5 de mai de 2009

O tema deste Post...

Quando era miúdo, ia com os meus pais ao domingo levar o depósito nocturno ao banco. Não era bem nocturno. Saíamos de casa ainda era dia. Lembro-me de contar cerca de 100 árvores de natal nas janelas, da primeira churrasqueira que abriu em Alpendurada e de me fazer um esfomeado manhoso para irmos comer um prego com batatas fritas ao Gato Negro, ou Preto, ou a puta que o pariu…
Nessa altura, que não era nitidamente o meu tempo, lembro-me dos bancos que havia. Eram poucos e, no geral, só lá trabalhava quem fosse rápido a contar notas. Íamos ao Banco Fonsecas & Burnay e havia a Caixa Geral de Depósitos (a grande Madame), que era onde o meu avô teimosamente depositava as lecas. Depois fomos mudando, saltando de banco em banco, como os saltimbancos. Lembro-me do Montepio Geral, do Banco Borges e Irmão, do Crédito Predial Português e de surgir a Nova Rede, essa novidade de outrora com imagem juvenil, ecoando hoje à craveira de um qualquer partido político minoritário a pôr-se em bicos de pés.

Na altura, como hoje, não dominava essa linguagem de escravos que é o Economês. Mas suponho que os métodos fossem semelhantes. – ponha aqui o seu dinheiro. Nós somos do Best e a sua reforma vai parecer a lotaria (hoje, o Euromilhões, porque a bazófia também fez filhos e agigantou-se com upgrades).

O que me leva a crer o seguinte: - quem são estas bestas que nos juram fidelidade eterna e depois se vendem aos outros. Quem são estas putas de alterne que fundam bordéis e depois desaparecem? Vale a pena acreditar? Não creio. Grande parte das putas que conheço (assumidas e, portanto, as verdadeiramente dignas de respeito) carregam um fado qualquer, uma culpa de amor em saldo que elas não puderam comprar e a que, sem grande acometimento de valores, me atrevo a chamar de consciência. Não deve haver muitas verdades maiores do que uma puta a assumir que o é. E, como tal, merece respeito. Bem mais do que aqueloutras que namoram futebolistas e falseiam, não só o prazer mas também o Amor (essa sim, a mais reles das putarias).

Ora bem, bancos e putaria é quase a mesma coisa. Enquanto umas nos puxam pelas peles no colchão, os outros fazem-nos acreditar que as peles debaixo dele, estão mais seguras na sua caixa forte, o que, como sabemos, é uma grandessíssima mentira. Sei de uma estória. Senhora velhinha, com colhão e meio de euros, peintelhos de tostões. Pediu para levantar o dinheiro. Demorou a contá-lo. Feita a conversão para contos de rei, retorquiu: - “Está certinho! As notas é que já não são as mesmas!” – disse em tom de repreensão por lhe terem andado a mexer no dinheirinho. “Pode voltar a guardar!”
Inocência gira dirão uns, selvajaria grotesca, outros dirão. Na verdade, a velhinha não sabe o que é um banco ou o que representa, mas este sabe bem o que ela é. Se lhe contassem a história toda, dava-lhe um ataque nos órgãos mais sensíveis. Ela levantava as notas trocadas e sujeitar-se-ia às manápulas de um drogado a virar-lhe o colchão ou a comprar-lhe vinho com notas falsas, com troco verdadeiro e combinação de caixa fraca.

Eu também poderia chegar a velho. E se isso acontecesse poderia rir-me com toda a masculinidade dos meus ossos, uma espécie de escárnio em relação aos mal coçados. Imaginemos, um velho sem rapidez de movimentos ou raciocínio a lidar com a tecnologia de amanhã. É para rir e, no entanto, sem valores que nos protejam, nós somos hoje o sulfato e enxofre para essa colheita de amanhã. Invariavelmente, acabaremos por dizer: - “se eu tivesse a tua idade” e, muito pior, “o mundo é assim”. Diremos a mesma merda que ouvimos, ainda que tenhamos hoje quilhapos para virar o sistema pelo avesso. Mas definhamos. Ganhamos filhos e, com eles, um amor que não se permite a revoluções, porque não lhes desejamos fome nem abalos maiores na cadeirinha do carro que preenche todos os requisitos de segurança em caso de acidente. Pois claro. Na melhor das hipóteses são os primeiros a ficar órfãos. Dir-me-ão que pode salvar-se vidas. Não duvido, mas não é esse o tema deste post. Gosto muito de criancinhas, principalmente quando estão caladas ou a chupar cornettos. Podia até trazer uma ou duas a este mundo, partindo do princípio que elas andam pelo cosmos a voar. Podia até provocar-lhes uma infância feliz mas… e depois de sair da cadeirinha? “Este país não é para velhos” e muito menos para crianças que deixam as cadeirinhas. Portugal é, quando muito, para corruptos que se encavalitam em Bancos. Dir-me-ão que posso sempre emigrar (e viver fugindo do chafariz de merda com que nos contempla o Sr. Poder). Dir-me-ão que um dia, quem sabe, talvez esta gente que cria leis e nos obriga a cumprir normas de segurança se lembre de nos inventar uma cadeirinha para nos proteger dos Bancos. Sim, mas não é esse o tema deste post...

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