26 de fev. de 2010

Paredes de orvalho

Abalei para os teus braços,

leves como uns lençois frescos,

quentes como a manta tecida

num Inverno de espera.

Os teus lábios toquei e teu rosto afaguei,

e, assim, revi junto do bater do coração,

as paisagens que pintaram e coloriram,

o corpo-espírito do que somos Hoje.

Rumo agora em direcção a outras paragens,

sempre com os olhos postos,

na pessoa que fui outrora,

na pessoa que sou agora.

Abalei para ti amor...

Numa casinha com tecto de estrelas,

paredes de orvalho e vento,

onde as janelas são as memórias,

do nosso contentamento

12 de fev. de 2010

Os Porcos

Os Porcos acreditam ser uma elite criada, exclusivamente, para o pensar e decretar; Os Porcos adoram ser tratados por Senhores Doutores, são cultos e informados; Os Porcos debatem e discutem entre si, pelo poder, insultam-se e apelidam-se de demagogos e bajoladores; Os Porcos usam fatos de alta costura e gravatas elegantes, têm capital basto, já não comem qualquer lavagem e ração, o seu paladar é sensivel e gourmet. Fazem-se deslocar em veículos de gama superior com direito a condutor particular e seguranças privados; Os Porcos trabalham meia dúzia de anos, ao fim dos quais podem usufruir do seu direito á reforma antecipada; Os Porcos são uma raça em ascenção, reproduzem-se a uma velocidade avassaladora, nascem nos palanques da lei, nas empresas multinacionais, nos bancos privados e nos diversos sectores publicos; Os Porcos exigem ser tratados como animais de primeira categoria, relegando os demais para a lama, ou para bem longe dos da sua espécie; Os Porcos espiam-se uns aos outros, através de escutas várias, telefonemas diversos e acedendo a conversas alheias, abrindo a este propósito inquéritos que custam milhões aos bolsos dos contribuintes; Os Porcos indignam-se com os seus semelhantes e também com as pessoas, são seres intocáveis e donos da razão suprema; Os Porcos ordenam, coisas várias, a seu bel-prazer, sem terem de dar explicações, a quem quer que seja, e quando estas lhes são solicitadas riem e desconversam, alegando o segredo de estado e/ou justiça; Os Porcos mantêm, sempre, a calma e a postura, desde que não se lhes mexa nos lucros e beneficios; Os Porcos são bichos manipuladores, perversos e maquiavélicos, cooperam, mutuamente, quando se vêm enrascados; Os Porcos controlam a economia, a saúde e a justiça nacionais. Controlam, também, a televisão, a rádio e a imprensa escrita. Tecem críticas e desacreditam aqueles que se lhes opõem; Os Porcos querem ser vistos como animais de trabalho em prol da sociedade, fazem passar a imagem de idoneidade, honestidade e boa vontade, quando na verdade não querem saber de nada, nem de ninguém a não ser de si próprios, são egoistas; Os Porcos não têm consciência, por isso tomam sempre as melhores decisões em relação a qualquer matéria; Os Porcos enlouqueceram e querem enlouquecer as outras espécies com as suas ideias; Os Porcos são figuras bem conhecidas da nossa praça, muitos dos quais apoiados por pessoas de bem e saudáveis.

Nota: Os Porcos são amigos intimos do "Palhaço" tão bem retratado por M.C. e do "Malandro" por C. B.

4 de fev. de 2010

It Might Get Loud




Enough said!!

Vejam, por favor, percebam o amor que alguém pode ter pela arte, pela sua própria vida, o orgulho que alguém pode ter por ter estado naquele momento naquele sitio onde estava um papel a pedir um guitarrista para uma banda, percebam o quanto alguem pode mudar o mundo a partir do seu cantinho em Inglaterra, ou Irlanda, ou o que seja...
Esta obra abre a mente para que seja possível desmontar toda a musica que conhecemos, entender porque gostamos dela, o que nos levou a gostar dela.
A cima de tudo, mostra como uma coisa em comum pode unir as pessoas, leva-las a partilhar uma sala e criarem arte.

Vejam...

27 de jan. de 2010

A picnic with two bottles of gin

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I woke up in a lonesome picnic
With two bottles of gin
And a packed down cigarette.
I must driven the wrong way
Like a hooker for the sunset
Or a piano cabaret.

Happy free bunnies
Sniffing around
Like vegan Indian chefs
In an LSD world…

Why am I wearing a tuxedo
And a fulfilled blood tiara?
Could Vegas or the world have reached to is
Weekend?

Stones trembling, hearth shacking
That’s more like it! –
That’s reason!

Silence again!

What is the matter with nature?
There’s always some symmetry in every firework.
Why is she complaining?

What kind of show is this?
My skull should by now
Be blowing…

A Fiat Punto with closed doors?
Who is the choreographer?

I DEMAND AN ANSWER!

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Sangue


O meu primeiro poema. Sei-o de cor. Um desabafo quase infantil sem noção de estar postulando um caminho. Sou poeta desde que me lembro de usar palavras para formalizar âmagos e estados de espírito, ainda com braços tão curtos para apanhar palavras como maçãs. A minha mãe quando está triste diz que sente o coração negro. Pode não saber quem foi o responsável pelo holocausto, mas nem por isso a poesia lhe negou os seus frutos a cair de maduros…

“A poesia é para comer”, diria Maria Bethânia, que chegou antes de mim a essa conclusão. Tal como Fernando Pessoa, - esse bandido veloz que era uma equipa na apanha e se antecipou a todos os poetas, deixando um rasto de pomar celeste com caroços.

Talvez devesse estar feliz por trilhar o caminho dos génios, de privar com eles na mesma sombra arqueológica. Mas isso é tão banal como ter o sangue deles a correr em mim sem voz própria; ser primo afastado e saber, como ninguém, a história que todos contam…


24 de jan. de 2010

s/ título

Eu sempre quis dizer qualquer coisa
Sobre caramelos.
Sobre atalhos e
Coisas doces.

Mais que inventar
Eu queria explicar o mundo todo
Por aquele saxofone em fundo de verso
A fazer de falsete.

Eu queria chegar a casa e
Ter por onde dizer.

No século dezoito
Só havia memória…


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13 de jan. de 2010

A noite do Rabalhão

Eu bem (ou)vi que vos portastes mal na passagem de ano...

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29 de dez. de 2009

Peru

Vendo-me a um sentir
Que há-de vir
Como um peru criado em casa,
Assassinado à borracheira.

Não sei tocar piano. Gostava de poder chegar a casa bêbado, acender um cigarro, pôr o copo em cima e contar-lhe a noite toda com os chinelos de quarto nos pés…

A poesia desgraça-me! Sentir o mundo todo como se todo o mundo tivesse de sentir por mim e, ainda assim, ter de o levar na mochila, como um lanche, para o grande piquenique na montanha.

O pior de subir montes é ter de os descer depois de experimentar o absoluto. Perguntai aos drogados que entraram no céu “pela porta do cavalo”. Nenhum foi resgatado por helicópteros. Os que voltaram, tiveram a sorte de cair numa rede de circo, montada para trapezistas. Mas não voltaram a sorrir…

Viver com pessoas que dormem impede-me o barulho; o tempo não me incomoda e só os relógios me enojam.

A dependência é uma escravidão cotada de suicídio…


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24 de dez. de 2009

MELODIAS TRAGICO IRONICAS 5 (especial de natal)

“Thank God it’s Christmas”, dos Queen é a música escolhida pela Gerência de uma conhecida rede de hipermercados para alegrar o ambiente dos seus estabelecimentos comercias.

“Last Christmas I Gave You My Heart” dos Wham, era a música que o jovem cardiologista trauteava enquanto procurava comprar o presente de natal para a sua esposa.

“All I Want for Christmas is You”, era a musica que rodava no centro comercial, enquanto um padre se demorava a passar pela montra da sex- shop, onde estava exposto o ultimo modelo de uma boneca insuflável bastante exótica.

“Let it Snow”, melodia tipicamente natalícia, tocava na rua movimentada da cidade já a noite ia alta e gélida, enquanto o sem abrigo tremia, repetidamente, com frio.


PS: Como bem podereis constatar, através das vossas vivências, existem pessoas nesta época do ano que oferecem/recebem o que bem lhes apraz; outros há, que simplesmente formulam desejos, sobre aquilo que gostariam de receber/dar e não se sentem pior, se não os mesmos não forem concretizados; também há, ainda, aqueles que nada têm e que nada desejam, muitas das vezes por estarem sozinhos, complemente á margem, ou na sarjeta da nossa sociedade. O meu pensamento está com estes últimos, através destas melodias…

22 de dez. de 2009

Wine Festival - I Podcast

Sim, é verdade! Eu também lá estive a partir os cadeados todos e não só. Por isso, ponham o som no máximo e cliquem no título deste post para ouvir as coisas lindas que eu tenho para vos contar...

