15 de jun. de 2013

A Mário Cesariny


«Ser poeta é ser mais alto.» Nada tão errado como isto.
É inegável que a escrita funciona sempre como um meio amplificador da essência de cada autor. Cada poeta é um mundo, tal como cada pessoa o é, este apenas o consegue sublimar e torná-lo mais denso. E esse mundo, despojado da sua ordinariedade, válido apenas pela atração do ser humano pela Metáfora – femme fatale -, é recebido, assimilado e transformado num universo por aqueles que o lêem. O leitor acaba então por ser a foz de cada poeta, de cada romancista, de cada artista. O rio encontra finalmente o oceano que vislumbrou ao abandonar as encostas íngremes da montanha.
Assim sendo, o artista principia sempre a sua obra com um olhar abrangente e altivo. Observa o que o rodeia, mas devido à distância a que se encontra da terra, acaba por não conseguir focar os mais pequenos detalhes cintilantes do meio que o circunda e envolve. Desse modo, deve habitar sempre na «alma» do artista a atracção pelo abismo. A melhor forma de entender e apreciar o mundo é rastejando através dele. Tudo se torna maior, nada pode escapar à sua percepção. O artista fica então em alerta máximo para os mais pequenos acontecimentos: o leve restolhar da vida sobre a morte torna-se então perceptível.
O artista é uma serpente que não se presta à camuflagem que a lógica lhe oferece. É aquele que não se esconde da morte para não deixar de viver em pleno; é aquele que usurpa e subverte os alicerces mais profundos do pensamento. Numa derradeira análise, o artista é tudo aquilo que conquista através do furto à substância.
A sua essência reside em exibir através do pó terrestre, que traz agarrado à usa existência, a mágica que a brancura das nuvens não reflecte. Enquanto que o sol se torna brando no horizonte, o artista incendeia-se em sensações. Queima, ilumina e germina. Depois disso sobe de novo à montanha. Mas não para olhar a planície. Somente para se precipitar outra vez no vício das cicatrizes.

Molem agitat mens.

Prefiro ao meu caminho o traço do teu lábio, sorrindo;
As cores pelo negrume,
O ladrar dos cães à minha escrita,
Por mil sóis a demência,
O esquecimento,
Alzheimer, invalidez, pulgas…

Pudera eu ser estrume sem consciência
À condição de te ver pelo submundo em flor aberta
Feliz ao sol…

Vou sendo mau para quem me rodeia.
Deveria matar mas sou fofo,
Chego a ser fofinho…

De certa forma, à frente do tempo,
Lido mal com os minutos e
Pouco sei de finanças…

Bebo demasiado e chego tarde a ser
Atrasado mental.

Desço as escadas por uma caixa de óleo e as rodas dentadas do meu coração entram em greve de zelo e sonho.
Esqueço-me de tudo… menos de ti
O teu nome é um vírus que invade a minha escuridão diária
Com sol…


5 de jun. de 2013

entre cromos repetidos, mãos incautas e putos trafulhas


            juntos somos como um cromo autocolante. eu, por natureza, sou o cromo e tu és a cola que nos mantém no sítio certo da caderneta. podemos não ser o cromo mais raro, mas não nos troco por nada. gostava que soubesses disso, principalmente sempre que os nossos cantos se descolam ou vincam – pois a existência tem dessas coisas!... mas eu e tu sabemos: queremos ser mais do que um cromo; queremos, enfim, ser o velho que um dia, nostálgico da sua infância, folheará com as mãos enrugadas, beijadas pelo tempo, uma caderneta completa de memórias com sabor a algodão doce.
            no entanto, não queremos ser velhos. risco o que escrevi. à eternidade do nosso tempo só peço que nos deixe indeléveis e inalteráveis; que nos deixe por aqui e mais nada! não quero aprender o que a vida ainda tem para me ensinar e que me fará esquecer daquilo que a morte me prometeu: algum tempo só para mim neste solo minado pelos homens. e peço-te a ti que não pretendas aprender mais nada também!... de que nos serve saber usar o predicado se não formos genuinamente o seu sujeito? nunca seremos deuses, mas também nunca seremos idólatras. o nosso significado será sempre feito por nós, sem poemas, teses ou manifestos que nos elevem.

confia em mim! entre cromos repetidos, mãos incautas e putos trafulhas nós cá nos arranjamos.

17 de mai. de 2013


Disseste-me…

Esta noite sonhei com pessoas mortas suspensas em ramos de árvore frágeis, sob a bruma noturna iluminada de luar. Sonhei que fugia mas não havia fim para a fuga. Sonhei que matava, e intriguei-me a pensar  “ se mato… terei sido eu?”

E eu…

Sonhei que te beijava. E que tu até precisavas de mim. Quem sabe um dia em vez de precisares de mim até me venhas a querer. Isso é que eu gostava. Depois, no sonho, senti que era tempo de te contar o meu segredo, se segredo é para ti. Nunca te cheguei a contar, porque só agora percebo claramente que, se sonhei contigo, passado todo este tempo. Se sonhei que eras minha, às tantas, é porque te quero.                                                  
Ora…                                                                          esquece.
Gosto muito de ti, só isso. Ou talvez a palavra amor seja muito fechada para o que sinto. Talvez não precise de te amar para te amar, e então te ame assim, sem te prender.

A sério? Poh! tens pesadelos mesmo fortes! Eu tenho sonhado com nada.é.

12 de mai. de 2013

Nasceu anã minha estrela


Nasceu anã minha estrela e sem galáxia
a quem deva vassalagem ou compaixão,
mas ela é fonte de alimento para buracos negros
que aniquilam aquilo que sou ou seria
e deixam somente uma máscara de alegria,
que sempre coloco no rosto ao contrário
deslavado de esperança pelo pó do medo.

Eu sou a mentira com que me vou embalando,
eu sou o segredo que esconde o meu crime
– fito os meus olhos reflectidos no espelho
e depois lanço-os à janela que pinta sempre de janeiro
o mundo que engulo a custo
e que parto com aquilo que me sobra:
palavras vazias e lembranças de promessas sem país.

8 de mai. de 2013

Breve apontamento



Caia-lhe o colar ligeiramente para o interior do peito.
        A pele de café da manhã valorizava-lhe o colar de pequenas pétalas brancas
As mãos de dedos finos, agrafavam perigosamente o embrulho…“cuidado para não agrafar os dedos.”
         Ligeiríssimo sorriso, quase impercetível.
Cabelo denso, feito para ser arrumado de um lado para o outro. Teimoso forte e belo. Mil cornucópias barrocas.
         "Raisparta" a memória, que tem mais de poeta que de repórter, sempre a derreter… sempre a derreter. Persistência da memória: abre-se um deserto com umas rochas muito mal espalhadas, e atrás dessas rochas, espreitam lábios,  olhos, o seu corpo, a sua pele.
         Na cabeça percorri todas as comédias românticas que vi até hoje, todos os livros, todas as estórias inventadas por quem já sentiu igual.
         Da boca apenas um obrigado e um bom dia, recibo no bolso, passos na direção da vida que continua.
Saio com a sensação que só nos apaixonamos verdadeiramente por estranhos e que estou a precisar de comprar meias, ou a única camisa que gostei, para além da que trouxe.

5 de mai. de 2013



Não adianta pôr flores à poesia – ela não morreu!
Levar-lhe flores à porta? –
Ela não mora!
E se morasse saberia que a tua purga é falsa –
Logo não abriria.

