31 de mar. de 2009

Concurso literário

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Perdoar-me-ão os desgraçados que convivem com os infortúnios desta morada mas, por mercenários motivos, terei de apagar alguns poemas aqui veiculados. Pretendo levá-los a um concurso de beleza...
Pensemos neles como meninos que levo ao “desobriga” pela tutora e sábia mão de um Menino de Talho. Não se apoquentem. Voltarão cumpridos com renovado cardápio de doenças...


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27 de mar. de 2009

Blindness ou a mesma (In)justiça de sempre

Não há muito tempo li o romance do Nobel, José Saramago, intitulado "Ensaio sobre a Cegueira", cerca de dois dias depois não quis deixar de "VER" o filme de Fernando Meirelles, "Blindness", inspirado nessa mesma obra.
Pessoalmente gostei mais do livro do que do filme. Ou melhor, ao ler o livro fiz o meu próprio filme e esse era bem mais noir que o do Meirelles. Acho que no livro há uma violência refinada, cheio de crueza em cada acção, e as personagens são rasgadas (literalmente) ao virar de cada página.
Cada vez mais Portugal se assemelha ao espaço físico onde a história da cegueira decorre. Vejamos: todos os dias somos bombardeados com acontecimentos vergonhosos - SENHORES que roubam; que abusam do poder; que fazem desaparecer provas e pessoas, melhor, que constroem a realidade a seu bel-prazer, sem haver nada nem ninguém que os pare, que os faça pagar por essa selvajaria desenfreada na subida para a avareza das suas vidas.
(refrão) Mas está tudo cego, ou ninguém quer ver?
A cegueira afecta todos os governantes, juízes e agentes de autoridade, quando neste país quase se cortam as mãos a quem rouba pão para comer, ou deixa de pagar a prestação mensal do carro e da casa porque a empresa onde trabalhava faliu ou está em processo de insolvência devido a gestão danosa dos administradores e a estes nada acontece... a empresa onde trabalhavam está em processo de falência, o que é certo é que estes colarinhos brancos vão á garagem e os seus porches e mercedes estão lá, brilhantes como nunca; e as mãos dos assalariados, onde estão? DECEPADAS, no caixote do lixo do desemprego e da reforma!!
(refrão) Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que acontece aos "chicos espertos" dos autarcas de Felgueiras; Gondomar ou Marco de Canaveses por abuso de poder, desvio de fundos e um rol sem fim de crimes públicos e outros dos quais não sei os nomes? Não acontece NADA! Comem, bebem e festejam as suas ilibações e escapadelas á justiça para mais tarde repetirem mais do mesmo.
(refrão)Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que vos digo é que estes biltres, abutres e cleptomaníacos só param de cegar a justiça e o povo nacional, quando tiverem um acidente e venham a falecer de MORTE VIOLENTA.

24 de mar. de 2009

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA II

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Tenho recebido várias cartas de gente anónima, e outra cadastrada, a dizer-me coisas desagradáveis relativamente à minha falta de disponibilidade para tornar públicas as minhas memórias de Paredes de Coura. O que as pessoas pensam não acrescenta nenhum upgrade ao incómodo que os chatos, por si só, já me provocam.
No entanto, muito mais estimulado pelas demonstrações de carinho provindas de um grupo de fãs suecas (que tanto me têm aquecido nestas madrugadas frias), resolvi-me e disse para comigo: “Olha lá, ó Mal, tu não és preto nem presidente da América mas esta gente precisa de ser iluminada por ti…” Fiz um silêncio e depois respondi-me: “és capaz de ter razão. Não és burro, não senhor!” e mantive-me neste estranho diálogo até que alguém, agarrando o meu braço, gritou: “Ó senhor, espere aí! – olhe que o semáforo dos peões ainda tá vermelho!”…

Adiante,
Convoquei os meus doces nórdicos para uma tertúlia balear ao redor da fogueira em cuja ordem de trabalhos constava o descerramento do II capítulo das ditas memórias. Depois de um acrobático número de sexo, que aprendi quando vaguei em digressão com o Cirque du Soleil, dispu-las confortavelmente, abri uma botelha de scotch com o meu sabre, dei uma bombada valente e comecei:

- Chegamos um dia antes do festival, propriamente dito. Ultimava-se a montagem das tendas onde se iria improvisar o nosso harém. Nesse momento, começamos a ouvir os primeiros “Foda-ses” que se iriam prolongar até ao fim do festival. Era “Foda-se” para aqui, “Foda-se” para ali… Por cada sonoro “Foda-se” que se ouvia, logo um outro se lhe seguia, ecoando sem limites numa apoteose acéfala. Tamanho espanto, ainda que despropositado, parecia dever-se a um conjunto de fait divers (ou métiers?) com chancela da nossa confraria. Consta que, em ano transacto, a água dos chuveiros era fria e, um senhor que bem sabeis, se arrepiou com a sua frescura, vociferando um sonoro “Fôô ah ah- daa-sssse!!!”. E pronto! Aquela merda fez eco no tempo. Bonito serviço, Mike!

Bom. A sangria estava meio para o roskoff e depois de a acabar fomos passear para a vila à procura de comida, como cães de farejo. Só havia frango a sair. Mal eu sabia que esse era o único pito mastigado que me haveria de calhar em Paredes de Coura… mas terá havido coelho?...
Depois fomos ao talho encomendar corações de frango (não havia de puta)… paramos para sorver as primeiras diuréticas num café que não me lembro o nome. Creio que o dono desse café também não sabe o meu nome, e ainda bem, pois vandalizei a porcelana da toilette sem respeito algum pelos cus que lá assentaram praça nos dias seguintes…

À noite, cozinhamos para um regimento de herbanários. Viramos fêveras com a convicção de resgatar soldados moribundos das trincheiras da morte, numa guerra desigual. O vinho sumiu-se, as tropas ganharam novo alento e um propósito imorredoiro fê-los saltar da trincheira. Mas ao primeiro arranque, carnificina. O Homem da Ripa dizimou quase todos. Muitas baixas e éne louça para lavar… Um conselho: - nunca se deve fumar a camuflagem em tempo de guerra!


Pela madrugada, calhou-nos o carrego de uma adolescente com aspirações a enfermagem. Malta da Cruz Vermelha, portanto. Aterrou na erva com convulsões. As amigas da pobre onça estavam demasiado etilizadas para aquele exorcismo, que lhe revolvia as entranhas e lhe embravecia a voz…
Com ela sentada na grama, encostei a sua nuca aos meus testículos e agarrando as suas orelhas frias, abanei-lhe a cabeça com vigor, tentando expulsar o espírito maligno que a pôs naquele estado e que, teimosamente, se recusava a pôr-lhe as mamas à mostra. Meti-lhe a mão nas calças e, sentindo a formosura seca do seu fresco tufo, percebi que se tratava de um espírito benigno e, como tal, imotivável para misérias festivaleiras. Ainda arrisquei extrair-lhe por ali o demónio, e pelas traseiras, apanhando-o desprevenido. Em vão. O maroto era preguiçoso e teimava por um exorcismo profissionalizado, vulgo medicamente assistido.

O estado da saúde nas Universidades é sintomático da sindicância de males que devassa o país. A possessa não queria ir ao INEM. Dizia que aquilo ficaria no seu cadastro. Até podia ser conversa de bêbada (o que me parece um pouco rebuscado) mas se o álcool é vedado aos profissionais da medicina como é que se explica o estado de embriaguez afecto à maioria das suas práticas? E se as enfermeiras não podem tocar no álcool quem é que nos esfrega as feridas ou o rabinho antes de administrar a penicilina? E o éter? Foda-se, - o Éter!...

Ocorriam-me estes pensamentos de alto coturno quando, abraçado à dor de ter carregado um enfermo, mastigava silenciosamente um pão com chouriço naquela cabana que mediava a “Ponte do Tralho” e as casas de banho (ou de butano?). Acho que a urina tem aquele cheiro que arranha na garganta precisamente para evitar que, quem passe junto dos toys, se espicace a acender um cigarro… Estão a ver o mesmo que eu? Espero que sim. – Um girândola de gente cagadoira feita fogo-de-artifício em apoteose estelar. E eu a fumar um cigarrito todo contente… no epicentro daquele espectáculo de misérias sem pára-quedas. A malta a aterrar nas roulottes, no corrimão da ponte e o pessoal, ao passar, vendo as bilhas borraditas caindo do céu, desapertando instintivamente os cintos com uma bebedeira sem expressão facial…

Depois fomos para o Punkalhoto beber cerveja e falar de cinema. Longa-metragem de cervejas e muitos rolos de fita para achar a consciência na tenda. E não, ninguém levou este urso de ouro para casa…


Continua...