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14 de dez. de 2009

SOBRE AS LEIS E A EXISTENCIA EM DEMOCRACIA

Hoje, é impossível dissociar-se a vida quotidiana em sociedade, da legislação, leis e decretos múltiplos; é impensável existir democracia e ordem pública, sem que hajam normas para reger toda essa existência, convivência e conflitos que daí são adjacentes. O homem, ao coroar a democracia como sendo o último bastião e o mais perfeito da coexistência humana em sociedade, veio criar com esse baluarte toda uma variedade de leis que permitem regular, orientar e definir os traços gerais que deverão ser seguidos como fio condutor para que se verifique uma perfeita convivência entre os diversos sujeitos.
O que primeiramente, seria apenas um conjunto de leis, em numero restrito, para que as pessoas apenas se orientassem por elas, depressa se tornou num emaranhado e complexo enredo de normas que logo vieram complicar, ou até, distorcer toda a realidade, a favor ou dos próprios legisladores e governantes, ou então dos mais abastados, influentes e poderosos. O que muito frequentemente se verifica é uma colossal maquinação destes últimos mencionados, para alcançarem o seu próprio bem, em nome da democracia. Usam destas habilidades para garantir, com segurança, o que injustamente vão adquirindo, para depois se apoderarem e excederem dos serviços dos pobres, pela recompensa mais medíocre possível. Destas tramas estabelecidas por os mais prestigiados da sociedade, em nome da democracia e dos desfavorecidos, fazem eles mesmos as regras. As fórmulas democráticas são o fruto maduro dessas ervas daninhas que os legisladores e líderes políticos das nações cultivam há muito tempo com o maior dos esmeros: Pervertendo costumes, indisciplinando valores e atrofiando a sociedade. Os maus exemplos de carácter que vão predominando nos altos tronos da democracia são tolerados pela indiferença duma sociedade obscurantista que convém às facções que a exploram e dela vivem.
Seria, pois de desaprovar o número interminável de leis e comentários ás mesmas, que muito amiúde e por força dos seus criadores, se tornam insuficientes para regular a vida em democracia. Desaprovar, sim, pois haverá maior maldade e injustiça do que obrigar o homem comum a obedecer a leis que mal conhece por serem inúmeras e confusas, tornando-se impossível a sua compreensão com clareza? E aqueles que mais habilmente manejam, deturpam e astuciosamente criam novas normativas, como contrapartidas e alternativas ou complementos das anteriores, para que dominem engenhosamente em seu beneficio todas as situações, não seriam também de desaprovar?
Nada importa á maioria das pessoas, que é quem mais necessita de saber, sobre os seus deveres, direitos e obrigações, que não hajam leis, ou que essas que são estabelecidas sejam vergonhosamente traiçoeiras, que só se consiga uma interpretação acertada e verdadeira após um prolongado e exaustivo estudo das mesmas, que se poderia estender por toda uma vida.
A democracia deveria assentar, essencialmente, em cuidar e desenvolver do interesse geral, relegando para outro plano, ou até mesmo desprezando, o campo dos interesses particulares. Ora, como é mais que sabido, na democracia de hoje o que mais se pode constatar são interesses particulares avançando por cima, bem mais por cima, dos interesses gerais, comuns a todos ou a uma grande maioria. A democracia deveria ser soberana, senhora de si mesma, segura e não susceptível, ou colocar-se a modos de ser corrompida por poderios, riquezas ou influencias aviltas á consciência do mais puro e justo dos homens, ainda que esse mesmo seja desfavorecido, quer pela sua condição social e económica ou por a sua origem genealógica. Deve a democracia, proteger os fracos dos atrevimentos dos fortes e os pobres dos possíveis abusos dos ricos e também do excesso da sua pobreza. Sendo, sempre, inspirada nos mais elevados conceitos, baseando-se na mais sólida moral, respeitando o mais vasto espírito do humanismo e equidade social. Contornando, combatendo e aniquilando a estreiteza de ideias e horizontes limitados, que têm como objectivo máximo, não raras vezes, a sobrevalorização e beneficio de elites.
Nas sociedades actuais verifica-se que quem não reservar algo para si, quem não se submeter ao egoísmo existencial, depressa perecerá, embora faça parte e esteja inserido, obrigatoriamente, numa nação ou num país que muito frequentemente tem posses monetárias para acabar com a mingua existencial das suas populações. Países e nações que ostentam bases e valores democráticos, mas que constantemente recusam dignar-se estender a mão á própria sociedade, exigindo, sem qualquer tipo de escrúpulo, que se nomeiem os dirigentes e responsáveis máximos para levarem ao rumo que melhor lhes aprouver as vidas dos que até então saíram sempre a perder com tais valores.

12 de dez. de 2009

a propósito de dizer tudo e não dizer coisa nenhuma e, ainda por cima, não ter vontade de corrigir

Não tem sido fácil aturar-me,
Explicar-me.
O cortejo fúnebre já saiu do adro
E eu pintando à pressa o meu quadro.

A morte vem como altura de exames
Apanhando desprevenido
Um copo deixado meio.

Foi-se a vida como a de um cão.
O deus não existia,
E o morcão que tudo comia
Não falou em reencarnação.

E o universo que não tinha emoção
Continuou o seu caminho
Para lado nenhum.

Vê-se da lua a nossa desilusão!
Que pequenos somos,
Inventando, ainda assim, a depressão
Como se o chão que nos come não bastasse, e
Ou inventar um poço para fora nos empurrasse.

Inventaram-nos com uma enxada na mão
E uma certeza motivada para a competição.
Uns encontraram terreno fértil para cultivar
E os outros, sem querer sepultura,
Puseram-se a cavar.

Uns acharam água
E outros petróleo.
Uns acharam saibro e pedra dura
E outros aqueloutra sepultura.

Foi no que deu pôr toda a gente de enxada na mão.
A ideologia vigente residia no chão,
E os bisnetos dos visionários
A passar visionando com o nome dum avião.

A verdade dos poetas reside num só segredo:
- o adiamento do degredo
Reside no pressentimento de tudo existir com espaço
E a felicidade resiste num espaço de tempo
A que se pode pôr um laço.

Em suma,
Tudo o que existe pode ser apropriado.
Num bocado de ar pode fazer-se uma jangada,
Num veio de tesão pode existir uma gémea gemendo,
Ou uma namorada.
Num copo de vinho uma clareira
Numa cona fria, uma lareira.

Se abrisse agora a janela
Poderia estar nela se ajeitando uma coordenada
Uma nau procurando simetria
Com roldanas,
Um zepelim com pedais,
Libelinha gigante de conversar qualquer coisa
Antes de dormir,
Capitulando um fim de noite á janela
Com ar puro.

Mas a manhã vem
E a gente olha para tudo como um sonho esquisito
Que urge pôr terra em cima
Suspeita de insanidade.
Volta-se a fazer o mesmo
Como é do costume,
Fala-se de cumprir os sonhos
Que não são sonhos nem são lume…

Bebe-se um copo de água
Para tirar o gosto da pasta de dentes;
Acende-se um cigarro a caminho do trabalho,
Mudança abaixo, mudança acima…

Ajuda à vida o locutor da manhã
Que sempre se faz de palhaço contente.
E é impossível não ser fã
De alguém que parece nunca
Estar doente…


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10 de dez. de 2009

Exorcismo

Eras tão linda e tão tudo e eu estraguei-nos a ver fotografias fora do contexto. Hoje o mundo é diferente e tu tens como eu, provavelmente, um parente, outros gostos e um filho. Eu era puro com todos os defeitos e não tinha defesas. Amei-te como um homem nu a dizer que amava e, depois disso, nunca mais tirei roupa da carne.

Hoje, não te queria para minha mulher. Talvez me levasse para a cama contigo, - isso sim – um rendez-vous para tomares de novo o meu cheiro e eu recuperar o meu coração. Mas tu és inteligente como o diabo e não devolves almas, tampouco te seduzem os estados alterados de consciência onde sou, emocionalmente, cientista do acaso e variável de ciência.

Não é por nada,
E eu bem sei que fazes colecção…
Mas, se não te importasses,
Eu queria de volta
O cromo
Do meu coração.

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3 de dez. de 2009

Levantem-se muros

Tanta gente a queixar-se da existência de muros. Haja coragem para se dizer que há muros que fazem falta! O Muro de Berlim foi uma vergonha, ok! Mas foi uma vergonha porque ainda o é, porque dividiu pessoas que, à partida, estavam unidas. E em nome de quê? De um confronto de ideologias – comunismo versus capitalismo. Levantou-se um muro como quem faz um estudo de mercado e, por isso mesmo, não admira que o capitalismo tenha vencido…

Mas há feridas de guerra que precisam de tempo e compressas de muro para sarar. Levante-se um muro em Israel ou, se quiserem, na Palestina, se isso servir para estancar o sangue de inocentes. Deixe-se passar o tempo, - e acusem-me depois de fascismo quando vier a altura de deitar abaixo muros da vergonha. Mas, - lembrai-vos – enquanto houver muros na Irlanda entre católicos e protestantes e escassearem pedradas nos miúdos a caminho da escola; enquanto a Internet não provar que o tesão de uns é o tesão encastrado dos outros, a paz vale o que vale… isto é, a ausência de sangue derramado estupidamente.

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1 de dez. de 2009

Carrousel des Morts ou o proto-manifesto para um carrossel com mortos

Caixa de música com bailarina no interior
Em película de terror…

Circo eremita
Cansado de público,
Compondo árias
Com tarefas diárias.

Senhores das clareiras herméticas,
Cientistas da fantasia,
Escultores de ferro velho
E nómadas dos cemitérios de fadas…
Dissidentes do orgasmo protocolado.

Todos os dias,
Uma bacia e uma canção.

O sol existe para aquecer frestas de luz,
E lamber os olhos dos monstros
Que espreitam pelas fechaduras
Dos baús.

Serpentinas de vento e mofo, entretanto assobiam,
Amarelas, vermelhas, azuis…

Vem depois o frescor e a noite.
As luzes acendem-se nos estendais de fio eléctrico
Como num pomar simétrico,
Cheio de lâmpadas.

Ouvem-se os primeiros acordes da afinação,
Electrocuta-se a realidade com a morte de um cão
E a magia acontece nas almas! –
Sem necessidade de palmas

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26 de nov. de 2009

Nova Festa

Temo, não raras vezes, estar estimulando pessoas para festas que não existem. Como se eu estivesse dizendo “ faz o que eu digo mas não faças o que eu faço” e, sinceramente, isto incomoda-me. E incomoda-me porque me apetece fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. O tédio faz-me espécie…

Por isso, lanço-vos daqui um repto: - uma FESTA, lá para o fim de Janeiro de 2010, para celebrar o aniversário do Cabaret des Morts.

Não me façam questões! Ou é ou não é!

Aceitam-se inscrições aqui, - e apenas aqui! – até ao fim do ano.

A festa faz-se com quem, de direito e vontade, estiver propenso à celebração...

Um mundo imenso de possibilidades

Vou contar-vos, à minha maneira, uma história horrível. Tantos filmes ma contaram de maneira diferente, tantas canções, e um livro de filosofia dos tempos de liceu. Tomai, portanto, esta missiva como um plágio adaptado às lições que a vida me deu…

A vida cansa, - a sério! – Uma pessoa levanta-se de manhã, a fazer de conta que corre atrás de um sonho, faz via-sacra pelo destino, chega ao trabalho e está lá um pesadelo que acordou maldisposto…

Com o passar do tempo, a consciência rejeita-se a adiamentos e ataca onde mais dói. Bate nas têmporas como um coração que não pára de ladrar a noite inteira. Calçam-se os chinelos de quarto e vem-se à cozinha abrir-lhe a porta, fumar um cigarro.

As horas de sono escasseiam, o tempo discorre naturalmente e o relógio aponta à luz da manhã como um carro de polícia num beco sem saída. Quer-se mergulhar de novo em sono profundo mas, vai-se a ver, e os sonhos são publicitários: - carro, renda, dinheiro para as contas do bar; casamento, casa própria, carro familiar, roupa nova para os miúdos; liceu, universidade. Vem pelo meio uma depressão e depois cunhas na repartição…

…e o tempo passou!

Pelo caminho finaram-se veios de tesão, adiados para venturas maiores. Ah! Mas negai essa falsa volúpia. Perderam-se almas grandiosas por adiamento, em copos e partidas de cartas e, hoje, mijando pelas pernas abaixo, sepultados vivos nos lares, se dirigem aos netos com o maior descaramento do mundo: - “se eu tivesse a tua idade…”


Acreditai em mim quando vos digo: - “SEREIS AMADOS POR DEUS E PELO DIABO ENQUANTO VOS DURAR A FOGUEIRA DA MOCIDADE! E TUDO VOS É POSSÍVEL!”

