22 de mar. de 2011

Dia Mundial dos Unicórnios


Ontem foi o Dia Mundial da Poesia e eu passei-o longe dela como um corno no Dia de São Valentim… mas sem perder o sorriso dos pais que se vêem largados por um carrossel de jardim!

Estranho mistério, o Amor! Nunca tinha pensado nele como escrivaninha onde simultaneamente se podem guardar revistas porcas e retratos de família...



10 de mar. de 2011

Melancolia


É fim de mês sem ordenado
E Deus dorme com uma arma sob a almofada, com balas para mim.
Bem as mereço! – Um pau magnífico a bater-me nas pernas
E a correr para o trabalho todos os dias!

17 de fev. de 2011

Navalhas


Ela vinha da noite
E cheirava à lona molhada das tendas de circo…
Provavelmente mais bebida do que eu,
Que acordara demasiado cedo para uns dedos de vodka.

Tinha um pequeno sinal no pescoço
Que se abrigava como um fedelho na sombra dos seus cabelos pretos
E que eu mirava obcecado sobre o jornal.

Assumiu cedo uma posição de controlo
Tomando sem fraqueza o café longo que lhe expunha aquele sinal à luz
E por onde eu perscrutava toda a sua fragilidade.

Era perfeita para o meu carrossel em curto-circuito
E contra-mão!

15 de fev. de 2011

S/ título


Às malvas toda a cultura,
Nem as malvas sei o que são!
Fumo um cigarro apaixonado
Ao fundo do balcão.

Devia ter-te pedido pelo menos um número
Estou a dois passos de ti e não tenho coragem para voltar
Sob pena de me achares idiota!

És lutadora, uma mulher a sério!
Eu ando pelo mundo com uma lancheira de desgostos
Que se escrevem…

Sabes, eu amei cedo,
O amor humilhou-me.
E quem assim ama cedo acorda tarde e cobarde para se impor.

Pus sempre em mísula as mulheres que amei,
Num altar inacessível …
Que burrice!

Pôr-te primeiro em redoma
E abraçar-te depois.

Deveria dizer-te que estou gravemente doente,
Muito mal do coração.
Que ele me foge,
Que ele se evade,
Que às vezes nem o sinto
E quando lhe falo me trata com violência;
Que não posso dizê-lo senão a ti
Porque dele depende um bem-estar que o rodeia.

Que ele está fulo comigo por causa de ti!

Provei do teu desgosto
E ele era só mel na minha boca
Porque me falavas e sorrias.
Amei-te os filhos como se fossem nossos
E eu sorria de manhã para a escola com uma festa no cabelo e
Um beijo na cara.
Eles zarpavam numa corrida feliz e eu convertia aquele nó das gargantas
Numa força capaz de esmagar as pedras dos muros.

Dourava-me no sol destes pensamentos
Quando uma treva me tocou no ombro
E assobiou distante.
E me deixou descalço na tijoleira…

O meu perpétuo desgosto,
O músculo que me falta para segurar o alter da vida,
Um exército de macacos no sótão, fardados e alinhados,
Capazes de te morder os filhos nas mãos e nos braços.

Quem ama, protege!
E se estiver só de passagem,
Como tanta gente que ama em viagem,
Não deixe mais do que levou
Nem leve mais do que encontrou…

O crooner canta aos solavancos
O seu coração que ficou para trás em lascas
Como cascas de maçã…

17 de dez. de 2010

Wine Fest

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Esta é a voz!...

Não é nada, pá! Sou eu, o Menino de Talho. Quase que vos enganava, seus jagodes!

Com que então, amanhã é o Wine Fest. Gosto! Até já pus a arejar o meu fato de levar aos casamentos. E vós? Já mandastes limpar a farpela a seco? Olhai que nódoas de vinho tinto não saem com duas tretas… e as de vómito na bainha das calças também são bem ruins de tirar. A Internet diz que o melhor para tirar a sujeira da roupa, é pô-la de molho em vinho branco. Mas tem que ser do bom! Não pode ser vinho de pacote porque senão fura o pano…

Também parece que este ano há um concurso de soquetes. Sobre isso… bem… já não bastava o pessoal não lavar os pés… aquilo vai ser um bedum a chulé… toda a gente descalça com as meias molhadas de ter andado para lá a correr como uns garotos… um bando de cinderelas mancas à procura dos sapatos… Ah! E parece que não vale ir de crokis. Quem quiser ir de crokis tem que partir uma perna! Mas é a si mesmo, não é a outra pessoa. E por falar em partir…

