25 de fev. de 2013



Eu queria correr contra os teus nãos,
Impedi-los de acontecerem como se não tivessem já acontecido…
E vestir a esperança como quem veste um fato usado para ir a funerais
Ou entrevistas de emprego.

Estou tão morto que não seria capaz de tocar a tua raiz
Se num acaso fosses flor sobre a minha sepultura.
Até os murcões que sobre o meu peito fazem banquete
Falam de ti com mais propriedade
E sabem do teu sorriso como de ver-te passar à frente de uma porta aberta…

Durmo no teu perfume
Como um animal atropelado e às cambalhotas na autoestrada
Insuflado de morfina e música celestial...

Não espero senão como quem sonha
Que me recolhas do asfalto,
Entre os milhões de pessoas que por lá passam
Numa estrada em que provavelmente nunca passarás…

Que eu te dê um último sorriso
E tu me dês uma lágrima.


24 de fev. de 2013

A Maçã e O Martelo


“E aqueles que foram vistos a dançar foram julgados loucos por aqueles que não podiam escutar a música”, Friedrich Nietzsche

De certa forma, é quase ridículo e irónico estar aqui eu, parado neste momento, a escrever um texto – conjunto de signos convencionados que comportam uma lógica – que incida sobre o legado de Nietzsche. Pois, segundo este, “somente os pensamentos que nos ocorrem ao caminharmos têm valor.” O tempo que perco a tentar coordenar as palavras da melhor forma, a colocar orgulhosamente a pontuação adequada, a ponderar o rumo mais harmonioso para uma frase pode ser insignificante para a história universal, mas, para mim, são momentos vitais desperdiçados. Porque a percepção do tempo belisca cada ser pensante e eu gosto de me sentir um pouco mais do que um mero mosquito.
Seguindo a linha de raciocínio preconizada por Nietzsche, o tempo em que existimos e existiremos enquanto espécie não tem qualquer expressão quando comparado com a sempiternidade do universo, que sempre teremos de aceitar por o nosso conhecimento não ser capaz de encontrar o início e o fim de tudo aquilo que conhecemos. O universo, em si, não é nada. É insípido, incolor, intangível, incomensurável; é apenas fruto da nossa percepção e posterior racionalização. E é aqui que a nossa existência se torna enviesada em relação a todas as outras formas de existir. O universo para qualquer outra espécie é apenas o resultado de estímulos nervosos, desprovidos de qualquer sistematização ou conceitualização. É, portanto, espasmódico.
No entanto, o Homem, culpado ou não por ter criado dentro de si uma série de teias e conexões perigosas e frágeis, mas que ao mesmo tempo lhe dão a desejada sensação de superioridade, vê-se mergulhado numa série de convenções. A verdade e a mentira, o bem e mal, a moral e a imoralidade, o certo e errado, tudo conceitos que toldam a sua percepção e o seu universo, embora aparentemente o expandam. O ser humano usa a palavra como um signo para tudo aquilo que percepciona e racionaliza, sem compreender a falácia em que incorre ao proceder a uma generalização. E, arrisco-me a dizer, todas as generalizações estão providas do erro, incluindo esta.
Perdemos assim a nossa centelha da genuinidade, tornámo-nos seres calculistas, redutores em relação a tudo aquilo que nos rodeia na tentativa de nos amplificarmos e encontrarmos na Maçã1a realização plena. Temos nomes que nada dizem acerca de nós próprios. Temos números que logicamente provam aquilo que não podemos verificar. Temos conceitos e valores enraizados que nos conduzem a cada acção que tomamos. Temos deuses como solução para aquilo que não poderemos nunca perceber. Tomamos o acaso como a principal pedra no sapato, quando, na verdade, o maior de todos os nossos problemas é a pouca homogeneidade e compactação entre tudo aquilo que vamos convencionando.
E o que fazemos quando uma nova ideia põe em causa todas aquelas que entretanto já estão solidificadas, emaranhadas umas com as outras? Activamos o nosso sentido prático! Rejeitamos aquilo que nos desafia e que obrigaria a uma total reformulação. No entanto, o tempo passa e essa ideia assaltará um outro alguém e depois um outro e depois um outro ainda. E começamos a perceber que afinal o impossível batia certo. Raios partam os loucos…!
A dor que sentimos nesse momento não é causada pelo facto de termos sido enganados, mas sim pela vergonha de o assumir. Enquanto pudermos encobrir o erro com a lógica, com a moral, com as palavras, com os números, fá-lo-emos! Diremos “isso é estúpido!” em relação a tudo aquilo que nos escapa enquanto tivermos dentro de nós a altivez do conhecimento empírico. Mas, dentro, alguma coisa bate com o Martelo em todos os alicerces que vamos criando.2 É a dúvida. Consegue, certamente, escutar o retinir do Martelo dentro de si se, por breves momentos cessar a leitura deste texto.

             Plop! Poc! Poc!
            Continuemos, pois já estou a perder imenso tempo com isto e onomatopeias são coisas sem grande lógica. Indo directamente ao assunto – atenção, sinto-me dono da verdade neste momento! –, aquilo a que chamamos vida não passa então de uma mera encenação da existência. Para nós, existir nãos nos chega, até um rato existe. Necessitamos de viver e isso significa mais do que respirar, alimentarmo-nos e reproduzirmo-nos. Significa montarmos um enredo, um tempo, um espaço e um desfecho lógico que o cosmos possa aplaudir quando o Tempo nos fizer cair o pano.
Aquilo que não sabemos é que a Maçã é uma matrioshka infinita. Na verdade – peço desculpa por ter utilizado este termo – não sabemos inúmeras coisas. E chamo-lhes coisas, termo tão pobre, porque embora tenhamos conceitos que as definam, não podemos sequer percepcioná-las. Racionalizamo-las a partir de pré-conceitos. Exemplos desses pré-conceitos são a eternidade e a morte. Nenhum de nós pode compreender o significado que esses termos abarcam, porque nenhum de nós é eterno nenhum de nós ainda morreu. Pese embora a morte ser a ausência total de sentidos e a sabedoria tantas vezes os suprime e dissimula.
Em última análise, somos a personagem estereotipada de nós mesmos, escrita por outras mãos e estruturada por outras vontades que não aquelas que o caos escolheu para nós.
Este texto acaba aqui. Vou agora caminhar um pouco, sentir o vento no corpo e ver se ele ainda tem força para me levar ao meu encontro.


“É naquilo que a tua natureza tem de selvagem que restabeleces o melhor da tua perversidade, quero dizer de tua espiritualidade…“
Friedrich Nietzsche

1 Entender a Maçã como a expressão metafórica do conhecimento, pois segundo o Livro de Génesis a macieira é árvore da sabedoria.
2 Crepúsculo dos Ídolos ou Como Filosofar com o Martelo, obra de Nietzsche, publicada em 1888. O martelo não deve ser encarado como uma ferramenta destrutiva, mas antes como um utensílio que permite verificar a solidez da construção. Aliás, era com um martelo que era verificada a opacidade das antigas linhas dos caminhos-de-ferro.