23 de mar. de 2009

Operação Stop

Quando me disseram “a polícia está a fazer Operação Stop” resolvi pedir mais um shot e uma cerveja. Pelos vistos, a coisa ia durar até às sete da manhã e a minha segunda casa não tem camas para mim. Quando cheguei ao carro, consegui avistar a malta dos coletes amarelos. Estavam num cruzamento, encruzilhada de incómodos para quem vai lambido ou possuído pelo diabo. Ainda me passou pela cabeça dar um salto até à discoteca para fazer horas, mas a música é sempre tão fraca… fui buscar sandes e batatas fritas e fiquei no carro a ouvir Chico Buarque. Depois da ceia, mijei num canteiro, pus o relógio para despertar e deitei-me no banco de trás, onde dormi sem conforto nem cobertor. O purgatório do mundo, lá fora, esperava por mim com o seu rosário de punições. Gente sóbria e austera a saltar no tempo para me deter a possibilidade de matar alguém. Os criminosos devem pensar assim. Apesar de não ter matado ninguém, devo ser um, também, por encerrar um potencial de maldade sem cumprimento.
Fico no meu carro com as portas trancadas. A polícia, ainda que perto, pouco mais do que um encolher de ombros teria para mim se me roubassem. Durmo desligado do mundo na minha máquina assassina onde, esporadicamente, faço amor sem autoridade, atentando ao pudor.

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18 de mar. de 2009

Para os que confundiram Epitáfio com...

TESTAMENTO:

Desejo doar o meu corpo a quem dele tirar melhor partido que eu. Tudo menos tráfico de órgãos. Quando muito (e preferencialmente), reencaminhe-se a genitália para um tarado que deseje cumprir-se em todas as línguas e nacionalidades. De resto, desejo ser trinchado às postas na seguinte disposição:

- As mãos ou dedos a um escultor ou guitarrista amputado
- As costelas, temperadas apenas com uma mão-cheia de sal, assadas em churrasco de madeira e atiradas da varanda aos meus cães ou a quem, achando-se capaz de competir com a sua gulodice, queira apanhá-las com os dentes.
- Os rins a uma velha boa, militante do sexo anal que, tendo os seus esmurrados de pancada, se veja privada de cumprir os divinos ensinamentos de Sade.
- A tíbia da minha perna direita oferecida ao Woodrock no Wine Festival, para se ter na prateleira, atrás das bebidas, autografada por Lambidos pelo Diabo. Se por acaso se fecharem as suas portas, enterre-se no Jardim Mágico numa alvorada sem testemunhas.
- O fígado para quem der e vier
- Os olhos para um ou dois cegos (não vá um ficar a rir-se do outro)
- Os dentes para apreciadores de nozes e avelãs
- A expressão encerada das minhas faces mortas em frascos a uma vara de padres
- Os ouvidos aos surdos e as orelhas (de preferência, com pêlos) disfarçadas num pires de orelheira servido num restaurante com estrelas Michelin.
- Tripas e restos de carne magra para salpicões canibais.
- O esqueleto a um conluio de necrófilas


Continua…


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14 de mar. de 2009

Retrato de uma Falência

Pisamos uma linha de tempo que, vista da lua, não vale a métrica de um cabelo. Valemos quase nada e a roda, que ainda dura, foi incapaz de guardar para a história o nome do seu inventor numa campa de flores. E, mesmo assim, para quê? De nada serve a eterna glória se estiverem certos os ateus.Todos os dias, abrem falência fábricas de sonhos sem compaixão para os pensamentos realmente grandiosos. Não há freio que segure o tempo, e a morte, que é certa como eu estar escrevendo agora sobre verdades perenes, virá para todos como um exemplo de eu estar certo também, mas por estar vivo e não ter falsas esperanças na sua absolvição. Verdades universais e certezas absolutas guardam-nas os deuses no seu relicário de cemitérios. Os deuses que jogam à bola nas imediações das fábricas abandonadas…
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12 de mar. de 2009

Pensamento do ANO

Se isto é um Cabaret e eu sou a Madame, então vocês são as minhas putas.

9 de mar. de 2009

Pensamento do dia

A solução para o conflito Israelo-Palestiniano pode estar num homem-bomba que, ao estourar, atire uma moeda ao ar...

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4 de mar. de 2009

Pensamento do dia

Este país não é para velhos
que bebem por cálices!

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Inauguração

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Não há paciência para um Deus que quer,
Para os homens que sonham
Nem para as obras que nascem…
Coitado do Fernando,
Gozar-se assim com os versos que lhe eram tão queridos!
Valia mais ter fodido a Ofélia comme il faut!
Quem sabe, ela teria gostado mais do seu Álvaro nos Campos.

Por cada troço de estrada inaugurado
Nasce um homem novo obrado por Deus
E o sonho cumpre-se numa mão cheia de votos.

Soubesse Pessoa, de antemão, que a sua poesia serviria o discurso político de circunstância e as fotografias que lhe conhecemos seriam bem diferentes. Menos chique, os bigodes atulhados de fluido vaginal e o olhar estrábico de quem não se ficou pelas bagaceiras no Martinho da Arcada. Hoje sem mesa reservada, lembrado como um pulha que partia mesas com cadeiras. A sua amada, Ofélia, uma pin-up desempregada, consciente da escrita que lhe escorria pelas pernas, amando o seu Pessoa, guardada para a história como um tesão sorridente de saias curtas.

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2 de mar. de 2009

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A realidade acerta-se pela técnica dos relógios que evoluem e o tempo, que não teve freio, aburguesou-se a uma New Way. Dínamo de esquecer. Sem recobro nem esperança, a fotocopiadora é um museu que faliu. Não existem verdades universais. A arte pratica-se na potência de existir, sonho de uma ideologia sem memória. Nada é duradouro. Acreditar demasiado é vender a alma a uma existência sem vencimento. Tudo passa e o sol, que assiste à nossa mediocridade, continua entrando pelas frinchas de entulho universal que foram os nossos sonhos. Somos um bando de intelectuais idosos lançando sementes à terra, sem prognóstico de colheita ou seguro de terrorismo ambiental. Falimos todos os dias e o mundo reinventa-se em renovadas promessas. Fé dourada, luz que envelhece. A roupa guardada pelos nossos avós foi para um aterro sanitário, mortalha de um sem-abrigo abraçado aos próprios ossos, sobrevivente da fome e parente próximo do caixote que um camião do lixo levou. A minha mãe guardou toalhas com fio de ouro para que eu secasse os seus netos quando nascessem e eu vendi-lhe as esperanças à pornografia. Se o mundo parasse, eu acreditaria nele. Mas o carrossel da vida continua a sua marcha sem alma para travar sobre a carne que trilha os mais velhos. Não faço parágrafos. O único sentido para a vida é a morte. Não creio em verdade maior. Os cemitérios e os hospitais, as pedreiras mortas e as fábricas abandonadas são, para mim, monumentos de uma realidade que corre para a inexistência, questionada por ideais de felicidade. Acredito na minha verdade como na poesia dos faraós enterrada pelos desertos e não tenho mais perguntas para esvaziar o bolso roto de respostas onde meto as mãos, assobiando, cioso de coçar as minhas próprias misérias…


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27 de fev. de 2009

Há dias, estava a escrever no blog e… esperem lá, a palavra blog dá erro. Claro, já me esquecia, blog agora escreve-se blogue. Que parvoíce a minha… estar a beber e não me ter lembrado que os linguistas andam agora a trocar as palavras todas. A esta hora, todos temos isso em comum. De facto, é de uma nobreza inexcedível a intenção de nos pôr todos a falar a mesma língua! Como se a grande Babel fosse uma obra continuada por engenheiros residentes, permitindo na sua velhice um bairro social a jovens estrangeiros, uma verdade inconsistente habitada, tida como um capricho de juventude desenraizada de existir com argumentos vincados e, ao mesmo tempo, semente.