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21 de nov. de 2009

A Lei


Diz a Lei que o desconhecimento desta não serve de atenuante em caso de prevaricação. Ou seja, por mais calhamaços escritos em aramaico, números, artigos e outras disposições em que assente a Lei, está o cidadão tolhido se proceder contrariamente ao previsto.

Conheço, felizmente, muitas pessoas inteligentes, bem formadas, informadas, com uma cultura geral irrepreensível mas, as únicas realmente capazes de me assessorar dúvidas jurídicas, cursaram Direito. Porque será? – Pergunto-me.

Há por aí muita gente que, se soubesse a Lei, não teria a profissão que tem porque, pese a cegueira a que nos habituamos, um advogado goza de mais estatuto e ordenado que uma empregada de limpeza. Julgo haver por aí muitos trolhas que preferiam ser advogados. Não tenho nada contra os advogados e, se tiver, deixo-o de parte nestas minhas considerações. Os primeiros, porém, desconhecendo os trâmites legais, podem estar neste preciso momento incorrendo em prevaricações muito estudadas e para as quais existe moldura penal.

Ora, o problema não reside no facto de um trolha não conhecer a lei, mas na possibilidade quase matemática de ninguém a conhecer na sua plenitude. E isto, para quem aspira andar de costas direitas, faz hérnia. E porquê? Porque andar nos trilhos de uma Lei suficientemente vasta para tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente, implica andar derreado perante os que, podendo adulterá-la em interpretações de bel-prazer e ganhando dinheiro com isso, demitem franqueza e seriedade aos corações mais puros.

Ora, uma Lei partilhada por todos deveria resumir-se a uma carta, a um código deontológico suficientemente altruísta e esclarecedor como a Carta dos Direitos Humanos. Não adianta de muito alargá-la, quando nem esses direitos tão básicos continuam a ser atropelados. Isto incomoda-me.

Incomoda-me ter de pautar a minha existência por uma cartilha de mentiras travestidas de virtude e assentá-la, não em factos, mas em percepções de factos, e suportar-me ignorantemente acorrentado. Viver em democracia não nos iliba a ignorância; vestir a mesma roupa não nos bane a falta de gosto; dizermos todos o mesmo não basta para ter razão.

Os ideais reinventam-se a cada geração. Em contrapartida, as ficções sociais a que nos sujeitamos são tão reais como as telenovelas e actuais como as tragédias gregas, triando ad libitum os bons dos maus, sem régua para as pessoas que tomam boas e más decisões.

E é precisamente aqui, entre as normas inventadas para a coexistência do ser humano em sociedade e a anarquia de ser livre como um animal à solta, que entra a Ética, enquanto esforço filosófico de questionamento da moral.

É, nesse permeio, entre o ser animal e o agir social, que reside o excremento e a excelência da raça humana. Também aí, e não sei se por condição ou intervenção divina (razão pela qual tanto duvido como acredito) se instalou o livre arbítrio, - a mais perfeita das ironias!
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15 de nov. de 2009

-" Estou atrasada! Estou atrasada!", disse a Amora Silvestre ao entrar no País das Maravilhas.
- "Oh... perdão, no Cabaret! Estou atrasada, estou atrasada!"


Eu , sou Amora, a fada. Sim, porque no Cabaret tudo é permitido e ainda que a magia tenha caído em descrédito, nós fadas existimos e aqui estou eu para o comprovar.
Resolvi deixar os bosques, sair do anonimato e aceitar o convite do Mal para assim colorir a negrito também, se for o caso, a tela encantada do pensamento.
Sem mais demora e porque o tempo para praticar o bem é escasso, lanço aqui um "Manto de Estrelas" para que o encantamento possa principiar.

Imagino-me,

Deitada sob um manto de estrelas,

suspensa,

de corpo invisível,

com contornos de luz.

o meu corpo corpóreo e incorpóreo

viaja até ti por espaços perdidos,

tocando teus lábios- borboleta,

selando,

imprimindo,

mágico e transcendente sentir

coeso e disperso no devir...

Imagino-te,

Árvore branca nascida de uma constelação

Iluminada,

singela,

ardente de paixão.

Oscilo nos teus ramos,

como num baloiço de infância,

sentindo a brisa no rosto

e a alma a rodopiar

numa valsa interminável...

Lanço beijos e caricias ao luar,

no desejo pleno de te alcançar.


Beijos coloridos e sonhadores.



12 de nov. de 2009

A Festa só agora começou...

O sobreviver a uma catástrofe, ou ser subjulgado em grupo por alguém, tende a unir as pessoas, dar força ao grupo para ultrapassar as advertências... Mas porquê esperar por isso para estarmos unidos? Porque não dar uma Festa?
Assim foi, um festim como manda a regra, gente vestida a rigor com toda a vontade de se libertar e estar em liberdade, passo a redundância. Pessoas com mentalidades, aberturas, crenças, vontades, limites diferentes, mas que naquele dia decidiram deixar tudo isso para trás...

Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a quem decidiu bater o pé a todos esses moralismos, e se sentiu a vontade com as pessoas que estavam de braços abertos para os receber. O meu agradecimento também a quem se despojou de manias e costumes e deu o passo em frente para organizar aquele Banquete. Parabéns

Nada acabou, tudo começou...

9 de nov. de 2009

E pronto. Acabou-se a festa.

No cinema recorre-se por vezes à técnica de filmar uma grande chuvada depois de uma série de acontecimentos com forte carga emocional. O objectivo é basicamente fechar um capítulo e desembargar a tensão acumulada. Na verdade, e não apenas no cinema, o elemento água é talvez o veio purificador mais poderoso que a natureza nos colocou à disposição.

Ocorreu-me isto porque hoje choveu e eu sinto-me lavado. Por dentro, a sensação é de rescaldo depois de um incêndio e o meu corpo reage com cautela às arranhadelas deixadas por esfregões ávidos e escovas de arame…

A vida poderia ser uma festa e nós só teríamos de continuá-la. Mas abateu-se sobre o nosso tempo uma forma de pensar que roça a doença. Vigora entre nós uma corrente de pensamento que nos impele a impor sevícias ao corpo e à alma, para que mereçamos a felicidade. Ah, mas eu gosto de me vestir pelo avesso e fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. O tédio embaraça-me, o costume atrapalha-me e a afinação da virtude por lamirés roubados enoja-me. Não me quero envenenado. Quero-me livre e experimentado. Faça-se a festa. Para grandes males, grandes remédios e, se for preciso, tome-se o xarope todo.

PS: Os meus mais sentidos agradecimentos a todos quantos se livraram de preconceitos e abrilhantaram o Ultimate Sex Power Fest com a sua presença. Um agradecimento muito especial ao meu grande amigo e camarada da Comissão Instaladora, sem o qual este deboche não se teria realizado...
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29 de out. de 2009

ULTIMATE SEX POWER FEST

Minhas ricas pombas e ilustres gaviões,

Como já deveis saber, vai realizar-se no Convento de Alpendurada, no próximo dia 7 de Novembro, um grandioso festim que dá pelo nome de Ultimate Sex Power Fest.

Temos confirmadas mulheres nuas, cavalos e anões. Está apenas pendente a confirmação de um triciclo com pratos de choque e… uma meia dúzia de malandros que gosta de se guardar para a última. No entanto, e porque urge confirmar o número de gamelas e as cestas de trigo recesso, eis-me por este meio a reclamar pela vossa atenção.

O manjar implica uma liquidação de 15 euros, com bebidas à descrição enquanto durar o jantar. Depois disso, acaba-se a mama… ou não! Estamos autorizados a levar umas garrafitas para continuar a festa. Tragam-nas!

A indumentária deverá ser burlesca-circence-cabaret-excêntrica-erótica-sexy podendo ter reminiscências góticas ou à belle époque. Por isso, meninas, puxem-me essas saias para cima de modo a ver-se as ligas, apertem os corpetes e venham com cheiro de flores; Os coiotes amanhem-se nos armários à procura daquele casaco do avô que um dia juraram nunca vestir. Ah! E suspensórios - é uma imposição delas! As bengalas e os chapéus também são muito bem vindos…

Sejam arrojados, - não há que ter medo! Não vai ser por uma muda de roupa mais extravagante que a vossa pele vai arder no inferno… antes pelos motivos que vós sabeis!

Mais coisas…

Estamos a negociar um autocarro que arrancará do Marco (junto à Câmara) às 19:30 (é para cumprir). Por volta da meia-noite, o mesmo veículo nos trará de volta ao Marco. Ainda não sabemos o preço do autocarro, mas o bilhete de ida e volta deverá rondar os 4 euros (pelo que importa também confirmar quem deseje ser guiado)

Resumindo e concluindo,

É fundamental confirmar presença e/ ou autocarro. No próximo sábado, eu e o Romeu estaremos no woodrock, pelo que se puderem pagar nessa altura, melhor.

Podem também confirmar através do blog http://cabaretdesmorts.blogspot.com ou pelos números 961 942 118 ou 918 901 593

Resolvam lá isso… vá!

Sr. Mal

26 de out. de 2009

Ultimate Sex Power Fest


Diz-se por aí, à boca fechada, que a malta anda com falta de criatividade no que diz respeito à escolha da indumentária para o Ultimate Sex Power Fest. Eu não acredito. Quanto a mim, isso é boato! No entanto, e para que não restem dúvidas quanto ao carácter excêntrico-burlesco-circente-erótico com possíveis reminiscências góticas, deixo-vos aqui algumas sugestões para que se possam inspirar…

Ah! E sejam arrojados, - não há que ter medo! Não vai ser de certeza uma muda de roupa mais extravagante que vos fará arder no inferno… antes aquelas coisas lindas que andais a fazer durante o resto do ano!
PS: Agradece-se confirmação para a festa o quanto antes...
*fotos com direitos reservados
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22 de out. de 2009

Ao ritmo da tempestade

Cheguei tarde a casa e entrei em bicos de pés para não acordar ninguém. Vivo num quarto alugado, como já deveis ter prognosticado, - bem barato comme il faut! Entretanto o senhorio faliu e veio para aqui viver também, e alugou o outro quarto a uma levada grávida que passa as noites a correr para a casa de banho, condimentando com vómitos os meus devaneios e as minhas leituras. Enfim, para meu desprazer a casa tornou-se habitada.

