20 de dez. de 2011

Búzio de luz

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O meu sol é a memória de uma janela com luz
A que um búzio de calor assobia…
E entra pelas frestas de frio como um aquecedor ventilador de baixa potência
Ou um prisioneiro que se traz moribundo…

O meu sol é terno!
Faz sentido quando chove
E tropeça no céu como as crianças…

O meu sol é manco como uma criança deficiente
Desfilando de muletas na festa de Natal da escola,
Fazendo toda a gente chorar…

O meu sol gravita à noite, a esconder-se da lua,
E mija-se a rir contra os muros da errância…

O meu sol é um doidivanas que lava as mãos
E se deita em conchinha
Quando o outro se levanta…

O meu sol é negro e ri-se disso!
Mas abraça as nuvens
E raia-se no cabelo escuro delas…

Tenho, à custa do meu sol, marcas nos ombros,
Gotas sinceras de ácido clorídrico a escorrer-me no peito…
Almas doridas como tatuagens
E um jeito de lamber lágrimas que a ninguém arranca infelicidades
Mas que faz sorrir,
Porque é tosco…

O meu sol é uma fogueirita de Novembro que não dá nem para assar castanhas.
Mas o meu sol é só meu!
É meu!
Inventei-o porque não existia
E quase morri sem o ver…


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19 de dez. de 2011

a casa

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a casa
aberta ao Inverno
,sem medo da chuva e o cigarro entre os dedos,
Conta-me que os dias
são apenas brinquedos.

Pela sua porta entro com alegria e um princípio de medo.
Nas sombras da luz,
Há sempre um segredo.

Atam-me à casa uma correria de crianças.
Soa a dança de um salão,
Cheira a terra molhada e tarte de maçã.
Há um sono de gato num sofá.

No cabide da entrada
Penduro o cansaço
Inspiro fundo
suspiro profundo
E avanço no espaço.

Escorre magia líquida pelos salões.
Os velhos ensinam os novos
A arte de ver,
Pelos olhos de outras televisões.

Vejo relógios: são casas abandonadas
Pelas horas que brincam lá fora
aos cavalos selvagens.
Ninguém as chama para dentro,
Nem para almoço, nem para jantar
Nem para dormir, nem para acordar.

Percorro tudo
Com passos delicados
Como quem teme
Que o resmungar do velho soalho
Me desperte de um sonho.

Encontro na cama de um quarto
Uma mulher nua com quem me pareço
Dispo-me e deito-me
Amo-a e adormeço.
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16 de dez. de 2011

Dia

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Acordo sempre nu.
Não há tecido que me pese
No desdobrar dos dias.

Em cada despertar
Choro
Como quem quer respirar.

Abro a janela.
E o mundo
É. para mim.
Harmoniosa dissonância
Escondendo seu fim.

Navego o dia
Com q.b. hipótese de naufrágio.
Torpe jangada de poesia!

Pelo descaminho
Descubro ilhas desertas
Onde me ecoa a voz,
E territórios povoados
Onde a vida não tem nós.
Sou em multiplicidade…
adulto criança velho
aldeia vila cidade.

À noite creio que adormeço.
e morre uma borboleta ou uma simples traça.

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15 de dez. de 2011


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I wish I was a rock star,
Sliding trough the bright lights
Just for a bigger fall…








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14 de dez. de 2011

Bonjour tristesse

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A tristeza acordou com a fome
De quem esteve a hibernar
Lambia-lhe os ouvidos
um mundo cão a definhar

Caminha pelos dias
A quem chama de compridos
Entre as horas ajoelhadas
Para a esmola dos mendigos

Educada por boas famílias
Cumprimenta todos na passada
Os que vêm no seu sentido
E do outro lado da estrada

Muitos lhe dizem boa noite
E bom dia pela manhã
Aos que não a cumprimentam
Ela diz “até amanhã.”