18 de fev. de 2013

a triste vida de uma ideia


a efémera vida desta ideia
não a deixou fazer-se plena
para ser ideia de uma vida.

a ideia pariu este poema
e o poema parou essa ideia,

ponto

17 de fev. de 2013

quando


as luzes alastram-se pelas ruas e tocam as fachadas
das casas que perdidas permanecem imóveis e frias.
um homem voa desorientado num sonho com contornos autistas
vagueando harmoniosamente ao som de uma insinuação de jazz.

o murmúrio da noite sussurra ao ouvido dos medos e acorda-os,
as árvores estremecem perante a insistência do vento que sopra
e o homem acordado e pousado agora sobre um telhado velho,
tenta escrever alguma coisa,
mas sem ideia nenhuma,
vai dando ao papel alguma coisa nenhuma.

as palavras despem-se para irem dormir
e o homem fica sozinho à espera
sob o olhar sarcástico da lua.

a poesia atrasou-se mais uma vez porque não tem maneiras.
ela não é minha,
não é tua
e muito menos das palavras rotineiras.

avisa
quando
estiveres perto…!

9 de fev. de 2013

OS NOVOS CANAIS COMUNICATIVOS NÃO SÃO TÃO FUNCIONAIS QUANTO OS DE ANTIGAMENTE



Não sei se o direi por mera especulação, mas, tal como o título indica, os novos canais comunicativos não são tão funcionais quanto os de antigamente. 
Hoje, dificilmente se consegue combinar algo com exactidão horária. Estamos sempre a pensar que comunicaremos mais perto do momento, mais ou menos apalavrado, por telefone, sms, facebook, linked in, messenger, email, skype ou fax, e acabamos sempre por fazer esperar o próximo. Pior que isso, eles fazerem-nos esperar ao ponto de levarmos umas boas secas. Vasculhamos as chamadas perdidas, sms's e todas as redes sociais que toda a Ram disponível num smartphone moderno pode comportar, para nos certificarmos de que não estamos a perder a derradeira e tão ansiada mensagem: A q horas? seguida da não menos usual: ah, e onde?
No paradigma comunicativo deste novo século, as novas tecnologias têm avançado no sentido de aproximar os individuos,e ao mesmo tempo,de afastá-las. Senão vejamos; O Zé António do talho saía todos os domingos com a Arminda para um passeio pelos jardins da Arca d´Água. Palavra puxa palavra, até que surge a troca de carícias ferquente entre um casal apaixonado. Ora, desde que surgiram as Sms's, o email e mais recentemente as redes sociais, Arminda obteve o hábito de ficar por casa nesse dia de descanso semana e não ir namorar com o ZéTó (coitado). Na opinião dela, e apoiando-se no velho ideal do "está na moda" tudo o que ele quiser dizer-lhe poderá fazê-lo através de uma das variadissimas opções que os suportes electonicos têm para lhes oferecer. O seu amado concorda plenamente, porém, sustenta que o contacto físico também é importante. E perguntam vocês -Porquê-êê??? Sinceramente,não vos sei responder. Mas posso imaginar o que o leva a tão notável constatação. 
Hoje em dia estar com alguém é prática do passado. As novas gerações estão habilitadas a fazer quase tudo com recurso aos telemóveis, computadores e outros gadgets. Desde falarem com os amigos e familiares ao namoro propriamente dito. Até já lhe é dada a oportunidade de fazerem sexo na rede. Como??? …contanto com o apoio de um dispositivo concebido para o efeito. -Meu Deus, para onde caminhamos ?
Atendendo ao facto do contacto físico de que Zé António fala ter passado para segundo plano, vemo-nos confrontados com o facto dos parentes e amigos mais próximos se apoiarem na tese de Arminda para evitarem sair de casa para um passeio de bike ou para um simples café. Algumas desculpas são já um clássico; -Ah, a minha net tá lenta e tenho que sacar umas coisas da plataforma. -Ah, tou a sacar o concerto do Toy ao vivo em Vila Franca de Xira e tenho que esperar que acabe. -Ah, tenho que instalar o windows de novo porque apareceu-me aquele virus da policia que tira a fotografia às pessoas. -Ah, tenho que fazer uns pagamentos pela net senão cortam-me a água. Enfim, qualquer desculpa serve para ficar em casa colado ao facebook a ver se a vizinha aparece nalguma foto em fato de banho. Isto aparentemente pode parecer que não tem efeitos colaterais, mas tem e não são poucos. A falta de uma caricia, de um abraço ou de um bom ombro amigo na hora certa, pode ser o inicio do fim de uma relação. Num momento de carência e na falta de um mimo, os homens podem sempre perder-se naquela ida ao quiósque e fazer um pequeno desvio por uma casa na avenida Fernão de Magalhães onde coabitam 17 brasileiras a viver do rendimento mínimo, e ter o azar de ser visto por Euclides, o mecânico que andou a arrastar a asa à miúda e de quem ficou amigo. Na melhor das hipóteses: -tá a arranjar namorada nova que isto deu saco!
O caso delas é bem diferente. Cibernauta moderna que se preze apoia-se em ombros virtuais para os seus desabafos, abrindo caminho para futuros romances que acabam por ter um fim, quando na eventualidade de se encontrarem pessoalmente, ela descobrir que levar com o bafo dele dentro do carro ou passar Cacia de comboio, a diferença está no meio de transporte.
Posto isto, só acho que devíamos valorizar os encontros na vertical e evitarmos os encontros virtuais na horizontal (refiro-me aos momentos em que estamos deitados no sofá ou na cama com o portátil a queimar-nos as pernas (que mais poderia ser?)). 
Elaborei este pequeno texto de cabeça quente e ainda no rescaldo da noite passada, para me libertar da angustia que me tem perseguido no que toca a este tema. Foi um desabafo, vá!