Mas hoje a noite discorreu engraçada e eu tive de vir a casa buscar bebidas e camisas para rufar mais calor no carro que ficou de porta aberta e a música alta. Deixei as botas à porta, como se fosse fazer menos barulho correndo em peúgas pela escada alcatifada. Calcei uns sapatos de sola silenciosa; abri gavetas em desespero, arrancando de lá preservativos à mão-cheia; entrei por uma porta do armário e saí correndo por outra, deixando um rasto de garrafas vazias atrás de mim, e a colecção de bebidas em miniatura abraçada ao peito, como se levasse o filho de uma ex-mulher que o tribunal me proibiu de educar…

Entrei no carro como um tufão e as garrafas tilintaram como um candelabro dado ao vento de Penha Longa. A moça que estava no banco da frente agarrou-me pelo queixo e beijou-me a boca. Eu estiquei o pé no acelerador, o carro derrapou no alcatrão cheio de folhas molhadas, ela agarrou-se com afinco na minha camisa suada, um tornozelo de trás cravou-se-me no pescoço com o tacão a bater no vidro e a estrada seguiu o nosso veio ao ritmo da tempestade…

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20 de out. de 2009

ULTIMATE SEX POWER FEST

Tenho uma visão desinspirada do mundo. Não só não o consigo mudar para melhor como não vejo, nas pessoas que podem, um altruísmo ou nobreza capazes de tornar a existência dos outros mais livre e autónoma. Arrisquei pensar o mundo como numa equação matemática, mas pus demasiada emoção nas contas e o resultado veio-se em mim como uma biblioteca de auto-ajuda…

Fartei-me de ouvir os conselhos dos outros; de ter uma identidade com deveres acessórios; de esperar em filas; de desligar a televisão; de esperar que algo bom aconteça; de me querer vestido e penteado como um nova-iorquino só porque os padrões de beleza se homogeneizaram a uma escala global…

Fartei-me de tanta coisa e encontrei-me isolado como um eremita. O mundo espera de nós uma contribuição para a correcta lubrificação das suas rodas dentadas. Ora, isso não me apetece. Cravaram-nos a religião nos corações e outros ideais de perfeição que nos juram a pele a uma cama de pregos se não os cumprirmos. E, mesmo que os cumpramos, esses ideais não nos ilibam de ser atropelados ou morrer à fome com as pernas partidas no fundo de um poço que alguém abriu e se esqueceu de tapar porque secou. Longe de querer culpar a humanidade por abrir poços ou deixar as suas crianças morrer afogadas em tanques, importa-me antes não fazer juízos de valor.

Cedo ou tarde, vamos todos morrer! Ter assim uma certeza, consola e apazigua. O que fazer então da vida? Prolongá-la por mais um ano ou dois, impondo sevícias ao corpo? Domesticar a alma? Cada um responderá por si, se acreditar que tem mais vida para além do corpo que preside…

Quanto a mim, prefiro seguir o conselho de Agostinho da Silva, e vou fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. Ainda que os relógios torçam o nariz, ainda que a decência, o bom-gosto e o bom-nome achem “por bem” fazer juízos de valor, eu vou inventar a minha história. Começou mal, - com um baptismo à pressa - não fosse eu ferrar nos anjos como um menino selvagem com a dentição toda aguçada. A infância foi bonita, ainda que sem pedófilas; a adolescência foi o que é, e a idade rouba-me fatias de fígado por cada borracheira que apanho. Uma vez chegado a este ponto, importa-me tão-somente reunir as pessoas e ser feliz com elas, traficar o ânimo contra a lei vigente e inventar a felicidade.

Seremos capazes de nos reinventarmos, livres de preconceitos? Seremos capazes de aproximar a alma ao corpo e, mesmo assim, conviver harmoniosa e tolerantemente? A ver, vamos, no ULTIMATE SEX POWER FEST!


PS: aceitam-se inscrições. A festa terá lugar no Convento de Alpendurada, no dia 7 de Novembro. Arranjou-se a brincadeira pela módica quantia de 15 euros (jantar incluído). Depois da comezaina, acabou-se o vinho! Por isso, vamos lá surripiar uma garrafita à garrafeira do velhote, - ele faz menos caso se lhe disserem que a garrafa desaparecida se esfumou no Natal passado, quando ele “foi para a cama de gatas”…

A indumentária é livre, desde que seja sexy. Dão-se alvíssaras a quem aparecer de corpete e meia liga (a ver-se!). A ideia é fazer-se uma festa que combine os estilos Burlesco-Circence-Belle-époque-Gothic-Cabaret. Os homens devem comparecer de chapéu ou cartola, com indumentária Dandy, - dão-se alvíssaras a quem apareça de fato cor-de-rosa, camisa branca e laço verde-alface, calça curta e meias de riscas às cores. Os suspensórios são uma condição exigida pelo sexo feminino…

- Não esqueçamos que este jantar pretende ser uma ode à excentricidade. Os mais mirrados pela educação podem sempre dizer que vão a um carnaval de inverno. Sejam inventivos!

Libertem-se de preconceitos e vamos fazer a festa. Morrer pode ser para amanhã…

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19 de out. de 2009

O verdadeiro artista... em Bollywood

O artista é um ser incompleto. Ser completo é próprio dos parvos. O verdadeiro artista é uma invenção do erro. Ele pega no mundo todo e num molho de roupa suja com a mesma convicção, ao vir do banho. O artista incomoda-se, o artista deprime-se por ter de encontrar uma forma de explicar a sua visão do mundo. Ele é significante e significado em constante mutação e mexe na merda, provando com as mãos em vaporosa que ela cheira mal. O artista também existe para desmistificar os dogmas que a publicidade e a propaganda vendem como ideais de virtude e perfeição. Acresce ainda ter de inventar os códigos linguísticos mais acessíveis ao entendimento da sua visão e, nesse sentido, o verdadeiro artista deve também ser capaz de reinventar o seu discurso nos códigos já existentes. A sua forja é o mundo todo e o seu castelo uma torre de latão e marfim com apliques e farolins, por onde ele mesmo sobe, arriscando a gravidade dos seus pensamentos.

Essa mesma condição inventou-me um lugar no cinema e, sem mais delongas, proporcionar-vos-ei, sem quaisquer interesses comerciais, o desfrute de algumas cenas que me tornaram mais conhecido em Bombaim do que a Angelina Jolie no Cambodja…

O Último Tangas em Paris
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-559f51775ca97efa8b44858146fe398a.html

Carolina Estende a Toalha:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-005d37149bbe8a4f5b450a9b4f54c281.html

Manif:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-6169d8b1507630634135dfd25acbd207.html

Gina Lombriga:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-a38ade88d60bed82a39c2091c872bfe2.html


Brevemente, há mais...

15 de out. de 2009

Ultimate Sex Power Fest

Acordai,
Que ainda sois jovens!

Bem sabeis que o tempo passa
E não há velhice de mel nos olhos
Para quem se adiou aos encontros.

Enoja-me o vosso peito a tinir de medo,
As conas secas e as pilas murchas!
Ide embora!
Comprai uma caixa de pau-santo
E metei-vos lá dentro para que nunca vos toquem!

Ou então arrependei-vos
E bebei comigo um trago de honra
Pelo tesão que vos gerou!

Ainda é possível desfazer o mal, -
O vosso mal!

Renegai o mundo que vos querem vender.
Renegai-o! – digo-vos eu!
Tendes beleza,
Tendes talento e terreno de pele que baste
Para inventar um museu de memórias
Na própria carne.

O vosso peito é tenro – eu sei-o!
Não espereis mais um quarto de século
Para o ofertar a um calor de mãos.

O sentido da vida é a morte!
É melhor que o saibam por mim!

Tirai essas mãos sujas dos bolsos
E dançai. E roçai
E devolvei a Bruxelas essa educação que vos obrigou a cobrir o corpo…
Como se a vontade de fazer amor fosse pecado!

Inventai comigo, outra vez, o amor.

Tomai-vos,
E comei-vos!

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4 de out. de 2009

Era uma vez...

Admiro as pessoas que são natas contadoras de histórias. Não faço distinção quanto a idades, ou até mesmo a experiência de vida, tanto me apraz ouvir um velho ancião calejado e marcado pela existência, como um pequeno ser que ainda não saiu debaixo das saias da mãe… especialmente se ainda estiver debaixo dessas saias, bens sabereis o porquê, mas isso são outros caminhos, pelos quais não quero enveredar neste momento.
Ora, a natureza de um contador de historias faz com que essa criatura seja um ponto atractivo, uma pessoa na qual vamos para casa a pensar, em que por vezes estamos na cama a olhar para o escuro do quarto ou até na sanita (utensílio muito apreciado pelos pensadores) e nos surge na lembrança, é um espírito sempre presente, mesmo quando não o sentimos.
Foi com uma pessoa destas que tive o imenso gosto de contactar aquando das minhas férias na minha outra pátria. Inúmeras histórias me confidenciou a pessoa á qual me refiro, mas nenhuma me marcou tanto como esta que de seguida irei partilhar convosco, meus caros compinchas.
Não vos irei pedir que para tal narrativa (tal como me foi pedido a mim), depositeis a vossa crença, ou até o vosso interesse, abandonai, pois, este conto e este vosso humilde narrador, no ponto que acheis mais adequado para prosseguirdes o vosso caminho. Se por um feliz acaso o seguires até ao fim, estais desde já convidados a brindar-me com um copo do vosso juízo ou opinião.
Assim, passai a ouvir-me não só com os tímpanos, mas também com os olhos!