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13 de dez. de 2011

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Não explico os meus poemas ou o que escrevo!
Ainda que eles sejam óbvios, não faria sentido. Posso, se quiserem, explicar-vos o caminho que fiz: as íngremes ruas que desci com pés de marioneta ou subi arrastado por fios de linho e néon…

É diferente o rio Douro quando nele se vê um abismo possível ou a luz que ele serpenteia à noite se vê do chão com um pé na cabeça. A beleza dele não enche de lágrimas quem nele se viu quase assassinado por animais semelhantes. Talvez as ruas de Paris, de Montmartre, gozem também desse romantismo sobre-humano de procurar na errância uma cura para a dor. Uma dor que inventa braços para se doer mais e mais longe e que, quase sem querer, abraça o mundo.

De que valeu a Van Gogh ter cortado a própria orelha? De que valeu ao maior génio da história universal ter feito a si um mal ainda maior? Morreu! Estupidamente (talvez) no seu mundinho fechado, pedindo a Deus perdão por ser quem era, fustigando-se (talvez) por nunca ter conseguido abrir as pernas a uma prostituta que ele amava e onde queria sepultar todos os beijos…
Talvez!

Confiai em mim quando vos digo que o maior génio da humanidade morreu incógnito! Que o mais pacífico dos homens morreu sem prémio Nobel, ou a saber o que isso era! Que o maior fodilhão da história sofria por isso e não se gabava…

Que o melhor escritor era analfabeto!
E não sabia como, numa leira de terra, ajoelhar as suas sementes…

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12 de dez. de 2011

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Fui apanhado a fazer amor
À luz do dia!

Que querem?
Gosto de amor com a luz acesa
E odiar no escuro…


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29 de nov. de 2011

Mãos que demos

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Mãos que demos quando ambos
Éramos eu à janela, tão por nós a sentir…

Tomando o sol por um deus que eu desenhava a querer que existisse, e adorando aquele bem como um luto perpétuo que, ao fim da tarde, me vinha lamber as lágrimas.

Era criança! E era livre, quando às crianças se permitia serem livres e ignorantes e, no meu caso, ir de bicicleta até onde pudesse ver de longe a casa da menina por quem eu queria morrer!

Três beijos. Roubei-lhe três beijos!


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28 de nov. de 2011

Os cães ladram lá fora

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Os cães ladram lá fora.
Fazem um barulho ensurdecedor.
Eles não têm mais que quatro patas,
Eu não tenho mais que meio amor.

E meio amor é como nada!
É o realizador embriagado a ler o guião.
Sozinho e sem actores,
O take estala e cai no chão.

Corta...

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26 de nov. de 2011

Sol de Outono II

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Sob o ouro do Outono
Vejo que a minha vida
é uma sombra esticada a lamber o chão.
(Persegue a própria perseguição)

Estou cansado de me remoer.
Corro
Até que o destino me olhe cansado
ofegante como um cão
desde o fundo da rua.

Paro.
Recupero fôlego nas sombras frias de pedra
onde se dilui a razão
(Na outra margem acena-me a paz – nua.)

Sinto-me.
Eu. Sou só eu outra vez.
A vida seguiu a sua vida.

Ainda assim.
Não me sossego
e dentro busco como cego
minha porta da saída.

Porta de entrada
no meu sonho intangível
de existir por entre as coisas
na quietude do invisível.

24 de nov. de 2011

Sol de Outono

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Na proa da alma
Embatem ondas de luz
(Tempestade de sol outonal)

No paraíso que se fez hoje
O sagrado banha o banal.

Navego dia dentro
Num pacifismo drogado
Veja a beleza sinuosa       esgueirando-se
Atrás do futuro
Atrás do passado

Agarro tudo ao nada querer
Beijo
O novo dia a nascer.

E adormeço na tarde de um muro
Onde me sonho eterno viajante  
De mochila calções e bibe

Vou dentro de um comboio
Com a vida a fazer-me companhia

Conta-me uma lengalenga aborrecida
“Será sempre presente
Até envelheceres
Até morreres
E voltares a nascer
…
Para voltar a morrer
E nascer
E morrer
E nascer
E morrer…”

E conta-me que “Só se vive uma vez.”
Convido-a, sereno,
A sair na próxima paragem.
Ela diz-me que não pode sair sem mim
e só resta uma estação.

