28 de abr. de 2010

Mergulho dos sentidos(continuação)

Enlaçados os corpos, as mãos quer de um quer de outro continuaram o frémito de uma mutua exploração.
Começou a despi-lo e a sentir a textura da sua pele que ardia numa febre de desejo . Perderam-se em caricias demoradas, pausadas, explorando cada recanto de pele, explorando cada beijo de mel arrepiante e vibrante. A cada toque era um latejar de sensações e inquietações... Os beijos sucederam-se por cada poro,por cada relevo daqueles dois corpos harmoniosos.
Lentamente ele percorreu numa" profusão de beijos, os cabelos dela, o pescoço, ombros , as pernas", até que a deitou na areia molhada envolvendo-a num êxtase hipnótico e sensual...
Demorava-se naquelas duas montanhas bem delineadas , beliscava e lambia os seus mamilos duros e ela gemia e contorcia-se. Foi deslizando pelo seu ventre redondo e firme até encontrar o seu delta de vénus...beijou levemente o seu clítoris já endurecido e palpitante e ela em pleno alvoroço segurou os cabelos dele e nesse instante ele introduz a lingua o mais profundo possivel e sentiu um jacto quente e molhado a sair de rompante...
De seguida introduziu um dedo na sua molhada vulva e em movimentos ascendentes e descendentes fê-la gemer e arfar como se estivesse possessa.
Estava pronta para receber o seu latejante membro, virou-a e ela ergueu-se e apoiou-se nos quatro membros como um polvo colado a uma rocha e sem demora investiu firmemente na sua aveludada e humida concha de prazer. Agarrou-lhe as nadegas impetuosamnete enquanto entrava e saia dela, num ritmo desenfreado enquanto ela estimulava o seu ponto de ebulição.
Ambos arfavam, perdidos em plena volupia de espasmos...
Enquanto massajava e apertava suas nadegas firmes tocava o seu anus e sentia um latejar cada vez maior. O desejo animalesco soltou-se e ele sentiu cada espasmo e vibração do seu prolongado orgasmo mas deixou-se ficar dentro dela, puxou-a para si até lhe tocar os seus mamilos erectos e no seu botão que pulava acima da sua humida gruta ... continuou aumentando a intensidade até que provou o tremor vindo do interior dela,seguiu-se um e outro e outro, orgasmos multiplos... Ambos se deitaram na areia ainda sob hipnose. Com os corpos quentes sob a areia molhada ficaram a olhar as estrelas e aquele luar mágico,suas testemunhas naquela noite estival. Ele procurou a mão dela e docemente beijou-a...Levantaram-se e foram banhar-se no mar .Dentro de agua flutuaram e dançaram uma valsa de movimentos graciosos. Passaram assim algum tempo até que ela mergulha e desaparece como num sonho.
Ele calmamente sai da água e dirige-se para o pontão , o vestido azul tinha desaparecido também...
Vestiu-se e resolveu caminhar pela areia ouvindo as ondas enquanto recordava a sereia que o fez dar aquele mergulho dos sentidos.

27 de abr. de 2010

Carta a um amigo que não vendia discos, mas oferecia livros

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Meu amigo,

Bem sei que amas o teu piano. Pões-te nele a tocar como um braço esquerdo que segura o direito amputado. Tens um dom e um chicote e, ainda que este pensamento não seja totalmente original, foste capaz de inventar mais braços com a imaginação para te fustigares. Mas não te culpes ou chores por sentir demasiado, por teres visto por cima do cosmos a rodilha do mundo. Estiveste sozinho como perante um pôr-do-sol magnífico e não estava lá ninguém maior que o seres tu, como uma masturbação de fazer chorar.
Não juntaste dinheiro e podes bem vir a precisar de uma pensão de sobrevivência. Podias ter sido político se, por distracção do destino, tivesses vendido a tua maneira de sofrer o mundo a um espelho em que toda a gente se revê.

Receio que esta carta te não traga mais felicidade e, por isso, devia pedir-te desculpa, não fosse o teu desígnio viver uma cabana que se anima como um elevador sem paredes entre a merda e o absoluto. E é por isso, meu velho, que és grande e desajeitado como um régua de 70 cm. Porque o mundo achou por bem medir-se ao milímetro…

Não esperes, portanto, mais beijos. Ultrapassaste os cânones como um carro a alta velocidade e bateste o record de um desporto que não existe.