Lá na Ucrânia; bem na Ucrânia profunda, onde e como dizem os locais que Cristo não passou, existe um vilarejo, uma pequena comunidade, com não mais de cinco centenas de habitantes, pessoas modestas que vivem da terra e daquilo que esta lhes oferece mediante o seu trabalho sazonal. Essa terra de seu nome Pukalyak é maioritariamente cercada por bosques e vegetação bastante densa, que dá ao lugar um aspecto bastante sombrio. Mas essa densidade de florestação não é o único elemento a rodear Pukalyak. No lado sul do vilarejo existe um lago, de águas bastante calmas, mas também bastante negras e profundas. Diz-se até, que este lago encerra segredos de uma aldeia submersa pelas suas águas… factor que contribui para que os locais dificilmente o frequentem. È como que um local proibido.
Na localidade, existia uma rapariguinha, como tantas outras da sua jovem idade, Oksana era o seu nome. Era alta e magra, de longos cabelos negros e de olhos verdes escuros como a vegetação que circundava Pukalyak, vegetação que exercia um enorme poder sobre a rapariga. Dizia-se enormemente atraída pela floresta, como se esta sussurrasse o seu nome, afirmando, até, que um dia iria explora-la apesar de todas as tentativas dissuasoras de sua velha mãe, sua única e fraca família.
Os dias e os meses, assim como as estações passavam sempre toldadas pela constante e doentia névoa e o desejo de se entregar á floresta de Oksana, não parava de crescer. Era Janeiro e o dia estava mais frio que qualquer outro, sua mãe morrera há precisamente um mês, na noite de natal… presente envenenado com que fora brindada a nossa rapariga pelos santos e personagens natalícios. Hoje, Oksana decidiu libertar-se desse desejo que já há muito a sufocava, precisamente hoje iria entregar-se á densa e proibida floresta sombria…
O que por lá se passou com a jovem é de todo desconhecido, uma coisa, porém, é certa, quando regressou, um par de anos depois, não era a mesma rapariga. Vestia as mesmas roupas com que partiu, ou melhor vestia o pouco que delas restava, pois não passavam de trapos gastos, rotos e sujos. Os seus longos cabelos negros estavam ainda mais longos, mas também bastante estragados, sujos e como que viscosos. Os olhos sem brilho, bastante enterrados acrescentavam uma expressão ainda mais demoníaca á sua face pálida. Não falava ou sorria, não gemia ou chorava, simplesmente se notava ausência de expressões em toda a sua pessoa. Trazia consigo uma criança nos braços, um recém-nascido, que diziam os locais ser fruto gerado no seu ventre depois de concebido entre si e uma das muitas criaturas demoníacas que povoavam a escura floresta. Razões de sobra para que a população local começasse a desprezar, escorraçar e criar mitos em relação a estes dois miseráveis seres.
Admiravelmente a jovem sempre se conseguiu manter viva e ao rebento, sem que para isso necessitasse da ajuda alheia. Receosa das represálias da população, Oksana mantinha-se sempre retirada do resto da pequena vila, arranjando-se, desta forma, sempre o melhor que lhe era permitido. Certo dia, tentada pela fome desenfreada com que vinha sendo assaltada ultimamente, não aguentou os espasmos do seu corpo e mais uma vez aventurou-se floresta adentro, desta vez, somente, com o intuito de caçar para se saciar do seu apetite e por sua vez proporcionar uma refeição mais digna ao pequeno ser que a acompanhava. Saiu logo pelo romper da manhã, com uma névoa cerrada e um silencio de morte, entrecortado pelo som da luta de um bando de corvos ao longe. Á criança, deixou-a muito aconchegada, num cantinho resguardado da casa.
Ao meio da manhã, ainda nem todos haviam despertado e a caça já havia saído da floresta. Uma lebre iria servir de repasto… Mas ao entrar em casa e para seu desespero e terror, Oksana constatou que o seu pequeno ente desaparecera. Pela primeira vez nos últimos anos, o seu rosto assumiu uma expressão, a sua minúscula boca suja abriu-se violentamente emitindo um som semelhante ao de um uivo e o desespero tomou conta da sua alma, se é que ainda a possuía. Saiu, aturdida com o acontecido e veio grunhir por auxílio para junto do vilarejo e dos seus habitantes, que logo se puseram a bramir insultos e ameaças contra ela. O chefe dos anciãos assumiu o seu posto e tomou a palavra, dirigiu-se a ela nos seguintes modos:
- «Avistamos sim, o fantasma de uma criança a chorar e a correr em direcção ao lago, mergulhando na sua escuridão. Com certeza, ficou nas ruínas da aldeia submersa, habitada por algumas pragas aquáticas. Reza pela alma do teu filho! Talvez tenha virado comida dessas pragas, procurando nas suas fezes, talvez o encontres…»
Nisto, agarrou a cabeça de Oksana, com as duas mãos, muito firmemente e gritou-lhe: - «Acorda, mãe aflita, liberta o filho que está perdido no teu sonho. Abre os olhos, deixa-o sair do teu interior!»

24 de set. de 2009

O Ócio e o Negócio

Calem-se os cépticos! Eis-me chegado de um longo período de marasmo, hibernação e/ou descanso. Vejam-me, os que em mim não acreditaram, como um bombom desses que a televisão publicita, desses chocolates que são retirados do mercado durante a estação das secas, do sol e do calor, para que não percam nenhuma das suas qualidades… podem ver-me assim, os que me julgavam desaparecido, ou ter desistido de comunicar no Cabaret… A verdade, meus caros amigos, é que este vosso humilde narrador só se ausentou por uns tempos, por ter ido de férias ao meu país natal.
Retirei-me, portanto do “negócio”, para gozar uma temporada de ócio. Mas afinal é sempre a isto que a vivencia humana se resume – ao ócio e ao negócio.
Foram umas grandes férias, vividas intensamente e até ao limite. Família, amigos, copos, comida da boa e muitas amigas sempre a entrarem pelos meus aposentos adentro. Ainda agora regressei e já sinto a falta desses regalos tamanhos. O mesmo senti por tudo isto e especialmente por vós meus caros cúmplices, quando me encontrava na mãe Ucrânia.
Já tomei conhecimento de algumas novidades do país e da terrinha e mais particularmente aqui do Cabaret. Desde a minha ausência, soube que mais alguns compinchas se juntaram ao elenco de comunicadores cá do blogue, a todos eles os meus mais sinceros e cordiais cumprimentos e boas vindas.
Assim, não sei se para rejúbilo geral, afianço a continuação da minha escrita neste local, que particularmente deveras me apraz.
Portanto, gozado que está o ócio, vamos ao nosso negócio!

23 de set. de 2009

Outono

Chegou o Outono, a minha estação preferida. Deixamos de suar como porcos, as cobras hibernam e os coretos demitem-se de acolher artistas pimba; as árvores que não arderam largam a mão das folhas, cobrindo o chão pejado de pevides e cascas de melão; o sol põe-se com um gosto de fruta madura e troca-se uma roupa por outra com mais ternura. Depois a carne tem outro gosto, convidando mais ao deleite e ao vinho chambriado. Sirvo Two Shots of Happy, One Shot of Sad de uma Nancy Sinatra em copos de cristal e os relógios entram em greve para me dar razão.

Por esta altura, as fadas deixam pistas da sua passagem pelos montes. Lenços de luz nas árvores e cabelos de oiro penteados sobre as pedras. As fadas são ninfas tímidas sujeitas à lei dos pássaros, instruídas para fugir dos homens. Mas há, em todas as criaturas de Deus, rebeldia e pendor para o desconhecido. À sombra do sono parecemos menos maus e as fadas arriscam o toque e beijam-nos a boca.

Acordamos depois revigorados, sem fada ou fado, com um gosto de flores na boca e o mesmo entendimento relativizado do mundo, confusos, mas sem noção de ter infectado a doença do amor num coração puro.

A fada morre depois, virgem, como uma borboleta mirrada de sede, e um ancião de tal adverte para os perigos num palanque de flores improvisado…

Chegou o Outono e a dor ouve-se como o vir da festa…


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17 de set. de 2009

Carta aberta ao Bebé Delícia

Nunca antes tinha pensado na adopção...

Com este post, o menino fez-me reviver uma infância que eu julgava perdida, muito por culpa de uma orfandade que me atirou cedo para a fábrica de sapatos. Uma infância com meninas que gostavam de brincar às casinhas em cabanas com pilares e cheiro de eucalipto. Uma infância feliz e poligâmica cimentada em camas de giesta. Uma infância em que eu mostrava a pila às meninas, e elas, ainda sem pelugem de mocho, baixavam as cuequinhas até aos joelhos e deixavam-se inspeccionar.

Se, por traquinices do destino, os seus pais adoptivos o voltarem a pôr na cesta e o deixarem à porta de um orfanato, saiba-se avalizado para merecer os meus cuidados paternos. Conheço umas garotas sensíveis com parzorros leitosos, dos quais poderíamos sorver os dois.

Pense bem, menino, e não hesite em contactar-me!

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16 de set. de 2009

Biberão On the Rock's

Oi,

Eu sou o Bebé Delícia e, com o tempo, percebereis que eu sou muito mais cabrão do que vós todos juntos. Vim do futuro com o objectivo bem delineado de me pôr na mira da pedofilia feminina!

Ao contrário do Sr. Mal, que persegue o seu fetiche por pernas com um cabisbaixismo mal disfarçado, eu ando sempre com o pescoço em jeito de periscópio à procura de mamas, como se respirasse um ar mais elevado. É, gosto de mamocas!

Ainda tenho os dentes de leite, ou melhor, tenho os dentes cheios de leite. Às vezes, estou a mamar e tiro a boquinha para lamber as beiças, como um epicurista bêbado degustando um Chianti de 88. Pelos peitos onde a minha boca passa nascem rugas de esvaziamento e erguem-se ao sol mamilos em penitência.

Agora tenho que ir dormir. Gostava de poder escrever posts maiores mas não posso dar muito nas vistas. Estou na sala de jantar a escrever às escuras no Magalhães do meu irmão adoptivo. Está tudo a dormir e eu vim aqui só para cambiar o leite de vaca que me puseram no biberão. Estava a precisar de uma pomadita que me pusesse a roncar mais a jeito. E sim, vou de gatas para a camita.

PS: O gato até foge de mim só de olhar para ele…

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8 de set. de 2009

Chá das cinco

Eu devia era dormir! Deitar-me numa cama fresca e ficar velando, sem grande contrição, por uma associação de ideias e pensamentos que me carregasse as pilhas. Mas há ímpetos que vencem o cansaço, como aquela vontade de querer passar a noite a foder, sem ter ainda com quem. Ímpetos que resvalam no vício e que ninguém gosta de admitir, como escrever bebendo ou conversar à distância…

Gostava de recuperar a prática romana dos banhos públicos, mas cruzado com um “chá das cinco”. Quem fodesse cinco vezes teria direito a um chá…

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5 de set. de 2009

Monólogo amigável nas agitadas paragens de Algures:

-Nunca digo tudo e tudo o que digo é tudo e nunca o todo.

-Criaste um espaço impenetrável e afastado de todos. Nada nos é próximo-lugar longínquo de intima nostalgia.
Falar é dar forma à palavra que está em ti. É ouvir o eco da tua voz interior.

- Não será a palavra que expõe o ser levando-o a provar da ironia e escárnio, deixando nele o sabor a fel?
Tudo o que é dito contém a morte em si. Ditosos os que são em silêncio.
Quantas frases são pronunciadas com o peso da repetição?

- E quando se fala das dores, serão elas também volúveis?
- As dores vivem-se na solidão que é nossa.Tudo o que é dito ou vivido no exterior não é mais do que areia que finca ao decalque da leveza do ser.

-Nunca desiludir-me-às...

-Recordas-te de tudo o que tens dito?
Por vezes penso que nos servimos das palavras quando menos necessitamos delas. Escondem-nos nelas e delas resultam frases feitas e lugares comuns... Prefiro escrever.

-Eu também. Adeus.

-Adeus.

31 de ago. de 2009

Competividade

PS: Esta missiva não foi sujeita a censura pelo que, visto tratar-se de uma divagação intercalada por uísques menores, está tão sujeita aos meus próprios reparos como à interpelação de outros uísques e/ou ideias.

Não me falem de competitividade. Se os meus pulmões estourassem e viesse de lá um monstro com toda a minha dor nos seus movimentos e a expurgar dos olhos uma placenta com os meus tecidos, chamar-lhe-ia COMPETIVIDADE!
Ensinaram-nos esta ladainha na fila dos impressos quando já estávamos fartos de olhar para o relógio e para a publicidade institucional e não nos deixaram acender cigarros para tocá-la com sentimento à guitarra. Chamam-nos por um número…

(não vos quero meter no meu número. Falarei na 1.ª pessoa…)

Chamam-me por um número que nem é o meu favorito nem cabe no Euromilhões para expurgar o meu azar. Chega a minha vez para descodificar o economês e a música de Simon & Garfunkel soa a cantilena de berço…

A lavagem cerebral estende-se como o sabão de uma roupa lavada nas pedras do rio mais a nascente e que vêm por aí abaixo a dar de beber.