23 de nov. de 2011

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Um copo de vinho bom e um aquecedor metálico, daqueles que parecem cortinados de tiras; por cima, um tacho de água com folhas de louro para purificar o ar – um truque aprendido com um desses génios vivos que ainda dão entrevistas e fumam muito. O resto é rotina. Escrever como se amanhã só cá estivesse um resto de mim, uma pele de gordura amarela e uns bons quilos de carne que será uma pena não dar frita para um canil. Que fazer? Nem essa última vontade me respeitam! Que belo e macabro cenário! Os seres humanos frios de terror, os cães de barriga cheia, lambendo o focinho, serenados a um ninho como pequenas jiboias. E eu, como agora, rindo-me sinceramente. Num fungo, primeiro. Em vários fungos depois, até me abrir numa gargalhada larga que daria por certo às costelas um tempero especial…

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22 de nov. de 2011

Em resposta ou sublimação do post "Era um país sem gente que por isso não era um país mas um deserto abandonado..."

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Pois é, meu caro amigo. Bem precisávamos de uma juventude activa, não só para trabalhar ou ser o motor da sociedade, mas para ser também o coração dela. Esse foi sempre o seu papel mais relevante – ser o coração! Confrontar os mais velhos, exigir deles a humanidade que o tempo lhes parece roubar. Um filho adolescente quer-se revolucionário, defensor de causas, quer-se indignado contra a guerra e a fome no mundo, quer-se solidário para com os mais desfavorecidos. 

Com o chamado ‘fim das ideologias’ (esse chavão agrilhoante à defesa de nada e à sujeição a tudo) e os ‘estímulos à competitividade’ como género de virtude (a promover quem melhor trepa pela coluna dos outros) não é de estranhar que os jovens se sintam perdidos. Porque estão. Estão os jovens e estão os adultos. Também eu me sinto perdido e mais perdidos se sentirão aqueloutros cuja ‘competitividade’ atirou para o caixote dos iogurtes em fim de prazo ou fora de validade.

Não, amigo, não és Jonh Lennoniano! O mundo é que deixou de ter coração para a música! Como tu disseste (e muito bem!) “com a economia em cima a empurrar tudo para baixo” e a meter num trolley para despachar. Não fomos nós que desgraçamos o nosso país e o mundo, ainda que nos façam sentir isso. Meteram-nos num jogo de Monopólio com promessas de prosperidade e fortuna e todos achamos muita piada aos dois contos de passar na Casa Partida. Ficam-nos aos poucos com a Companhia das Águas e Electricidade, com as Estações e não falta já quem deseje uma saltada à Cadeia para se redimir de males maiores. Quando lhes pedimos satisfações sobre o jogo, dizem-nos que é preciso fazer sacrifícios, que foi preciso ter Sorte. Queremos mudar de jogo e não pode ser. Agora é preciso ir até ao fim! Chegamos ao fim. Basta deste jogo! Falimos, perdemos, ok. Vamos mudar de jogo! Não dá. Isto afinal não era um jogo. Perdeste tudo, vais continuar a perder, mas ainda é preciso amealhar-te esses dois contos de renda de cada vez que passas na Casa Partida. Estás mesmo chateado e queres sair daquilo. Não podes. Vendeste a alma ao diabo e não há nada que te deixe saltar daquele vagão infernal! A não ser que…

… 99% dos jogadores se canse a sério e diga: “Ok, ladrão, passaste-nos por cima de todos os valores e, por isso, vamos dar-te o último privilégio de nos poderes chamar caloteiros para o resto da vida. Estás mais rico do que alguma vez sonhaste, banha-te nisso! Mas não vamos mais jogar o teu jogo!” 