6 de fev. de 2013

Aniceto Azeitona – O terror dos olivais (PARTE 2)


Aniceto tinha reconhecido a voz da mãe na multidão. Nunca lhe chamava mãe. Tratava-a por Lina ou Puta Bêbeda. Desde pequeno que havia sido criado pelo avô paterno. Quando ficou grávida, Lina não tinha como saber quem teria injectado aquele espermatozoide triunfante no seu corpo. Pensou em fazer um desmancho, mas, apesar de todas as vicissitudes da vida, Lina fraquejou. Aquele ser que germinava dentro do seu corpo dava, de certa forma, um maior sentido à sua existência. Tinha este tipo de pensamentos lamechas sobretudo quando estava com os copos. Talvez por nunca ter dado descanso ao croft e à amêndoa amarga – sim, Lina tinha gostos requintados – o puto tenha nascido tão reguila e, como dizer, sui generis. Este é um adjectivo que não diz coisa nenhuma acerca de ninguém, mas fica sempre bem.
Ah, já me esquecia! Devem estar a perguntar-se como é que Lina acabou por decidir quem seria o desgraçado que daria o nome ao seu filho. Foi simples! Lembrou-se do Joel, um rapaz de dezassete anos que a montava amiúde. Não seria um processo elaborado convencê-lo de que aquele bebé era seu filho. Para Joel, Lina não lhe vendia sexo, vendia-lhe as únicas manifestações de carinho que ele teve em toda a sua vida. Era parco em palavras, mas tinha muitos planos para um futuro em que Lina também entrava: iam casar. “Que eu morra aqui se não vamos casar! Os meus pais que se fodam!” Nunca casaram e, de facto, o pai de Joel foi quem se fodeu no meio daquela história de amor entre o seu filho, a quem tantas vezes chamava larilas, e uma puta bêbeda.
Dois dias após ter parido o seu filho, Lina procurou Joel onde este trabalhava para lhe dar a boa-nova. A manhã ainda era uma criança quando ela chegou à obra. Os trolhas puxaram dos seus repertórios de piropos mais brejeiros e ela sentiu-se o último tremoço do pires. Pediu a um dos serventes, que ia misturando areia com cimento, enquanto assobiava a melodia da música “Apita o Comboio”. Minutos depois Joel chegou, com a cara coberta de pó e um lápis sobre a orelha. Não deve ter escutado metade da conversa toda bem arranjada que Lina levava, mas percebeu no entanto que era pai daquele recém-nascido. Os seus olhos comoveram-se, disse que a amava, que iam casar, que os seus pais que se fodessem. Uma hora depois, estavam no quarto da pensão onde Lina habitava e tentaram dar uma queca mas, enquanto isso, o bebé chorava como se a vida que para ele ainda mal tinha começado estivesse prestes a findar. Era impossível a tusa envolver os seus corpos com todo aquele chinfrim. “Puta que o pariu”, disse Lina, em jeito de brincadeira, só para quebrar o gelo.
Depois disso, foram, de forma irreflectida, tentar registar o menino. Assim que se depararam com o funcionário sisudo do registo civil, perceberam que ainda não tinham pensado num nome. Não tinham também padrinhos, mas, a troco de cinco contos, lá convenceram um casal de idosos a apadrinharem o seu primogénito. O motivo pelo qual escolheram Aniceto para nomear aquele bebé ainda hoje ninguém o sabe. Há quem diga que foi erro do funcionário do registo e há quem diga que Lina estava embriagada no momento em que proferiu, pela primeira vez, o nome do seu filho que, na verdade, era para se chamar Anacleto. Não sei. Mas Aniceto ficou. Aniceto Evangelista Azeitona.
Quando chegou a casa, Joel trazia nos braços o seu filho, pois Lina tinha ido já para o trabalho, e assim o apresentou aos pais:
- Este é o meu filho… Chama-se Aniceto… Vou-me casar… Chama-se Lina…
            - Meu larilas! Vais-te casar com uma puta? – berrou o velho Azeitona.
            Houve discussão noite dentro entre Joel e o pai. Quando os argumentos cessaram ou o cansaço os venceu, foram dormir, ou fingir que dormiam. Joel levou o filho consigo para o seu quarto. Olhou para ele, chorou muito, pensou nas palavras do pai, “é uma puta”, pensou quantos homens já se teriam servido de Lina durante aquela noite e, por fim, não pensou em nada quando cravou fundo nos pulsos a lâmina de barbear e neles traçou duas linhas quase perfeitas. Qualquer semelhança entre o suicídio de Joel e Pedro da Maia é mera coincidência.
Pela manhã, quando a velha Azeitona entrou pelo quarto do filho para lhe perguntar se queria um chã ou umas bolachas maria, não aguentou o que viu e sucumbiu por enfartamento. Era o terceiro! Escusado será dizer que Lina nunca chegou a ir buscar ou ver o seu filho, apenas anos mais tarde, quando se lembrou da questão do abono. Corroboro: o velho Azeitona foi quem se fodeu!
            Mas o puto cresceu, criado pelo avô, ensinado muitas vezes a cinto. Conhecia a mãe, mas poucas eram as vezes em que estava com ela. Habituara-se a chamar-lhe Puta Bêbeda, não por maldade, até porque durante muito tempo não soube o significado dessa designação, mas porque era assim que o velho Azeitona se referia a ela. Uma vez, no primeiro dia da escola primária, fascinado com as semelhanças físicas entre a professora e a sua progenitora, Aniceto dirigiu-se a ela no final da lição e disse-lhe num tom meigo e enternecedor:
            - A Sra. Professora é tão parecida com a minha puta…
            Por vezes imaginava como seria o pai, tentava compará-lo também a alguém, imaginando o seu perfil através de umas fotografias que encontrou de quando este fez a comunhão solene. Olhou para elas com o seu olhar irrequieto, e ficou com aquelas imagens entaladas na memória e com uma pergunta entalada na garganta. Um dia, ao jantar, perguntou ao avô:
            - Ó bô, o pai era larilas?
             
O concerto do Tony Carreira acabou e ninguém sabia do catraio. O avô apoquentou-se e alguém levantou a hipótese de o miúdo ter sido raptado, como aquela menina inglesa, hoje em dia há tanta gatunagem. O portuga é assim, tem sempre a palavra certa na hora errada. Lina pôs-se a andar dali para fora, as ruas estavam à espera.

4 de fev. de 2013

Aniceto Azeitona - O terror dos olivais (PARTE 1)

Do meio da multidão soltaram-se gargalhadas.
Momentos antes, um menino loiro de olhos verdes, havia furado por entre os cus da audiência feminina, saltado para cima do palco, agarrado o microfone e gritado num tom carregado de inocência: - O Tony Carreira é paneleiro! …foi o meu avô que disse.
Ao longe, um homem de meia idade, com cabelo grisalho, óculos Ray-ban (modelo táxista) e uma t-shirt contrafeita da Dolce & Gabbana, berrou, em bicos de pés, a viva voz: 
-Anda cá Aniceto! ….Rááá foda o catraio! Quando chegares a casa vais levar nos cornos, meu filho duma puta bêbeda!
O rapaz ainda mal refeito do susto de se ter ouvido nos alto-falantes do camião-palco, fugiu, barricando-se no camarim do ilustre cantautor.
O espaço estava devoluto. Cheirava a perfume que tollhia. Tony havia abandonado o seu aposento ambulante minutos antes. 
Lá fora, a multidão aplaudia a entrada do artista em palco. Um clamor esganiçado de mulher implorava: -Tony, quero um filho teu!!!
O miúdo reconheceu a voz. -É a Lina. Pensou.