Ama-te porém quando estás vencido
E lhe falas de coração…
E fala a tua língua se estiveres bêbado,
Ainda que para a profanação da alma isso pouco importe…

Uma coisa é certa:
Tens de ser livre primeiro e a todo o custo!
… que é dizer oferecer-lhe a tua liberdade
Para que ela te amarre.

E seres dela!

Porém, como no amor,
Tens de pôr-te a jeito de levar umas chapadas
Por quem amas.

Tens que defendê-la,
Não em seminários sobre o amor eterno,
Mas sobre todas as coisas…

Porque ela é mulher
E gosta de sapatos!
E os sapatos não são só de calçar…

Tanto pisam
Como entesam…


3 de mai. de 2013

Sentimentauro



De todos os venenos que provei
Dos copos por onde bebi
Dos cigarros que fumei
Das esteiras frias onde me deitei
E me adoeceram…

Das bofetadas que me dei
E me doeram

Dos acidentes de automóvel
Ou ser levado em maca para uma sala de operações,
De forçar o peito ao mundo e ouvi-lo rachar
O mundo a rachar…

Nada me preparou para a fina flor
Do amor que te pus em redoma
E caí como Kong
Do alto dos meus sonhos
Contra um chão de formigas necrófagas.

Vende-se bem o amor a quem sente pouco…

Mostrar sentimentos não é para os homens!
O único sentimento que a um homem se permite é o KO
Dentro do ringue…
A única insegurança: - querer a desforra!

Lutar!
Lutar sempre!
Lutar, lutar, lutar…
E ser um bronco para mandar no amor,
Imune a perfumes…

Instalar andaimes firmes por onde os sentimentos possam discorrer
Como água da chuva
Para dar sentido à construção.

Faz sentido um homem à chuva em tronco nu
Como se ela não existisse,
Ainda que isso pareça estúpido num alentejano quieto à beira da estrada…
Mas os sentimentos são como as fotografias e não basta existirem para serem reais:
- Têm de ser bem tirados!


24 de abr. de 2013

Desejo



- Podemos estar ambos errados e, no entanto, as probabilidades jogarem a nosso favor…
- Até porque esta vida são dois dias…
- Exacto, e o Carnaval são três…
- E como é Carnaval…
- Ninguém leva a mal, pois claro!
- Vamos dar outra oportunidade ao nosso casamento?
- Não, vamos só foder pelos velhos tempos...




22 de abr. de 2013

vamos devolver a máquina


tantas foram as fotografias que tirámos com esta máquina
e, agora, algumas, já não as lembramos: tempo a morrer.
outras quisemos esquecer e não executamos o movimento.  

existe uma imagem mais alta do que os telhados,
um ruído que se desprende dos outros e nos toca;
existem sinais por todo o lado, não pretendo olhar,
não olhes também. tenta dormir, sim, tenta dormir.
ensinaram-nos a contar as horas, a ferver a água,
a saltar e a olhar o céu. apontámos a um só avião
e vimo-lo sem querer. talvez nos fosse inevitável.

- dizem que não nos vê lá de cima…

dizem tanta coisa. há quem afirme o nosso sono,
a nossa cegueira, a nossa sorrateira existência.
dizem tanta coisa. por experiência, fugimos,
sabemos não ouvir. mas existe uma imagem,
ela paira sobre os telhados, sobre o nosso sonho.

um gigante de promessas em ferrugem, um rosto,
que se assemelha àquele que tivemos um dia.
se ele nos falasse, creio, não seria razão de receio,
mas ele não se distrai, o seu tempo é outro. agora
somos somente sombras com dores abstractas.
ai!...
mas disseram-me que ele não nos vê lá de cima…

incapazes de destruir o gigante moribundo,
que já só anseia por morrer numa rua qualquer,
escondida das nossas coordenadas, vamos mentindo,
tentamos formatar os risos de outrora, mas o mundo…

o gigante a contorcer-se e assumir-se brinquedo;
o passado a sorrir-nos e dizer-nos que é tarde.
ele tombará sobre o nosso enredo, não há saída.
vamos devolvê-la, agora, antes que se estrague.

a máquina tem de sobreviver, porque a vida…

21 de abr. de 2013

Taxi Driver



O táxi seguia rápido para o meu vagarosismo mental que acelerava. Queria teleportar-me para escrever. Escolhera o banco de trás para não falar, como se guardasse pela vida toda -  uma mochila - segredando aos néons ou segredado por eles uma história de prostitutas…

Tudo fazia sentido, comigo a achar que não havia sentido nenhum… e aquele carro a levar-me para um apartamento onde eu sabia que iria para foder... de boa vontade!
Achando nisso depois decadência nas persianas mal corridas às primeiras frestas de luz com que a manhã lambia o nosso ninho (e a estante dos teus livros)…

Depois até casa, com vigor no caminho, e uma piscina de sensações a esfregar-me com sabão a alma num tanque – a roupa empestada de fumo, de tabaco, de memórias fodíferas… o sol bronzeando a minha errância...
Sorrisos cúmplices, no passeio, com meninas desejosas de tatuagem…

O sorriso delas brinca
E o brinco delas, no umbigo,
Rima comigo…

Passo por nós e por Deus
Enquanto na esplanada brigam os bêbados….




Domingo, depois da explosão e da chuva



Deixa-me pensar em ti
Domingo, depois da explosão e da chuva.

A armadura por polir na cadeira do quarto
Como roupa de sábado à noite

Não sei que te desejo,
Desconheço o teu perfume
Mas há um outdoor teu na minha cidade interior…

Gosto de estar só.
É até ridículo queixar-me do trânsito e dos semáforos
Nas avenidas onde o Apocalipse levou só pessoas.

Quebro todas as regras de sociabilidade
Acelerando um carro roubado ciente de não haver gente para atropelar
Ou clínicos para me desenlaçarem os músculos
Ou apenas repor os ossos no sítio…

Quero lá saber!

Na minha cidade interior as histórias acontecem como nos filmes
E o mundo real é uma cerimónia que
Revisito apenas para dar estrume ao sonho.

Sou podre no mundo real
Mas há uma floresta no submundo dos sonhos
Que subsiste à conta dessa podridão…

Deixa-me pensar em ti
Domingo, depois da explosão e da chuva…

Deixa oferecer-te o cartão dourado
Que abre uma passagem no espelho para o onírico.
Por túneis de sebes floridas
E regos de uma água lacriluminosa que pinga do viço
E das folhas
Ante um circo atrás dos montes…

Escrevo para te dar esse mundo!
Não para viver nele contigo
Mas apenas porque me vou

...E te levo indelével numa memória em flor.




2 de abr. de 2013

sonho transatlântico


o mundo dos significados alinhados e cruzados
é um cigarro mal batido de trago amargo.
o encanto da poesia não o encontro nos prontuários,
nem sequer na melodia que se gera, propaga e repete
na velha caixa de música onde é sempre primavera.

como um quarto sem janelas
ou uma noite desprovida de luar
assaltada de rompante por um sonho transatlântico,
o meu nome diz tão pouco a meu respeito.

a pátria das palavras não é aquela a que pertenço

e quando me olho no espelho,
essa mescla de oráculo e poço,
penso que os deuses se enganaram
se de mim era esperada uma melodia harmoniosa
que ecoasse em flautas e encantasse serpentes.

eu não quero o sublime,
eu não quero o obsceno,
eu não quero o graal perdido,
pois despir-me de mim próprio é a melhor metáfora que consigo.

se eu fosse coisa de ler, seria uma sagrada escritura…
e rogo-te para que não me interpretes de forma literal!
se eu fosse coisa de ser, não seria deus nem criatura,
seria o que sou:
uma praia de inverno que guarda na memória um desembarque,
sem glória nem arte,
de um barco que atracou ao contrário num jeito ultramoderno.