Depois disso, é preciso começar do zero. Unirmo-nos como uma família, trabalharmos cada um 8 horas por dia e, dessa riqueza ajuntada, ir pondo de lado um dízimo que sustente o que, por nós próprios (como seres humanos e não como números!) somos incapazes de providenciar. E isso, como nos ensinou Agostinho da Silva, é Saúde, Sustento e Saber. Eu acrescentaria a esses três ésses - a Justiça. Mas Justiça a sério, daquela cega que não levanta a venda para piscar um olho; Saúde porque não podemos todos ser médicos e enfermeiros de nós próprios; Sustento porque seremos um dia velhos e precisaremos de comer na mesma. Sustento também pois que adversidade aí virá? Não sabemos. Que catástrofe natural nos levará num lanço de vento a casa e a roupa, a comida?; Saber porque não somos suficientemente capazes de, por nós mesmos, inventar o que é preciso ou ensinar aos filhos tudo aquilo que eles queiram aprender para fazer. Por muito que o quiséssemos, por muito cultos que fossemos, nunca seríamos capazes de lhes ensinar todas as artes e profissões. Quando muito, ensiná-los-íamos a ser o que nós fazemos ou quisemos ser.

Quanto ao resto, temos que descentralizar o sistema e restaurar o espírito associativo. Privilegiar a honra e valores como a dignidade e o respeito pelo próximo (trabalho hercúleo, sobretudo caseiro).

É utópico? Bem sei que não. Utópico é continuarmos a manter um bando de pançudos monopolistas que nos cobram 3 euros por cada voto, por ano, mentindo-nos com quantos dentes têm mais um saco de próteses, e chamando a isso Democracia! 

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Era uma vez um país sem gente que por isso não era um país mas um deserto abandonado...e só (sobreadjectivação pleonástica à moda de Paulo Portas).

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Escrevo numa tentativa de desprender um nó de garganta, talvez até com mais coração que cabeça, embora não considere patético o que quero dizer.

Eu, como muitos, cheguei a um ponto na minha vida em que quase tudo me “força” a emigrar: “vai enquanto és novo, se eu não tivesse tanta coisa a prender-me também ia”. Diariamente vejo gente que vai, e gente que já está a preparar as malas. Eu como tantos outros não consigo encontrar trabalho nas áreas que gosto, e vou-me sujeitando ao que há, enquanto luto pelo que gosto. Num país que parece não perceber o real significado de educação, cultura, saúde, justiça. E a economia em cima a empurrar tudo para baixo. É provável que eu também chegue a emigrar, chamar-lhe-ia antes, escapar-enquanto-é-tempo. Porque isto está a desabar, e eu a desabafar. No entanto devíamos todos estar imensamente preocupados. Teremos consciência de que se não lutarmos para motivar a nossa camada jovem recém-formada, teremos destruído todas as reais hipóteses de mudar o estado da nossa terra? Não é pela formação como facto isolado, é pela sua aliada juventude… perdida, sem voz, sem revolta séria ou gestos calados que mudam coisas. Porque é essa geração que tem a maior fatia de mudança possível. A população cada vez mais envelhecida sem dinheiro e sem energia, as cidades e vilas cada vez mais envelhecidas, vão precisar da reforma as pessoas e os lugares. Quem está reformado vive do que descontou e sabemos que é real o risco das reformas minguarem até descerem ao estatuto de esmola. Uma esmolinha para quem descontou a vida toda, dada como se fosse a um cão. Pois para que tal não aconteça é necessário que uma nova camada de trabalhadores activos exista.



É tão simples como isto, e não sei para que me alonguei tanto:

Se formos todos embora, Portugal ficará ao desbarato, enquanto todos continuam calados à espera que a crise passe, como se fosse uma questão de metereologia. A crise não passa se não for encarada como mudança feita por homens, e mais mulheres. Mas não há sinais reais de mudança. Os políticos acusam o nosso consumismo, sabendo no entanto quanto das suas politicas nos enredou nisso, enquanto os comerciantes acusam a nossa falta de consumismo.