Levo com um filme ao domingo que me faz simpatizar com a história triste dos nerds com sentimentos que tentam conquistar a miúda aos populares sem sentimentos. Durmo nos quarenta minutos de intervalos para publicidade e acordo para o desfrute amoroso do nerd que sacou a gaja e se vingou dos outros palhaços que, indubitavelmente, acabaram na merda a recuperar num sanatório depois de experiências com drogas, ou a apanhar sabões numa cadeia manhosa com homossexuais agressivos. E custa-me que alguém acredite nisto como retrato da sociedade e acorde para uma segunda-feira de trabalho com o espectro dos seus sonhos a fazer-se suportável em nome de uma competitividade que exige o sacrifício dos mais fracos para encher a boca de pão aos filhos de quem os tem e pagar as aulas de karate, de canto, ballet ou os sonhos adiados de uma puta que os pariu e os projectou na sua descendência, como forma socialmente aceite de exorcizar tudo o que não experimentou e encher de glória os seus rebentos, em detrimento dos outros. Como se tudo fosse um fogo-de-artifício e toda a gente falasse no fim, dizendo: - “o meu filho estourou mais alto que o teu”.

Hoje ouvi uma mulher dizer, orgulhosamente, que trabalhava numa fábrica de armamento na América e disse mal do Bush, mas sem formalizar. Como se, por acaso, tivesse sido levada pelo Amistad e estivesse agora fazendo um trabalho escravo, que tem de ser feito, independentemente de quem o realiza; como se as balas que ela afina fizessem dela menos culpada só porque alguém ordenou o seu uso.

Ah, mas eu não! Eu não pactuo com essa miséria miserável. E se fosse possível ser ainda mais miserável, e andasse acontecendo pelas ruas com um copo de papel a pedir esmolas, teria razões menos suficientes para acabar comigo. Não acredito na paz! É só uma utopia como outra qualquer. Não acredito enquanto continuarem a laborar essas máquinas de administrar a morte; não acredito enquanto o Homem mantiver a necessidade apócrifa de espalhar a sua ideologia como se tudo o que existe tivesse de ser destruído para dar lugar a um pensamento maior; como se continuassem as cruzadas mas com um deus diferente, ou outro discurso mais plausível...

O nosso destino é estourarmo-nos uns aos outros e não estar cá para ver o respirar do cosmos depois da passa que ele nos deu ou nós lhe demos.

E termino com a resposta mais odiosa e ignorante que conheço: - “É assim!...”


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26 de ago. de 2009

Afago

Estar aqui e apenas aqui parece irrevogável...
O vento passa e afasta o corpo da penúria da morte,
um silêncio liquefeito personifica o medo,
embebido no balsamo purificador das paixões fugazes...

Da casa ao lado,
chega um som arrastado de duas mãos tocando piano.
Mão incansável . Espírito ausente.
Ouço ainda o comboio distante sem passageiros
e a chuva num retumbar continuo no telhado...
Tudo passa, o resto, o pouco, fica.
Esqueci o cheiro da terra.
Deixei de pertencer-lhe.
Ouço vozes que não a minha mas que nela se confundem,
em cada passo dado, antevejo a ausência de um encontro...
Deixo-me afagar pela descrença na fatídica razão.

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA 2009 – A saga canta nua

Olá, meus pequenitos!

Estávamos todos muito ansiosos por este momento, não é verdade? Em bom rigor, não me lembro de tanta ansiedade acumulada desde os tempos do Buéreré em que, tanto pais como filhos, sugavam episódios inteiros de desenhados animados, na esperança de ver as cuecas à Ana Malhoa, quando ela cantava (e dançava) no intervalo dos macacos.
Entretanto, a cachopa desapareceu dos ecrãs e a miudagem ganhou buço e borbulhas; os pais voltaram-se para as minis e a realidade reinventou-se ébria, com episódios mais frequentes de violência na doméstica.

Os anos foram passando. Atravessamos a risca do milénio sem um fim de mundo maior que o dos anos anteriores e, já depois do advento dos Morangos com Açúcar, o fenómeno da ansiedade ganhou nova erecção: - uma publicação de índole erótica prometia escarrapachar a garota nas suas páginas, tal como veio ao mundo!

Rrrrrraaauuu!...

Num breve acesso de loucura, os cachopos ousaram depor a Cláudia Vieira do seu colo de fantasias e ficaram batendo píveas com o coração posto na meninice… comeram depois sandes, beberam sucos de fruta e repetiram-se inventados nos mistérios da masturbação, sem complacência para os milhões de espermatozóides afogados na sanita ou misericórdia para com o gatinho que deus mata por cada punheta.

Depois de muita espera, a revista lá chegou às bancas. Com a língua de fora, como os cães quando vêm de correr atrás dos gatos, a malta deteve-se naquele tufão de pernas que tudo parece redemoinhar. Mas, uma vez feito o scan até cima, a desilusão instalou-se, quase degenerando em motim. As maminhas, outrora pequeninas e lindas, fazendo lembrar os pudins Boca Doce (que dão vontade de lamber só pela textura), apareciam agora desenformadas como duas sandes de paio em pão de mistura com molho de silicone barato à travesti…

Desde então, só as minhas memórias de Paredes de Coura são verdadeiramente capazes de vos causar alguma ansiedade e excitação. Vosoutros machos, porém, estais proibidos de sentir o que quer que seja nas belas palavras provindas desta boca com 30 dentes. Caso contrário, obrigar-me-ei a molestar-vos e, Dios Mio, pelas almas tombadas na ponte do tralho, não espereis Alfinetes!

Feito o prólogo, passemos então ao hardcore…

Depois dos atrasos do costume, lá saímos do Marco de Canaveses com a viatura mais carregada do que a furgoneta de um cigano com contrafacção. Vimos uns gatinhos mortos pelo caminho (bem sabeis porque morreram!). Para contrariar o abalo nas nossas almas gentis, decidimos trautear umas cantigas, qual família cristã a caminho de Fátima. Da playlist constavam hits tão beatos como “subtilezas porno-populares” ou “esta vida oioai”, dos Ex-Votos. Um regalo de alto coturno, portanto…

Uma vez chegados a Ponte de Lima, fomos almoçar. Bebemos chá de gengibre e ficamo-nos pela comida vegetariana. Nada de rojões ou cerveja. As sobremesas, de origem macrobiótica, eram bastante ricas em ácidos gordos e Ómega 3. Deitamos abaixo mais duas ou três rodadas de chá na esplanada e rumamos a Paredes de Coura.

Uma vez feito o reconhecimento do espaço, optamos por descarregar os sacos pelas traseiras (uma opção recorrente e sempre muito válida, em todos os aspectos)!
Ao passar pelos chuveiros, não pude deixar de dar uma espreitadela. Estava carregado com sacos e mochilas. Logo, o facto de me apresentar naquele estabelecimento com a língua de fora, não causou estranheza de maior… embora um certo esgar e a desproporcionada assimetria das minhas feições levassem a crer que ali se encontrava um tarado da pior espécie.
Suguei fundo aqueles aromas como se estivesse no cume de um monte. Veio-me ao nariz um cheiro pestilento a Distrom e champô, carne mal passada e doenças vaginais. Grávido de inconformismo, abanei a cabeça e esbafori-me aos céus: - “Oh, meu Deus! Tanta inocência varrida por mãos inábeis! Está aqui um trabalho muito mal feito…”

Virei costas e fui de cabeça baixa montar tendas para junto dos outros. “Isto não é bom presságio”, pensei. Felizmente estava enganado! Mas isso agora são outros quinhentos! Por isso não percam o próximo capítulo porque, como dizia a minha velha avozinha, “enquanto tu cagas, netinho, o outro bebe-te as mines…”

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12 de ago. de 2009

Os começos

Vivo de começos, de despertares já obsoletos pelo continuo acontecer.
O entusiasmo de um inicio, de um despontar de sensações adormecidas e sentenciadas como esquecidas é fugaz na continuidade da minha existência.
Como abarcar e purgar o todo incompleto e frágil de um começo?

Fornalha

Estou sentado ao computador a beber cerveja e a suar como um porco porque é verão e as noites são quentes como fornalhas. Mas não me sinto realizado. Como poderia? A poesia não vem e o relógio, que não uso no pulso, chupa-me horas à vida. Sinto-me como os cães lá fora, impotentes para dobrar os portões e desfazer os vadios que lhes vêm cheirar de longe o cio e/ou a gamela. Mas eu posso dobrar-me e o relógio de parede, inventado como uma crucificação parva ad eternum, a sorrir pendularmente, faz-me apertar o cieiro contra os dentes… dou um último gole na garrafa e atiro-lha vazia à cara. O relógio cai e fica a entoar estilhaços no chão, como um acidentado de motorizada. Eu levanto-me e chego-me para ele, com umas botas que guardo desde os anos noventa e, como um rancor de neo-nazi, chuto-o contra a parede. Arranco uma garrafa que serve à mão e saio porta fora, puxando o casaco de cabedal das costas de uma cadeira, indiferente ao barulho, com um baque vibrante de gongos e madeira a ecoar nas têmporas, noite fora, ou adentro…

Entro no carro e vem-me ao nariz um cheiro de couro lavado com spray de tablier. Dou à chave e, mal o motor ruge, meto a primeira e piso fundo no acelerador. Quase me fodo contra um poste e os vizinhos acordam. Levantam-se com ímpeto e vêm à janela para testemunhar uma miséria maior que as suas vidas, mas o acordo sai gorado. Vou já longe para a curiosidade alheia, deixando apenas um rasto de pneu queimado e o eco de um carro que passou sem morada, como a viscosidade de uma lesma sem nome…

Umas atrás doutras, as mudanças servem o meu propósito. Invento caminhos novos, sem auto comiseração para a extensão das minhas necessidades mecânicas e estaciono no ponto mais alto de Montedeiras. Amanhã não vou estar em lado nenhum e escusado será procurar-me. Basta-me a paisagem e este oxigénio para entender o resto dos meus defeitos.
E não me apetece gritar mais nada…

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9 de ago. de 2009

Marionetas ao serviço de Sua Majestade A Podridão

Cenário:Trincheiras almofadadas no sótão do inconsciente

Bombardeiam-se constante e ininterruptamente com gracejos avassaladores da condição humana. O denegrir da imagem do outro é usado para realçar a sua própria miséria não observada.
Simulações e dissimulações seguem-se a um ritmo cortante e destrutivo.
Ninguém sabe o que é mas sabendo-o ficam à margem de si mesmos. Todos procuram um alguém e pensam possui-lo como coisa sua. Um alguém objecto. O ciúme está patente nesta dança de acasalamento e a inveja é a sua fiel companheira.
Alguns julgam-se mais do que são e passam a sê-lo na realidade.... outros porém ficam na sombra a descolorar.
Sem opinião erguem-se os que afincadamente seguem os cabecilhas encapuçados aproximando-se do abismo do ridículo...
As coisas que o espectador sente.
Mutilam-se pensamentos, aspirações e desabafos sem a menor compaixão. Daí a necessidade de tudo o resto ser estranho.
Julgamo-nos detentores de verdades que pobres chacais farejam na parte do alheio de nós. Não podemos, não devemos confiar. Duvidar e questionar, as cordas que sustentam as Marionetas.