Lina é puta para trinta e quatro anos.  Esfolou na zona da Anadia ao longo da última década. Levou para o mealheiro de todo o camionista que se preze (com cabine decorada a calendários Pirelli dos últimos 20 anos). Até que deu com Arlindo Teodoro, um motorista de autocarros de longo curso que viajava até Lourdes todas as semanas. Levava crentes lusitanos e trazia imigrantes magrebinos na clandestinidade. 
Certo dia, durante o acto sexual, Lina perguntou-lhe o nome, ao que ele respondeu com voz trémula : -Chaaaaaamo-me Arlindoooo...mas podes-me tratar só por Liiindo... que o Ar já mo tiraste. 
Lina, comovida, deixou cair uma lágrima, que lhe escorreu pelo rosto até cair no peito de Arlindo, que ostentava uma imponente tatuagem em tipo de letra gótico com os dizeres: Ai se eu te pego...

(Continua)

28 de jan. de 2013

Cidadela




Na cidade sem gente onde corríamos como crianças felizes e eu me divertia a ver-te partir montras com o teu jeito de menina a atirar pedras… resta só abandono.
Passei hoje pela boca-de-incêndio onde pela primeira vez te beijei as mãos. Ela olhou para mim como o cão a saber de ti. Fiz-lhe uma festa sobre o pó. Mas já não estavas e ela recolheu-se ao canto como também o cão se recolhe quando, depois de abrir a porta, me vê chegar só. Mal come. Cheira. Dá duas ou três lambidelas no bebedouro e retoma, sem fulgor nem esperança, àquele estado vegetativo. Tenho feito as minhas refeições ao seu lado, sentado no chão, na esperança de lhe abrir o apetite. Eu sei que ele tem fome mas bate-se estoicamente… Fico depois toda a noite a ver filmes, com o meu braço no seu dorso. Não me nega esse gesto, felizmente…

Ontem fui a um museu e trouxe de lá um quadro. É estranho entrar assim na casa das pessoas e trazer de lá coisas. Fico sempre com a sensação, ao sair, de o mundo estar lá fora outra vez cheio de gente, e chamarem-me ladrão…

Passo muito tempo na loja de discos, no cinema… o Nick também me acompanha mas depois cansa-se e volta para casa sozinho. Às vezes adormeço a meio de um filme e fico por lá. Evito ir ao bar e só lá passo para surripiar umas garrafas. Aos domingos vou. Ligo a música e ponho um dvd com os melhores momentos de futebol… depois deixo-me ficar pela esplanada a tomar sol e café, fazendo de conta que não estou só, apontando umas coisas no caderno. Escrevo melhor, agora que o tempo me sobra e não existe ninguém para julgar as minhas loucuras. Às vezes simulo a apresentação de um livro naquela livraria que tu tanto gostavas. Imagino as perguntas, respondo eloquentemente e, não raras vezes, ouço palmas... Certa vez, por causa de um poema revolto, bati com a mão na mesa e saí sem dizer ‘água vai’…

Sou finalmente livre e é um tédio.

Faço coisas absolutamente absurdas. Passo pelas igrejas, roubo os santos e coloco-os depois em sítios improváveis - na montra das lojas; a fazer de duendes kitsch nos jardins... foi até engraçado atravessar na passadeira com um santo e um manequim debaixo do braço para os colocar depois num banco de jardim. Ri-me alto enquanto pensava: - 'se alguém me visse...'

Mas ninguém me via. Ninguém me viu. Tal como eu não me vejo sem ti por perto...


26 de jan. de 2013

O narrador




Onde a polícia achou um cenário de horror, dormia atrás de um biombo uma criança surda. Chupando o polegarzito. Era preciso tirá-la dali rapidamente. Daquela paz enfim prestes a roubar-lhe a infância com meia dúzia de imagens macabras. Que fazer?

Cobri-la e levá-la para que nada visse parecia o mais indicado. Mas para onde? Os serviços sociais, é claro! Ligar para a assistente social. Apesar de ser domingo… ou já segunda-feira, que é o dia da greve por falta de verbas…

Pelas obras da ponte, fintando a burocracia, chegou uma velha resmungona que levou a criança nos braços e os bombeiros respiraram de alívio como se alguém lhes tivesse trazido água ou sumos de laranja. Os bombeiros estão fartos de leite e preferem uma cerveja! Nem eles sabem muito bem de onde provém essa propaganda que impinge aos campesinos a responsabilidade de os desintoxicar com leite… bah, que nojo!

Porém, foi a criança que matou toda aquela gente. Eu sei porque sou eu o narrador. Foi a criança que matou – eu vi! – mas não posso ser senão o interlocutor da história, e negarei tudo em tribunal se me chamarem a depor. Tenho o fortíssimo álibi de vos ter estado a descrever o acto, ainda que no exacto momento em que ele aconteceu…

Na escrita (não lhe chamemos literatura) o narrador escapa sempre à pressão do tempo e do espaço. Ele viu e sentiu, é certo, mas que lei universal deverá obrigá-lo a ser o que não é? Deverá o narrador ser culpabilizado pelas traições da Madame de Bovary? Deveria ele ter dito ao marido encornado que a mulher dele apertava as coxas com mais força por outra pessoa?...
O papel do narrador cumpre-se no exacto momento em que alguém o entoma, o lê! Tal como o amante o é (realmente) quando contra outro corpo se inflige ou aplica…

Mas safou-se! O puto safou-se! E ainda se riu nos lençóis novos…



25 de jan. de 2013

O Poço da Roda


Um homem perguntou ao poço quantos homens nele caíram.

Pouco escorreitas correm agora as suas memórias
ao longo das ruas que se deitam sobre eras remotas,
ruínas antigas e esquecidas, civilizações desfeitas,
escondidas dos seus olhares e dos seus passos,
retratadas harmoniosamente nos livros de história
para darem ao nosso orgulho uma certa razão de ser
e sem saberem disso mesmo resistem os sonhos velhos,
disformes no momento em que o cansaço se lhes junta,
como na hora em que ele se deteve junto ao Poço da Roda,
como tantos outros homens o fizeram antes dele,
tantas vezes sem caminhos, tantas vezes sem tudo,
apenas com os seus olhares e passos desencontrados,
ignorando que o mundo não era o solo que pisavam
mas antes o poço que transportavam dentro do corpo.

Há quem pare por vezes e de mim beba abundantemente,
há quem se vença pelo tempo e afogue a mente e a alma,
há quem não desista e deambule até sucumbir de secura
e outros que acham no reflexo da água o graal da loucura.

Assim respondeu o poço ao homem e este prostrou-se no chão,
sem molhar os lábios,
sem se ter afogado,
sem dar um único passo adiante,
sem contemplar o rosto ali iluminado pelo nascer do novo dia.