És, tal como eu, um estropiado que ouviu o mundo gritar por uma orelha rasgada e foi dá-lo a uma prostituta amiga. Levamos o pensamento sem corpo para guerras sem direito a resgate e pagamos por isso, como mercenários com vontade própria…

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Memórias de Paredes de Coura - The Redemption

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Ai estes primeiros dias de calor que sabem tão bem! O sol espraia-se pela tarde como se viesse de um longo período de hibernação ou de cantar a Nau Catrineta com putos de antigamente. A Primavera prenuncia sempre alguma felicidade. As crianças correm felizes pelos campos, descobrindo alergias respiratórias e o bem que sabe ser picado pelas vespas; os velhos batem a caçoleta e os orçamentos familiares ganham mais folga para prestações e gelados. Até os drogaditos parecem mais felizes, vendo brotar com esperança os cabeços nas suas plantas de solário…

Mas do que eu mais gosto é do cheiro das noites. – Uma rockada de cio enche o ar de perfumes sexuais e a malta bota-se a tomar refresco na esplanada. Depois há o Beerfest que a socialite Vicky Fernandes, no seu livro “Saber Estar”, desaconselha em absoluto… e Paredes de Coura que, talvez por esquecimento, não merece qualquer referência!

A festa foi gira, pá! Música boa e muitos sucessos gástricos. A escolha do gástrico para descerrar este capítulo de memórias, não é inusitada, uma vez que nas Warm Up Sessions alguém estourou na toilette. Quem testemunhou a mise-en-scéne, deixada pelo terrorista anal, chamou-lhe o “Ground Zero”… e diz que ali se chorou mais que em muitos enterros de família.

Apesar de tudo, este terrível acontecimento não roubou apetite aos convivas. O dia das bifanas, por exemplo, foi glorioso. Confesso que, antes de descobrirmos o Albergaria, comemos muito “gato por lebre” e, invariavelmente, lá chegou o fatídico momento de, uma vez digerida a ossatura do bicho, a Hello Kitty pôr o seu lacito de fora, lambendo a truce já de si bastante agredida pelos miados intestinais. Em desespero, houve quem tivesse ligado para a TelePuta a pedir o “Menu Felattio com cola, complemento de E0.50 de botão-de-rosa e 1 squirting de morango com topping de caramelo, bem como um Happy Meal com brinquedo sexual” para o Lambedor de Sobrancelhas e precursor do movimento AgroFreak Style…

As tardes foram passadas no Arcada Fire, - esse belo cenáculo de epicuristas que vendia minis em resmas-de-três a E2,10, ao som do Vítor Espadinha. Pelo meio, saudamos com bastante reverência Samuel Etoo e o Fredie Guarin que por ali andava a passear a Katty Perry… uma linda demonstração de amor que nos deixou a vociferar contra os céus:
- E eu? A minha vida? O meu coração? – DESPEDAÇADO!!! (uma bela máxima que nos foi ensinada por aquele rapaz que tem contrato com a Nívea).

Não se julgue porém que as tiradas filosóficas ficaram por aí. Não senhor! Tínhamos tudo a nosso favor! – Pluviosidade mínima com possibilidade de boas abertas, cerveja fresca e um rádio pendurado no guarda-sol. Só para se ter uma ideia, aqui fica um cheirinho de hortelã para conaisseurs:


- “Espera aí um bocadinho que o tarado está a afiar a pissa!”
- “Santieiros abertos em flor”
- “Que rica alface para a minha grila!”
- “Acabei de lançar uma girândola na porcelana!”
- “As gajas nos chuveiros eram tão boas que até pus champô duas vezes”
- “Tu não vais de férias, vais de vinha-de-alhos!”
- Isto não é poesia! Poesia é quando um gajo num percebe!” (definição de poesia por Tónio Cuco, antes do jazz na relva)

Ah! E expressões a ter em conta numa boite:

- “Com essa boceta linda, matavas um autocarro!”
- “Queres beber, bebes da minha Seven Up”

A certa altura, o humor foi ficando mais fraquinho devido à falta de ácidos gordos e Ómega 3, mas não o suficiente para impedir o ribombar das tendas. Porém, quando a inspiração faltava, a gente abeirava-se das barracas da $AGRES. Sacanas! Só vendiam espuma com cerveja. Excepção feita a duas meninas daquela barraca junto aos Toys inclinados. Quais? Aqueles junto à rede, em que um gajo tinha de pôr uma bota na tampa da sanita para não cair de ventas no caldo de mijo e pensos higiénicos usados. Sim, esses mesmos! Adiante. As moças da barraca tratavam-me bastante bem e uma delas até se lembrava de mim do ano transacto. De cada vez que eu lá ia (pedir informações) saudavam-me dizendo “Oh, meu príncipe!” – é verdade, embora tanta cordialidade se tivesse reflectido em parquíssimos finos. Mas, no cômputo geral, até se pode dizer que eram raparigas de bem e muito educadas…

No que diz respeito aos concertos, Patrick Wolf fez a actuação mais feminina do festival, Peaches a mais masculina; Nine Inch Nails sacrificaram um vitelo em palco “à garfada” e os Franz Ferdinand quase escacharam uma bateria que até estava em muito bom estado…

Para terminar, gostaria de endereçar aqui as minhas mais sinceras vénias a todos quantos me agraciaram com a sua paciência e companhia. Queria também dizer àquela espanhola que me veio pedir chiclas que, para o ano, não lhe perdoo. Para o espanhol que me veio perguntar se eu sabia onde arranjar MD’s, só tenho uma coisa a dizer:
- “Está descansado, hermano, que eu este ano levo-te um. Se eu não conseguir arranjar, conta pelo menos com o pára-choques de um carro, ok?”

