21 de nov de 2012

o tempo que falta na estação da Trindade


as portas do metro abriram-se. esse movimento lento, constante e automatizado foi seguido de uma multidão que se empurra para sair, para subir as escadas e diluir-se em grupos menos numerosos que se juntam a outras pessoas que esperam pelo respectivo veículo, que as levará ao destino pretendido. ah, o destino pretendido!…
Ilitch Wé é uma destas pessoas que sobe agora pelas escadas rolantes, calmamente, acotovelado por alguém que se chega demasiado perto. tenta recolher a tranquilidade que se evapora dos cordas de um violoncelo tocado por um jovem sentado numa cadeira velha, rodeado por pessoas que o escutam e ignorado por outras que não têm tempo para parar nem para o ouvir nem para nada mais do que continuarem a caminhar. com isto, lembra-se, também ele, de procurar o passe social num dos bolsos fundos do sobretudo preto e comprido que traz vestido. para além da música que fica agora para trás, existe uma melodia metálica e estridente: rodas de ferro que se insinuam e roçam nos carris ferrugentos: uma melodia que se propaga no ar e traz a Ilitch uma dor de cabeça ligeira mas perpétua. sente o cansaço daquele dia de inverno pontilhado por uma chuva demasiado ácida que se mistura com o travo amargo dos cigarros. mais um lanço de escadas rolantes demasiado lentas e demasiado lotadas insurgem-se.
quando chega à superfície, nota que o dia já se precipitou sob o mar que naquele momento não pode ver. mas imagina-o. a noite enche a estação, e a iluminação artificial, é sabido, tem sempre o seu lado mortiço – o medo exposto do Homem pelas trevas. Ilitch olha para o placar electrónico e, em seguida, consulta as horas no telemóvel que por capricho se mantém inactivo, mas nem por isso se atrasa no tempo que exibe. faltam dez minutos. Ilitch lembra-se de um poema que escreveu há uns meses, e que quase houvera esquecido, para agora perceber que estava errado. nele havia perpetuado uma exaltação às máquinas, havia declarado amor para com elas, mas, agora, com o som arrastado do ferro contra ferro que lhe violenta o pensamento e com o estado de hibernação do telemóvel que possui há mais de três anos, deixa que um pensamento se esvaia sussurradamente da sua boca: puta que pariu lá esta merda!
à sua volta encontram-se muitas outras pessoas. algumas riem e falam sonoramente, outras ouvem música em auriculares, afastadas do mundo, enquanto constroem expressões faciais a partir das quais Ilitch tenta adivinhar o que lhes vai no íntimo. depois existem também os estrangeiros, de cabelos e barbas e roupas bizarras, com malas que transportam uma vida lá dentro que Ilitch tenta supor. existem também os velhos vagarosos que arrastam o mais comodamente o pouco púlpito que lhes resta e que perguntam a alguém qual é a linha que os leva para casa. Ilitch responde-lhes sempre e esforça-se por sorrir. sente, de forma presunçosa, que os entende. sente-se também ele já demasiado velho, exausto, não conseguindo afastar a ideia de que já percorreu várias ruas dentro da sua própria mente. por várias vezes, nessas ruas, esperou que alguém passasse e lhe indicasse o caminho para casa, mas aquelas eram bifurcações despojadas de transeuntes. na verdade, Ilitch Wé tem ainda somente vinte e um anos, mas sente-se cansado. é um rapaz magro, de rosto demasiado ósseo coberto por uma barba não cuidada e rarefeita; o cabelo ligeiramente ondulado e despenteado; nos olhos claros e vagos, escudados por uns óculos de armação escura, possuí o contorno negro e constante das olheiras que conquista noite-a-noite e nas mãos de dedos finos possuí um cigarro que dentro de breves momentos começará por queimar e que lhe irá amarelar o indicador e o anelar
faltam nove minutos. Ilitch Wé vai até ao recinto exterior da estação, onde se encontram algumas pessoas a fumar, outras que se riem e se zangam e franzem as sobrancelhas enquanto conversam ao telemóvel. o frio faz-se sentir na pele e nos corpos trémulos destas pessoas. acende também um cigarro e, enquanto fuma, fixa uma gaivota que voou teimosamente desde o Douro até ali, dilacerando o céu cinzento à sua passagem e trazendo esperança nas asas e no corpo frágil, suspenso por um vento moribundo e pouco convicto. esse vento existe também dentro de Ilitch Wé, passeia-se vagaroso juntamente com o seu sangue que não chega nem aquece a superfície do seu corpo. num passe de mágica passou tempo e faltam agora sete minutos. por vezes o tempo parece que muda o ritmo da sua marcha. ou, então, talvez seja a minha narração que se desprende da veracidade cronológica e não se coaduna com a cronometração exacta dos relógios.