27 de mar. de 2013

Em resposta à 'rave de Noé'



Apraz-me (e de que maneira!) o seu relato histórico, Ilitch Wé. Já em petiz me encantavam histórias de carochinhas, de bambis, soldadinhos de chumbo e príncipes que se deixavam bater em corrida por plebeias mal calçadas…
Talvez por isso (e de igual modo) tenha suportado tantos anos de catequese. A história de Noé, porém, apegou-se-me à memória como um dos argumentos mais mal concebidos pela indústria bíblica. Explicarei…

A julgar pela vasta trupe de animais que povoam o nosso mundo de hoje (grande parte deles carnívoros), parece-me imprudente o esquecimento (na sagrada escritura) da fórmula achada por Noé para alimentar a bicharada. Não consta que levasse ração de combate…

Creio, de igual modo, que Noé fosse um preguiçoso do camandro. É muito provável que tenha deixado a maior parte da bicheza a nadar, não sem antes ir à Austrália carregar a arca de cangurus e diabólicas serpentes. Também é provável que alguns animais se tenham entretanto extinguido ‘inside the ark’ por serem gastronomicamente propensos à gula. Seriam disso exemplo o ‘Panda-de-perna-fofa’, o ‘Tigre-de-rabaça-argentina’ ou mesmo o ‘Javali de 14 patas’…

Mas preguiçoso, porquê?
Porque Noé, depois de ter embarcado a palha e os cavalos, muito bem podia ter riscado umas cartografias para ofertar às gerações vindouras. Com a informação privilegiada que dispunha bem podia ter desenhado uns mapazitos antes de se ir empoleirar num monte…

Outra questão me assalta! – os peixes, em particular as baleias (sim, as baleias são mamíferos – eu sei)… a bicharada dos oceanos, caramba! Também embarcaram na sacrossanta Arca ou vieram ‘de zorro’ atrás? Puxadas por uma corda. Será que Noé lhes assobiava uma cantiga em flauta de pã, qual flautista de Hamelin? A malta precisava de saber…

Os dinossauros não existiram – isso é sabido! É científico! – Tratavam-se apenas de uma estirpe de carneiros cujas ossadas cresciam (crescem) debaixo de terra, tal como as trufas, mas impercetíveis ao farejo dos suínos… - os Dinobodes!

E depois, os crocodilos! A sério, para quê? Se calhar Noé era Dandy (ou metrossexual) e gostava de cintos e sapatos… mas isso já sou eu a especular e não quero aqui parecer herege…

E pronto, era isto. Ainda tenho muitas dúvidas... uma certeza, apenas:
- Tivesse antes deus delegado as suas histórias à Disney, ao invés de a uns incautos analfabetos, e até a bíblia ganhava óscares!


25 de mar. de 2013

A rave de Noé



Este texto que com esta frase se inicia, surgido não do barro e muito menos da inspiração divina, fala-nos – a mim também, pois não me lembro de alguma vez me ter sido relatado este episódio bíblico nos meus tempos de catequese – de um momento bizarro na vida de Noé, filho de Lameque, descendente de Set.
Quando ouvimos falar de Noé, o nosso pensamento remete-nos de imediato para esse arquitecto naval ancestral, que reuniu a sua família e dois espécimes ou sete pares de animais de todas as raças existentes na Terra para, dessa forma, os conservar e permitir a deus que procedesse a uma desparasitação do mundo terreno. Tratou-se, pois, quase de um restauro à obra de arte que houvera criado. Diga-se que o resultado obtido não foi muito diferente do restauro a que Cecilia Giménez sujeitou a obra Ecce Homo de Elías García Martínez. A senhora tinha boas intenções; talvez deus também as tivesse. À parte de qualquer especulação, ambos transformaram uma obra maçuda num conteúdo mais pop.
            Mas este texto quer que nos foquemos de novo na personagem principal: Noé, Noach, como quiserem. Se olharmos para o título deste texto, seremos levados a pensar que o seu conteúdo fará mais uma piada fácil e insinuará que o Noé foi um grande maluco ao juntar-se com a bicharada toda num navio de colossais dimensões e andar a navegar pelo mundo, enquanto este estava inundado por águas divinas e tudo sucumbia pelos desígnios bons do Senhor, até ao momento em que, através da informação de um pássaro, perceberam que estavam encalhados no Monte Aarat.
(Comentário crítico efectuado pelo primeiro leitor deste texto – eu: Ora bem, se a arca encalhou no alto do Monte Aarat, era sinal de que ainda havia muita água por escoar, logo teria sido mais sensato permaneceram na embarcação durante outros quarenta dias e quarenta noites. Mas isto sou eu a dizer…!)
            Outro pormenor engraçado dessa insana jornada é o facto de deus ter dito a Noé, antes ainda de ter aberto as torneiras lá de cima e ter dado início à contenda, que este deveria levar para a arca dois exemplares das espécies mais impuras e sete pares de animais das espécies mais puras. Ora, logo aí, Noé falhou com o combinado ao levar para a arca toda a sua família, uma vez que não existe espécie mais impura do que o Homem – em acréscimo, é bom lembrar que o estimado patriarca era casado com uma das suas próprias sobrinhas. Mas, enfim, o importante é que tudo correu bem, ninguém morreu, o mundo foi limpo e assim se deu início a uma nova era.
            Vamos então ao episódio central deste texto, que ocorre algum tempo depois dessa odisseia marítima. Já o mundo era fértil, já Noé tinha tido outros filhos e tudo à sua volta era próspero. Por consequência, deus, num acto de bondade e apreço pelo seu escolhido, certo ano decidiu brindá-lo com uma óptima produção vinícola. Noé estava radiante com aquela colheita, o vinho era excelente e, por isso mesmo, decidiu organizar uma festa. Bem, já se sabe, festas onde haja álcool em abundância acabam sempre por dar merda! E deu mesmo!
            Noé bebeu, bebeu, transbordou e voltou a beber. Quando a sua cabeça já assumia um peso insuportável, ele decidiu ir para a sua tenda, onde momentos depois acabou por ser encontrado todo nu pelo seu filho Cam, que provavelmente também já estava meio tocado. Cam saiu da tenda e foi contar aos irmãos o que vira. Estes todos armados em púdicos, como se nunca tivessem apanhado uma valente “zebra”, foram fazer queixa do irmão mais novo e cobrir o papá (salvo seja, promiscuidade havia mas não tanta!). Noé, naquela hora, deve ter escutado tudo de forma muito distorcida, mas, mais tarde, quando começou a recuperar a consciência, teve a autêntica atitude de um bêbado: libertar o mau humor e, ainda meio zonzo, descontar no primeiro que lhe aparecer à frente! Dito e feito!
            Noé saiu da tenda, provavelmente ainda um pouco trôpego, e pelo caminho encontrou o seu neto Canaã, filho de Cam. Olhou-o nos olhos, fez um esforço para articular bem as palavras e disse-lhe:
              - Maldito sejas Canaã! Servo dos servos serás dos teus irmãos!
            (Outro aparte do primeiro leitor deste texto – eu: Cá para mim o que ele lhe disse deve ter sido algo como: “Ah, catraio de um raio! Onde é que está o vagabundo do teu pai? Responde-me antes que leves!” Eu acho que deve ter sido algo assim, mas já se sabe como é o povo, gosta sempre de melhorar os contos originais; também já se sabe como são essas situações que ocorrem em festas, são sempre amplificadas e mitificadas, dando origem a piadas privadas entre as pessoas que nelas estiveram.)
            Moral da história: Noé bebeu até cair, sujeitou-se ao ridículo, foi apanhado pelo filho e o neto foi quem pagou as favas…o neto e a sua linhagem! Isto é justo? De facto, deus escolheu uma óptima família para conservar. Um patriarca alcoólico, com um filho mais novo que se entusiasma por ver o pai todo nu e com outros dois filhos bajuladores e intriguistas, todos eles gerados por uma mulher que era, ao mesmo tempo, mãe e prima deles. Bravo! Que família tão funcional!