E eu que levei lambadas por dar erros. Não me quero debater nas desenvolturas da educação, até porque as visões que se merecem à memória me surgem floreadas, romantismo de levar lambadas com pressa nas pernas para correr atrás da bola. Nesse tempo não havia o Magalhães. Aliás, o único Magalhães ao nosso alcance era o contínuo que se substituía ao professor nas lambadas. Para além dos meus pais, esses eram os únicos correctores informáticos de que me lembro.
Sem computadores, ou liberdade para estudar os dínamos do mundo com a minha espada de libertar, arrancada a um pinheiro, ou caída para fazer sonhar crianças, aquele quarto de costura, com um saco pendurado atrás da porta, onde a minha avó costurava e me contava anedotas brejeiras intercaladas por explicações sobre a importância de ser alguém na vida, era o meu canto dos deveres. Apesar de nunca ter perguntado para que era o saco ou de não ter recebido uma explicação satisfatória ao alcance da minha memória, aquele saco permanece em mim como as borrachas que apagavam os meus erros e me adiavam a brincadeira.

Salto no tempo. Penso em Camões e Gil Vicente. Ainda hoje sou quase incapaz de os tomar como antecedentes próximos. Vejo-os sempre como irrealidades históricas que existiram, fobias passíveis de tratamento, mas recolhidas ao sótão dos cobertores, onde os ratos discorrem em animada tertúlia a sobrevivência dos medos, entre sandes de queijo e uma cartada de charutos.

Tempos de escola com memória de sótão. Olho com algum desprezo a poesia ensinada com fórmulas matemáticas. Versos decassilábicos, campos cor de limão e um poeta que sofria de ausência, mulher amada, - queria fornicá-la mas, sobre isso, nada. Até Pessoa me desiludiu quando não quis escrever nada que fosse erótico. Mas escreveu, o fingidor, encapotou-se e ejaculou como os outros safados do seu tempo... E os professores que o sabiam, mesmo não sabendo, ocultaram-nos o devasso. Eu ponho-te lá fora! – disse-me a professora quando eu propus que o Álvaro de Campos poderia estar mocado quando escreveu o Ópiario. Nem este corrector informático admite a leviandade do poeta. A professora de filosofia saltou o Carpe Diem nas duas ou três páginas que sublimavam o Clube dos Portas Mortos como verdade maior de pensar livremente e arriscar um pensamento diferente, bacoco mas diferente…
Desculpem-me se não concordo com esta cartilha, mas eu, que sou campónio, fugia de casa à noite e refugiei-me na beira dos penedos, em casas abandonadas ou em construção, no refúgio de uma garrafa de lixívia que rodou para o monte e nós dissemos: - é para ali que vamos, e inventamos canções sem saber cantar.
Na potência de existir tinhamos outros nomes e um maior que nos abarcava. Escrevíamos poemas sobre dor e mar/ vou morrer de amor/ só me apetece chorar. E o sentimento que era sublime, ainda que sem argumentos, ganhou asas e cantou o universo pela rede de um galinheiro. Para não me acusarem de plágio, devo dizer que o F.P. Gigante disse uma coisa parecida num dos seus escritos (para o caso de pesquisarem por mim). Depois dele, as coisas complicaram-se para os poetas dispostos na dimensão em que ele sonhou, como se nos roubasse a um tempo que é nosso. Devemos também nós sonhar o amanhã, apesar dele nos acordar?

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25 de fev. de 2009

Epitáfio

Sei que posso morrer relativamente jovem
Perspectiva dos relógios mais duradouros.
Esbanjei tempo e, apesar disso, nem sempre me tolhi
De dizer às pessoas o quanto gostava delas
Nos momentos em que romanceei com elas,
Apesar de dormirem.

Faltou-me dizê-lo à família
Não sei bem se quero entender os porquês.
Terei feito voto de me livrar de culpas?
Amo sem compromisso
Como um viajante que não se detém em revisitações,
Um passo ao lado do passeio das emoções.

Escrevo este epitáfio
Como se gozasse as melhoras da morte.
Como se estivesse para morrer
E amanhã não me sobrasse tempo para dizer o que fosse
E todos velassem ou carpissem o que fui
E não o que me ficou por dizer.

Vejo-me como numa cama de hospital
Debatido no limbo da doença que me consome
E ventilado pelo desejo de arrancar mais viagens ao corpo moribundo.
Não me ponham a meia-luz com uma campainha,
Não me visitem senão com promessas de boémia
E a gargalhada de quem chegou para se divertir,
Um abraço aberto de garrafa na mão ao vir da porta.
Tranquem o quarto,
Saltemos todos para cima desta cama ventilada por mangueiras de soro;
Deixemos os profissionais de saúde batendo à porta,
Clementes de uma ordem vencida à chave pela alegria
A música alta pontuando um motim na enfermaria.

Fornicar putas sublimes, ainda que cheias de doença,
Não mo dêem a saber,
Amá-las como o refúgio de mim sem noção de refugo
Lancemos em chamas o colchão pela janela.

Se, finda a festa,
Me detiver exausto num cadeirão,
Que os últimos movíveis me dêem a extrema unção:
Uma anestesia de massagens com morfina
E um beijo no coração.

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17 de fev. de 2009

Até os bichinhos gostam...

Estava a ver o Prós e Contras na RTP, subordinado ao tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Obviamente, a minha atenção centrou-se naquilo que é acessório ao debate, ou seja, o que realmente importa.
Uma vez acesa a discussão… intervalo. E o pessoal começou a levantar-se. Sim, a publicidade é fundamental. Que se fodam os direitos das pessoas se a máquina não vender as suas escovas de dentes e tampões para o fluxo...

No preciso momento em que escrevo estas linhas, estará no WC da Casa do Artista um curioso agremiado de posições divergentes, ditosas de alívio. Imagino com gozo, a expressão de um cónego que aperta o cinto de castidade, desviando a pila para o lado no mictório, o mijo descompassado, o esfíncter retraído… nem uma ervilha se atreveria a balir-lhe as campainhas, quanto mais tocar-lhe o badalo…

Nestes preparos, com que me divirto, confesso encontrar-me em harmónica cantoria anal. Não, ninguém me sopra por onde o Sr. Castanho abre caminho. A ele sou fiel como as margens de um rio que corre para jusante. Peido-me, portanto. E quero eu lá saber se os gays casam ou não. Cago para a questão. E cago porque o cerne da questão não reside na possibilidade de consagrar o amor homossexual num ritual público com direitos sociais idênticos à classe heterossexual. O que está em causa é reajustar uma ideia conservadora de amor à imagem de um caralho imputado nas cavidades de alguém do mesmo sexo. Anda tudo assustado com a sua própria sexualidade (à excepção das pitas que se andam para aí a lamber umas às outras) e é esse medo de abrir as portas à diferença, como se daí viesse uma avalanche de piças, que circuncida a liberdade dos outros...

Por mim, coço os tomates com uma verdade mal lavada e rio-me. Apetece-me entrar num bar com quarentonas, barba por fazer… peço um whisky capaz de ser bebido à pressa, em copo quadrado, e acendo um cigarro contra as regras. Dou duas passas e antes de ser repreendido pelo desaforo, convoco-me numa velha boa, bebo de estalo e saio com ela sem esperar pelo troco de uma nota deixada ao balcão. O barman olha-me como se um louco lhe tivesse metido o dedo no cu, mas eu nem reparo…

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16 de fev. de 2009

Ebrithingue zgonabi óraite!

Espírito positivo! É assim que a classe política pretende dar a volta à crise.

Fazendo a tradução:
- “O piloto morreu.
Alguém sabe pilotar o avião?”

Não, não sabe. Somos comandados por um vazio de gente sem ideias que fez da retórica um modo de vida mas não sabe muito sobre ela. Condutores de homens, - disseram-nos. Apanhados ébrios pelas câmaras de vigilância, na contra-mão dos cortejos que mirram.

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16 de jan. de 2009

Carta aberta ao Sr. Zerka

Caro Sr.
Escrevo-lhe obrigado à partilha de experiências pontuadas no trato das suas melodias trágico-irónicas, em particular àqueloutras clericais...
Eu próprio já experimentei as maravilhas que o vinho das santas galhetas pode proporcionar. Por alguma razão o padre da minha freguesia bebeu um petróleo dominical enganado. Soube mais tarde que, a caminho do hospital, teve de encostar para puxar um segundo grego que lhe incendiou as entranhas. Na rádio, "the Gasoline Man", dos Young Gods, regurgitou-lhe ódios musicais adormecidos. Não será, portanto, de estranhar que no domingo seguinte a homilia se centrasse na má influência dos ambientes e sonoridades roqueiras. Que bem me soube ouvi-lo! Palavras encorpadas, cheias e aromáticas, ligeiro travo, final longo e persistente que me fez revirar os olhos e lamber os beiços... Abençoado!