14 de jan. de 2013



Não me peças para mostrar os meus sentimentos. Eu sei só escrevê-los. E, ainda assim, só eu sei descodificá-los porque os construí como imagens sobre imagens sobre outras imagens. Cartografias para a falta de memória. Indicações de trânsito para a minha cidade interior que faz esquina com o universo. Se alguma beleza existir naquilo que escrevo é só mera coincidência e deveria ser tão chato como ouvir alguém a falar ininterruptamente sobre as férias no estrangeiro.


11 de jan. de 2013

o estéril lugar do moinho


eu, este texto, penso que deixamos de viver quando nos perdemos nas nossas memórias.
o novo ano surgiu solarengo, com um sorriso tímido portador de uma esperança quase oculta e esquecida. como uma criança que acorda de manhã com sono, mas nos olhos de cristal tem embutida a promessa da felicidade utópica. ele – esse que me escreve a mim – já não é uma criança. não é um adulto, é qualquer coisa sem uma definição estipulada. quando acorda pela manhã, sente normalmente o travo agridoce de um sonho sem sentido, desfeito, desmoronado. no momento em que encara o sol vespertino que o parece querer humilhar com a sua luz, ele lembra-se de outros dias, de outros acordares. lembra-se, amiúde, do moinho.
quando era criança, no verão, em dias de sol como este mas mais quentes, costumava ir com a sua mãe para a praia. aproveitavam o sol das manhãs, de manhãs calmas como esta mas mais harmoniosas, e saiam de mãos dadas pela porta de casa. caminhavam de mãos dadas pela ruas, conheciam-nas perfeitamente, assim como elas os conheciam a eles e condescendiam em encurtar as suas distâncias, diminuindo assim o caminho que os levava até ao areal. durante esse percurso, o cansaço não caminhava com eles. durante esse percurso o tempo não caminhava com eles. o tempo era como o moinho: imóvel.
quase todos os dias, com eles, iam também outros dois pequenos rapazes, da mesma idade que este que me escreve. um deles seguia vagaroso, o outro corria normalmente. talvez para ele o tempo já existisse, mas aquele miúdo corajoso tinha em si a força para o derrotar. quando chegavam à praia, as toalhas eram estendidas e dispostas lado a lado. a mãe dele sentava-se. não despia a camisola. não retirava o boné. não movia a sua atenção durante um único momento que fosse dos três rapazes que corriam pela praia, jogavam à bola ou fingiam andar à porrada, até que a exaustão ou a mão dele os chamasse para virem descansar, para colocarem protector solar, para comerem qualquer coisa…
em quase todas essas ocasiões, o rapaz que anteriormente houvera corrido pelas ruas nunca parava, a energia parecia-lhe inesgotável e, por vezes, vinha chamar os outros dois. passados alguns minutos, partiam de novo, tinham um mundo para conquistar. uma vez por dia, depois dessas pausas fugazes, diziam à mãe dele, vamos para o moinho. ela não gostava. ficava preocupada. mas deixava-os sempre ir. pedia-lhes para terem cuidado com os vidros que existiam dentro do moinho, que se podiam cortar. dizia-lhes ainda para não se demorarem, mas o tempo não existia.
o moinho era já muito velho. tinha as paredes desbotadas pela salitra e pelo esquecimento de todos aqueles que nele já não encontravam nenhuma funcionalidade. mas para ele e para os outros dois rapazes, o moinho era um universo paralelo e incomensurável, tímido e soturno por já não estar acostumado a receber visitas. nele os rapazes montavam os mais diversos enredos fantasiosos, reproduziam cenas que viam nos desenhos animados ou inventavam diegeses novas e, aparentemente, sem grande sentido.
no interior do moinho, as suas vozes multiplicavam-se e arrastavam-se em ecos. haviam três pisos. o primeiro estava inundado de areia, de cacos de vidro e dejectos de cães.  nele não existiam janelas, a claridade entrava apenas pelo lugar onde em tempos estivera a porta principal. no segundo patamar, existia uma janela maior, no terceiro várias um pouco mais pequenas. nunca chegaram a ascender a nenhum desses pisos, pois a passagem estava barrada por moveis descompostos e velhos. do cimo do moinho, descia um eixo vertical que se prolongaria, não estivesse ele quebrado, até à base. no centro do moinho encontrava-se um objecto estranho e complicado. era composto por um eixo horizontal, em torno do qual estava enrolada uma corda colocada com o auxilio de duas manivelas posicionadas em cada uma das extremidades. o objecto que descrevo assemelha-se, talvez, a um cabrestante de um navio, mas para os pequenos rapazes não se parecia com coisa nenhuma, nem tinha uma tipologia que pudesse sugerir qualquer tipo de história fantasiosa em torno dele.
hoje, ele – este que me escreve – sabe que aquele corpo estranho é chamado de sarilho; sabe também que o eixo que descia desde o topo do moinho servia para rodar o capelo e, assim, alterar a posição das pás. hoje ele sabe muitos mais pormenores acerca de moinhos, pois desde essas manhãs tão longínquas, desde que o tempo começou a correr, que o seu interesse e a sua nostalgia em relação aos moinhos foram crescendo.
no local onde existira o moinho, no local onde se perpetuaram tantas brincadeiras e tantas histórias e tantos mistérios de criança, não existe hoje mais do que nada. existe apenas a areia e os mesmos ou outros cacos de vidro. é nesse lugar estéril que ele se encontra neste momento, tentando descobrir alguns desses mistérios que ficaram por desvendar, tentando parar o tempo, retrocede-lo, erguer um moinho que transforma memórias em felicidade, girar o capelo na direcção oposta à do vento e contrariar a ácida lógica.
subitamente, lembra-se dos seus dois amigos de infância. lembra-se dos sonhos que tinham. o Luís, o mais calmo e temeroso dos dois, nunca chegou a concretizar o sonho de ser trolha. este que me escreve e o Luís seguiram rumos diferentes, mas sempre paralelos, nunca perderam aquilo que os unia e ainda os une. já o Daniel, aquele que corria, sempre destemido e invencível, nunca chegou a ser jogador de futebol. dizem que emigrou, que já é pai e, quando pensa nisso, este que me escreve, imagina um miúdo que, tal como o pai num tempo passado, corre indisposto a parar.

agora estão longe, mas, aonde quer que estejam, por certo ainda guardam dentro de si um pouco daquilo que viram e inventaram dentro daquele moinho; por certo ainda recordam também o sonho que fazia mover as pás deste homem afogado em memórias que agora me escreve. também ele nunca chegou a ser aquilo que queria ser. não interessa o quê, pois nem ele sabe bem. só a mãe continuou a ser mãe. só ela continuou a olhar preocupada para todos os passos que ele dá e a dizer-lhe, com o mesmo olhar luminoso mas tenso, para ter cuidado e para não se cortar.         

hoje, agora, quando sentado sobre a areia e sobre os cacos onde antes estivera altivo o moinho, ele percebe que afinal o que lhe rasga a pele mora dentro do seu corpo. talvez o eixo vertical que o une ao seu sarilho esteja também ele quebrado. assim, sentado sozinho no estéril lugar do moinho, ele fica a revolver os fragmentos que traz no bolso da lembrança. em locais diferentes, em momentos diferentes, aqueles três rapazes encontrar-se-ão sempre aqui, neste moinho inexistente mas vivo.

ele, este que me escreve, pensa que começamos a morrer quando perdemos as nossas memórias.

