4 de jun de 2012

Estás em casa?


- Estás em casa?
- Estou.
- Então vem-me buscar porque eu tive um acidente.
- O quê? Estás bem?
- Está tudo bem. Ninguém se magoou. Vem-me buscar.

 (…)

Assim começou a minha aventura naquela noite. Na verdade, ela tinha já começado mais cedo, comigo ao computador a beber e a escrever um tratado filosófico, em poesia, sobre uma coisa qualquer com base suficientemente sólida para me aguentar nela aos pinchos, enquanto a vontade e o vinho durassem. Não me lembro ao certo sobre que era…

Calcei-me e corri para a casa de banho a atirar mancheias de água para a cara enquanto escovava os dentes e, em cinco minutos, estava dentro de um carro a bufar e a fazê-lo rugir. Quando cheguei e vi o meu irmão bem, acendi um cigarro ao fim de tantos e nenhum como esse.

- Estás bem?
- Estou. Foi só chapa…

Os pirilampos da polícia davam àquele cenário um catastrófico dramatismo que nenhuma água ou força humana parecia poder limpar ou arrumar. Porém tudo estava calmo e em vias de se animar para o dia seguinte. Foi quando um polícia me bateu a pala, querendo inteirar-se da minha presença naquela equação, que as coisas se complicaram para mim.

- Boa noite! Os seus documentos, por favor…
- Eu vim só buscar o meu irmão. Ele é que teve o acidente!
- Ele veio-me só buscar. Eu é que tive o acidente!

- O senhor ingeriu alguma bebida alcoólica?
- Eu vim só buscar o meu irmão…
- Queira por favor acompanhar-me ao jipe para efectuarmos um controlo…

- Não vejo porque isso seja necessário. Ele só me veio trazer o carro. Sou eu que o vou levar…

- Se não se importa…

E foi assim que, pela primeira vez, entrei num tribunal para responder a um crime de desobediência. Acho que era isso – uma desobediência grave!

Uma vez ‘sentado no mocho’, pôs-se uma Grandessíssima e Meritíssima Juíza a fazer-me perguntas. Uma cavalona cheia de tesão por baixo daquele hábito negro. Eu não estava propriamente em condições de me achar com tesão e apenas um pézito nervoso bombeava sangue para o resto do corpo.

[-] Sim, claro… Eu compreendo… o colectivo compreenderá que eu estava em casa… não fazia tenções de sair… estava até descalço… blá blá blá…
[-] O senhor isto… o senhor aquilo… a sociedade e a ordem… o senhor compreenderá que não pode…

- Sim sim, eu compreendo… isto também não é nada do que eu tinha visto nos filmes com tribunais americanos…
- Perdão?
- Não me peça perdão, ora essa! Isto é frio e agreste mas também não é propriamente um salão sadomaso…

Por esta altura, um polícia (ou segurança, não sei bem!) começou a saltitar de uma coxa para a outra, sem se mexer. A olhar para a Meretíssima e para mim. Para mim e para a Meretíssima que, por esta altura, não sabia se havia de largar a caneta e pegar no martelinho ou pegar no martelinho e bater. Arriscou em vão escrever com o martelinho… e riu-se entre-dentes.

- O senhor é muito insolente. Tem noção? (…) faz ideia? (…) por isso, eu podia (…)
- Ó minha senhora…
- MINHA SENHORA?
- Perdão. Nossa Senhora… que estais no céu… e de costas para um azulejo pintado por alguém que devia estar tão bêbado que acreditava aqui poder fazer-se justiça…
- Vou mandá-lo prender. O senhor tem ideia? (…) faz noção? (…) o senhor estava bêbado e conduzia uma viatura a altas horas da madrugada, pondo em perigo a vida de outras pessoas! O que tem a dizer-me sobre isto?
- Foi por uma boa causa!
- Uma boa causa? Uma boa causa?
- Sim.
- Como pode o senhor chamar a isso boa causa? Você é uma vergonha para a sociedade!
- Sim, é verdade. A sociedade envergonha-se com muita facilidade de pessoas como eu. Mas isso é só a vergonha que ela tem de si mesma. Como quando se abstém de levantar um ser-humano que caiu redondo de bêbado no chão. E encosta os pezinhos um ao outro para que a cabeça de um aflito lhe não pise os pés ou olhe por dentro da sua bolha Actimel

E assim começou a minha primeira aventura, sem carta, na cadeia…


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