Vá, agora ide todos fazer pela vida…
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21 de abr. de 2010

Imortalidade

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Hei-de morrer sem mesa posta, num quarto possível, sem nada de concreto para deixar ao mundo… como se o mundo precisasse da minha herança pesticida para florescer. Deveria poder rir-me se acaso não fosse aquilo que sou. Interrompi sonhos para fazer apontamentos como um palerma que abandona a sala de cinema para buscar mais pipocas. E para quê? Para, depois de morrer, ser chorado por umas roupas que ficaram no gavetão, num quarto que tantas vezes adiei por amor à boémia.

Houve um tempo em que desejei ser lembrado depois de morrer. Pus-me depois a pensar na longevidade dos faraós, detido em seus hieroglíficos pensamentos, e achei-me digitalmente consciente como um vídeo rebobinado. De nada vale aspirar à imortalidade, ainda que ter razão dure ou valha quinhentos anos.

Mas, ainda que no silêncio absoluto, como um cão atropelado que não vai para o céu, gostava que a minha morte fosse celebrada. Gosto de celebrações e, só de pensar nelas, inventa-se-me um sorriso maroto que flecte metade da cara, com MALícia…

Entender as coisas e as pessoas rouba-nos inocência. É como secar o sumo de um limão antes de o espremer. Cai-se de cabeça na almofada e ela é fofa. Deixo a porta aberta, pelo sim e pelo não…


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20 de abr. de 2010

No comboio

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A meio do caminho, faço uma pausa na leitura e pouso o livro no colo como se capitulasse uma viajem dentro de outra. Olho pela janela sem noção de estar abrindo atalhos ao espírito. Igreja de sensações sem esperança, missionário descontratualizado vagando à margem por uma cidade de pecado, sem penitência de jangada para as corridas de néon.

Passo como uma lanterna apagada que se ilumina para o mijo dos grafittis e para as pedras com ferrugem, chorando cada uma a sua lepra. Sou, acidentalmente, um turista que se perdeu do guia e achou a consciência num beco de lixo com vísceras, - Verdade das povoações pelo avesso, rasgada em vértice e aberta ao céu como o desprezo em ferida.

A minha visão confunde-se com a história de um hospital abandonado ou um prédio inacabado… desmemoriado para entorpecer falências e acomodar juízos e prejuízos. Os ratos ratificam-me e podem testemunhar a realidade que os bulldozers expurgaram para os segmentos de recta, sem licença de construção.

Viajo com a certeza futurista de me ter dentro de um colosso-mecânico-pós-moderno-e-pessimista, no rebordo interior de um abismo suspenso com fichas de andar à roda. Tudo é metálico e se crava languidamente nos morros de terra assassinada como um corpo com baque a cair de costas; como se o grande cenário compensasse a treva no bastidor sem ar.
Divago por uma passagem de nível e tudo é funéreo como um sepulcro comunista. Até a mulher, que é bonita e se move no apeadeiro, parece alombar um escombro de violação…

Detenho-me um pouco mais na paisagem como se ouvisse um acorde de plenitude ventilada. A paisagem escurece e enxuga-se de pessimismo num rosto que se olha para os vidros, com trabalhadores da construção segurando o sono com optimismo, na mesma carruagem que eu. Confesso sentir alguma paz nas suas derrotas…

Estou calmo como se tivesse bebido um trago que me soube bem e fizesse, depois de acender o cigarro, um gesto de boca quase involuntário. Não me sobram restes de medo e fui, no entanto, e sem que ninguém notasse, vencido como num combate de boxe por coisa nenhuma, como se a mulher que mais amei instantaneamente tivesse saído na última estação.

Para trás ficou uma estação inteira de carteiristas e a impressão de lá ter deixado uma bagagem roubada… mas estou lavado como se tivesse feito um testamento ou viesse de um duche assobiando, com a toalha enrolada à cintura.
Sirvo-me do livro sobre o joelho para apoiar o cotovelo… encosto a cara no vidro...
e durmo também.
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Velhice

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A velhice deve ser isto: - uma disposição que não vence urinas e músculos sem dinheiro para um carrego de vinho com pão, solidão sem vontade para bibliotecas.

Admoesta-se a pele com sabonetes de aromas, mas o corpo que é velho não tem poros para se demolir a um cheiro de sabão no tanque. Enxerga-se o mundo por uma nebulosidade cautelosa que ascendeu às sobrancelhas para multar os mancebos que aceleram.