           

Nota: este texto tem como base um episódio bíblico, não correspondendo no entanto fielmente àquilo que na Bíblia é descrito. Tal como a Bíblia, este texto não deve ser interpretado à letra, pois não constitui um documento histórico. 

17 de mar. de 2013


A melancolia escorre nas paredes húmidas,
frio recoberto em andorinhas de Inverno,
horas e minutos alistados ,
chá de Camomila, saudade,
unhas roídas de ansiedade.
 
Tenho medo de me perder
em tudo aquilo que te sonho,
porque a tua casa sempre foi aqui
onde a minha angústia derrete ao calor da tua paz.

8 de mar. de 2013

os transeuntes


um homem caminha dentro da noite;
uma noite caminha dentro do homem.

nos céus uma lua presa por duas molas,
estrelas lacrimejantes,
um pacote de vinho no banco de jardim
e duas côdeas de Metáforas
ajudam a pintar o vazio deste poema.

imaginem uma matrioshka num sonho de Van Gogh.

25 de fev. de 2013



Eu queria correr contra os teus nãos,
Impedi-los de acontecerem como se não tivessem já acontecido…
E vestir a esperança como quem veste um fato usado para ir a funerais
Ou entrevistas de emprego.

Estou tão morto que não seria capaz de tocar a tua raiz
Se num acaso fosses flor sobre a minha sepultura.
Até os murcões que sobre o meu peito fazem banquete
Falam de ti com mais propriedade
E sabem do teu sorriso como de ver-te passar à frente de uma porta aberta…

Durmo no teu perfume
Como um animal atropelado e às cambalhotas na autoestrada
Insuflado de morfina e música celestial...

Não espero senão como quem sonha
Que me recolhas do asfalto,
Entre os milhões de pessoas que por lá passam
Numa estrada em que provavelmente nunca passarás…

Que eu te dê um último sorriso
E tu me dês uma lágrima.


24 de fev. de 2013

A Maçã e O Martelo


“E aqueles que foram vistos a dançar foram julgados loucos por aqueles que não podiam escutar a música”, Friedrich Nietzsche

De certa forma, é quase ridículo e irónico estar aqui eu, parado neste momento, a escrever um texto – conjunto de signos convencionados que comportam uma lógica – que incida sobre o legado de Nietzsche. Pois, segundo este, “somente os pensamentos que nos ocorrem ao caminharmos têm valor.” O tempo que perco a tentar coordenar as palavras da melhor forma, a colocar orgulhosamente a pontuação adequada, a ponderar o rumo mais harmonioso para uma frase pode ser insignificante para a história universal, mas, para mim, são momentos vitais desperdiçados. Porque a percepção do tempo belisca cada ser pensante e eu gosto de me sentir um pouco mais do que um mero mosquito.
Seguindo a linha de raciocínio preconizada por Nietzsche, o tempo em que existimos e existiremos enquanto espécie não tem qualquer expressão quando comparado com a sempiternidade do universo, que sempre teremos de aceitar por o nosso conhecimento não ser capaz de encontrar o início e o fim de tudo aquilo que conhecemos. O universo, em si, não é nada. É insípido, incolor, intangível, incomensurável; é apenas fruto da nossa percepção e posterior racionalização. E é aqui que a nossa existência se torna enviesada em relação a todas as outras formas de existir. O universo para qualquer outra espécie é apenas o resultado de estímulos nervosos, desprovidos de qualquer sistematização ou conceitualização. É, portanto, espasmódico.
No entanto, o Homem, culpado ou não por ter criado dentro de si uma série de teias e conexões perigosas e frágeis, mas que ao mesmo tempo lhe dão a desejada sensação de superioridade, vê-se mergulhado numa série de convenções. A verdade e a mentira, o bem e mal, a moral e a imoralidade, o certo e errado, tudo conceitos que toldam a sua percepção e o seu universo, embora aparentemente o expandam. O ser humano usa a palavra como um signo para tudo aquilo que percepciona e racionaliza, sem compreender a falácia em que incorre ao proceder a uma generalização. E, arrisco-me a dizer, todas as generalizações estão providas do erro, incluindo esta.
Perdemos assim a nossa centelha da genuinidade, tornámo-nos seres calculistas, redutores em relação a tudo aquilo que nos rodeia na tentativa de nos amplificarmos e encontrarmos na Maçã1a realização plena. Temos nomes que nada dizem acerca de nós próprios. Temos números que logicamente provam aquilo que não podemos verificar. Temos conceitos e valores enraizados que nos conduzem a cada acção que tomamos. Temos deuses como solução para aquilo que não poderemos nunca perceber. Tomamos o acaso como a principal pedra no sapato, quando, na verdade, o maior de todos os nossos problemas é a pouca homogeneidade e compactação entre tudo aquilo que vamos convencionando.
E o que fazemos quando uma nova ideia põe em causa todas aquelas que entretanto já estão solidificadas, emaranhadas umas com as outras? Activamos o nosso sentido prático! Rejeitamos aquilo que nos desafia e que obrigaria a uma total reformulação. No entanto, o tempo passa e essa ideia assaltará um outro alguém e depois um outro e depois um outro ainda. E começamos a perceber que afinal o impossível batia certo. Raios partam os loucos…!
A dor que sentimos nesse momento não é causada pelo facto de termos sido enganados, mas sim pela vergonha de o assumir. Enquanto pudermos encobrir o erro com a lógica, com a moral, com as palavras, com os números, fá-lo-emos! Diremos “isso é estúpido!” em relação a tudo aquilo que nos escapa enquanto tivermos dentro de nós a altivez do conhecimento empírico. Mas, dentro, alguma coisa bate com o Martelo em todos os alicerces que vamos criando.2 É a dúvida. Consegue, certamente, escutar o retinir do Martelo dentro de si se, por breves momentos cessar a leitura deste texto.