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Tou sim?... Tou?... TOU!... TOOOU!!!

De há uns tempos a esta parte, apareceu aqui ao lado (no Bestiário) a referência a um tal de Tónio Cuco e uma tal de Pinheirinha. Em relação ao primeiro, é bom que o indivíduo não seja mesmo cuco. Caso contrário, deito já as substâncias na pia… mas não deve ser. Esses gorduchos de bigode farfalhudo, que se exprimem no imperceptível dialecto do GeNeRês, costumam chatear bem mais. Pelo sim, pelo não, vou fumando qualquer coisita enquanto espero que o bicho estrebuche qualquer coisa. Se ele tivesse uma presença corpórea, era menino para lhe espetar um pau só para ver se uma botita dava sinais de vida…
Em relação a essa tal de Pinheirinha, tudo me leva a crer que seja uma árvore de Natal que alguém atirou pela janela e caiu aqui no blogue. Mas não me quero aventurar a chateá-la muito, até porque pode ser uma moça jeitosa a quem se deite a mão. Espero ansiosamente que ela se manifeste. Faz-me falta um tête-à-tête ou quiçá um rendez-vous. Oh lá-lá!!

Aproveito, já agora, caso esta gente continue a recusar mostrar o aparelho nos dentes, para meter as minhas cunhas junto do Sr. Mal. Conheço pessoas bem interessantes, capazes de ombrear com distinção e honra a possibilidade de se exprimirem na sua morada. Falo de nobres gentes como O Descendente d’Ourives; Javali, o Porco; Antunes, o Impostor ou A Cega Rali, minha supervisora no talho, uma senhora muito higiénica capaz de trinchar cabritinhos em Braille.

Sujeitado à sua sábia jurisprudência, subscrevo-me com elevada estima,


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10 de jan. de 2009

Lisboa

"Devia ter sido professora de matemática." - Disse-mo quando terminamos o "número de sexo". Não havia gente a assistir mas ela parecia ter tudo calculado. Engatou-me num bar, levou-me para sua casa e deu-me de beber. Sentado ao balcão, percebi logo o jogo mental que impôs a si mesma assim que se desfez do jantar com a malta da empresa. Devia ter amigas mais liberadas a descrever-lhe o abstracto entre parênteses. Daquelas que fodem nas arrecadações ou se desmancham nas fotocopiadoras. O tesão delas levou-a a sair sózinha para despachar os demónios que lhe montavam os sonhos...
Achou-me reservado mas suficientemente vivido para lhe proporcionar qualquer coisa sem perder o controlo da situação. Queria manter os pés na terra mas esticar-se até ao céu sem perder a compostura. Decalquei-lhe isto enquanto dançávamos. Ela contava os passos. Eu trocava-lhe as voltas, mas sem parecer demasiado espertalhão. Estava encantado por financiar a sua desinibição mas não quis desequilibrar aquela equação de casino que ela jurava a si mesma controlar. Eu divertia-me mas, atenção! Terreno verde não é terreno seguro. Conheço muitos agricultores e muitos mais intelectuais. O terreno da razão é pantanoso e nem sempre se dá a sementes exóticas.
Sou gajo de balcão. Queria desinibi-la um pouco mais mas não regá-la com shots ou vodkas. Fui buscar-lhe um copo de vinho. Não me perguntem como o consegui num clube. Cada um inventa os seus propósitos e, quanto a mim, o mundo pode ser bastante enfadonho quando nos contentamos com os firmamentos que outros inventaram para a nossa própria alegria. Não quis que ela se embebedasse. Plantas biológicas carecem de estrumes mais refinados...
Ela recebeu bem a graça mas pôs-se a olhar em volta, não fosse o barman estar a rir-se dela, qual passarinha apanhada numa jogada batida. Nada. Tudo lhe terá parecido profissional e descomprometido. O DJ, já bem bebido, fez rolar "After Dark" dos Tito & Tarântula e toda aquela equação de cálculos se precipitou como flocos de neve. Ela agarrou-me e eu apertei-a. Ela apertou-me e eu agarrei-a. E beijámo-nos...

...Quanto ao resto, ide bater punhetas para casa seus filhos-da-puta!

...

19 de dez. de 2008

Melodias Trágico Irónicas 2

O padre da paroquia de Sta. Sabina pregou um sermão na missa que falava da luxuria e de tudo o que sucederá no fim dos tempos aos danados que optam por esses caminhos...
Findada a eucaristia, dirigiu-se para o seu automóvel desportivo, de gama superior, e a caminho de casa, sintonizou uma rádio local que passava "Highway to Hell" dos AC/DC e que era bem audível à
sua passagem.

A D. Clotilde, beata devota dessa paróquia ia feliz com o sermão escutado na igreja, «mas que bem... que bem...» - afirmava ela, quase em prantos. Mas quando chegou a sua casa, não foi capaz de desligar o televisor que passava a musica "Sex on Fire" dos Kings of Leon.


18 de dez. de 2008

Maduro Tinto Revisitado

Às vezes
Quando estou bêbado,
No meio de toda a parvoíce que digo,
Há um fundo de verdade
Que não existe...

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11 de nov. de 2008

Carta de um libertino a um Juiz

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Exmo. Sr.

Escrevo-lhe, obrigado à defesa da minha honra, pois não encontrei advogado algum capaz de interceder por ela com mais honestidade, obrigada por minha justiça a manter-se impoluta e encimada por uma auréola de verdade.


Como sabemos, esperam-me desconfortos de variada espécie por me ter enovelado em sevícias com uma moça de 16 anos com pai rigoroso. Afianço-vos que me perdi de encantos por ela, não penso que de amores, pois nesses preparos me perdi com idade mais tenra…


Sei também com que resma de leis pretende Vossa Exa. carregar-me o dorso. Poderia até tentar compreender os vossos propósitos, mas creio em tal discorrer de papéis utilidade maior se me apertassem os intestinos numa serrania, se por acaso caçasse coelhos. Mesma utilidade pode dar Vossa Exa. a esta missiva se lhe parecer de conveniência, pois não lhe desejo mal, nem tão pouco apertar-lhe as mãos se um dia me aparecesse com uma obrigação dos seus mais distintos odores.


A mesma agremiação que lhe encomendou a aplicação da lei, poderá descansar em consciência, mas eu não. É que, enquanto eu me amanho a tentar convencê-lo da minha legítima inocência, os legisladores que o precedem e encimam encontrar-se-ão, em refasteladas desovas, louvando a bel-prazer as belezas da nossa espécie. Ora, como ambos sabemos, as formas que instituem os cânones do ideal feminino são verdes e magras, pueril e inocentemente juvenis, e apresentam-se nuas comme il faut…


No que à construção artística diz respeito, tudo parece permitido e ainda bem. A classe retórica e, portanto, governativa, sempre acurou na sua ignorância, um cabimento feito aplauso para os artefactos que não domina. Haja verdade, quem a desobstrua das silvas e quem a poupe! – Sempre foi esse o meu firmamento.


Poderá contrapor-me dizendo que a sua classe não frequenta a libertinagem que institui o prazer no mundo; que não se atenta nas publicações da celebridade porca que vende o corpo, ainda que o influencie a comprar férias num destino paradisíaco (o que é isso? – pergunto-nos) …


Poderá dizer-me que a sua classe não se entretém com o mundo que dá valor às celebridades e se endivida frustrado com os ideais de felicidade vendidos pela televisão. E, se assim for, obrigo-me a crer que tanto os legisladores como os aplicadores da lei vivem num mundo diferente para o qual são convocados a legislar.


Bem sabemos que não é assim. As moças que desfilam e instituem os cânones da beleza feminina são menores de idade e insuflam o tesão a quem dele dispõe. Têm menos de 15 anos, são mulheres e “boas como o milho”.


Pese a sua sanha em tentar condenar-me, tudo isto é público e consentido. Permita-me, enfim, ciente da sua capacidade de armar uma esparrela aos miolos, que lhe segrede: -

“não é por ter cheiro de perfume e sotaque francês, que esta realidade vos exclui de encalhar na mesma esteira de merda dos seus pares”. Em boa verdade, a sanha de perseguir as pombas e poupar os corvos é matéria sobre qual já se escreviam monografias na Grécia e Roma Antigas, jurisprudências que, como sabe, fundaram o Direito Contemporâneo.