Diz-se com mais frequência “se eu tivesse a tua idade…”, mas sem aflorar a leviandade de um fim com raciocínio como se, à memória que já era, acorressem romances que nunca o foram…

Não há lei para os que abrandam nas bermas com tempo para se pensarem. Resta o perdão e um entendimento das coisas sem lei que se anuncia com amor às crianças, numa cumplicidade que saltou gerações
E brinca à mesa…
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s/ título

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Há uma grande mosca no quarto que não me deixa concentrar nos meus nadas. É como uma grande poça de óleo a inundar-me a cozinha, em maré de escrita.

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s/ título

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Deitaste fora um poema, ó poeta -
diz-me o sonho -
só para apontares dois versos...

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16 de abr. de 2010

Onde estão as crianças?!

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Onde estão as crianças? – Gritou alguém por entre a multidão, - e uma digestão de agulhas estoqueou o orgulho todo que havia naquela sala com santos de braços abertos. Os fatos ganharam vincos e os vestidos descoseram-se de pudor; desamarram-se os braços que seguravam as senhoras e o brilho todo daquela merda toda se desfez como uma bainha mal cozida, com as mulheres tropeçando de aflição pelo corredor da nave. Ninguém sabia o paradeiro das crianças e aquele juramento perante Deus, o Criador, finou a meio como um livro chato.
Estavam perto, felizmente, comungando da mesma fraternidade que os gerou infantes sem cerimónias e proto-adultos de sacristia.
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14 de abr. de 2010

Universidade I

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Eu queria era ser filósofo,
Poeta, escritor, artista… essas coisas todas.
Pronto. Está dito!

Bem sei que ser livre ou grande por uma estrada de pensamento não merece ordenado ou um prato com mais comida, só porque se ganhou asas, ainda que, por aí, se aspire desapertar os grilhões da escravatura. Não queria ter de me roubar a um merecimento de alimentos no estômago. Dito isto, de forma tão sincera como se não lê nas entrelinhas das biografias dos gestores mais bem pagos do universo, desvendo-vos a minha consciência profissional do mundo: - Não há profissão mais nobre que ser Agricultor!

Trabalho duro! Puxar da terra a sobrevivência sem danos colaterais, sem matar – isso sim – é Utopia!

Não raras vezes tenho sido acusado de preguiça pelos profissionais das ciências exactas. Engenheiros, gestores, marketeers, economistas, etc… todos eles de muito boa-fé – não duvido! – mas mancos como eu para se desenrascarem sozinhos. E termos bocados de papel na carteira não faz crescer couves num apartamento…

Andamos neste carrossel há séculos. É mau? A ver, vamos! Mas vamos primeiro por partes…

Uns imaginam e criam. Outros criam o que os outros só imaginaram; outros ainda, criam sobre o imaginário dos outros uma ideia nova que ninguém pensou. E isto é tão estúpido e necessário como querer descobrir quem surgiu primeiro. Se o ovo ou a galinha, o arquitecto ou o engenheiro, o médico ou o enfermeiro (a parteira?), Lisboa ou Porto, Braga ou Guimarães, o Norte, o Sul, Este, Oeste, a Lua, o Sol ou os planetas…

Estão a ver como isto é estúpido?

Pois bem, vai continuar…
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3 ideias avulsas

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Comprou um guarda-chuva
E um arco-íris
E foi para o deserto


É certo que Pessoa
Não guardava revistas pornográficas
No baú dos poemas


Quando o criador descobriu
As potencialidades da boca
Pôs cheiro no esperma.

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12 de abr. de 2010

Aranhão e Guarda-Chuva

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Ele era polícia e andava à chuva,
Ela era viúva de salão.
A ele chamavam-lhe o guarda-chuva
A ela, O Aranhão…

Ela fora em tempos Zaliou Renda
E aspirava ser actriz.
Sonhava ir, por Hollywood,
A Paris.

Ele tricotava rendas para caixões
Mas tinha o pé-de-meia furado;
Era rico a apostar nos milhões
Mas sempre a dar no dado errado.

Ela entrou virgem no cinema
Depois de um Mare Fettuccini
E o que meteu depois à boca, soube-lhe
A Fellini.

Ele coleccionava travessas e pratos
Mas custava-lhe adormecer.
Fez-se enriquecer na areia para gatos
Antes de enlouquecer.

Um dia ele fisgou nos seios dela
E ela colou no seu bumbum.
Cruzaram-se os dois na mesma viela
E foi isso que ambos tiveram em comum.

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Desistente!