Sei que o problema é sério, que resolvê-lo é difícil, e que estamos todos cansados. Sei que pareço um pouco John Lenniano ao pensar numa união que mudará tudo, mas caramba não é o país que não presta, somos nós que não o estimamos. Se for tudo para o Brasil, Suiça, USA, Luxemburgo, Inglaterra, Angola…Portugal fica sem gente, como já aconteceu no passado e teve consequências desastrosas, quando o país quis ser o mundo inteiro e ficou sem gente suficiente para tornar a sua terra de origem operativa e sustentável.

É preciso ideias… é um facto. Só nós é que podemos encontrar e materializar é outro. Para as materializar é preciso ser muito forte e passar por cima de muita merda é também um facto. Parece-me também um facto o facto de que as coisas só mudam se houver gente interessada nisso. Não são certamente os actuais donos do poder, pois em breve esses terão a sua reforma assegurada, e que reforma, ou um alto cargo numa empresa, e porque será que isso acontece todos sabemos. É uma pescadinha de rabo na boca que só nos podemos cortar a meio.

P.S. (post scriptum entenda-se) Por favor deixemos de fazer comentários do tipo: “eu não percebo nada de política, porque não me interessa para nada”, como se fosse uma virtude. Pode não ser defeito, mas seguramente não é nenhuma virtude, até porque parece-me que só torna as coisas mais fáceis a quem se aproveita delas para nos roubar.

P.P.S. Isto não é uma crítica a quem emigra, eu sou o primeiro a ponderar o mesmo, é antes um desabafo, uma vontade de que nos ajudemos a encontrar soluções, antes que todos escapemos-enquanto-é-tempo.

24 de out. de 2011

Ultimate Sex Power Fest III - La Revolución

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Ultimaters:

Breve chega o nosso Dia!

Bem sei que me tomáveis absorto e distante, silencioso. Foi, não sem preocupação, que me víeis relaxado, tomando aquele que muito bem poderá ser o último Porto de um homem livre antes da guerra…
Mas no espírito de um homem de paz, serenado em beleza à proa dos elementos, habita um outro que se não bebe de sol poente, e para quem o ribombar das ondas prenuncia apenas terra firme… onde contra as pedras melhor se esmaga o crânio inimigo.

O nosso mundo foi tomado por ditadores sem rosto! Invasores que espargem sobre a nossa honra, sobre os nossos valores e convicções, um medo com sabor a chocolate. E há, ainda, neste mundo onde chegamos quase a ser felizes quando nos aprontávamos para despir a máscara das roupas, numa entrega genuína ao amor-livre, traidores. Traidores, sim. Há entre nós traidores que respondem ao gesto elegante dessa vil assombração com luvas de general que, na sombra, cofia o pêlo a um gato siamês.

Não é mais tempo de refrear os nossos ímpetos! Não é mais tempo de viver a correr e trabalhar dobrado, custeando ad eternum o dízimo recolhido em bandejas de prata por esse falso e fraudulento semi-deus.
Por que razão ou ventura haveríamos nós de sufragar uma vontade que nos esmaga os ossos? Mas por que razão (ou falta dela) haveríamos nós de conceder a um líder, material ou espiritual, o tamanho êxtase de propalar a sua utopia, se nem com a sua presença ele nos paga a solicitude? É falso este profeta – digo-vos eu – É falso este profeta como o são as acusações que me dão por meio tarado. Sou tarado por inteiro! E há na minha confissão uma vontade assumida que todo o ser humano seja tarado também. Mas não por obrigação. Não por um ‘ter de ser’ que esvazia o saco ou os bolsos, mas por um prazer que nos enche a alma de contentamento.

Estou em guerra, irmãos, mas breve chega o nosso dia!

E o nosso dia é 12 de Novembro. Reunir-nos-emos em Magna Assembleia no Restaurante Tongobriga, no Freixo, mesmo em frente às romanas ruínas onde, séculos antes, se reuniram em banhos públicos homens e mulheres com vontades mais elevadas do que simplesmente esfregar o sarro dos sovacos.

