22 de mai. de 2008
Para onde o sol nasce
Ás vezes penso se os pontos cardeais para onde estou virado influenciam a minha escrita, a inspiração ou, como me gosto de lhe chamar, a ausência de bloqueio. Tenho a impressão que ergo mais taças virado para nascente. É um facto que as despejo com mais vigor tombado para Oeste. Não sei se fornico melhor para Norte ou para Sul mas, agora que penso nisso, seguramente fará mais sentido virar-me para onde o sol se levanta, aproveitando o movimento de rotação da terra para cofiar o pêlo com o seu pente de luz.
No meu novelo ensarilhado estas coisas fazem sentido. Até porque as leis da natureza nos confrontam com a sua gravidade. Gaudi percebeu isto a tempo e inverteu o esquema com a nobreza nua de quem não precisa de um espelho para se questionar. Já a carroça que o atropelou devia vir a pensar na morte da bezerra quando lhe saiu ao caminho aquele cordeiro de deus…
Isto é capaz de ter seguimento…
10 de mai. de 2008
Fogo natural
Uma fogueira de inconstância que aquece os pés ao desejo.
O meu fogo, enquanto labareda, apagou-se.
Aquilo que os meus amigos pensam ser o calor do meu afecto
É, tão só, um remoinho revolto de cinza
Num braseiro condenado.
Manifesto
Estou farto que me digam que eu não vou mudar o mundo! Porque eu não o pretendo mudar. Quero só canalizar um pouco mais de vinho e menos filhos-da-puta para os meus lados. Quando ouço falar da crise dos mercados, da economia e dos cereais, arrepiam-se-me os pêlos do cu. Estes gajos mudaram o mundo a seu bel-prazer, fizeram merda atrás de merda, encheram os bolsos com indemnizações chorudas e ala moleiro que me vou para onde o sol brilha. Dizem adeus ao mundo badalhoco, que nunca se iria emporcalhar com as suas fábricas virtuosas de emprego, e agora bebam a água do esgoto ou comprem-na aos bidões. E adieu para a ilha dos amores estufar sereias…
28 de abr. de 2008
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29 de mar. de 2008
Saí de casa a cheirar os braços
Saí de casa a cheirar os braços. Isto de trabalhar num talho tem que se lhe diga: ou a gente se lava bem com sabão ou corre o risco de estar a ser lambido e ser esfregado num elogio qualquer de macho (elas distinguem bem o cheiro de rosas do perfume das barras de sabão-rosa desfeito em navalhadas). Eu é que não sei se a Victoria Secret’s já lança sais de banho, já a lingerie faz os seus brilharetes, especialmente em orgias. Sou pobre como uma puta de jet set, mas cheio como um cão sem pedigree, rafeiro, vá, mas orgulhoso como um político no poder… Pelo meio, acho que me perdi…
Saí de casa a cheirar os braços e meti-me à boleia à porta de casa. Pedir boleia nos dias que correm é muito mais difícil. Hoje, quase só os drogados pedem boleia e, como eu bem compreendo, ninguém se quer arriscar. Não uso telemóvel. Eu sei que é turrice minha, até porque tenho perfil no hi5, logo extraia-se daí qualquer mensagem política anti-globalização ou a puta que a pariu…
Bom, agora é que é! Saí de casa a cheirar os braços, apanhei boleia com uma gaja deprimida que gostava de Pearl Jam e que tinha muito a perder se a polícia nos fizesse parar. Acabamos no mesmo café a beber finos e a comer rissóis e torradas. Eu, rissóis e ela torradinha de todo. Mas não fui capaz! De manhã acordei a ser petiscado…
A metamorfose da carne faz-me sempre pensar, até porque já eram horas de abrir o talho.
Ela nem era nenhum monumento! Até porque os monumentos são para ser admirados e não para ser fodidos (se bem que eu já mijei nos pés de belas estátuas). Mas marcou-me por foder com gosto. Não é todos os dias que alguém se dá por completo, com alma, como um animal (que supostamente a não têm). Merece respeito? Claro que não! – pelo menos durante o sexo. Já cheio de sono, e com um formigueiro de envergonhar o açúcar, combinei-lhe os ingredientes do frigorífico, ao som do “crazy” dos Aerosmith, num pequeno-almoço. Adormecemos abraçados, com o corpo rendido e a alma reconfortada. Deixei-lhe um beijo na cara e a almofada, onde ela se deita, cravada deles, e um recado a dizer coisas que não se dizem. E saí de mansinho a cheirar os braços…
6 de mar. de 2008
carne verde
Acabamos a gostar do mesmo.
Um abraço na manhã que vem fria
E espanta o sonho da noite feito ilusão.
De manhã a carne é de uma brancura
Que dura de tão verde
O desejo.
Acende-se a luz porque me deito
E berram-me buzinas a dormência.
Falta-me a vontade infantil de querer acordar
Para me cumprir.
Fugir errando
Um passeio de bicicleta por um ninho de luz que atordoa
Ser criança
Por montes e serranias
Errando em prol da liberdade. Um valor
Sem propriedade.
Mas nós não devemos querer assim tanto
O passado de ter sido só as pedras dos montes
Que passam despercebidas.
Quero andar pelos campos como um vento tresmalhado.
Prefiro, em vez dos homens, o abraço de um espantalho
Semear a minha solidão
Não como uma doença velada
Ou por dentro arrependido como uma procissão inventada.
Quero cumprir-me antes num campo de criação
Do que ser um rótulo de cristão ou outra coisa pobre na imensidão
Mas fica-me sempre na boca um gosto de blasfémia
Amarga. A fazer de boa.
Se existe um Deus que pune
Deve haver um outro que reúne.