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Tenho sido confrontado, por pessoas próximas, a propósito de um emprego recente que abandonei, a uma semana de receber o primeiro cheque. Desistente! Os meus motivos são válidos mas, para o que é preciso dizer, pouco importa nomeá-los. Da mesma forma, não pretendo fazer aqui uma expiação pública para as minhas acções, do tipo “minha culpa, minha tão grande culpa!”…

Conheço pessoas tristes que pedalam há anos na mesma bosta, incapazes de arriscar uma revolução que as torne mais felizes; pessoas que adiam a vida julgando viverem disso; pessoas socialmente integradas e com bons ordenados a levar porrada em sessões de bondage para se equilibrarem emocionalmente; exemplos de sucesso com faro para riscos de coca em sanitários públicos; tapetes persas cheios de lixo por baixo…

Também a exemplaridade se esquiva de mim. Tenho defeitos, características muito autênticas que me impedem de poder atirar para a cama um bando de mulheres, bem capazes de me fazer mais feliz. Mas, por alguma razão, acho-as renunciando a esse propósito. Umas desistentes, portanto...

Ninguém sabe ao certo o que é a felicidade. Sabemos que ela existe porque se manifesta nas pessoas. Através do amor, da realização, do riso, do prazer… sabemos, tão simplesmente, que ela existe no reverso do que nos faz infelizes. Soube isto por Agostinho da Silva, que achou alguma felicidade formalizada, fazendo “exactamente o contrário daquilo que nos faz infelizes”. Ora, perseguir este caminho implica renunciar e desistir de muitas coisas.

Felizes os que encontram o que procuram sem muito esforço. Felizes aqueles que sabem o que querem. Desculpem se não me penitencio por não ter achado o que procuro mas… a verdade é que não encontrei ainda o meu pote de ouro nem o meu amor. E não vou fazer juras de fidelidade perante o criador só porque estou a ficar velho para constituir família.

Não posso dizer que pouco me interessa o que os outros pensam. Gosto que gostem de mim e, nisso, somos todos muito iguais. “O espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente e não porque pensa”, dizia Fernando Pessoa. Gosto muito do que dizia esse falhado…
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28 de mar. de 2010

Horas Mortas

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É quase domingo e a bebedeira pesa nos ossos como chuva a mais no Inverno. Sai-se do bar e cada um carrega uma ideologia própria de ser livre e estar bêbado. Os carros circulam com um romantismo veloz, dentro de si próprios, ausentes para o realismo deambulante que trucida as avenidas. Alieno-me como quem faz de conta que vive para, ao fim, ao cabo e a meio do caminho, inventar hipóteses por uma estrada de alcatrão na minha cápsula de sentir com motor à frente e mala atrás.
Não tenho nada de novo para dizer. Não hibernei salvação alguma que pudesse ser jogada ao mundo para o salvar de si próprio e, no entanto, acho-me discorrendo sobre um nada que une as pontas todas.
Acendo um cigarro e despenteio-me buscando conforto. Bebo por um gargalo ciente de levar mais merda nos intestinos que rancor no peito, se agora me viajasse por uma vereda de silêncios.
Hoje mudou a hora! Atrasou. A mudança horária dá-se sempre entre a meia-noite e as zero horas. Dependendo da perspectiva, não é propriamente "hora de ponta", nem consta que acelere o trânsito intestinal…
...vá, não sejam porquitos!
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18 de mar. de 2010

Mergulho dos sentidos

Seus olhares tocaram-se trespassando toda a plateia que os distanciava. Nesse instante, captado por tais vibrantes focos visuais, tudo o que os rodeava, a ele,os instrumentos,os sons, as vozes, a ela,os corpos de diferentes formas, estonteados e embrenhados na sonoridade, se esbateu e dissipou num vulto fantasmagórico.
Segundos passaram e as formas assumiram novamente os devidos contornos. O êxtase recolheu-se no interior de cada um. Ele lançou-se na música compulsivamente , seus dedos agarravam as cordas do seu baixo com tal vigor que tais vibrações fizeram-na estremecer e sentiu- se tocada por tal paixão,por tamanho ímpeto musical...
A noite prosseguiu até o concerto findar... Por entre o rubro da multidão ele viu-a afastar-se em direcção à praia.
Com receio de a perder de vista saltou do palco e correu até a alcançar. Ela esperava-o. À sua frente tinham o mar e uma lua redonda e prateada suspensa no tecto celeste.
Sem se voltar para ele, deu-lhe a mão e conduziu-o para um pontão onde a rebentação das águas se fazia ouvir à medida que se aproximavam... Já debaixo desse pontão onde o ar húmido predominava ela voltou-se de frente para aquele corpo másculo e sedutor e ficaram ambos a um passo um do outro.A sua beleza exótica despertara nele um invulgar desejo... agora diante dela sentia-se criança perante o olhar dócil e profundo vindo do ébano dos seus olhos. A sua tez morena e dourada pelo sol encerrava em si tesouros a desvendar. Lembrava-se agora que antes ao vê-la afastar-se e enquanto corria no seu encalço não atentou nas formas do seu corpo, fixara-se sim ,nos seus longos cabelos pretos que reflectiam o prateado da lua e o seu longo vestido azul com um céu desenhado acima da areia quente .Subitamente estremeceu... sentiu os seus lábios, aqueles mesmos lábios rosados que à instantes o fixavam com a mesma intensidade que o olhar hipnótico e místico dela. Ao mesmo tempo que o beijou suas mãos continuavam enlaçadas. Elevaram-se ... ele deixou conduzir sua mão até ao ombro dela, os beijos aumentaram de ritmo até que sua mão que continuava a ser conduzida pela dela, soltou uma alça do seu vestido azul deixando descair esse delicado tecido desnudando uma parte do seu peito deixando um dos mamilos a descoberto. Ela queria que ele a tocasse com o mesmo frémito com que tocava no seu baixo, como à instantes vira naquel palco à beira mar sonante.Assim agarrou com mais força a mão dele até tocar o seu mamilo duro como bagas. Cada beijo aumentava o calor dos seus lábios, fazia aquecer aqueles corpos... logo o vestido caiu na areia e as mãos dele deslizaram pela suavidade das suas formas com uma languidez tal que ela lançou seu corpo contra o dele como sinal que desejava ser possuída.