Encontremo-nos. Festejemo-nos…
Façamos jus a uma verdade em que toda a gente acredita e, talvez aí, possamos encontrar o antídoto para esse mal que se não identifica!

Juntem-se a nós os espiões, as divas sensuais e os aviadores sem soldo; a Resistência francesa e a francófona, a italiana, a polaca, a espanhola; os heróis libertários, os poetas de pistola e cartilha à cinta; soldados, os bastardos inglórios, as enfermeiras da Grande Guerra que tão bem cuidaram dos homens como se fossem os seus; os vilões – juntem-se a nós também os vilões – pois que um vilão único não deixa espaço aos restantes…

Juntemo-nos porque o frio voltou e o tempo é de União!
Juntemo-nos, pois quem por nós temos que por nós faça a Revolução?

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20 de out. de 2011

meio mundo a foder meio mundo



Anda meio mundo a foder meio mundo
Mas lá longe, bem lá ao fundo
Há meia dúzia de vagabundos a observar
Com olhos que teimam em brilhar.

São Homens nus
Que escondem no seu corpo um país
Onde ainda se pratica o verbo amar.

Estão-te a chamar!
Se com o cerrar dos teus olhos
Meio mundo conseguires engolir
Vais ouvir!

É o chamamento dos que lutam
para rasgar as roupas caras
de um tempo travestido de dinheiro.

Estão aí para te ensinar
A apaziguar
O desespero com que
Em diárias transfusões sanguíneas de alegria
Te transformas em refresco para cus
De mal disfarçados Belzebus

Grita a esses Homens nus lá ao fundo
que queres ir com eles
Antes que dobrem a curva do mundo.

Grita caralho!

Grita até sangrar!!!

Grita….

 antes  que…o des

     pert 

 a dor

         toq

ue pa    ra ir     es

            tra

          b

             alh

                   ar…

18 de out. de 2011

No meio dos montes que ardem lá atrás

Multiplicam-se:
os cães que tentam morder a própria cauda,
os salmões mortos na contracorrente,
as moscas contra os vidros.


e ao fundo ardem os montes
vítimas das pirómanas discussões
onde se nomeiam
os velhos heróis e os novos vilões


e fecham-se os dias
em círculos perfeitos,
sem portas entreabertas
que espreitem para dentro de nós, (clareiras),
onde pousem desiquilibrados corvos
num ramo de árvore que nos sustém.


e tudo parece minguar, mirrar, secar.
e tudo que mexe parece parar
no meio dos montes que ardem,
la atrás no meio de nós.

4 de out. de 2011

Amanhã de manhã será tudo menos meia-noite e cinco

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Amanhã de manhã
Será tudo menos meia-noite e cinco.

Os cães acordarão cedo para responder aos galos
E aos cães que respondem aos galos
E as galinhas dirão num pi chic pipipi medroso que tudo aquilo é insuportável
Para os seus pequenos corações.
É lamentável! – dirão – quem pode assim chocar garnizos?
Não há direito!

A isto não serão indiferentes os pássaros,
No seu bulício de fruta fresca nos mercados:
Que tanto resmungam estes animais? – dirão, e a mãe –
Vá, meninos
Toca a voar que isto de ser livre e riscar o céu
Já teve melhores dias!

Amanhã de manhã
Será tudo menos meia-noite e cinco.

Tu estarás acordada e sentirás por mim, talvez,
Uma inconsolável necessidade de amar
Se tiveres sonhado comigo,
Ou eu contigo,
E então serei eu com o que me resta de sensibilidade
A convencer-me da tua ausência,
A acordar chorando, estupidamente,
Como no fim de um filme que não foi a nossa história.

Amanhã de manhã
Será tudo menos meia-noite e cinco.

Começaremos tudo de novo:
Eu a acordar cheio de sono às sete e meia
E a escrever ideias soltas como:

Amanhã de manhã
Será tudo menos meia-noite e cinco.