8 de jan. de 2013

Ilitch Wé


O nosso menino Ilitch Wé faz anos hoje!
Nunca percebi muito bem o que é isso dos 'Parabéns'. De igual modo, desconheço o que é Deus...

Mas queira Deus que ele tenha um aniversário do caralho!!


25 de dez. de 2012


Eu queria agora que, num desses sacos do supermercado que deixaste à pressa sobre o balcão da cozinha, e agora revisitas por um pacote de bolachas, uma surpresa minha te fizesse sorrir.
Uma caixinha de madeira – sei lá! – com um bonequito saltitão que te assustasse à primeira e com um gritinho acordasse depois a vizinha de baixo – essa velha surda cujas forças mais não servem senão para te reprovar a conduta, com baques da vassoura dela no teu soalho – imune aos encantos do teu riso singular.

Passaste a noite de Natal sozinha e isso doeu-me no coração. Logo a mim, que já nem gosto do Natal e privilegio a solidão, talvez por me ser permitido optá-la…
Eu queria ter sido o teu palhaço e passar contigo a noite a fazer-te rir, aconchegar depois um cobertor à tua expressão feliz e ouvir-te uma última risadinha cansada por uma parvoíce que eu tivesse dito antes de dormires…

Entraria depois no carro e faria duzentos quilómetros até casa, na mais profunda melancolia de levar o coração cheio…

Acordarias só outra vez no dia seguinte, com uma caixinha de música e bailarina nas tuas botas de fecho. E saberia ter-me na tua expressão, não sei em que lado, um lugar no teu coração.

16 de dez. de 2012

depois do cinema


[como nos filmes,
vamos lá começar isto outra vez e apagar a culpa de engolir em seco.]

cadáveres computorizados, tóxicos como a inércia dos jardins camarários,
vagueiam pelos passeios sobrelotados de um passado triste – os vórtices,
os pontos de quebra de poemas industriais e prontos para uma explosão.

os nossos sinais vitais a serem rigorosamente monitorizados pela chuva,
pelo orvalho das árvores queimadas que perduram dentro de gastas veias.
palavras a sucederem-se, a atropelarem-se na fugacidade das intenções.

mais um copo de vinho para o vagabundo que teima em pedir esperança;
só mais um murro nos tomates da nossa mente que nos queima o mundo.
a lembrança, comboio turístico imóvel, com feridas de combate profundas.

e se no final de tudo isto, na hora de irmos dormir,
concordarmos que o nosso dia não foi grande merda,
podemos virar as costas, soltar a lágrima que vem a rir,
e ficar a ver os robôs precipitarem-se em rios de xisto.

eles não são a escada que subimos rumo à queda,
nem nós a boia de pedra que insistiram em construir.

[como nos filmes,
vamos começar isto outra vez e limpar os olhos – revólveres velhos.]

lá longe, onde prantos de mágoa ecoam, existem fénixes que persistem,
existem sentidos novos para os nossos passos que deixámos de controlar.
sabemos que esse lugar ainda dista, mas os nossos sonhos podem tanto.

não podemos ficar apenas a contemplar o compasso mortal dos relógios,
as rotas que o fumo da fábrica vai traçando no céu, em nós, quando sós.
não pagámos bilhete para viver, mas queremos aplaudir a alguma coisa.

queremos comer pipocas, doces ou salgadas, assustar-nos naquela parte,
ter alguém ao lado a quem possamos estender o braço ao longo das costas,
a quem possamos explorar o corpo nos bancos cimeiros da sala de cinema

e se no final de tudo isto, pelas estradas rumo a casa,
concordarmos que o filme não era grande espingarda,
podemos parar o carro, tirar a um pássaro uma asa,
voar e não aterrar a tempo do apocalipse previsto.

faremos um aceno às nuvens, em sinal de retirada,
e um manguito ao cruzarmos um satélite da NASA.

13 de dez. de 2012

As validações "des'sentidas"


Validei-te numa quantidade infindável de conceitos
Revi as memórias e validei...
validei-te...vale...vale...valho...vale...valido...vales...não vales...
Espera! Valido?!

...Suspiro...

Acho que me encosto uma série de vezes a esta loucura.
Sento-me nela e deixo que me atravesse.
Esta subconsciente realidade
Esta consciente realidade.
Esta real realidade ou irreal ou esta,
Isto!
Isto que nos atravessa...
A ti não!
A mim...
A esta que te libertou... que fui eu.
Esta realidade liberta-me a mim dentro de uma prisão ordinária.

Ontem saí desta casa finalmente
Saiste dois anos anos antes.
É este o meu delay… dois anos depois de ti.
Afinal há uma lógica no meu caos,
Infortunia lógica que te segue os passos em delay.

Não sei se te apercebeste que deixaste a tua carteira no chão da sala no dia em que saíste.
Vi-a a cair enquanto apertavas os cordões das botas mas não pensei avisar-te
Passei por todas as fases enquanto te levantavas e saias...
Pensei que ias regressar para a levar...
Para me levares...

Mesmo que não fosses tu.

Alguém me levaria a mim e à tua carteira.
Alguém com a tua identidade no bolso de trás das calças.

"acho que não me esqueço de nada"

Acho que não.




10 de dez. de 2012

epifania de uma coisa feita de nada



os postes de iluminação pública choram as ruas desertas,
o frio reza às casas que o deixem pernoitar mais uma noite
e dentro dos corpos a alma contrai uma última fonte de luz.

nós somos as personagens que existem num filme francês,
a preto e branco, com as emoções gastas esbatidas no rosto,
ansiando pelo final calculado e pela metáfora vazia e batida.

os nossos pensamentos diluem-se na intifada dos deuses
cansados dos homens; cansados do calculismo da poética
que da essência não concebe nem caricatura aproximada.

somos a noite que relembra o dia. formámos este cansaço.
somos a avareza da epifania de uma coisa feita de nada
e as marionetas de pano iludidas por uma liberdade de aço.

Vida, acolhe-nos amanhã!


30 de nov. de 2012

Entre as silvas



Entre as silvas
Com uma tesoura da poda
O riacho sibila

Destruo a natureza para ela ser mais bela
Aos meus olhos

O cheiro de sangue a sebe cortada
Enche-me de ar o pulmão que respira
A verde frescura

Sou meio
Por ser todo civilizado
Ou talvez servo da beleza

Ou talvez servo da beleza que se desbrava
A cortar caminho por onde mais se ergue
A Natureza

Reza a história que o pão com mel
É o marisco dos esfomeados


26 de nov. de 2012

paperless poem


I wish close my eyes…
grasp the essence of children,
an easy melody, cheerful,
and spin on the utopian carrousel,
in my paperless poems
taking sun on the souvenir tropics.