(continua)- Esta é a minha homenagem a uma ilustre senhora que acrescentou à escrita a sensualidade e o erotismo-Anaïs Nin

11 de mar. de 2010

Nojo de Relógios

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Odeio os relógios porque não tiram folgas! Lembram-me aqueles patrões que não conseguem parar de trabalhar, exigindo aos seus funcionários o mesmo vigor. Mas é preciso ganhar a vida! - e eu sei-o de cor desde que nasci de borla, lembrado pelos meus semelhantes em porções de tempo como sal a mais na comida. Fiel aos ensinamentos de Agostinho da Silva, enxertado por mim à família como um terceiro avô, corroborei a sua visão de uma vida dada mas não sem esforço.

Sou preguiçoso, admito! Invejo com admiração aqueles cuja natureza enxota da cama como cães a fugir de pedradas. Mas uma coisa é ser ocioso de vício, sem argumentos para mais um copo de vinho, e outra é ser escravo de um ter que dizer agrilhoado que não deixa dormir. O resultado é, em suma, o mesmo: - uma inabilidade para as coisas que providenciam sustento!

Concebo-me, em pensamento, tolhido e magro como um escritor romântico oitocentista a contas com uma tuberculose de humidade - nos ossos e nos bolsos de bolor! - sem pressa para o crivo da rua que medeia o calor da tasca com a manta de fantasmas que se alevanta à janela de umas águas furtadas.

Sou aquele que se revolve na cama sem notar
E, tendo de contar como passa o dia,
Conta o sonho que lhe veio de noite,
Para no próximo se expiar....


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26 de fev. de 2010

Paredes de orvalho

Abalei para os teus braços,

leves como uns lençois frescos,

quentes como a manta tecida

num Inverno de espera.

Os teus lábios toquei e teu rosto afaguei,

e, assim, revi junto do bater do coração,

as paisagens que pintaram e coloriram,

o corpo-espírito do que somos Hoje.

Rumo agora em direcção a outras paragens,

sempre com os olhos postos,

na pessoa que fui outrora,

na pessoa que sou agora.

Abalei para ti amor...

Numa casinha com tecto de estrelas,

paredes de orvalho e vento,

onde as janelas são as memórias,

do nosso contentamento

12 de fev. de 2010

Os Porcos

Os Porcos acreditam ser uma elite criada, exclusivamente, para o pensar e decretar; Os Porcos adoram ser tratados por Senhores Doutores, são cultos e informados; Os Porcos debatem e discutem entre si, pelo poder, insultam-se e apelidam-se de demagogos e bajoladores; Os Porcos usam fatos de alta costura e gravatas elegantes, têm capital basto, já não comem qualquer lavagem e ração, o seu paladar é sensivel e gourmet. Fazem-se deslocar em veículos de gama superior com direito a condutor particular e seguranças privados; Os Porcos trabalham meia dúzia de anos, ao fim dos quais podem usufruir do seu direito á reforma antecipada; Os Porcos são uma raça em ascenção, reproduzem-se a uma velocidade avassaladora, nascem nos palanques da lei, nas empresas multinacionais, nos bancos privados e nos diversos sectores publicos; Os Porcos exigem ser tratados como animais de primeira categoria, relegando os demais para a lama, ou para bem longe dos da sua espécie; Os Porcos espiam-se uns aos outros, através de escutas várias, telefonemas diversos e acedendo a conversas alheias, abrindo a este propósito inquéritos que custam milhões aos bolsos dos contribuintes; Os Porcos indignam-se com os seus semelhantes e também com as pessoas, são seres intocáveis e donos da razão suprema; Os Porcos ordenam, coisas várias, a seu bel-prazer, sem terem de dar explicações, a quem quer que seja, e quando estas lhes são solicitadas riem e desconversam, alegando o segredo de estado e/ou justiça; Os Porcos mantêm, sempre, a calma e a postura, desde que não se lhes mexa nos lucros e beneficios; Os Porcos são bichos manipuladores, perversos e maquiavélicos, cooperam, mutuamente, quando se vêm enrascados; Os Porcos controlam a economia, a saúde e a justiça nacionais. Controlam, também, a televisão, a rádio e a imprensa escrita. Tecem críticas e desacreditam aqueles que se lhes opõem; Os Porcos querem ser vistos como animais de trabalho em prol da sociedade, fazem passar a imagem de idoneidade, honestidade e boa vontade, quando na verdade não querem saber de nada, nem de ninguém a não ser de si próprios, são egoistas; Os Porcos não têm consciência, por isso tomam sempre as melhores decisões em relação a qualquer matéria; Os Porcos enlouqueceram e querem enlouquecer as outras espécies com as suas ideias; Os Porcos são figuras bem conhecidas da nossa praça, muitos dos quais apoiados por pessoas de bem e saudáveis.

