Olho para o pulso para ver quantas patadas amanda o meu
Ozyviza e…
Sacré Bleu! - Já passou quase um ano!
Vesti as calças a correr e, sem me lavar convenientemente, vim para aqui cumprir promessas mas… não me ocorre grande coisa. Vou cheirando os dedos enquanto penso no que tinha para vos contar. Não sei, não me lembro, algo me tolhe…
Encosto as unhas ao nariz, inspirando com mais força, e rapidamente percebo os motivos da minha amnésia. Um odor a sal grosso estava distraindo-me! Bem sabeis porquê…
Muitas senhoras têm vindo de Lisboa para me dar banho e coçar os meus costados com pedra-pomes. Sei bem o que elas querem: - que amnistie a veracidade das minhas memórias em detrimento do bom-nome dos seus filhos. Nunca! Os vossos filhos são uns drogados, - digo-vos eu que vi, com estes olhos que a terra há-de fazer cara feia quando os rilhar! E em avulsos pensamentos vos direi o que vi!
- Vi-os sem força nas cordas vocais para agradecer uma fêvera canibal que lhes pus com um garfo no molete aberto, para não morrerem de fome;
- Vi-os a comer bolachas que disseram saber a merda, sem que eu as tivesse sequer passado no terminal das minhas nádegas;
- Vi-os de cabeça baixa a apertar cacetes, quando a gaja dos
The Sounds atirava as coxas para o ar, provocando erecções bastante satisfatórias;
Todos os conselhos que lhe haveis dirigido, abortaram no primeiro esticão. Sossegai, contudo, pois eles não foram os piores… só foram os outros a seguir.
O pior de todos foi um loiro. Não, não era o gajo que se apresentou ao “
people” antes de encontrar o seu “
spot”. Falo, como já deveis ter reparado, daquele frango com urticária que parecia vir de um festim de famintos; aquele anjo loiro de asas rachadas que grunhia dor num tom quase inaudível ao ouvido humano e que, tão sabiamente, Tónio Cuco baptizou de “Lambido pelo Diabo”, inaugurando o mito, testemunhado e abispado por Anatoly Zerka e por mim.
- O caldo verde no
Punkalhoto soube-me a bacia de lavar louça com detergente e rodela de chouriço; a roulotte dos drogados junto à ponte serviu-me o pior prego da minha vida. Ele há bifes e bifes, mas o tranche de fêvera que me serviram, a fazer de prego num molete azedo, parecia trinchada dum porco enforcado acometido de suicídio com nojo de si mesmo. Depois fui ouvir poesia…
- Lembro-me de um ciganito que queria ser lambido nas sobrancelhas pelas transeuntes que passavam. Tónio Cuco engrossava a brincadeira, estimulando-as com promessas de felicidade e orgasmos intensos. O ciganito chegou a falar para a televisão, disfarçando a moca que deveras carregava. Portou-se bem, o Moço do Chapéu.
Sslaaaaaaa!...
- Eu e o ciganito falamos com deus nas margens do rio Tabuão. Não com deus, - O criador, mas com dEUS, a banda. Queriam saber se as águas eram amenas (provavelmente para andar sobre elas sem resfriados nos pés). Imbuído de uma hospitalidade lusitana, o Moço do Chapéu explicou aos nórdicos: “assim que a água chega aos testículos, a dor é insuportável!”… eles sorriram de agradecimento e partiram!
Voltei a cheirar as unhas e perdi-me! Por isso vou passar para o último dia de borga. Rumamos a Ponte de Lima para uma almoçarada das boas. Único senão: - Uma terrível vontade de vandalizar a porcelana…
Por ordem de desespero, e enquanto o manjar não chegava, lá fomos, cada um na sua vez, agredir o estaminé.
Quando entrei no
WC, um perfume celestial preveniu-me: - “A vida é tão bela! Porque não vais cagar a outro lado?”. A sanita, porém, olhando-me de soslaio, articulou a tampa como se de lábios virginais se tratassem, e com gulosos argumentos, disparou: - Ouve os teus intestinos. A Mãe-Natureza chama por ti. Porque não tapas o nariz e te sentas? Põe um bocado de papel nos meus lábios. Bem sabes que não tenho língua para me lambuzar. Vá, abeira-te de mim. Vem… vem!”
Oh! Volúpia de Faustos rendidos… que promessa de absolvição!
- “Vem, vamos fazer música…” – dizia a maldita, - e eu fui! Vandalizei-a, entontecidamente, com os olhos a cuspirem-se das órbitas…
Voltei depois à mesa, com as mãos bem lavadas, carregando na alma uma espécie de culpa que deve assistir ex-virgens suadas de arrependimento, a remoer uma inconstância cumprida... E Voilá! Cabidela… ou como diria Pessoa, no final do gigante
Tabacaria, “o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o dono…” do restaurante sorriu…
Depois fomos à feira. Pegamos um touro para a fotografia e despejamos umas canecas geladas. Que ricas!
Depois viemos embora. Tristemente. A festa tinha acabado. Vale-nos a orgia do costume para suportar mais um ano…
PS:
Paredes de Coura está aí à porta! O
Beerfest foi um bom estágio. Nota-se que a malta está preparada. O rio Tabuão é o limite…
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