Por fim, para desgraça e choro do vosso violino de valores, devo dizer-vos: - não fui eu quem lhe roubou as virginais virtudes. Foi ela que me tomou para lápide e desprezo dos valores apreendidos. Não querendo para mim uma camisa de sete-varas, nem para ela uma pena de bestialismo por ter escovado um animal da minha envergadura…


Subscrevo-me à atenção das suas mais recalcadas virtudes,


Anarquista Juvenal ou, se quiser, Sr. Mal



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10 de nov. de 2008

O MELHOR POEMA DO MUNDO

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos


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3 de nov. de 2008

Era a estrear!!!

Uma das características que mais aprecio nas pessoas, mas que nem todas possuem, é a capacidade de serem genuínas nas diversas situações decorrentes da vida... Conheço poucas pessoas destas, os dedos de uma mão (não estropiada) chegariam para as contar. Hoje descobri mais um destes seres preciosos.
Tudo se passou no restaurante onde vou chafurdar, digo almoçar, diariamente. Ao entrar no dito estabelecimento reparei que contrariamente ao que é habitual, hoje o local estava muito bem frequentado no que diz a pessoas do sexo feminino... Uma das mesas estava ocupada por o que supostamente seria um pai (e quero acreditar que era) e uma deliciosa filha de vinte e poucos anos, ciente do impacto que a sua pessoa causava nos demais... Noutra mesa, logo a beira da anterior, estava uma solitária cliente, sofisticada, mulher de negócios que com certeza estaria somente de passagem nesta terriola... No outro lado da sala estavam ainda duas mesas, ocupadas cada uma delas com um casal em que as senhoras eram qualquer coisa de fantástico, boas, boas, boas... Intimamente, sei que os demais clientes já haviam reparado nas tais beldades, não fossem eles maioritariamente trolhas , sedentos de carne fresca.
Sem qualquer alarido emocional sentei-me e fui consolando a vistinha enquanto aguardava pelo repasto. Tinha investido na chafurda havia uns 5 minutos, quando um dos casais que ocupava uma das mesas do outro lado da sala se levanta para abandonar o local. Escusado será dizer que a Sra. mal deu o primeiro passo em direcção à porta foi comida como sobremesa um infinito numero de vezes (chegando alguns, inclusive, a repetir tão delicioso doce, sem se preocuparem com a linha). Ninguém ousou proferir um "ai" que fosse, mas todos suspiravam para dentro, havendo até quem se coçasse abruptamente.
Foi precisamente nesta cena do filme que tudo parou e eu descobri o ser com a tal qualidade...
Quando ninguém, nem os demais trolhas (como eu), teve a audácia de dizer palavra alguma, houve uma alma iluminada que sem qualquer embaraço, ou sequer levantar a cabeça para desviar os olhos da comida proferiu estas acertadas palavras: - «Era a estrear!!!».
Foi mágico o momento... discurso nenhum, feito por o mais sábio de todos os doutos encaixaria tão bem na situação.
Sorri-lhe, piscou-me aquele brilhante olho coberto de maldade e por momentos pensei que fosse o demónio, mas não, era também uma mulher que sabia apreciar a sua semelhante...

A propósito, o prato do dia era Massa à Lavrador e estava intragável, comi só sobremesa aquando da saída das demais fêmeas...





30 de out. de 2008

Repto

Das mil e uma perguntas que gostaria de fazer aos meus amigos e amigas (a estas sobretudo se gostariam de passar uma noite sweet and filthy comigo…), assalta-me esta:

- Que livro, filme e álbum gostariam de concebido? E porquê?

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24 de out. de 2008

Novo Blogue

O demónio bom que existe em mim aproveitou um cruzamento de sonos e criou um blogue com propósitos altruístas. O bandido encontra-se neste momento a ser espancado por putas de satanás que se têm lambido graças à voz de comando da minha criatividade mais negra...
Está a pagá-las, portanto. Por isso, vão lá dar uma vista de olhos, só para verem do que o safado se foi lembrar...


http://maquinaderebites.blogspot.com/


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16 de out. de 2008

Melodias Trágico Irónicas

Há uns tempos fui ao I.P.O. visitar um amigo que padecia de cancro do pulmão. Quando cheguei à recepção, deparei-me com a canção "Smokers Outside the Hospital Doors" dos Editors, que saía do rádio da recepcionista e que esta tão harmoniosamente cantarolava...

A semana passada esse meu amigo não resistiu à doença e morreu, desgraçado... No funeral e como era de sua vontade, foi tocada a musica "Alive and Kicking" dos Simple Minds, pela banda filarmónica lá da terra...

14 de out. de 2008

MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA


I CAPÍTULO


A Manhã começou difícil, em Marco de Canaveses. A ansiedade de uma festa que se quer cheia, encheu-me a noite de insónias velhas. Uma madrugada tardia e amiantos mal destilados fizeram o resto. Acordei com uma bigorna nos chifres, mas obriguei-me a depô-la na mesinha de cabeceira pois ainda tínhamos de carregar os baús da Louis Vuitton para a mala do Rolls. Eu sabia que a bigorna me esperaria quando voltasse…


Entretanto chegamos a Paredes de Coura, recebidos em apoteose por um ajuntamento de virgens, de cabelos longos cobrindo os seios nus, montadas em cavalos brancos andaluzes. Perdido, como um menino numa loja de guloseimas, agarrei-me à primeira sela que de mim se abeirou e, enquanto subia com dificuldade, pensava nas doces palavras que haveriam de convencer a casta virgem a debruçar-se sobre as crinas do corcel, erigindo com graça a sua sêmea de madrepérola...


Ela olhou-me nos olhos e disse:

- “Bom dia! São 8 euros e quarenta cêntimos.”

- “Ãhh?” – digo eu, espantado.

E depois com voz masculina:

- “Acorda, caralho!”

Eu acordo. O Romeu olha-me nos olhos e já a espumar-se, amanda:


- “PÁRA DE PUXAR O TRAVÃO DE MÃO, TIRA AS PATAS DE CIMA DO TABLIER E VÊ SE TENS AÍ 40 CÊNTIMOS!!!!”…


Uma vez ultrapassado o episódio da portagem, chegamos à velha vila e estacionamos junto ao cemitério. Eu, cismado na “bela bilha”, ainda me agarrei às grades do malfadado jardim de caroços, vertendo os últimos goles de esperança por uma virgem a cavalo. Uma velha desdentada, mudando flores numa campa, piscou-me os olhos húmidos com cataratas e o universo reconstruiu-se-me nu e cruel.


Abrimos um garrafão de sangria, que levávamos em ofertório para as almas gentis que nos montaram a tenda, e fomos tirar bilhete sob o olhar condenatório de almas impolutas, nessa mesma noite cumpridas, lavadas no Olimpo imaculado das purezas moribundas – o INEM!




Continua…


13 de out. de 2008

Solidariedade Gourmet


O candidato Jonh Mccain disse “não é tempo de tentar encontrar culpados, mas de encontrar uma solução para o problema”.

Tradução: Apesar de se ter feito merda da grossa, vamos deixar que os responsáveis por ela continuem no poder. Ao invés, vamos antes encontrar uma solução para nos livrarmos do monte de estrume que eles fizeram com o nosso dinheiro.


Aliás, hoje apetece-me mandar umas postas de pescada... se bem que, nos dias que correm, o melhor é guardá-las no congelador... metê-las no banco está fora de questão.

Uma questão assalta-me, disfarçada de outras mil...

- Onde estão os gajos que não queriam que o Estado interferisse no privado? Ah! Já me esquecia. Estão na mesma palhota dos filhos-da-puta que disseram que o mundo ia acabar no ano 2000 e andaram a vender cruzes brancas (onde supostamente se estaria a salvo do Apocalipse). Não se lembram? Eu lembro-me bem (e não comprei nenhuma!). Também me lembro aí de um banco que andou a perdoar dívidas de milhões de contos aos filho do seu presidente. E também me lembro de um outro artista, que se dedica a falar de arte e poesia nas revistas, que foi "dispensado" com uma indemnização de outros tantos milhões. E o que dizer dos prémios chorudos que os quadros das empresas, agora na falência, distribuíram entre si há tão pouco tempo?


Concordo com a besta republicana. O melhor é mesmo encontrar a solução para o problema. O que nos divide, porém, é que eu acho que a solução é identificar esses burlões e pô-los a tomar 3 duches por dia em Custóias.