             Plop! Poc! Poc!
            Continuemos, pois já estou a perder imenso tempo com isto e onomatopeias são coisas sem grande lógica. Indo directamente ao assunto – atenção, sinto-me dono da verdade neste momento! –, aquilo a que chamamos vida não passa então de uma mera encenação da existência. Para nós, existir nãos nos chega, até um rato existe. Necessitamos de viver e isso significa mais do que respirar, alimentarmo-nos e reproduzirmo-nos. Significa montarmos um enredo, um tempo, um espaço e um desfecho lógico que o cosmos possa aplaudir quando o Tempo nos fizer cair o pano.
Aquilo que não sabemos é que a Maçã é uma matrioshka infinita. Na verdade – peço desculpa por ter utilizado este termo – não sabemos inúmeras coisas. E chamo-lhes coisas, termo tão pobre, porque embora tenhamos conceitos que as definam, não podemos sequer percepcioná-las. Racionalizamo-las a partir de pré-conceitos. Exemplos desses pré-conceitos são a eternidade e a morte. Nenhum de nós pode compreender o significado que esses termos abarcam, porque nenhum de nós é eterno nenhum de nós ainda morreu. Pese embora a morte ser a ausência total de sentidos e a sabedoria tantas vezes os suprime e dissimula.
Em última análise, somos a personagem estereotipada de nós mesmos, escrita por outras mãos e estruturada por outras vontades que não aquelas que o caos escolheu para nós.
Este texto acaba aqui. Vou agora caminhar um pouco, sentir o vento no corpo e ver se ele ainda tem força para me levar ao meu encontro.


“É naquilo que a tua natureza tem de selvagem que restabeleces o melhor da tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade…“
Friedrich Nietzsche

1 Entender a Maçã como a expressão metafórica do conhecimento, pois segundo o Livro de Génesis a macieira é árvore da sabedoria.
2 Crepúsculo dos Ídolos ou Como Filosofar com o Martelo, obra de Nietzsche, publicada em 1888. O martelo não deve ser encarado como uma ferramenta destrutiva, mas antes como um utensílio que permite verificar a solidez da construção. Aliás, era com um martelo que era verificada a opacidade das antigas linhas dos caminhos-de-ferro.




18 de fev. de 2013

a triste vida de uma ideia


a efémera vida desta ideia
não a deixou fazer-se plena
para ser ideia de uma vida.

a ideia pariu este poema
e o poema parou essa ideia,

ponto

17 de fev. de 2013

quando


as luzes alastram-se pelas ruas e tocam as fachadas
das casas que perdidas permanecem imóveis e frias.
um homem voa desorientado num sonho com contornos autistas
vagueando harmoniosamente ao som de uma insinuação de jazz.

o murmúrio da noite sussurra ao ouvido dos medos e acorda-os,
as árvores estremecem perante a insistência do vento que sopra
e o homem acordado e pousado agora sobre um telhado velho,
tenta escrever alguma coisa,
mas sem ideia nenhuma,
vai dando ao papel alguma coisa nenhuma.

as palavras despem-se para irem dormir
e o homem fica sozinho à espera
sob o olhar sarcástico da lua.

a poesia atrasou-se mais uma vez porque não tem maneiras.
ela não é minha,
não é tua
e muito menos das palavras rotineiras.

avisa
quando
estiveres perto…!

9 de fev. de 2013

OS NOVOS CANAIS COMUNICATIVOS NÃO SÃO TÃO FUNCIONAIS QUANTO OS DE ANTIGAMENTE



Não sei se o direi por mera especulação, mas, tal como o título indica, os novos canais comunicativos não são tão funcionais quanto os de antigamente. 
Hoje, dificilmente se consegue combinar algo com exactidão horária. Estamos sempre a pensar que comunicaremos mais perto do momento, mais ou menos apalavrado, por telefone, sms, facebook, linked in, messenger, email, skype ou fax, e acabamos sempre por fazer esperar o próximo. Pior que isso, eles fazerem-nos esperar ao ponto de levarmos umas boas secas. Vasculhamos as chamadas perdidas, sms's e todas as redes sociais que toda a Ram disponível num smartphone moderno pode comportar, para nos certificarmos de que não estamos a perder a derradeira e tão ansiada mensagem: A q horas? seguida da não menos usual: ah, e onde?
No paradigma comunicativo deste novo século, as novas tecnologias têm avançado no sentido de aproximar os individuos,e ao mesmo tempo,de afastá-las. Senão vejamos; O Zé António do talho saía todos os domingos com a Arminda para um passeio pelos jardins da Arca d´Água. Palavra puxa palavra, até que surge a troca de carícias ferquente entre um casal apaixonado. Ora, desde que surgiram as Sms's, o email e mais recentemente as redes sociais, Arminda obteve o hábito de ficar por casa nesse dia de descanso semana e não ir namorar com o ZéTó (coitado). Na opinião dela, e apoiando-se no velho ideal do "está na moda" tudo o que ele quiser dizer-lhe poderá fazê-lo através de uma das variadissimas opções que os suportes electonicos têm para lhes oferecer. O seu amado concorda plenamente, porém, sustenta que o contacto físico também é importante. E perguntam vocês -Porquê-êê??? Sinceramente,não vos sei responder. Mas posso imaginar o que o leva a tão notável constatação. 
Hoje em dia estar com alguém é prática do passado. As novas gerações estão habilitadas a fazer quase tudo com recurso aos telemóveis, computadores e outros gadgets. Desde falarem com os amigos e familiares ao namoro propriamente dito. Até já lhe é dada a oportunidade de fazerem sexo na rede. Como??? …contanto com o apoio de um dispositivo concebido para o efeito. -Meu Deus, para onde caminhamos ?
Atendendo ao facto do contacto físico de que Zé António fala ter passado para segundo plano, vemo-nos confrontados com o facto dos parentes e amigos mais próximos se apoiarem na tese de Arminda para evitarem sair de casa para um passeio de bike ou para um simples café. Algumas desculpas são já um clássico; -Ah, a minha net tá lenta e tenho que sacar umas coisas da plataforma. -Ah, tou a sacar o concerto do Toy ao vivo em Vila Franca de Xira e tenho que esperar que acabe. -Ah, tenho que instalar o windows de novo porque apareceu-me aquele virus da policia que tira a fotografia às pessoas. -Ah, tenho que fazer uns pagamentos pela net senão cortam-me a água. Enfim, qualquer desculpa serve para ficar em casa colado ao facebook a ver se a vizinha aparece nalguma foto em fato de banho. Isto aparentemente pode parecer que não tem efeitos colaterais, mas tem e não são poucos. A falta de uma caricia, de um abraço ou de um bom ombro amigo na hora certa, pode ser o inicio do fim de uma relação. Num momento de carência e na falta de um mimo, os homens podem sempre perder-se naquela ida ao quiósque e fazer um pequeno desvio por uma casa na avenida Fernão de Magalhães onde coabitam 17 brasileiras a viver do rendimento mínimo, e ter o azar de ser visto por Euclides, o mecânico que andou a arrastar a asa à miúda e de quem ficou amigo. Na melhor das hipóteses: -tá a arranjar namorada nova que isto deu saco!
O caso delas é bem diferente. Cibernauta moderna que se preze apoia-se em ombros virtuais para os seus desabafos, abrindo caminho para futuros romances que acabam por ter um fim, quando na eventualidade de se encontrarem pessoalmente, ela descobrir que levar com o bafo dele dentro do carro ou passar Cacia de comboio, a diferença está no meio de transporte.
Posto isto, só acho que devíamos valorizar os encontros na vertical e evitarmos os encontros virtuais na horizontal (refiro-me aos momentos em que estamos deitados no sofá ou na cama com o portátil a queimar-nos as pernas (que mais poderia ser?)). 
Elaborei este pequeno texto de cabeça quente e ainda no rescaldo da noite passada, para me libertar da angustia que me tem perseguido no que toca a este tema. Foi um desabafo, vá!