o cigarro que tem na mão ainda se deixa aniquilar mais um pouco, em baforadas decompassadas. às vezes, parece-me que ele habita num século passado, que nasceu noutro país e que fala outra língua – talvez russo ou um dialecto oriental e morto -, sendo o português apenas um idioma secundário, como um ornamento da usa natureza saudosista. muitas vezes cruzamo-nos, mas não conseguimos encetar uma conversa ainda que banal. cumprimentamo-nos com o olhar desviado um do outro. ele sabe que, por vezes, falo sobre ele às pessoas e eu tenho a consciência de que ele faz exactamente o mesmo. mas a ele ninguém o entende. ele é como os estrangeiros que se encontram aqui, na estação da Trindade; ele olha e tenta interpretar os mapas coloridos da linha do metro, compreende-as, mas isso não lhe oferece a certeza do seu destino. Ilitch Wé não sabe para onde pretende ir, embora saiba que vai para casa.
faltavam cerca de cinco ou quatro minutos. eu estava lá quando tudo isso aconteceu, porque ele e eu partilhamos muitas vezes o mesmo corpo. de súbito, Ilitch Wé deixou que o cigarro inacabado se precipitasse sobre o pavimento cinzento do exterior da estação, pisou-o, matou-o, entrou na estação, avançou por entre a multidão, não validou o andante e parou junto à linha amarela de segurança sem a pisar. aí deteve-se durante um tempo que pareceu eterno. esperou. esperou. esperou.
três minutos exibiu o placar. e mais um trecho de eternidade.
dois. e o tempo e aquele lugar como cristalizados.
um. e melodia férrea a subir de tom. o metro a chegar à estação.
nesse momento, Ilitch fitou-me directamente, sorriu melancolicamente e, quando a melodia já era um rugido demasiado próximo e já soava uma campainha anunciado a chegada do metro, deu um passo convicto em frente e lançou-se para o centro da linha.
um terramoto que só eu vi deixou-me em ruínas, sem movimento ou qualquer outra reacção. mas o tempo prosseguiu. as pessoas entraram, indiferentes, para o interior das duas carruagens. a campainha soou de novo. o metro arrancou de novo. a melodia férrea eclodiu de novo e depois foi-se tornando num zumbido ténue.
Iltich Wé não morreu. vi-o caminhar em direcção a mim, sem arranhão que se notasse, e resguardar-se, de novo, no meu corpo, como já não fazia há muito tempo. o placar exibiu o tempo em falta para o próximo metro: dezassete minutos. interrompi este texto, e enquanto fumámos um cigarro nem eu nem ele comentámos ou tentámos explicar o que se houvera passado. o motivo que nos tinha afastado nestes últimos tempos, que só nós sabíamos e podíamos entender, não importava nada agora. matando o silêncio, ele perguntou em voz rouca:
- e se voltássemos a escrever?
nesse momento, passei-lhe estas duas folhas de papel para as mãos, e, juntos, analisámos todas as frases, todas as palavras, melodias, vírgulas e pontos para, por fim, chegarmos à conclusão de que a forma era trôpega e o conteúdo não era lá grande espingarda. mas, obstante qualquer tipo de teorização literária, ambos sabíamos: o final deste texto marcava um novo parágrafo para nós.
este, com espaços em branco impróprios para palavras, que só nós podemos completar 
e que só nós podemos compreender porque                                                                                                          







André Correia e Ilitch Wé

Um comentário:

Sr. Mal disse...

Um belo texto, amigo. Um belo texto!
Há, julgo (ou ocorre-me), duas ou três metáforas existenciais a que nenhum poeta, digno de se considerar como tal, independentemente da qualidade literária, pode fugir, porque lhe é intrínseco:
- A atracção pelo abismo
- O circo
- As estações e viagens de comboio

Para além de residir em tudo, creio que o poeta habita aí!

Um belo texto, amigo, um belo texto!