado neste momento, a escrever um texto – conjunto de signos convencionados que comportam uma lógica – que incida sobre o legado de Nietzsche. Pois, segundo este, “somente os pensamentos que nos ocorrem ao caminharmos têm valor.” O tempo que perco a tentar coordenar as palavras da melhor forma, a colocar orgulhosamente a pontuação adequada, a ponderar o rumo mais harmonioso para uma frase pode ser insignificante para a história universal, mas, para mim, são momentos vitais desperdiçados. Porque a percepção do tempo belisca cada ser pensante e eu gosto de me sentir um pouco mais do que um mero mosquito.
Seguindo a linha de raciocínio preconizada por Nietzsche, o tempo em que existimos e existiremos enquanto espécie não tem qualquer expressão quando comparado com a sempiternidade do universo, que sempre teremos de aceitar por o nosso conhecimento não ser capaz de encontrar o início e o fim de tudo aquilo que conhecemos. O universo, em si, não é nada. É insípido, incolor, intangível, incomensurável; é apenas fruto da nossa percepção e posterior racionalização. E é aqui que a nossa existência se torna enviesada em relação a todas as outras formas de existir. O universo para qualquer outra espécie é apenas o resultado de estímulos nervosos, desprovidos de qualquer sistematização ou conceitualização. É, portanto, espasmódico.
No entanto, o Homem, culpado ou não por ter criado dentro de si uma série de teias e conexões perigosas e frágeis, mas que ao mesmo tempo lhe dão a desejada sensação de superioridade, vê-se mergulhado numa série de convenções. A verdade e a mentira, o bem e mal, a moral e a imoralidade, o certo e errado, tudo conceitos que toldam a sua percepção e o seu universo, embora aparentemente o expandam. O ser humano usa a palavra como um signo para tudo aquilo que percepciona e racionaliza, sem compreender a falácia em que incorre ao proceder a uma generalização. E, arrisco-me a dizer, todas as generalizações estão providas do erro, incluindo esta.
Perdemos assim a nossa centelha da genuinidade, tornámo-nos seres calculistas, redutores em relação a tudo aquilo que nos rodeia na tentativa de nos amplificarmos e encontrarmos na Maçã1a realização plena. Temos nomes que nada dizem acerca de nós próprios. Temos números que logicamente provam aquilo que não podemos verificar. Temos conceitos e valores enraizados que nos conduzem a cada acção que tomamos. Temos deuses como solução para aquilo que não poderemos nunca perceber. Tomamos o acaso como a principal pedra no sapato, quando, na verdade, o maior de todos os nossos problemas é a pouca homogeneidade e compactação entre tudo aquilo que vamos convencionando.
E o que fazemos quando uma nova ideia põe em causa todas aquelas que entretanto já estão solidificadas, emaranhadas umas com as outras? Activamos o nosso sentido prático! Rejeitamos aquilo que nos desafia e que obrigaria a uma total reformulação. No entanto, o tempo passa e essa ideia assaltará um outro alguém e depois um outro e depois um outro ainda. E começamos a perceber que afinal o impossível batia certo. Raios partam os loucos…!
A dor que sentimos nesse momento não é causada pelo facto de termos sido enganados, mas sim pela vergonha de o assumir. Enquanto pudermos encobrir o erro com a lógica, com a moral, com as palavras, com os números, fá-lo-emos! Diremos “isso é estúpido!” em relação a tudo aquilo que nos escapa enquanto tivermos dentro de nós a altivez do conhecimento empírico. Mas, dentro, alguma coisa bate com o Martelo em todos os alicerces que vamos criando.2 É a dúvida. Consegue, certamente, escutar o retinir do Martelo dentro de si se, por breves momentos cessar a leitura deste texto.

             Plop! Poc! Poc!
            Continuemos, pois já estou a perder imenso tempo com isto e onomatopeias são coisas sem grande lógica. Indo directamente ao assunto – atenção, sinto-me dono da verdade neste momento! –, aquilo a que chamamos vida não passa então de uma mera encenação da existência. Para nós, existir nãos nos chega, até um rato existe. Necessitamos de viver e isso significa mais do que respirar, alimentarmo-nos e reproduzirmo-nos. Significa montarmos um enredo, um tempo, um espaço e um desfecho lógico que o cosmos possa aplaudir quando o Tempo nos fizer cair o pano.
Aquilo que não sabemos é que a Maçã é uma matrioshka infinita. Na verdade – peço desculpa por ter utilizado este termo – não sabemos inúmeras coisas. E chamo-lhes coisas, termo tão pobre, porque embora tenhamos conceitos que as definam, não podemos sequer percepcioná-las. Racionalizamo-las a partir de pré-conceitos. Exemplos desses pré-conceitos são a eternidade e a morte. Nenhum de nós pode compreender o significado que esses termos abarcam, porque nenhum de nós é eterno nenhum de nós ainda morreu. Pese embora a morte ser a ausência total de sentidos e a sabedoria tantas vezes os suprime e dissimula.
Em última análise, somos a personagem estereotipada de nós mesmos, escrita por outras mãos e estruturada por outras vontades que não aquelas que o caos escolheu para nós.
Este texto acaba aqui. Vou agora caminhar um pouco, sentir o vento no corpo e ver se ele ainda tem força para me levar ao meu encontro.


“É naquilo que a tua natureza tem de selvagem que restabeleces o melhor da tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade…“
Friedrich Nietzsche

1 Entender a Maçã como a expressão metafórica do conhecimento, pois segundo o Livro de Génesis a macieira é árvore da sabedoria.
2 Crepúsculo dos Ídolos ou Como Filosofar com o Martelo, obra de Nietzsche, publicada em 1888. O martelo não deve ser encarado como uma ferramenta destrutiva, mas antes como um utensílio que permite verificar a solidez da construção. Aliás, era com um martelo que era verificada a opacidade das antigas linhas dos caminhos-de-ferro.




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