Como uma mãe que tudo perdoa.
Sinto culpa e culpo a religião.
Até podia ser padre de uma outra profissão
Mas nunca traficante do coração.
Apresentação
Por insistência do Sr. Mal, eis-me aqui a partilhar convosco um Olá! Sou o Menino de Talho! – Bonito nome me puseram, esses filhos-da-puta! Não me agrada nada falar de mim. Não tenho curso superior nem inferior. Trincho carne! Para que não restem dúvidas, a melhor parte da peça sou eu que a como. A minha faca tem a grandeza de um Nietzche que divide. Os cães olham-me de soslaio e odeiam a minha bata branca como a um chinês com lojas.
Gosto bastante de foder mas não procuro amor algum. Ás vezes até vou ás putas. Divido o suor do meu trabalho com a higiene cuidada de quem se lava em perfume: é uma troca.
Portanto, portai-vos mal e ide à missa...
2 de mar. de 2008
A pedido de várias famílias...
(sem ordem definida)
- Hong Kong Stomp – Legendary Tiger Man
- She Said – Jon Spencer Blues Explosion
- The Night – Morphine
- King of Nails - Sparklehorse
- Quebramos os dois - Toranja
- Deadend Mind – Madrugada
- Flyswater – Eels
- The Widow - The Mars Volta
- Friend is a Four Letter Word – Cake
- After Dark – Tito & Tarântula
- Vertigogo – Combustible Edisons
- Verdes Anos – Carlos Paredes
- São Paulo 451 – Belle Chase Hotel
- Wicked – Ben Harper & the Blind Boys from Alabama
- Unbelivable - EMF
- Play the Blues - Danko Jones
- Gumes - Mão Morta
- Mary Jane's Last Dance - Tom Petty & The Heartbreakers- Alice - Tom Waits
- Majesty - Madrugada
- Where is my Mind - Pixies
- Two Shots of Happy, One Shot of Sad - Nancy Sinatra
- Back to Black - Amy Winehouse
- Poesia - Maldoror, por Mão Morta
- Utopia - Goldfrapp
- Slave - Spiritual Front
- Never leave lonely alone - Ben Harper
- Flutuo - Susana Félix
- Godless - Dandy Warhols
Continua...
27 de fev. de 2008
16 de fev. de 2008
Depois de perder a virgindade só mesmo...
- Um remake do Esquadrão Classe A, a realizar por Tarantino;
- A ASAE a fechar os supermercados de droga;
- Um Julgamento de Nuremberga para a administração Bush, por crimes contra a humanidade.
- A Verdade para nos exorcizar a Publicidade;
- A pena de morte para o gajo que põe os sinais em Paços de Ferreira.
- Um remake do V for Vendetta, a realizar pelo David Fincher
- Um mês de férias com a ASAE na Índia
Continua…
8 de fev. de 2008
Fama
31 de jan. de 2008
Pomares
Acordamos no pomar
E alguém correu logo a fazer um braçado de fruta
E o outro atrás construiu uma cabana com a madeira da árvore
E negociou-lhe a fruta com abrigo
Que venderam para comprar fogo de artifício
E encher de cor os olhos
De quem ficou com fome.
Esforçaram-se muito,
E estudaram o comportamento das pessoas
Para lhes dar mais do que fogo de artifício e menos fruta,
Mais palavras e uma nova religião
E menos pão.
Mas houve quem não achasse isto bem
E subiu a uma das poucas árvores que havia
E falou ao povo.
E o povo como estava com fome ouviu o que lhe pareceu
E foi todo em debanda e euforia
Buscar mais do que lhe cabia.
E na cabana do que deitou abaixo a árvore
Ficou a reinar o homem que as subia.
O homem envelheceu
E ficou a governar a família.
Cedo o mais velho dos filhos fez conta
De tomar como seu o que de todos foi um dia.
Eu,
Sem espelho por dentro para aquela ideologia,
Fiz-me ao monte a ver se lhe fugia.
Mas vieram taxar-me o promontório
Por estar nos limites do território.
Como eu não uso dinheiro
Fiquei sem terra, sem casa, sem quinteiro.
Levaram-me as galinhas e os patos
Calaram-me com paus as cobras e os lagartos.
Sem víscera firme para me ter desalojado
Ou gratidão perene em ser transladado,
Fiz-me viajante de um tempo adiante…
Mas era sempre o mesmo fado,
Um carrossel de arrumar a trouxa vezes sem conta
E desaparecer no eixo do outro lado.
E mal se ouvia aquele bruaá da banda
Eu dizia para comigo: - “Anda!”
E andava…
Já velho,
Sem recobro nem esperança,
Ou botas de um amanhã com devir,
Vejo taxarem-me o planeta,
Como se fosse possível mudar para um cometa
Onde a vida fosse em si uma vitória
Sem capítulos de comprar cada uma a sua história.
Choro ao ver que a humanidade assim se fulmina
E chamam-me, a rir, poeta…
30 de jan. de 2008
geração Rasca
o orgulho dos meus pais,
que os velhos da minha idade
ainda que iguais,
são mais parecidos com meus pais
do que eu sem liberdade.
A Filosophia da Real Faca
"A uma bela dama
que passe pela minha cama
eu ofereço a minha filosophia".
Ninguém realmente o conhecia
e todo o corpo feito
que se alongasse no seu leito
não mais via a luz do dia.
Um dia, quem sabe, ser um criminoso, um proscrito em permanente rebelião contra uma lei social cega e aberrante. Não sei. Sei que nunca poderia ser político! Engrossar o cortejo dessa corja que põe e dispõe do ser humano, guiando-o para um devir cada vez mais favorável à condição de rastejante..."