11 de out. de 2008

TAUFP

Hoje a minha tuna faz 14 anos. É verdade, eu pertenço a uma tuna. Para quem não sabe o que isso é, não o saberá até fazer parte de uma. “Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”, dizia o bandido do Pessoa. Aquilo que as pessoas sentem quando pensam numa tuna, penso eu, quase exactamente, quando as vejo no Praça da Alergologia. Que cambada de tones!


Para os que ficarem na dúvida… juntem 15 amigos num jantar, saiam para a noite e façam votos de se comportar como uma família com propósitos comuns. Uma tuna há-de parecer-vos um bando de meninos de coro. Há tunas que me repugnam, há estudantes que me repugnam… a maior parte das pessoas repugna-me. Mas eu vivi, estive lá, fiz o que tinha de ser feito, experienciei-me, por mim. Não fiquei à espera que as outras pessoas me redigissem um parecer sobre o mundo tunante ou vivessem a vida por mim e fui curtir. Hoje, tenho estórias para contar e, por isso, falo com a propriedade, não de alguém que "comeu o pão que o diabo amassou", mas de quem lho meteu na boquinha...


As nossas jantaradas, por exemplo, eram (são) diferentes de todas as merendas de curso ou desses ensaios de borga adolescentes que se vêem às sextas e sábados nos restaurantes perto dos bares. Na verdade, e em comparação, as diferenças saltam à vista. A primeira é que ninguém vomita no fim de jantar e não se pense que é por falta de vinho. Depois, quando o repasto acaba (apesar de haver um gajo com sotaque que não pára de comer), em vez de berrarmos eférreás sem significado, pegamos nos instrumentos, tocamos e cantamos, fazemos serenatas, lembramos aventuras passadas e, sobretudo, conversamos (coisa rara, a julgar pelo que por aí se vê). Há sempre canções, haverão sempre canções… A euforia é garantida e contagiante.


Fiz de tudo. Desde discutir Art Déco pelas ruas de Aveiro às 7 da manhã; Antes disso, ainda dormi à porta de uma discoteca, para onde fomos depois de resgatar dois ou três artistas que caíram à ria; andei nu em Viseu à procura da roupa; entrei no Plazza de Lisboa com um garrafão na mão (e dormi lá); os pequenos-almoços de francesinha eram constantes; lembro uma corrida de cadeira-de-rodas no corredor de um conhecido Hospital do Porto; levei injecções de penicilina com duas cruzes satânicas barbeadas no traseiro; gozamos com a Lili Caneças no palco do Coliseu de Lisboa (ela estava na primeira fila) e no final da actuação ainda me veio agradecer “a homenagem”; percorri o país com a malta, sempre em debanda e euforia. As estórias são mais que muitas e a maior parte não me apetece contá-las aqui…


A minha vida académica confunde-se com a tuna e, nesse sentido, é-me impossível pensar o academismo sem ter presente, pelo menos, uma metáfora das vivências que partilhei junto da Tuna Académica da Universidade Fernando Pessoa…

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26 de set. de 2008

Apresentação II

Pede-se, com todo o respeito que vos possa merecer, que leiam o seguinte trecho com sotaque Ucraniano. Como alternativa, e para todos os que não se sintam familiarizados com esta língua, propõe-se que o mesmo seja trauteado em Ré menor, alternado a Fá sustenido… Obrigado!


Olá!

Apresentaram-me como um “reforço” deste Blogue; “um organizador de jogo dos Países de Leste”… Em resposta a tudo isso, cabe-me dizer em letras bem garrafais – TRETAS!! Não sou reforço nenhum, mas antes, o esforço que vocês não estarão dispostos a fazer para continuarem a ler este pseudo-obituário.


Sou o Anatoly Zerka, ucraniano - filho da puta, como a maioria me trata. E eu rio-me!
È verdade, venho lá dos quintos desta Europa de merda com o objectivo de extorquir o máximo de €’s possível aos patrões e governantes lusos, para depois vos mandar foder a todos e abalar para junto da minha prole, esperando, como é óbvio, deixar aquilo a que vocês portugueses chamam de saudade e também uma lágrima no canto do olho a algumas bonecas que fui tendo no meu leito.

Sou verde, em anos, mas já estou bem queimado, não sei se do Vodka e Bagaço que vou bebendo, ou então da vida que levo… sou carpinteiro de cofragem, uma vertente da famosa profissão que é trolha, trabalho ao frio e ao sol, puxo pelo corpo (qual Hércules) e de vez em quando atiro uns piropos ás fêmeas que passam… e elas não se riem!

De quando em vez, dou comigo no hospital, quer seja para dar sangue e aproveitar o pequeno-almoço de borla, que em troca me oferecem, quer por malhar abaixo dos andaimes lá nas obras. Quando assim é, fodo-me todo: Parto ossos, fracturo vértebras, esmago dedos, rebento órgãos internos, até os dentes me saem… enfim, uma cabidela de fazer inveja ao maior galo de qualquer capoeira.


Aqui, espero ser as palavras que vos irritem, que vos enlouqueçam, que despertem náuseas em vossas mentes… O buraco negro e cancerígena que tosta as vossas cabeças até rebentarem de revolta.

Vou ser o fantasma que se esconde debaixo das vossas camas e dentro dos armários, á noite, quando se forem deitar. Quando ficar escuro, vou ser os olhos que estarão sempre postos em vossos corpos sonolentos. Ah, eu a observá-los enquanto dormem, e se calhar, quem sabe, ainda vos chego a passar a mão, muuiiito ao de leve, no sexo… Uma vez por outra, vou fazer-vos mal nos vossos pesadelos!

Creio que serei a razão de sussurrarem o “Anjo da Guarda” ao erguer e deitar da cama… assim o espero «… de noite e de dia.»!!!


PS: Os palavrões podem ser trauteados em Mi prolongado.

18 de set. de 2008

Exorcismo

Esvazio para um copo, desaperto o cinto, deponho os bolsos e ajeito o isqueiro sobre os cigarros. Escrevo um gole e acendo-o. O relógio soa, numa pancada, uma meia-hora de uma hora qualquer. Preparo-me para me pensar. Sorvo mais um trago como se estivesse convosco num bar de rock.


Dizem-me: - “precisas de uma namorada!”. – Eu contraponho mas não discordo. Corro o risco de ser ridículo como “todas as cartas de amor”. Podia sorrir, desvalorizar e mudar de assunto com humor. Mas não. Isso exorciza-me.


Caminho pela verdade, saltando de pedra em pedra.

A sedução é, não raras vezes, um caminho de mentira

Com argumentos,

Mas a mentira tropeça no orgasmo.

E a realidade, que é póstuma,

Não tem mais fita para contrapor a equação matemática do amor.


Porque me desejam casamento

Se a minha verdade não é fílmica?

Desejem-me sexo,

Sujo, suado e descomprometido,

Como uma sepultura cavada por criminosos

Com um desejo de liberdade comum.


E se o Amor vier por aí,

Saberei que ele nasceu sobre a tumba dos meus demónios,

Reciclados no vão de um nada sem relógio

Que deixou de existir…



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foto de: Rodrigo Ferreira
(Amigo e testemunha do Marcador Maligno)

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Casa de Putas

O Dica da Semana já me chegou à porta de casa. E isso deixou-me a pensar. Já cá temos o Modelo, o Lidl, o Intermarché, o Ponto Fresco, o Plus, a ASAE, a recessão, o preço do petróleo, a corrupção, as mesas de voto também nunca faltaram... Só as putas que querem casar com o Cristiano Ronaldo é que não. Azar do caralho! Para estes lados ninguém procura almas gémeas…


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13 de ago. de 2008

Paredes de Coura

O Sr. Mal a destilar categoria...


fotografia de Hugo Lima
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16 de jul. de 2008

Perguntas à Igreja Católica

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- A ovelha Dolly quando morrer vai para o céu?
- E os obesos? Serão condenados por gula, más dietas ou será a senhora da cantina mais próxima do emprego que vai arder nos colhões vermelhos do inferno?
- Porque é que os ofertórios acabam sempre devolvidos?
-"Deixa tudo e segue-me" quer dizer o quê?


Continuará...

14 de jul. de 2008

O Céu

...

Estava com um certo apetite. Afinal de contas, são quatro da manhã. Na verdade, estava farto de beber cerveja e de fumar cigarrilhas. Abri o frigorífico e uma revista (não sei ao certo qual deles abri primeiro)...
Vi umas praias na costa vicentina e imaginei-me por lá. Só eu e os meus demónios, todos muito retóricos e poéticos e eu sem malha para os enredar. Imaginei-me a pescar nas rochas, a fazer uma fogueira e a cozinhar um danado que se enamorou pelo meu anzol, peixe, entenda-se...
Enquanto lavava uma sertã, daquelas que confundem os fritos com grelhados, não abandonei o filme...