4 de ago. de 2009

Brandos Curtumes

Uma sondagem recente veio demonstrar que os portugueses julgam haver uma justiça para os ricos e outra para os pobres. Quanto a mim, basta estar atento aos noticiários para se perceber porquê. De vez em quando, lá aparece uma manchete bombástica dedicada às celebridades políticas do costume. Os motivos também são quase sempre os mesmos: - suspeita de corrupção; licenciamentos de legalidade duvidosa; tráfico de influências; fuga aos impostos e contas em offshore; sinais exteriores de riqueza a parecer semáforos, etc., etc.

Este punhado de costumeiros faz sempre as suas entradas à saída dos tribunais, ora queixando-se de cabalas políticas ora questionando a legitimidade das acusações por parte do Ministério Público, escudando-se no apoio popular democraticamente expresso no resultado das últimas eleições. Uma indignação de meter pena, portanto!

Ora eu, que sou uma pessoa sensível e muito meiga, fico logo com um pingo de ranho no nariz, a soluçar impropérios contra as injustiças deste mundo obradas na dignidade das pessoas de bem. Outras vezes, dá-se-me para rir mas isso é porque também sou um bocado traquinas.

Agora mais a sério, e até porque já falei de políticos quanto baste, o motivo deste post não é condenar em praça pública quem tem de responder sazonalmente pela sua honra.

Convenhamos que estar alapado na cadeira do poder não é fácil. Primeiro, porque a maior parte delas são feitas em madeira de pau-santo. Eu tenho duas ou três no escritório e (acreditem!), o desconforto começa a sentir-se muito antes de se efectuar um login com sucesso! Em segundo lugar, passar a noite sentado nelas, numa sessão da Assembleia Municipal, ouvindo impropérios ou respondendo por mesquinhices sem fundamento, basta para arrepiar o testo a qualquer um… e todas as oposições sabem isso! Não deve ser nada fácil!

Ainda mais a sério, e em jeito de conclusão, interessa-me reparar e chamar a atenção para alguns detalhes, deixados sem provimento pelas artimanhas do populismo e do Marketing político, e por mim chutadas em jeito de questão:

- Onde mora a inocência de uma pessoa condenada a uma porrada de anos de prisão efectiva e que, depois de recorrer, sai em liberdade com uma pena de dois e três anos de pena suspensa?

- Em que vão de escada mora a Justiça quando a lei, que supostamente a advoga, num dia condena um ser humano a 15 anos de cadeia e, dias depois, com uma reprimenda moral, o deixa beber champanhe no conforto do lar, pago com a fome dos saqueados.

Em suma, que puta de régua é esta?

Sabei por mim, que sou de confiar, mas em jeito de segredo: - a Justiça já não habita em lugar nenhum. Ocupa o coração dos homens livres e fá-los carpir com a sua depressão.

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23 de jul. de 2009

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA V – Capítulo Último

Olho para o pulso para ver quantas patadas amanda o meu Ozyviza e… Sacré Bleu! - Já passou quase um ano!
Vesti as calças a correr e, sem me lavar convenientemente, vim para aqui cumprir promessas mas… não me ocorre grande coisa. Vou cheirando os dedos enquanto penso no que tinha para vos contar. Não sei, não me lembro, algo me tolhe…

Encosto as unhas ao nariz, inspirando com mais força, e rapidamente percebo os motivos da minha amnésia. Um odor a sal grosso estava distraindo-me! Bem sabeis porquê…

Muitas senhoras têm vindo de Lisboa para me dar banho e coçar os meus costados com pedra-pomes. Sei bem o que elas querem: - que amnistie a veracidade das minhas memórias em detrimento do bom-nome dos seus filhos. Nunca! Os vossos filhos são uns drogados, - digo-vos eu que vi, com estes olhos que a terra há-de fazer cara feia quando os rilhar! E em avulsos pensamentos vos direi o que vi!

- Vi-os sem força nas cordas vocais para agradecer uma fêvera canibal que lhes pus com um garfo no molete aberto, para não morrerem de fome;
- Vi-os a comer bolachas que disseram saber a merda, sem que eu as tivesse sequer passado no terminal das minhas nádegas;
- Vi-os de cabeça baixa a apertar cacetes, quando a gaja dos The Sounds atirava as coxas para o ar, provocando erecções bastante satisfatórias;

Todos os conselhos que lhe haveis dirigido, abortaram no primeiro esticão. Sossegai, contudo, pois eles não foram os piores… só foram os outros a seguir.

O pior de todos foi um loiro. Não, não era o gajo que se apresentou ao “people” antes de encontrar o seu “spot”. Falo, como já deveis ter reparado, daquele frango com urticária que parecia vir de um festim de famintos; aquele anjo loiro de asas rachadas que grunhia dor num tom quase inaudível ao ouvido humano e que, tão sabiamente, Tónio Cuco baptizou de “Lambido pelo Diabo”, inaugurando o mito, testemunhado e abispado por Anatoly Zerka e por mim.

- O caldo verde no Punkalhoto soube-me a bacia de lavar louça com detergente e rodela de chouriço; a roulotte dos drogados junto à ponte serviu-me o pior prego da minha vida. Ele há bifes e bifes, mas o tranche de fêvera que me serviram, a fazer de prego num molete azedo, parecia trinchada dum porco enforcado acometido de suicídio com nojo de si mesmo. Depois fui ouvir poesia…

- Lembro-me de um ciganito que queria ser lambido nas sobrancelhas pelas transeuntes que passavam. Tónio Cuco engrossava a brincadeira, estimulando-as com promessas de felicidade e orgasmos intensos. O ciganito chegou a falar para a televisão, disfarçando a moca que deveras carregava. Portou-se bem, o Moço do Chapéu. Sslaaaaaaa!...

- Eu e o ciganito falamos com deus nas margens do rio Tabuão. Não com deus, - O criador, mas com dEUS, a banda. Queriam saber se as águas eram amenas (provavelmente para andar sobre elas sem resfriados nos pés). Imbuído de uma hospitalidade lusitana, o Moço do Chapéu explicou aos nórdicos: “assim que a água chega aos testículos, a dor é insuportável!”… eles sorriram de agradecimento e partiram!

Voltei a cheirar as unhas e perdi-me! Por isso vou passar para o último dia de borga. Rumamos a Ponte de Lima para uma almoçarada das boas. Único senão: - Uma terrível vontade de vandalizar a porcelana…

Por ordem de desespero, e enquanto o manjar não chegava, lá fomos, cada um na sua vez, agredir o estaminé.
Quando entrei no WC, um perfume celestial preveniu-me: - “A vida é tão bela! Porque não vais cagar a outro lado?”. A sanita, porém, olhando-me de soslaio, articulou a tampa como se de lábios virginais se tratassem, e com gulosos argumentos, disparou: - Ouve os teus intestinos. A Mãe-Natureza chama por ti. Porque não tapas o nariz e te sentas? Põe um bocado de papel nos meus lábios. Bem sabes que não tenho língua para me lambuzar. Vá, abeira-te de mim. Vem… vem!”
Oh! Volúpia de Faustos rendidos… que promessa de absolvição!
- “Vem, vamos fazer música…” – dizia a maldita, - e eu fui! Vandalizei-a, entontecidamente, com os olhos a cuspirem-se das órbitas…
Voltei depois à mesa, com as mãos bem lavadas, carregando na alma uma espécie de culpa que deve assistir ex-virgens suadas de arrependimento, a remoer uma inconstância cumprida... E Voilá! Cabidela… ou como diria Pessoa, no final do gigante Tabacaria, “o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança e o dono…” do restaurante sorriu…

Depois fomos à feira. Pegamos um touro para a fotografia e despejamos umas canecas geladas. Que ricas!

Depois viemos embora. Tristemente. A festa tinha acabado. Vale-nos a orgia do costume para suportar mais um ano…



PS: Paredes de Coura está aí à porta! O Beerfest foi um bom estágio. Nota-se que a malta está preparada. O rio Tabuão é o limite…

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21 de jul. de 2009

Mata-Drógados, o Justiceiro da Noite

Por cada crime que cometo, há uma menina a cair no céu e um macaco a aparecer-me no sótão. Mais peludo entre os outros, com uma mancha ou uma marca distintiva qualquer. Outro? Mas isto é por acaso a Santa Casa da Misericórdia?

Suo durante a noite. Acordo para um desconforto de atleta que adormeceu de cansaço sem tirar o equipamento. Seco-me na camisa de véspera deixada ao acaso na cadeira ao lado da cama. Atiro-a depois ao chão, faço uma festa no cão que dorme comigo e deito-me para onde a sua respiração menos me incomode. Torno a acordar mais tarde com um ímpeto de testa franzida que os soporíferos não dobraram e acendo a luz do candeeiro para tomar notas, cruzar dados.

Eu,
Exímio apreciador de coxas e voyeur,
Sou um assassino.

Sei de cor a rotina dos drogados que resvalam, os nomes e alcunhas, os esquemas, o tamanho dos pés e o número que um dia foi o de contribuinte. Presenciei atrás de árvores os seus assaltos a moradias, fotografei crimes hediondos. Registei com perfeccionismo a criatividade, o ímpeto e o rigor na execução dos planos, assim como o discernimento e ligeireza de pensamento que os fez abortar missões de risco. A tudo isso dediquei (e venho dedicando) atenção.

Não sou suspeito. Não me perco em manobras de diversão muito elaboradas. A descrença faz de mim tão suspeito como o velhote das missas, a senhora da frutaria ou o gajo do banco. Se fosse apanhado, os vizinhos diriam que eu era uma pessoa perfeitamente normal, muito respeitador, que nada os faria crer-me na pele de um monstro.

A lei é fraca e os polícias são os primeiros a duvidar dela, fechando os olhos como aqueloutra figura vendada à porta dos tribunais, convidando à troçada cega. Ora, eu não tenho muita paciência para caricaturas. Gosto delas, são engraçadas e tal, ajudam-nos a perceber a realidade de uma forma desempoeirada, mas são um recurso rebuscado para se dizer o que se pensa, de forma a evitar camisas de força maiores. A lei não se atreve a punir os causadores de desconforto, por os considerar simultaneamente seres humanos e metamorfoses desresponsabilizadas resultantes de contextos específicos.