Nota: Os Porcos são amigos intimos do "Palhaço" tão bem retratado por M.C. e do "Malandro" por C. B.

4 de fev. de 2010

It Might Get Loud




Enough said!!

Vejam, por favor, percebam o amor que alguém pode ter pela arte, pela sua própria vida, o orgulho que alguém pode ter por ter estado naquele momento naquele sitio onde estava um papel a pedir um guitarrista para uma banda, percebam o quanto alguem pode mudar o mundo a partir do seu cantinho em Inglaterra, ou Irlanda, ou o que seja...
Esta obra abre a mente para que seja possível desmontar toda a musica que conhecemos, entender porque gostamos dela, o que nos levou a gostar dela.
A cima de tudo, mostra como uma coisa em comum pode unir as pessoas, leva-las a partilhar uma sala e criarem arte.

Vejam...

27 de jan. de 2010

A picnic with two bottles of gin

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I woke up in a lonesome picnic
With two bottles of gin
And a packed down cigarette.
I must driven the wrong way
Like a hooker for the sunset
Or a piano cabaret.

Happy free bunnies
Sniffing around
Like vegan Indian chefs
In an LSD world…

Why am I wearing a tuxedo
And a fulfilled blood tiara?
Could Vegas or the world have reached to is
Weekend?

Stones trembling, hearth shacking
That’s more like it! –
That’s reason!

Silence again!

What is the matter with nature?
There’s always some symmetry in every firework.
Why is she complaining?

What kind of show is this?
My skull should by now
Be blowing…

A Fiat Punto with closed doors?
Who is the choreographer?

I DEMAND AN ANSWER!

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Sangue


O meu primeiro poema. Sei-o de cor. Um desabafo quase infantil sem noção de estar postulando um caminho. Sou poeta desde que me lembro de usar palavras para formalizar âmagos e estados de espírito, ainda com braços tão curtos para apanhar palavras como maçãs. A minha mãe quando está triste diz que sente o coração negro. Pode não saber quem foi o responsável pelo holocausto, mas nem por isso a poesia lhe negou os seus frutos a cair de maduros…

“A poesia é para comer”, diria Maria Bethânia, que chegou antes de mim a essa conclusão. Tal como Fernando Pessoa, - esse bandido veloz que era uma equipa na apanha e se antecipou a todos os poetas, deixando um rasto de pomar celeste com caroços.

Talvez devesse estar feliz por trilhar o caminho dos génios, de privar com eles na mesma sombra arqueológica. Mas isso é tão banal como ter o sangue deles a correr em mim sem voz própria; ser primo afastado e saber, como ninguém, a história que todos contam…


24 de jan. de 2010

s/ título

Eu sempre quis dizer qualquer coisa
Sobre caramelos.
Sobre atalhos e
Coisas doces.

Mais que inventar
Eu queria explicar o mundo todo
Por aquele saxofone em fundo de verso
A fazer de falsete.

Eu queria chegar a casa e
Ter por onde dizer.

No século dezoito
Só havia memória…


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13 de jan. de 2010

A noite do Rabalhão

Eu bem (ou)vi que vos portastes mal na passagem de ano...

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29 de dez. de 2009

Peru

Vendo-me a um sentir
Que há-de vir
Como um peru criado em casa,
Assassinado à borracheira.

Não sei tocar piano. Gostava de poder chegar a casa bêbado, acender um cigarro, pôr o copo em cima e contar-lhe a noite toda com os chinelos de quarto nos pés…

A poesia desgraça-me! Sentir o mundo todo como se todo o mundo tivesse de sentir por mim e, ainda assim, ter de o levar na mochila, como um lanche, para o grande piquenique na montanha.