Se pudesse (e quem me impede?) arrancava amanhã por aí abaixo, por um deserto qualquer com visão de mar. Imaginei-me a fazer estes pedaços de céu que comi agora e só tive pena de não os poder partilhar...

Por mim, mando-me sem telemóvel mas com uma mochila de campismo. A primeira pessoa que partilhar desta maluquice, que se manifeste. Arrancamos os dois sem destino, de preferência à boleia ou de comboio, para não engrossar cortejos deprimentes. Não prometo felicidade nem tempos bem passados. Apenas uma boa fogueira e, possivelmente, um cabo de mar a expulsar-nos de uma praia deserta...

Fica o convite...


...
...


DEMITI OS GOVERNOS, A POLÍCIA, O ENSINO. RASGUEI O MEU CONTRATO SOCIAL. QUALQUER DECISÃO TOMADA EM MEU NOME, CONSIDERE-SE UMA FRAUDE.


...

25 de jun. de 2008

É a Hora!

Durante alguns dias estarei ausente. Sozinho como um eremita. Perto dos ratos e das cobras – doce combinação, especialmente se uma digerir o outro e logo a seguir se suicidar num estrebuchar deleitoso. Longe, de preferência.
Na verdade, sou um eremita de se trazer por casa, o que, logo por aí, é uma contradição. Mas isso não quer dizer coisa nenhuma e, mesmo que dissesse, não interessava. Como pode um aspirante a eremita subjugar-se aos mitos e aos clichés? Vou fazer um retiro, assim é que é. Interessa-me ficar só. Ler, escrever, pintar, pensar. Fazer aquelas coisas que prometemos a nós mesmos quando sonhamos abalar os trilhos monocórdicos das vias de cintura internas, o triste cortejo de se cuspir de uma ponte pedonal.
Se calhar não vou fazer nada disso ou então vou questionar o mundo desde esta cadeira até á lua. Quem sabe dar um salto ao sol, metê-lo num bolso e fazer emboscadas às galáxias, deixar-me sugar pelos buracos negros e fodê-los pelo avesso. Tudo é possível. Enquanto isso, espero fazer um jigo de sangria e algumas refeições; no fim-de-semana receber dois libertinos velados. Daqueles que, quando morrerem, vão abrir um olho no velório, fisgar um par de mamas e, num sorriso que só eu poderia entender, ficarão a rir por dentro, ecoando um timbre grave de mãos a bater no crepúsculo, somente audível por animais. Música para os selvagens e tormento para as criaturas de colo. É! São os meus melhores amigos.
Mesmo assim, espero pintar um quadro para a E., aquele que me (lhe) venho prometendo desde que ela viu em mim o que eu vejo, em pó, a dobrar a esquina dos rios.
Se calhar vou só dobrar os ossos a julgar no seu descanso (dos ossos, entenda-se!).
Acho que vou amanhã! Mas que sei eu da esquizofrenia dos relógios?

22 de mai. de 2008

Para onde o sol nasce

Não há nada de científico nas minhas paranóias. Mas detenho-me nelas com uma determinação de fazer corar qualquer investigador. E gozo-me nelas, rebanho-me. Entro por elas adentro com a determinação anarca dum sono profundo. E romantizo.
Ás vezes penso se os pontos cardeais para onde estou virado influenciam a minha escrita, a inspiração ou, como me gosto de lhe chamar, a ausência de bloqueio. Tenho a impressão que ergo mais taças virado para nascente. É um facto que as despejo com mais vigor tombado para Oeste. Não sei se fornico melhor para Norte ou para Sul mas, agora que penso nisso, seguramente fará mais sentido virar-me para onde o sol se levanta, aproveitando o movimento de rotação da terra para cofiar o pêlo com o seu pente de luz.
No meu novelo ensarilhado estas coisas fazem sentido. Até porque as leis da natureza nos confrontam com a sua gravidade. Gaudi percebeu isto a tempo e inverteu o esquema com a nobreza nua de quem não precisa de um espelho para se questionar. Já a carroça que o atropelou devia vir a pensar na morte da bezerra quando lhe saiu ao caminho aquele cordeiro de deus…

Isto é capaz de ter seguimento…

10 de mai. de 2008

Fogo natural

Todas as pessoas têm um fogo natural,
Uma fogueira de inconstância que aquece os pés ao desejo.
O meu fogo, enquanto labareda, apagou-se.
Aquilo que os meus amigos pensam ser o calor do meu afecto
É, tão só, um remoinho revolto de cinza
Num braseiro condenado.

Manifesto

Estou farto que me digam que eu não vou mudar o mundo! Porque eu não o pretendo mudar. Quero só canalizar um pouco mais de vinho e menos filhos-da-puta para os meus lados. Quando ouço falar da crise dos mercados, da economia e dos cereais, arrepiam-se-me os pêlos do cu. Estes gajos mudaram o mundo a seu bel-prazer, fizeram merda atrás de merda, encheram os bolsos com indemnizações chorudas e ala moleiro que me vou para onde o sol brilha. Dizem adeus ao mundo badalhoco, que nunca se iria emporcalhar com as suas fábricas virtuosas de emprego, e agora bebam a água do esgoto ou comprem-na aos bidões. E adieu para a ilha dos amores estufar sereias…



28 de abr. de 2008

Anúncio

Estão a ultimar-se mais duas contratações para o plantel do Cabaret des Morts. Um organizador de jogo dos países de Leste e um avançado de nome Julinho Pé-de-Cabra, também conhecido por GoatFoot Jules. Ambos com um portentoso remate e uma tendência natural para levar cartões vermelhos. Aguardem...

29 de mar. de 2008

Saí de casa a cheirar os braços

Saí de casa a cheirar os braços. Isto de trabalhar num talho tem que se lhe diga: ou a gente se lava bem com sabão ou corre o risco de estar a ser lambido e ser esfregado num elogio qualquer de macho (elas distinguem bem o cheiro de rosas do perfume das barras de sabão-rosa desfeito em navalhadas). Eu é que não sei se a Victoria Secret’s já lança sais de banho, já a lingerie faz os seus brilharetes, especialmente em orgias. Sou pobre como uma puta de jet set, mas cheio como um cão sem pedigree, rafeiro, vá, mas orgulhoso como um político no poder… Pelo meio, acho que me perdi…

Saí de casa a cheirar os braços e meti-me à boleia à porta de casa. Pedir boleia nos dias que correm é muito mais difícil. Hoje, quase só os drogados pedem boleia e, como eu bem compreendo, ninguém se quer arriscar. Não uso telemóvel. Eu sei que é turrice minha, até porque tenho perfil no hi5, logo extraia-se daí qualquer mensagem política anti-globalização ou a puta que a pariu…

Bom, agora é que é! Saí de casa a cheirar os braços, apanhei boleia com uma gaja deprimida que gostava de Pearl Jam e que tinha muito a perder se a polícia nos fizesse parar. Acabamos no mesmo café a beber finos e a comer rissóis e torradas. Eu, rissóis e ela torradinha de todo. Mas não fui capaz! De manhã acordei a ser petiscado…

A metamorfose da carne faz-me sempre pensar, até porque já eram horas de abrir o talho.

Ela nem era nenhum monumento! Até porque os monumentos são para ser admirados e não para ser fodidos (se bem que eu já mijei nos pés de belas estátuas). Mas marcou-me por foder com gosto. Não é todos os dias que alguém se dá por completo, com alma, como um animal (que supostamente a não têm). Merece respeito? Claro que não! – pelo menos durante o sexo. Já cheio de sono, e com um formigueiro de envergonhar o açúcar, combinei-lhe os ingredientes do frigorífico, ao som do “crazy” dos Aerosmith, num pequeno-almoço. Adormecemos abraçados, com o corpo rendido e a alma reconfortada. Deixei-lhe um beijo na cara e a almofada, onde ela se deita, cravada deles, e um recado a dizer coisas que não se dizem. E saí de mansinho a cheirar os braços…

6 de mar. de 2008

carne verde

Acabamos a gostar do mesmo.

Um abraço na manhã que vem fria

E espanta o sonho da noite feito ilusão.

De manhã a carne é de uma brancura

Que dura de tão verde

O desejo.


Acende-se a luz porque me deito

E berram-me buzinas a dormência.