I wish close your eyes too...
avoid time and space,
and, on the corner of my heart,
find the secret formula,
a warped and ajar door,
for the silk of your steps.

24 de nov. de 2012

Uma viagem particular


Chove na estrada
Nos vidros do carro…
As escovas não param de acenar
E até as botas do meu coração se encontram inundadas...

Não há vida nem esperança na via
Senão a vontade de chegar a casa
Ou voltar definitivamente para trás
E beijar sem pedir…

Não há assim tantas diferenças
Entre a paixão e o amor.
Em ambos manda o querer!
A paixão do querer é adolescente,
O amor é o querer tornado em vício…

Se tiver, portanto, de acreditar em alguma coisa
Acredito no querer,
Até porque sem ele nem Deus
Ou em mim acredito…


21 de nov. de 2012

o tempo que falta na estação da Trindade


as portas do metro abriram-se. esse movimento lento, constante e automatizado foi seguido de uma multidão que se empurra para sair, para subir as escadas e diluir-se em grupos menos numerosos que se juntam a outras pessoas que esperam pelo respectivo veículo, que as levará ao destino pretendido. ah, o destino pretendido!…
Ilitch Wé é uma destas pessoas que sobe agora pelas escadas rolantes, calmamente, acotovelado por alguém que se chega demasiado perto. tenta recolher a tranquilidade que se evapora dos cordas de um violoncelo tocado por um jovem sentado numa cadeira velha, rodeado por pessoas que o escutam e ignorado por outras que não têm tempo para parar nem para o ouvir nem para nada mais do que continuarem a caminhar. com isto, lembra-se, também ele, de procurar o passe social num dos bolsos fundos do sobretudo preto e comprido que traz vestido. para além da música que fica agora para trás, existe uma melodia metálica e estridente: rodas de ferro que se insinuam e roçam nos carris ferrugentos: uma melodia que se propaga no ar e traz a Ilitch uma dor de cabeça ligeira mas perpétua. sente o cansaço daquele dia de inverno pontilhado por uma chuva demasiado ácida que se mistura com o travo amargo dos cigarros. mais um lanço de escadas rolantes demasiado lentas e demasiado lotadas insurgem-se.
quando chega à superfície, nota que o dia já se precipitou sob o mar que naquele momento não pode ver. mas imagina-o. a noite enche a estação, e a iluminação artificial, é sabido, tem sempre o seu lado mortiço – o medo exposto do Homem pelas trevas. Ilitch olha para o placar electrónico e, em seguida, consulta as horas no telemóvel que por capricho se mantém inactivo, mas nem por isso se atrasa no tempo que exibe. faltam dez minutos. Ilitch lembra-se de um poema que escreveu há uns meses, e que quase houvera esquecido, para agora perceber que estava errado. nele havia perpetuado uma exaltação às máquinas, havia declarado amor para com elas, mas, agora, com o som arrastado do ferro contra ferro que lhe violenta o pensamento e com o estado de hibernação do telemóvel que possui há mais de três anos, deixa que um pensamento se esvaia sussurradamente da sua boca: puta que pariu lá esta merda!
à sua volta encontram-se muitas outras pessoas. algumas riem e falam sonoramente, outras ouvem música em auriculares, afastadas do mundo, enquanto constroem expressões faciais a partir das quais Ilitch tenta adivinhar o que lhes vai no íntimo. depois existem também os estrangeiros, de cabelos e barbas e roupas bizarras, com malas que transportam uma vida lá dentro que Ilitch tenta supor. existem também os velhos vagarosos que arrastam o mais comodamente o pouco púlpito que lhes resta e que perguntam a alguém qual é a linha que os leva para casa. Ilitch responde-lhes sempre e esforça-se por sorrir. sente, de forma presunçosa, que os entende. sente-se também ele já demasiado velho, exausto, não conseguindo afastar a ideia de que já percorreu várias ruas dentro da sua própria mente. por várias vezes, nessas ruas, esperou que alguém passasse e lhe indicasse o caminho para casa, mas aquelas eram bifurcações despojadas de transeuntes. na verdade, Ilitch Wé tem ainda somente vinte e um anos, mas sente-se cansado. é um rapaz magro, de rosto demasiado ósseo coberto por uma barba não cuidada e rarefeita; o cabelo ligeiramente ondulado e despenteado; nos olhos claros e vagos, escudados por uns óculos de armação escura, possuí o contorno negro e constante das olheiras que conquista noite-a-noite e nas mãos de dedos finos possuí um cigarro que dentro de breves momentos começará por queimar e que lhe irá amarelar o indicador e o anelar
faltam nove minutos. Ilitch Wé vai até ao recinto exterior da estação, onde se encontram algumas pessoas a fumar, outras que se riem e se zangam e franzem as sobrancelhas enquanto conversam ao telemóvel. o frio faz-se sentir na pele e nos corpos trémulos destas pessoas. acende também um cigarro e, enquanto fuma, fixa uma gaivota que voou teimosamente desde o Douro até ali, dilacerando o céu cinzento à sua passagem e trazendo esperança nas asas e no corpo frágil, suspenso por um vento moribundo e pouco convicto. esse vento existe também dentro de Ilitch Wé, passeia-se vagaroso juntamente com o seu sangue que não chega nem aquece a superfície do seu corpo. num passe de mágica passou tempo e faltam agora sete minutos. por vezes o tempo parece que muda o ritmo da sua marcha. ou, então, talvez seja a minha narração que se desprende da veracidade cronológica e não se coaduna com a cronometração exacta dos relógios.
o cigarro que tem na mão ainda se deixa aniquilar mais um pouco, em baforadas decompassadas. às vezes, parece-me que ele habita num século passado, que nasceu noutro país e que fala outra língua – talvez russo ou um dialecto oriental e morto -, sendo o português apenas um idioma secundário, como um ornamento da usa natureza saudosista. muitas vezes cruzamo-nos, mas não conseguimos encetar uma conversa ainda que banal. cumprimentamo-nos com o olhar desviado um do outro. ele sabe que, por vezes, falo sobre ele às pessoas e eu tenho a consciência de que ele faz exactamente o mesmo. mas a ele ninguém o entende. ele é como os estrangeiros que se encontram aqui, na estação da Trindade; ele olha e tenta interpretar os mapas coloridos da linha do metro, compreende-as, mas isso não lhe oferece a certeza do seu destino. Ilitch Wé não sabe para onde pretende ir, embora saiba que vai para casa.
faltavam cerca de cinco ou quatro minutos. eu estava lá quando tudo isso aconteceu, porque ele e eu partilhamos muitas vezes o mesmo corpo. de súbito, Ilitch Wé deixou que o cigarro inacabado se precipitasse sobre o pavimento cinzento do exterior da estação, pisou-o, matou-o, entrou na estação, avançou por entre a multidão, não validou o andante e parou junto à linha amarela de segurança sem a pisar. aí deteve-se durante um tempo que pareceu eterno. esperou. esperou. esperou.
três minutos exibiu o placar. e mais um trecho de eternidade.
dois. e o tempo e aquele lugar como cristalizados.
um. e melodia férrea a subir de tom. o metro a chegar à estação.
nesse momento, Ilitch fitou-me directamente, sorriu melancolicamente e, quando a melodia já era um rugido demasiado próximo e já soava uma campainha anunciado a chegada do metro, deu um passo convicto em frente e lançou-se para o centro da linha.
um terramoto que só eu vi deixou-me em ruínas, sem movimento ou qualquer outra reacção. mas o tempo prosseguiu. as pessoas entraram, indiferentes, para o interior das duas carruagens. a campainha soou de novo. o metro arrancou de novo. a melodia férrea eclodiu de novo e depois foi-se tornando num zumbido ténue.
Iltich Wé não morreu. vi-o caminhar em direcção a mim, sem arranhão que se notasse, e resguardar-se, de novo, no meu corpo, como já não fazia há muito tempo. o placar exibiu o tempo em falta para o próximo metro: dezassete minutos. interrompi este texto, e enquanto fumámos um cigarro nem eu nem ele comentámos ou tentámos explicar o que se houvera passado. o motivo que nos tinha afastado nestes últimos tempos, que só nós sabíamos e podíamos entender, não importava nada agora. matando o silêncio, ele perguntou em voz rouca:
- e se voltássemos a escrever?
nesse momento, passei-lhe estas duas folhas de papel para as mãos, e, juntos, analisámos todas as frases, todas as palavras, melodias, vírgulas e pontos para, por fim, chegarmos à conclusão de que a forma era trôpega e o conteúdo não era lá grande espingarda. mas, obstante qualquer tipo de teorização literária, ambos sabíamos: o final deste texto marcava um novo parágrafo para nós.
este, com espaços em branco impróprios para palavras, que só nós podemos completar 
e que só nós podemos compreender porque                                                                                                          