Ora, a mim não me pesa na consciência deixar um corpo abraçado às coxas pelo avesso no fundo de um poço, desde que não reaja à lanterna que lhe aponto por fim aos olhos, antes de me ir embora. Não me dói. Não choro pelo cadáver que inventei, tão-somente pela criança que um dia teve lágrimas e cresceu para descobrir um amor falhado.
Não sou a favor das prisões, mas também eu sou um resultado de contextos sociais e nessa forma me fiz Super-Herói em consciência…

E enquanto houver velhinhos agredidos e roubados, saltará ao caminho dos seringas o… Mata-Drógados!

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20 de jul. de 2009

Beerfest

A festa foi bonita, pá! E antes que me avilte noutro tipo de comentários, gostaria de mandar um grande abraço a todos os lambidos pelo diabo que tornaram possível o Beerfest. A minha gratidão é honesta e não se esgota numa formalidade de etiqueta ou num reconhecimento pela rama. Explicar-vos-ei os meus porquês…

A vida devia ser uma festa com toda a gente a participar. Na era do virtual, troca-se o jeito dos pés para dançar por um programa de televisão com pantufas; a companhia de uma mulher pela pornografia; a nossa vida pela dos outros, num voyeurismo fotografado; “o calor da festa pelo tédio em vigor”…
Num mundo que privilegia as parecenças às vivências, tudo soa a oferta mas, cedo ou tarde, lá chega uma factura para cobrir as despesas, e o dia-a-dia retoma o seu aluguer.

Mas há, pelo meio, pessoas com bom coração. Gente que se inventa na felicidade dos outros sem lhes vestir uma camisa de obrigações. Gente que se inventa nas minhas melhores memórias, sem nenhuma certeza de as poder levar para algum lado depois de morrer, mas que me enchem de existência.

Não é uma ode à cerveja! É antes uma vénia aos génios que inventam a arte do encontro e se entregam a ela com nobreza. Não por interesse, mas por condição!

Não deixemos a festa acabar. É cedo…

A todos vós, um forte e sincero Bem Hajam!

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16 de jul. de 2009

Melodias Trágico Irónicas 4

Será muito normal que um bombeiro ande constantemente a ouvir a musica "light my fire" dos The Doors?

Não é curioso que a canção preferida do carteiro seja "where the streets have no name" dos U2?

E uma mulher que se diz apaixonada e que ligue para a rádio local para o programa Discos Pedidos pedindo para passar "the widow" dos The Mars Volta, para dedicar ao seu amado marido, não é estranho?

15 de jul. de 2009

Novos Oportunismos

Há coisas realmente altruístas que, pelo facto de o serem, ninguém se atreve a esboroar-lhe a parvoíce, sob pena de ser considerado parvo. Falo, como já devem ter reparado, do programa Novas oportunidades que, tal como um Reality Show, entretém as pessoas por um canudo mas não ensina nada a ninguém.

Oh heresia! Coisa feia de se dizer! – Mas muito fácil de explicar!

O programa Novas Oportunidades serve para certificar conhecimentos e atribuir graus de instrução a pessoas que, pelos mais diversos (e mesmo nobres) motivos não puderam ir à escola. No entanto, ao longo da vida, essas mesmas pessoas acumularam conhecimentos suficientes para se equipararem (e mesmo suplantarem) às outras que lá andaram. Tomemos como exemplo os nossos pais. Grande parte deles nunca fez muito mais do que a 4.ª classe e, no entanto, só com muita arrogância é que não seríamos capazes de reconhecer o valor das suas vivências e experiências. Os sacrifícios por que passaram durante todos estes anos, inventou-os para a existência com um leque de conhecimentos muito mais vasto e transversal do que um canudo da universidade com uma folha de papel timbrado lá dentro. Como tal, é de uma injustiça atroz que essas pessoas não tenham a mesma igualdade de oportunidades que uma pessoa formada na universidade. É injusto que se pretira toda uma vida de trabalho e suor e se dê mais valor a um acéfalo que fez a escolinha toda a chupar sugus.

Ora, até aqui eu compreendo. O que eu não concebo é que a solução apresentada para combater esta descriminação seja dar diplomas a quem não os tem, ainda que tenha conhecimentos para isso.

Investem-se milhões para dar canudos em vez de formação. Ou seja, a lógica do canudo continua a vigorar. Continuar-se-á a dar valor a quem tem um canudo e não a quem acumulou uma vida de saberes. A linha é ténue, bem sei. Mas o que seria realmente importante e no que valeria a pena investir, seria na educação e na formação, combatendo, ao mesmo tempo a discriminação no acesso ao mercado de trabalho. Mas não. O título é que importa, o grau é que importa e quem quiser ser apreciado pelo valor que tem, obrigue-se a passar pelo esquema das Novas Oportunidades. E é se quer! Porque se for analfabeto e quiser ser jardineiro da Câmara Municipal, ainda que não tenha feito outra coisa na vida senão trabalhar no campo, vai ficar de fora por não ter o nono ano. Se ao menos lhe dessem a possibilidade de ser bom naquilo que é, e depois o ensinassem a ler e a escrever… talvez as Oportunidades merecessem considerar-se Novas. Mas por enquanto é mais do mesmo e muito dinheiro mal gasto…

Assim não vamos lá!

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8 de jul. de 2009

Conspiração com Bisnetos II

Tenho adiado a publicação deste segundo capítulo, não por preguiça ou falta de vontade, mas por dificuldade em balizar o que importa ser dito, sem perder o fio à meada ou deixar-me enovelar na emoção do discurso. É sempre assim! Quando falamos de temas capitais como a Política, a Religião ou Futebol, a métrica que vai de alhos a bugalhos pode ser tão densa como ténue. Como se para ir à raiz das coisas, tivéssemos sempre de entrar num labirinto de canalizações subterrâneas. Em suma, justifica-se nessa complexidade, tanto o meu atraso como a ideia de chamar Conspiração com Bisnetos a esta série de cartas.

Não sou anárquico! A Anarquia assemelha-se-me, muitas vezes, a uma casaca política da Teoria do Caos. Para os menos familiarizados com esta teoria, vou tentar explicá-la à minha maneira. Imagine-se por exemplo a cidade do Porto. Tem um espólio arquitectónico fabuloso, porém desordenado; tem edifícios lindíssimos, porém a cair aos bocados; ruas de uma riqueza histórica inexcedível, mas por onde é impossível passar de carro… Não defendo, obviamente, a destruição do património, muito pelo contrário! Imaginemos agora que um terramoto destruía a cidade do Porto. Morreria muita gente, choraríamos muito todas as perdas, tudo aquilo em que acreditávamos, blá blá, etc.
Finda a choradeira, teríamos de nos unir, pôr a trabalhar os bulldozers e lançar mãos à obra para limpar a merda toda e dar novo rumo às nossas vidas.
Surgiriam novas visões arquitectónicas com avenidas largas e ruas simétricas; os edifícios seriam independentes energeticamente e sem emissões de carbono; as linhas de metro e transportes públicos seriam mais rectilíneas, rápidas e eficientes; graças às novas tecnologias, poderia rapidamente tornar-se na cidade mais avançada e sustentável do mundo. Houvesse vontade e visão…
Isto não é Utopia. Lisboa, depois do terramoto de 1755 ganhou a preponderância necessária para se tornar na capital do país; no fim da II Guerra Mundial, a Alemanha era um país em ruínas, mas rapidamente se inventou como uma das mais preponderantes potências mundiais, assim como o Japão…
A Teoria do Caos é basicamente isto. Queiramos ou não, as catástrofes são, não raras vezes, revoluções sem encomenda.
Não tenhamos medo de encarar a verdade das palavras. Chamemos-lhe caos sem qualquer juízo de valor. Não vale a pena continuarmos em negação. O Capitalismo vem-nos ensinando a pôr de lado as palavras quando o significado delas engorda. Tudo é retórica para sossegar o espírito. O desemprego passou a chamar-se downsizing ou layout. Até soa a promoção…

Habituamo-nos a contornar a realidade e tornamo-nos escravos incapazes de pensar por nós mesmos. Gajos sem ética, mas com muito dinheiro e poder, inventaram-nos uma Educação orientada para o curral. Fizeram crer a toda a gente que era importante passarmos vinte anos na escola a aprender um ofício específico, descurando todos os outros. Findo o processo, e incapazes de garantir a nossa própria sobrevivência, eles aparecem com côdeas de broa para nos seleccionarem como gado, em função das “necessidades de mercado”, vulgo propósitos monetários. Ou seja, escolhem entre nós os mais aptos a cuidar de um determinado parafuso da engrenagem, premiando os que menos valores humanos demonstrem na persecução dos objectivos.
Sem sabermos plantar uma couve, lançar um fio de sediela com anzol ou sequer atirar chumbo numa perdiz, vamos engrossando o cortejo dos desempregados e dos amarradinhos, com a mão estendida…
Poderão dizer-me que posso sempre abrir o meu próprio negócio. Pois posso. E posso até admirar quem persegue a via-sacra para cumprir os seus sonhos empresariais. O mais provável é que o faça porque, pese a falta de modéstia, até me julgo com suficiente capacidade para vencer nele. Mas, pergunto-me, não será essa uma forma de entrar no sistema, de aceitá-lo como ele é, de engrossá-lo, de me permitir aos seus defeitos? Sem dúvida que sim e, pese agora o meu idealismo, também eu preciso de comer as minhas sopas. Mas isso são contas de outro rosário…
O que me interessa com esta missiva, não é fazer despontar em mim a forma de ser grande e sustentado neste sistema. Interessa-me, isso sim, desmascará-lo porque é falso e vendido; porque concentra o poder; porque nos educa para a subserviência; porque nos educa para o conflito; porque nos inebria os sonhos com ideais consumistas; porque nos vende como mercadoria; porque nos rouba o ar dos pulmões e infesta de veneno os rios; porque ensina o endividamento; porque permite entendimentos de lei diferentes para crimes iguais; porque persiste na guerra; porque é impossível acreditar na paz enquanto as fábricas de armas continuarem a laborar; porque põe placas de proibição em tudo o que dá prazer; porque é intolerante e ensina os putos na escola a desprezar o próximo só porque é mais feio ou gordo; porque destrói a natureza; porque retira poder à vida humana; porque faz a corrupção parecer normal; porque poupa os corvos e persegue as pombas; porque justifica todos os meios para se atingirem determinados fins e, acima de tudo, porque ensina uma infelicidade sem entendimento que conduz ao vício e ao adiamento das responsabilidades, à existência virtual; porque adia o amor e faz-nos desejar ser más pessoas para suportar a existência com algum conforto; porque temos de lutar contra tudo e contra todos para sermos felizes quando, no fundo, o que mais desejamos é ser amados.

E é contra esta merda toda que se impõe largar uma bomba de Cultura e começar do zero. E não, não é depositando todas as esperanças num governante a falar de ventura que se vai fazer a grande revolução…


Continua…

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