Falta-me a vontade infantil de querer acordar

Para me cumprir.

Fugir errando

Um passeio de bicicleta por um ninho de luz que atordoa

Ser criança

Por montes e serranias

Errando em prol da liberdade. Um valor

Sem propriedade.


Mas nós não devemos querer assim tanto

O passado de ter sido só as pedras dos montes

Que passam despercebidas.

Quero andar pelos campos como um vento tresmalhado.

Prefiro, em vez dos homens, o abraço de um espantalho

Semear a minha solidão

Não como uma doença velada

Ou por dentro arrependido como uma procissão inventada.

Quero cumprir-me antes num campo de criação

Do que ser um rótulo de cristão ou outra coisa pobre na imensidão

Mas fica-me sempre na boca um gosto de blasfémia

Amarga. A fazer de boa.


Se existe um Deus que pune

Deve haver um outro que reúne.

Como uma mãe que tudo perdoa.

Sinto culpa e culpo a religião.

Até podia ser padre de uma outra profissão

Mas nunca traficante do coração.


Apresentação

Por insistência do Sr. Mal, eis-me aqui a partilhar convosco um Olá! Sou o Menino de Talho! – Bonito nome me puseram, esses filhos-da-puta! Não me agrada nada falar de mim. Não tenho curso superior nem inferior. Trincho carne! Para que não restem dúvidas, a melhor parte da peça sou eu que a como. A minha faca tem a grandeza de um Nietzche que divide. Os cães olham-me de soslaio e odeiam a minha bata branca como a um chinês com lojas.


Gosto bastante de foder mas não procuro amor algum. Ás vezes até vou ás putas. Divido o suor do meu trabalho com a higiene cuidada de quem se lava em perfume: é uma troca.


Também gosto de um bom bailarico. Para mim, a música Pimba é o último bastião da cultura underground. Adoro festas de província e se acabarem em porrada, tanto melhor! Vivo numa casa dita miserável mas sou feliz. O meu mundo é rasteiro como um cão que se deita ao sol. Devo escrever “coisas que põem o diabo a coçar o pêlo dos cornos”. Pelo menos, foi o que me disseram. Aceitei escrever aqui para não me esquecer da grafia. É que, volta e meia, mando correspondência para a América e não quero que eles pensem que sou um putanheiro analfabeto.

Portanto, portai-vos mal e ide à missa...

2 de mar. de 2008

A pedido de várias famílias...

(sem ordem definida)

- Hong Kong Stomp – Legendary Tiger Man

- She Said – Jon Spencer Blues Explosion

- The Night – Morphine

- King of Nails - Sparklehorse

- Quebramos os dois - Toranja

- Deadend Mind – Madrugada

- Flyswater – Eels

- The Widow - The Mars Volta

- Friend is a Four Letter Word – Cake

- After Dark – Tito & Tarântula

- Vertigogo – Combustible Edisons

- Verdes Anos – Carlos Paredes

- São Paulo 451 – Belle Chase Hotel

- Wicked – Ben Harper & the Blind Boys from Alabama

- Unbelivable - EMF

- Play the Blues - Danko Jones

- Gumes - Mão Morta

- Mary Jane's Last Dance - Tom Petty & The Heartbreakers

- Alice - Tom Waits

- Majesty - Madrugada

- Where is my Mind - Pixies

- Two Shots of Happy, One Shot of Sad - Nancy Sinatra

- Back to Black - Amy Winehouse

- Poesia - Maldoror, por Mão Morta

- Utopia - Goldfrapp

- Slave - Spiritual Front

- Never leave lonely alone - Ben Harper

- Flutuo - Susana Félix

- Godless - Dandy Warhols


Continua...



27 de fev. de 2008

s/ título

Claro que a aparência conta! Senão os bolos nunca chegariam inteiros à mesa!


16 de fev. de 2008

Depois de perder a virgindade só mesmo...


- Um remake do Esquadrão Classe A, a realizar por Tarantino;

- A ASAE a fechar os supermercados de droga;

- Um Julgamento de Nuremberga para a administração Bush, por crimes contra a humanidade.

- A Verdade para nos exorcizar a Publicidade;

- A pena de morte para o gajo que põe os sinais em Paços de Ferreira.

- Um remake do V for Vendetta, a realizar pelo David Fincher

- Um mês de férias com a ASAE na Índia


Continua…

8 de fev. de 2008

Fama

Para mim a fama é isto: - Eu partilho o que faço. No dia em que me começarem a exigir mais do que aquilo que me calha ou apetece, falamos das contrapartidas.

31 de jan. de 2008

Pomares

...

Acordamos no pomar

E alguém correu logo a fazer um braçado de fruta

E o outro atrás construiu uma cabana com a madeira da árvore

E negociou-lhe a fruta com abrigo

Que venderam para comprar fogo de artifício

E encher de cor os olhos

De quem ficou com fome.

Esforçaram-se muito,

E estudaram o comportamento das pessoas

Para lhes dar mais do que fogo de artifício e menos fruta,

Mais palavras e uma nova religião

E menos pão.


Mas houve quem não achasse isto bem

E subiu a uma das poucas árvores que havia

E falou ao povo.

E o povo como estava com fome ouviu o que lhe pareceu

E foi todo em debanda e euforia

Buscar mais do que lhe cabia.

E na cabana do que deitou abaixo a árvore

Ficou a reinar o homem que as subia.

O homem envelheceu

E ficou a governar a família.

Cedo o mais velho dos filhos fez conta

De tomar como seu o que de todos foi um dia.


Eu,

Sem espelho por dentro para aquela ideologia,

Fiz-me ao monte a ver se lhe fugia.

Mas vieram taxar-me o promontório

Por estar nos limites do território.

Como eu não uso dinheiro

Fiquei sem terra, sem casa, sem quinteiro.

Levaram-me as galinhas e os patos

Calaram-me com paus as cobras e os lagartos.

Sem víscera firme para me ter desalojado

Ou gratidão perene em ser transladado,

Fiz-me viajante de um tempo adiante…

Mas era sempre o mesmo fado,

Um carrossel de arrumar a trouxa vezes sem conta

E desaparecer no eixo do outro lado.

E mal se ouvia aquele bruaá da banda

Eu dizia para comigo: - “Anda!”

E andava…


Já velho,

Sem recobro nem esperança,

Ou botas de um amanhã com devir,

Vejo taxarem-me o planeta,

Como se fosse possível mudar para um cometa

Onde a vida fosse em si uma vitória

Sem capítulos de comprar cada uma a sua história.

Choro ao ver que a humanidade assim se fulmina

E chamam-me, a rir, poeta…


...

30 de jan. de 2008

geração Rasca

Antes "Rascas" que ser
o orgulho dos meus pais,
que os velhos da minha idade
ainda que iguais,
são mais parecidos com meus pais
do que eu sem liberdade.

MacamBúzio

Mesmo assim, podes chamar-me por um búzio
mas não uses o telefone.

A Filosophia da Real Faca

De Vespeira Sangue dizia:
"A uma bela dama
que passe pela minha cama
eu ofereço a minha filosophia".

Ninguém realmente o conhecia
e todo o corpo feito
que se alongasse no seu leito
não mais via a luz do dia.

Argumento

Vivemos em Democracia só porque se vota livremente?
Até o travesti se parece com a mulher!
"Poupar-vos-ei ao relato atribulado a que, por circunstâncias meramente fortuitas, me tornei geladeiro e, pouco a pouco, me fui devotando ao meu ofício.

Sou um Homem de Paz!

Um dia, quem sabe, ser um criminoso, um proscrito em permanente rebelião contra uma lei social cega e aberrante. Não sei. Sei que nunca poderia ser político! Engrossar o cortejo dessa corja que põe e dispõe do ser humano, guiando-o para um devir cada vez mais favorável à condição de rastejante..."

ln "Comédia de Deus", de João César Monteiro


13 de jan. de 2008

Reunião

Voltamos a reunir a turma de liceu. Apareci lá para rever uns camaradas e conversar. Mas sai-me sempre a mesma rifa deprimente: os meus comparsas sem brilho nos olhos, integrados e com filhos no colo; as moças exibindo os seus andores e a digladiar sucessos como nos filmes americanos de um domingo à tarde. Neste conjunto, sobra pelo menos um adolescente. Porém, a solidão, ainda que na ventura, é comparável a uma refeição gourmet num rail de autoestrada.

s/ título

Não me importam as certezas.
São como os amores consumados:
arrumados na extinção.