6 de fev. de 2013

Aniceto Azeitona – O terror dos olivais (PARTE 2)


Aniceto tinha reconhecido a voz da mãe na multidão. Nunca lhe chamava mãe. Tratava-a por Lina ou Puta Bêbeda. Desde pequeno que havia sido criado pelo avô paterno. Quando ficou grávida, Lina não tinha como saber quem teria injectado aquele espermatozoide triunfante no seu corpo. Pensou em fazer um desmancho, mas, apesar de todas as vicissitudes da vida, Lina fraquejou. Aquele ser que germinava dentro do seu corpo dava, de certa forma, um maior sentido à sua existência. Tinha este tipo de pensamentos lamechas sobretudo quando estava com os copos. Talvez por nunca ter dado descanso ao croft e à amêndoa amarga – sim, Lina tinha gostos requintados – o puto tenha nascido tão reguila e, como dizer, sui generis. Este é um adjectivo que não diz coisa nenhuma acerca de ninguém, mas fica sempre bem.
Ah, já me esquecia! Devem estar a perguntar-se como é que Lina acabou por decidir quem seria o desgraçado que daria o nome ao seu filho. Foi simples! Lembrou-se do Joel, um rapaz de dezassete anos que a montava amiúde. Não seria um processo elaborado convencê-lo de que aquele bebé era seu filho. Para Joel, Lina não lhe vendia sexo, vendia-lhe as únicas manifestações de carinho que ele teve em toda a sua vida. Era parco em palavras, mas tinha muitos planos para um futuro em que Lina também entrava: iam casar. “Que eu morra aqui se não vamos casar! Os meus pais que se fodam!” Nunca casaram e, de facto, o pai de Joel foi quem se fodeu no meio daquela história de amor entre o seu filho, a quem tantas vezes chamava larilas, e uma puta bêbeda.
Dois dias após ter parido o seu filho, Lina procurou Joel onde este trabalhava para lhe dar a boa-nova. A manhã ainda era uma criança quando ela chegou à obra. Os trolhas puxaram dos seus repertórios de piropos mais brejeiros e ela sentiu-se o último tremoço do pires. Pediu a um dos serventes, que ia misturando areia com cimento, enquanto assobiava a melodia da música “Apita o Comboio”. Minutos depois Joel chegou, com a cara coberta de pó e um lápis sobre a orelha. Não deve ter escutado metade da conversa toda bem arranjada que Lina levava, mas percebeu no entanto que era pai daquele recém-nascido. Os seus olhos comoveram-se, disse que a amava, que iam casar, que os seus pais que se fodessem. Uma hora depois, estavam no quarto da pensão onde Lina habitava e tentaram dar uma queca mas, enquanto isso, o bebé chorava como se a vida que para ele ainda mal tinha começado estivesse prestes a findar. Era impossível a tusa envolver os seus corpos com todo aquele chinfrim. “Puta que o pariu”, disse Lina, em jeito de brincadeira, só para quebrar o gelo.
Depois disso, foram, de forma irreflectida, tentar registar o menino. Assim que se depararam com o funcionário sisudo do registo civil, perceberam que ainda não tinham pensado num nome. Não tinham também padrinhos, mas, a troco de cinco contos, lá convenceram um casal de idosos a apadrinharem o seu primogénito. O motivo pelo qual escolheram Aniceto para nomear aquele bebé ainda hoje ninguém o sabe. Há quem diga que foi erro do funcionário do registo e há quem diga que Lina estava embriagada no momento em que proferiu, pela primeira vez, o nome do seu filho que, na verdade, era para se chamar Anacleto. Não sei. Mas Aniceto ficou. Aniceto Evangelista Azeitona.
Quando chegou a casa, Joel trazia nos braços o seu filho, pois Lina tinha ido já para o trabalho, e assim o apresentou aos pais:
- Este é o meu filho… Chama-se Aniceto… Vou-me casar… Chama-se Lina…
            - Meu larilas! Vais-te casar com uma puta? – berrou o velho Azeitona.
            Houve discussão noite dentro entre Joel e o pai. Quando os argumentos cessaram ou o cansaço os venceu, foram dormir, ou fingir que dormiam. Joel levou o filho consigo para o seu quarto. Olhou para ele, chorou muito, pensou nas palavras do pai, “é uma puta”, pensou quantos homens já se teriam servido de Lina durante aquela noite e, por fim, não pensou em nada quando cravou fundo nos pulsos a lâmina de barbear e neles traçou duas linhas quase perfeitas. Qualquer semelhança entre o suicídio de Joel e Pedro da Maia é mera coincidência.
Pela manhã, quando a velha Azeitona entrou pelo quarto do filho para lhe perguntar se queria um chã ou umas bolachas maria, não aguentou o que viu e sucumbiu por enfartamento. Era o terceiro! Escusado será dizer que Lina nunca chegou a ir buscar ou ver o seu filho, apenas anos mais tarde, quando se lembrou da questão do abono. Corroboro: o velho Azeitona foi quem se fodeu!
            Mas o puto cresceu, criado pelo avô, ensinado muitas vezes a cinto. Conhecia a mãe, mas poucas eram as vezes em que estava com ela. Habituara-se a chamar-lhe Puta Bêbeda, não por maldade, até porque durante muito tempo não soube o significado dessa designação, mas porque era assim que o velho Azeitona se referia a ela. Uma vez, no primeiro dia da escola primária, fascinado com as semelhanças físicas entre a professora e a sua progenitora, Aniceto dirigiu-se a ela no final da lição e disse-lhe num tom meigo e enternecedor:
            - A Sra. Professora é tão parecida com a minha puta…
            Por vezes imaginava como seria o pai, tentava compará-lo também a alguém, imaginando o seu perfil através de umas fotografias que encontrou de quando este fez a comunhão solene. Olhou para elas com o seu olhar irrequieto, e ficou com aquelas imagens entaladas na memória e com uma pergunta entalada na garganta. Um dia, ao jantar, perguntou ao avô:
            - Ó bô, o pai era larilas?
             
O concerto do Tony Carreira acabou e ninguém sabia do catraio. O avô apoquentou-se e alguém levantou a hipótese de o miúdo ter sido raptado, como aquela menina inglesa, hoje em dia há tanta gatunagem. O portuga é assim, tem sempre a palavra certa na hora errada. Lina pôs-se a andar dali para fora, as ruas estavam à espera.

4 de fev. de 2013

Aniceto Azeitona - O terror dos olivais (PARTE 1)

Do meio da multidão soltaram-se gargalhadas.
Momentos antes, um menino loiro de olhos verdes, havia furado por entre os cus da audiência feminina, saltado para cima do palco, agarrado o microfone e gritado num tom carregado de inocência: - O Tony Carreira é paneleiro! …foi o meu avô que disse.
Ao longe, um homem de meia idade, com cabelo grisalho, óculos Ray-ban (modelo táxista) e uma t-shirt contrafeita da Dolce & Gabbana, berrou, em bicos de pés, a viva voz: 
-Anda cá Aniceto! ….Rááá foda o catraio! Quando chegares a casa vais levar nos cornos, meu filho duma puta bêbeda!
O rapaz ainda mal refeito do susto de se ter ouvido nos alto-falantes do camião-palco, fugiu, barricando-se no camarim do ilustre cantautor.
O espaço estava devoluto. Cheirava a perfume que tollhia. Tony havia abandonado o seu aposento ambulante minutos antes. 
Lá fora, a multidão aplaudia a entrada do artista em palco. Um clamor esganiçado de mulher implorava: -Tony, quero um filho teu!!!
O miúdo reconheceu a voz. -É a Lina. Pensou.