…para às dez da noite pegar nelas
E dar sentido ao grande intervalo que nos intercala a vida e os dias
Porque é preciso ganhá-los,
Ainda que nisso eu encontre uma injustiça
Para a qual me falta ainda uma utopia.

E é por isso que, a pensar em nós,
Sem saber quem tu és,
Te digo:

Amanhã de manhã
Será tudo menos meia-noite e cinco.

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28 de set. de 2011

Escreve um livro, pá!

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Escreve um livro, pá!
Enlarge your penis
Mete silicone nas mamas
E posa para nós.

Masturba-te,
Enche-nos com o teu orgasmo num vidro de autocarro
Que depois arranque para ir trabalhar!

Escreve um livro, pá!
Suicida-te para nós.

…Nunca te esqueceremos!

Humilda-te.
Não és assim tão bom!
As tuas flores são bonitas, ok. -
Baudellaire escreveu melhor sobre elas –
Rimbaud foi mais longe…

Mas não desistas,
Continua!

Escreve um livro, pá!
Põe lá o nome que os meus pais me deram…

Não vais a lado nenhum,
És “muita parra e pouca uva”,
Um pseudo-qualquer-coisa que prometia…
Sai desse sítio. Tás sempre metido aí,
Viaja para seres como eu!

Deixa de beber, pá!

Não pegues nos meus filhos ao colo,
Metes-me nojo!
Vai trabalhar!

Tinhas tudo,
Tu tinhas tudo para ser grande,
És uma merda!

Liberta-te dessa merda e
Escreve um livro, pá!

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15 de ago. de 2011

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Agarro o mundo com mão disforme
E dedos tortos
Por ter desenhado muito.

Não toco piano!
Tocam algures pianos por mim
E quadros se pintam a si mesmos…

Fecho um murro encostado ao ventre
Sem saber o que ele significa.

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A Morte e Eu


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Faz hoje anos que a morte me deu uma tampa. Não amo desde então… por alguma razão. Apareceu-me hoje no bar, longe dos funerais onde trabalha como organizadora de eventos. Estava sozinha ao balcão. Disse-lhe olá. Ela recebeu-me com o afecto de quem está só ao balcão e à espera de alguém conhecido. Trocamos dois beijos.

- Está tudo bem?
- Está tudo!
- E a vida como vai?
- Vai andando!
- Que bebes?
- Vou pedir um uísque. Acabei agora de jantar e estou a precisar de fazer a digestão.
- Cardhu?
- Sim. – disse-lhe.
- Nunca cheguei a perceber porque gostavas tanto desse uísque…
- É suficientemente suave e não tem aqueles gargalos nojentos por onde parece que o uísque se mija para os copos.

Riu-se.

- Ah ah! Lembro-me muitas vezes de ti. Gostei sempre da forma como às vezes tornas uma coisa tão simples num glimpse, num vislumbre de poesia…
- Hum.
- A sério! – disse-me com a emoção de quem fala com propriedade – sempre achei piada a essa tua maneira de tirares um coelho da cartola quando já ninguém espera que tu faças magia… ou tenhas um chapéu!
- É… - disse-lhe embaraçado, sabendo que de nada vale mentir-lhe – sou assim! De tanto botar como os tubos de cola, alguma coisa acaba por agarrar alguém quando, da noite para o dia, a cola seca.
- Ehhh, que exagero!

Olhei-a de frente, nos olhos…

- Linda, a mim, não me restam dúvidas! Eu sou daqueles de quem se tem saudade quando o carinho falta. Quando, perante um beco sem saída, alguém precisa que eu apareça a fazer de rebocador para a avenida principal… como aqueles carrinhos de corda que dão estalidos em marcha-à-ré e se largam esbaforidos pela avenida principal enquanto a corda dura…

- E depois apareces tu… – disse-me com ironia!
- Não! Na maior parte das vezes, apareces tu…

E, virando-lhe as costas, fui pedir cerveja para o outro canto do balcão…

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