Para aqueles cachopos que não conseguem segurar o copo na mão, parece que há um programa alternativo… que é a feira das águas em Vidago. Se não aguentais o vinho no bucho, comei miolo de pão ou côdeas ou então deixai-o no copo porque alguém o há-de beber. É bem possível que deus vos não tenha abençoado com a graça de tomar vinho. Isto é como os cães! Os cães também não gostam de fruta porque deus não quis que eles subissem às árvores. E depois, eles a alçar a perna lá de cima, e a vir por ali abaixo a ganir nas rancas. Não, não!… não vamos estar para aqui a perturbar a ordem natural das coisas.

Vá, um bom wine fest para todos e juízo da cintura para cima!


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28 de nov. de 2010

O último empregado

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Perdi-me em caixotes!

Em malas de sótão que andaram pelo mundo

E se adiam ao lixo porque guardam livros que ninguém lê…


Será que alguém os leu?


Guardo o livro de um cocainómano

Que entretanto virou polícia e casou com uma besta.

Ele não sabe.

Não me conhece, sequer.

Vive num jazz de casino que lhe inventei

Com empregados de camisa branca e laço preto,

Virando cadeiras sobre as mesas,

Fingindo que eu não estou lá,

Bebendo ao piano.


É um hotel…

E o tipo das horas mortas leva-me em braços ao quarto

Mais por ter coração

Que por obrigação.


Trata-me por senhor e

Ajuda-me a tirar os sapatos.

Enche-me, antes de ir, o copo de whisky com água da torneira

E põe-lhe uma pastilha efervescente…


É um bom homem,

Este Alcino sem horas

Que me deixa na cama

E se esvai pelo corredor alcatifado

A acender um cigarro…


E deve, porventura, amar uma prostituta que não o ama…




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15 de nov. de 2010

Deus Sex Macinha - rascunho II

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Já não se pode ir a um sítio público, um bar ou um restaurante, sem que um eremita maluco, descido da montanha ou do poleiro de um galinheiro, me venha foder a cabeça com essa coisa de deus vir à terra. A culpa é deste Jacob Stratham, cujo nome profético e talento para a escrita sensacionalista, fez disparar o fenómeno, convertendo-se à mística desses naturalistas peludos que deixam o suor do cu nas cadeiras de plástico antes de serem expulsos das esplanadas.

Sempre gostei de teorias da conspiração. Por várias razões. Nasci praticamente a ver televisão (é provável que me tenham mudado as fraldas no intervalo das telenovelas), leio muitas revistas e folheio jornais… sempre que me parece haver teia, vou logo à procura das aranhas! Depois, porque as teorias conspirativas se baseiam em cálculos matemáticos relativamente simples a que basta juntar alguma criatividade ou ovos e farinha para o mélange dar em bolo. Por outras palavras, pode explicar-se a guerra no Iraque a partir de um pinanço fortuito em Times Square, uma esporradela filmada em Central Park, à sombra de uma árvore de folha caduca ou no banco traseiro de um carro japonês.



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Deus Sex Machina - rascunho

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Gosto das ressacas ao domingo, principalmente quando chove e toda a gente sai de casa para se refugiar da chuva noutra casa qualquer. O dia é cinzento. Chego-me à porta com um copo de água para fumar um cigarro. Podia ser o primeiro do dia mas é o último da noite anterior, depois de dormir. O trânsito, do cimo da escada, à distância do olhar, é tão residual e irregular que nem valia a pena falar sobre ele, não fosse isso bom, como a poesia a tropeçar-me nos pés a fazer de gato carente. Bebo um copo de água à chuva e tudo é cinematográfico como a bonança depois de uma explosão.

Gozo de uma magnífica sensação que a tudo me desobriga, deambulando por mim e por todas as divisões, distraidamente. E é quando tudo o que é real me parece sanável, assim me dêem tempo à noite para o reescrever. Ter tempo! – O último luxo dos que se deserdaram da vida para existir com mais dinheiro. Tento, às vezes, perceber o que vai na cabeça daqueles senhores que têm mil milhões. Quando é que o dinheiro vai chegar? Haverá um número, um tecto? Se calhar o erro está em definir o tecto e não um soalho onde assentar os pés…

Mas de que vale estar para aqui a falar de ressacas e milionários, quando toda a gente murmura a visita de Deus!


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