Lina é puta para trinta e quatro anos.  Esfolou na zona da Anadia ao longo da última década. Levou para o mealheiro de todo o camionista que se preze (com cabine decorada a calendários Pirelli dos últimos 20 anos). Até que deu com Arlindo Teodoro, um motorista de autocarros de longo curso que viajava até Lourdes todas as semanas. Levava crentes lusitanos e trazia imigrantes magrebinos na clandestinidade. 
Certo dia, durante o acto sexual, Lina perguntou-lhe o nome, ao que ele respondeu com voz trémula : -Chaaaaaamo-me Arlindoooo...mas podes-me tratar só por Liiindo... que o Ar já mo tiraste. 
Lina, comovida, deixou cair uma lágrima, que lhe escorreu pelo rosto até cair no peito de Arlindo, que ostentava uma imponente tatuagem em tipo de letra gótico com os dizeres: Ai se eu te pego...

(Continua)

28 de jan. de 2013

Cidadela




Na cidade sem gente onde corríamos como crianças felizes e eu me divertia a ver-te partir montras com o teu jeito de menina a atirar pedras… resta só abandono.
Passei hoje pela boca-de-incêndio onde pela primeira vez te beijei as mãos. Ela olhou para mim como o cão a saber de ti. Fiz-lhe uma festa sobre o pó. Mas já não estavas e ela recolheu-se ao canto como também o cão se recolhe quando, depois de abrir a porta, me vê chegar só. Mal come. Cheira. Dá duas ou três lambidelas no bebedouro e retoma, sem fulgor nem esperança, àquele estado vegetativo. Tenho feito as minhas refeições ao seu lado, sentado no chão, na esperança de lhe abrir o apetite. Eu sei que ele tem fome mas bate-se estoicamente… Fico depois toda a noite a ver filmes, com o meu braço no seu dorso. Não me nega esse gesto, felizmente…

Ontem fui a um museu e trouxe de lá um quadro. É estranho entrar assim na casa das pessoas e trazer de lá coisas. Fico sempre com a sensação, ao sair, de o mundo estar lá fora outra vez cheio de gente, e chamarem-me ladrão…

Passo muito tempo na loja de discos, no cinema… o Nick também me acompanha mas depois cansa-se e volta para casa sozinho. Às vezes adormeço a meio de um filme e fico por lá. Evito ir ao bar e só lá passo para surripiar umas garrafas. Aos domingos vou. Ligo a música e ponho um dvd com os melhores momentos de futebol… depois deixo-me ficar pela esplanada a tomar sol e café, fazendo de conta que não estou só, apontando umas coisas no caderno. Escrevo melhor, agora que o tempo me sobra e não existe ninguém para julgar as minhas loucuras. Às vezes simulo a apresentação de um livro naquela livraria que tu tanto gostavas. Imagino as perguntas, respondo eloquentemente e, não raras vezes, ouço palmas... Certa vez, por causa de um poema revolto, bati com a mão na mesa e saí sem dizer ‘água vai’…

Sou finalmente livre e é um tédio.

Faço coisas absolutamente absurdas. Passo pelas igrejas, roubo os santos e coloco-os depois em sítios improváveis - na montra das lojas; a fazer de duendes kitsch nos jardins... foi até engraçado atravessar na passadeira com um santo e um manequim debaixo do braço para os colocar depois num banco de jardim. Ri-me alto enquanto pensava: - 'se alguém me visse...'

Mas ninguém me via. Ninguém me viu. Tal como eu não me vejo sem ti por perto...


26 de jan. de 2013

O narrador




Onde a polícia achou um cenário de horror, dormia atrás de um biombo uma criança surda. Chupando o polegarzito. Era preciso tirá-la dali rapidamente. Daquela paz enfim prestes a roubar-lhe a infância com meia dúzia de imagens macabras. Que fazer?

Cobri-la e levá-la para que nada visse parecia o mais indicado. Mas para onde? Os serviços sociais, é claro! Ligar para a assistente social. Apesar de ser domingo… ou já segunda-feira, que é o dia da greve por falta de verbas…

Pelas obras da ponte, fintando a burocracia, chegou uma velha resmungona que levou a criança nos braços e os bombeiros respiraram de alívio como se alguém lhes tivesse trazido água ou sumos de laranja. Os bombeiros estão fartos de leite e preferem uma cerveja! Nem eles sabem muito bem de onde provém essa propaganda que impinge aos campesinos a responsabilidade de os desintoxicar com leite… bah, que nojo!

Porém, foi a criança que matou toda aquela gente. Eu sei porque sou eu o narrador. Foi a criança que matou – eu vi! – mas não posso ser senão o interlocutor da história, e negarei tudo em tribunal se me chamarem a depor. Tenho o fortíssimo álibi de vos ter estado a descrever o acto, ainda que no exacto momento em que ele aconteceu…

Na escrita (não lhe chamemos literatura) o narrador escapa sempre à pressão do tempo e do espaço. Ele viu e sentiu, é certo, mas que lei universal deverá obrigá-lo a ser o que não é? Deverá o narrador ser culpabilizado pelas traições da Madame de Bovary? Deveria ele ter dito ao marido encornado que a mulher dele apertava as coxas com mais força por outra pessoa?...
O papel do narrador cumpre-se no exacto momento em que alguém o entoma, o lê! Tal como o amante o é (realmente) quando contra outro corpo se inflige ou aplica…

Mas safou-se! O puto safou-se! E ainda se riu nos lençóis novos…



25 de jan. de 2013

O Poço da Roda


Um homem perguntou ao poço quantos homens nele caíram.

Pouco escorreitas correm agora as suas memórias
ao longo das ruas que se deitam sobre eras remotas,
ruínas antigas e esquecidas, civilizações desfeitas,
escondidas dos seus olhares e dos seus passos,
retratadas harmoniosamente nos livros de história
para darem ao nosso orgulho uma certa razão de ser
e sem saberem disso mesmo resistem os sonhos velhos,
disformes no momento em que o cansaço se lhes junta,
como na hora em que ele se deteve junto ao Poço da Roda,
como tantos outros homens o fizeram antes dele,
tantas vezes sem caminhos, tantas vezes sem tudo,
apenas com os seus olhares e passos desencontrados,
ignorando que o mundo não era o solo que pisavam
mas antes o poço que transportavam dentro do corpo.

Há quem pare por vezes e de mim beba abundantemente,
há quem se vença pelo tempo e afogue a mente e a alma,
há quem não desista e deambule até sucumbir de secura
e outros que acham no reflexo da água o graal da loucura.

Assim respondeu o poço ao homem e este prostrou-se no chão,
sem molhar os lábios,
sem se ter afogado,
sem dar um único passo adiante,
sem contemplar o rosto ali iluminado pelo nascer do novo dia.