André Correia e Ilitch Wé

19 de nov. de 2012

Alice


Ainda que nas minhas palavras encontres conforto,
Nunca dormirás sob o édredon com que me cobre o horizonte
Quando olho para ele com emoção…

Podes achar-me em pistas,
Em restos de bebida,
Num vento mais intenso que bata de costas contra as tuas persianas…

Podes achar que me achas
E sempre isso é achar qualquer coisa…
Mas eu sou do submundo
E não creio que tu tenhas assim tanto a perder
Ou tanta força de vontade para fazer o caminho todo que eu fiz.

Mas, se o fizeres, deixo de ser quem sou
E ofereço-te um chá,
Alice.



6 de nov. de 2012

enquanto os deuses dormem



Stephen Dedalus, personagem de Ulysses, obra maior de James Joyce, disse: «a história é um pesadelo do qual estou a tentar acordar.» a realidade é isso mesmo, um sonho bom ou mau, que germina no nosso pensamento; forma-se através da sucessão de associações, dependentes das características singulares dos nossos olhos. a realidade e a verdade são conceitos abstractos, o único dado concreto de que dispomos é a nossa existência, e essa, para que possamos dormir tranquilamente, necessita de um sentido que amaine a sua hibridez. Ivan Ilitch, personagem criada por Liev Tolstoi, viu-se confrontado com essa necessidade a partir do momento em que a sua vida e a sua morte começaram a coabitar o mesmo tempo.
no entanto, de uma maneira geral, todos nós criamos ou nascemos com a necessidade de tornar o mundo num puzzle simples; como um jogo de crianças que apenas jogamos quando já somos adultos. a lógica, a razão, a verdade… tão bom sonhá-las! durante muito tempo o Homem contentou-se em explicar o universo com a ideia de um ser criador omnipotente e omnisciente. com o passar do tempo, o Homem sonhou para si também essa omnipotência e essa omnisciência. assim surge a teoria do Big Bang. não é necessário perceber muito de física para perceber que esta é apenas uma hipótese passível de ser verdadeira. é impossível alguém imaginar uma explosão que eclodiu de um ponto onde Tudo estava concentrado e que existia onde Nada existia, num não-tempo, num não-espaço. impossível imaginar! se algum académico me quiser provar que tal é realmente possível, então ponham fim ao Homem Comum, porque a lógica que possuímos não pode conceber tal coisa.
porém, admito, esta é uma teoria em que necessitamos de acreditar, pelo menos até arranjarmos uma melhor. até lá, questionemo-nos mas deixemos seguir a Vida. enquanto os deuses dormem, podemos sonhar a verdade. ela não é aquilo que sabemos, é aquilo que conjecturamos e conseguimos aceitar.

Enki sugeriu a Anu, Deus-Primeiro, que eu fosse degolado,
para que os deuses terrestres poupassem as forças.
e assim veio ao Mundo um novo escravo: o Homem.
para meus irmãos havíeis de procurar ouro
e manter-vos-íeis cegos para o entendimento das maçãs.
é de mim que descendes, Ilitch! ouve-me!

o meu sangue e um pouco de barro são a tua essência;
a tua vida tem o sacrifício oferecido da minha morte.
tu és, por ventura, o derradeiro Homem, Ivan Ilitch,
e todos aqueles que te rodeiam em silêncio
são semideuses que te afagam no teu leito de morte.

- não quero morrer! por Deus, não quero morrer!

a morte nasceu contigo. a morte sou eu.
o sangue que te pára nas veias foi outrora meu.

- e quem és tu?

eu sou Wé, o Deus Pai de toda a humanidade.

- porque aceitaste a morte, ó Deus Desistente?

para que os deuses, meus irmãos, pudessem descansar
e para que o Homem, perante o tempo celestial dormente,
pudesse abrir os olhos, amar a sucessão dos dias
e chamar a isso Vida;
para que pudesse sonhar o Universo e fingir que o entende.

Ivan, fecha os olhos! a morte foi este teu tempo até agora
e a dor é somente uma consequência de existires.
depois de morto não tens rim nem apêndice, Ivan!...

- deixa-me com as minhas dores! o tempo tudo sara!
não quero morrer! não quero saber da eternidade!

não temos tempo, Ivan! o tempo do Homem acabou.
Zaratustra já vagueia pela cidade!...

- quem é ele?

o Novo Homem, aquele que encontrou ouro dentro de si.

- e os deuses, teus irmãos, nosso pai, nada farão?

Anu morreu a dormir, ao som de estrelas lacrimejantes,
e Enki e os outros romperam os corpos pelo ouro.

como vês, a utilidade do Homem Escravo cessou!..