14 de jan. de 2013



Não me peças para mostrar os meus sentimentos. Eu sei só escrevê-los. E, ainda assim, só eu sei descodificá-los porque os construí como imagens sobre imagens sobre outras imagens. Cartografias para a falta de memória. Indicações de trânsito para a minha cidade interior que faz esquina com o universo. Se alguma beleza existir naquilo que escrevo é só mera coincidência e deveria ser tão chato como ouvir alguém a falar ininterruptamente sobre as férias no estrangeiro.


11 de jan. de 2013

o estéril lugar do moinho


eu, este texto, penso que deixamos de viver quando nos perdemos nas nossas memórias.
o novo ano surgiu solarengo, com um sorriso tímido portador de uma esperança quase oculta e esquecida. como uma criança que acorda de manhã com sono, mas nos olhos de cristal tem embutida a promessa da felicidade utópica. ele – esse que me escreve a mim – já não é uma criança. não é um adulto, é qualquer coisa sem uma definição estipulada. quando acorda pela manhã, sente normalmente o travo agridoce de um sonho sem sentido, desfeito, desmoronado. no momento em que encara o sol vespertino que o parece querer humilhar com a sua luz, ele lembra-se de outros dias, de outros acordares. lembra-se, amiúde, do moinho.
quando era criança, no verão, em dias de sol como este mas mais quentes, costumava ir com a sua mãe para a praia. aproveitavam o sol das manhãs, de manhãs calmas como esta mas mais harmoniosas, e saiam de mãos dadas pela porta de casa. caminhavam de mãos dadas pela ruas, conheciam-nas perfeitamente, assim como elas os conheciam a eles e condescendiam em encurtar as suas distâncias, diminuindo assim o caminho que os levava até ao areal. durante esse percurso, o cansaço não caminhava com eles. durante esse percurso o tempo não caminhava com eles. o tempo era como o moinho: imóvel.
quase todos os dias, com eles, iam também outros dois pequenos rapazes, da mesma idade que este que me escreve. um deles seguia vagaroso, o outro corria normalmente. talvez para ele o tempo já existisse, mas aquele miúdo corajoso tinha em si a força para o derrotar. quando chegavam à praia, as toalhas eram estendidas e dispostas lado a lado. a mãe dele sentava-se. não despia a camisola. não retirava o boné. não movia a sua atenção durante um único momento que fosse dos três rapazes que corriam pela praia, jogavam à bola ou fingiam andar à porrada, até que a exaustão ou a mão dele os chamasse para virem descansar, para colocarem protector solar, para comerem qualquer coisa…
em quase todas essas ocasiões, o rapaz que anteriormente houvera corrido pelas ruas nunca parava, a energia parecia-lhe inesgotável e, por vezes, vinha chamar os outros dois. passados alguns minutos, partiam de novo, tinham um mundo para conquistar. uma vez por dia, depois dessas pausas fugazes, diziam à mãe dele, vamos para o moinho. ela não gostava. ficava preocupada. mas deixava-os sempre ir. pedia-lhes para terem cuidado com os vidros que existiam dentro do moinho, que se podiam cortar. dizia-lhes ainda para não se demorarem, mas o tempo não existia.
o moinho era já muito velho. tinha as paredes desbotadas pela salitra e pelo esquecimento de todos aqueles que nele já não encontravam nenhuma funcionalidade. mas para ele e para os outros dois rapazes, o moinho era um universo paralelo e incomensurável, tímido e soturno por já não estar acostumado a receber visitas. nele os rapazes montavam os mais diversos enredos fantasiosos, reproduziam cenas que viam nos desenhos animados ou inventavam diegeses novas e, aparentemente, sem grande sentido.
no interior do moinho, as suas vozes multiplicavam-se e arrastavam-se em ecos. haviam três pisos. o primeiro estava inundado de areia, de cacos de vidro e dejectos de cães.  nele não existiam janelas, a claridade entrava apenas pelo lugar onde em tempos estivera a porta principal. no segundo patamar, existia uma janela maior, no terceiro várias um pouco mais pequenas. nunca chegaram a ascender a nenhum desses pisos, pois a passagem estava barrada por moveis descompostos e velhos. do cimo do moinho, descia um eixo vertical que se prolongaria, não estivesse ele quebrado, até à base. no centro do moinho encontrava-se um objecto estranho e complicado. era composto por um eixo horizontal, em torno do qual estava enrolada uma corda colocada com o auxilio de duas manivelas posicionadas em cada uma das extremidades. o objecto que descrevo assemelha-se, talvez, a um cabrestante de um navio, mas para os pequenos rapazes não se parecia com coisa nenhuma, nem tinha uma tipologia que pudesse sugerir qualquer tipo de história fantasiosa em torno dele.
hoje, ele – este que me escreve – sabe que aquele corpo estranho é chamado de sarilho; sabe também que o eixo que descia desde o topo do moinho servia para rodar o capelo e, assim, alterar a posição das pás. hoje ele sabe muitos mais pormenores acerca de moinhos, pois desde essas manhãs tão longínquas, desde que o tempo começou a correr, que o seu interesse e a sua nostalgia em relação aos moinhos foram crescendo.
no local onde existira o moinho, no local onde se perpetuaram tantas brincadeiras e tantas histórias e tantos mistérios de criança, não existe hoje mais do que nada. existe apenas a areia e os mesmos ou outros cacos de vidro. é nesse lugar estéril que ele se encontra neste momento, tentando descobrir alguns desses mistérios que ficaram por desvendar, tentando parar o tempo, retrocede-lo, erguer um moinho que transforma memórias em felicidade, girar o capelo na direcção oposta à do vento e contrariar a ácida lógica.
subitamente, lembra-se dos seus dois amigos de infância. lembra-se dos sonhos que tinham. o Luís, o mais calmo e temeroso dos dois, nunca chegou a concretizar o sonho de ser trolha. este que me escreve e o Luís seguiram rumos diferentes, mas sempre paralelos, nunca perderam aquilo que os unia e ainda os une. já o Daniel, aquele que corria, sempre destemido e invencível, nunca chegou a ser jogador de futebol. dizem que emigrou, que já é pai e, quando pensa nisso, este que me escreve, imagina um miúdo que, tal como o pai num tempo passado, corre indisposto a parar.

agora estão longe, mas, aonde quer que estejam, por certo ainda guardam dentro de si um pouco daquilo que viram e inventaram dentro daquele moinho; por certo ainda recordam também o sonho que fazia mover as pás deste homem afogado em memórias que agora me escreve. também ele nunca chegou a ser aquilo que queria ser. não interessa o quê, pois nem ele sabe bem. só a mãe continuou a ser mãe. só ela continuou a olhar preocupada para todos os passos que ele dá e a dizer-lhe, com o mesmo olhar luminoso mas tenso, para ter cuidado e para não se cortar.         

hoje, agora, quando sentado sobre a areia e sobre os cacos onde antes estivera altivo o moinho, ele percebe que afinal o que lhe rasga a pele mora dentro do seu corpo. talvez o eixo vertical que o une ao seu sarilho esteja também ele quebrado. assim, sentado sozinho no estéril lugar do moinho, ele fica a revolver os fragmentos que traz no bolso da lembrança. em locais diferentes, em momentos diferentes, aqueles três rapazes encontrar-se-ão sempre aqui, neste moinho inexistente mas vivo.

ele, este que me escreve, pensa que começamos a morrer quando perdemos as nossas memórias.