O pior de subir montes é ter de os descer depois de experimentar o absoluto. Perguntai aos drogados que entraram no céu “pela porta do cavalo”. Nenhum foi resgatado por helicópteros. Os que voltaram, tiveram a sorte de cair numa rede de circo, montada para trapezistas. Mas não voltaram a sorrir…

Viver com pessoas que dormem impede-me o barulho; o tempo não me incomoda e só os relógios me enojam.

A dependência é uma escravidão cotada de suicídio…


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24 de dez. de 2009

MELODIAS TRAGICO IRONICAS 5 (especial de natal)

“Thank God it’s Christmas”, dos Queen é a música escolhida pela Gerência de uma conhecida rede de hipermercados para alegrar o ambiente dos seus estabelecimentos comercias.

“Last Christmas I Gave You My Heart” dos Wham, era a música que o jovem cardiologista trauteava enquanto procurava comprar o presente de natal para a sua esposa.

“All I Want for Christmas is You”, era a musica que rodava no centro comercial, enquanto um padre se demorava a passar pela montra da sex- shop, onde estava exposto o ultimo modelo de uma boneca insuflável bastante exótica.

“Let it Snow”, melodia tipicamente natalícia, tocava na rua movimentada da cidade já a noite ia alta e gélida, enquanto o sem abrigo tremia, repetidamente, com frio.


PS: Como bem podereis constatar, através das vossas vivências, existem pessoas nesta época do ano que oferecem/recebem o que bem lhes apraz; outros há, que simplesmente formulam desejos, sobre aquilo que gostariam de receber/dar e não se sentem pior, se não os mesmos não forem concretizados; também há, ainda, aqueles que nada têm e que nada desejam, muitas das vezes por estarem sozinhos, complemente á margem, ou na sarjeta da nossa sociedade. O meu pensamento está com estes últimos, através destas melodias…

22 de dez. de 2009

Wine Festival - I Podcast

Sim, é verdade! Eu também lá estive a partir os cadeados todos e não só. Por isso, ponham o som no máximo e cliquem no título deste post para ouvir as coisas lindas que eu tenho para vos contar...

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14 de dez. de 2009

SOBRE AS LEIS E A EXISTENCIA EM DEMOCRACIA

Hoje, é impossível dissociar-se a vida quotidiana em sociedade, da legislação, leis e decretos múltiplos; é impensável existir democracia e ordem pública, sem que hajam normas para reger toda essa existência, convivência e conflitos que daí são adjacentes. O homem, ao coroar a democracia como sendo o último bastião e o mais perfeito da coexistência humana em sociedade, veio criar com esse baluarte toda uma variedade de leis que permitem regular, orientar e definir os traços gerais que deverão ser seguidos como fio condutor para que se verifique uma perfeita convivência entre os diversos sujeitos.
O que primeiramente, seria apenas um conjunto de leis, em numero restrito, para que as pessoas apenas se orientassem por elas, depressa se tornou num emaranhado e complexo enredo de normas que logo vieram complicar, ou até, distorcer toda a realidade, a favor ou dos próprios legisladores e governantes, ou então dos mais abastados, influentes e poderosos. O que muito frequentemente se verifica é uma colossal maquinação destes últimos mencionados, para alcançarem o seu próprio bem, em nome da democracia. Usam destas habilidades para garantir, com segurança, o que injustamente vão adquirindo, para depois se apoderarem e excederem dos serviços dos pobres, pela recompensa mais medíocre possível. Destas tramas estabelecidas por os mais prestigiados da sociedade, em nome da democracia e dos desfavorecidos, fazem eles mesmos as regras. As fórmulas democráticas são o fruto maduro dessas ervas daninhas que os legisladores e líderes políticos das nações cultivam há muito tempo com o maior dos esmeros: Pervertendo costumes, indisciplinando valores e atrofiando a sociedade. Os maus exemplos de carácter que vão predominando nos altos tronos da democracia são tolerados pela indiferença duma sociedade obscurantista que convém às facções que a exploram e dela vivem.
Seria, pois de desaprovar o número interminável de leis e comentários ás mesmas, que muito amiúde e por força dos seus criadores, se tornam insuficientes para regular a vida em democracia. Desaprovar, sim, pois haverá maior maldade e injustiça do que obrigar o homem comum a obedecer a leis que mal conhece por serem inúmeras e confusas, tornando-se impossível a sua compreensão com clareza? E aqueles que mais habilmente manejam, deturpam e astuciosamente criam novas normativas, como contrapartidas e alternativas ou complementos das anteriores, para que dominem engenhosamente em seu beneficio todas as situações, não seriam também de desaprovar?
Nada importa á maioria das pessoas, que é quem mais necessita de saber, sobre os seus deveres, direitos e obrigações, que não hajam leis, ou que essas que são estabelecidas sejam vergonhosamente traiçoeiras, que só se consiga uma interpretação acertada e verdadeira após um prolongado e exaustivo estudo das mesmas, que se poderia estender por toda uma vida.
A democracia deveria assentar, essencialmente, em cuidar e desenvolver do interesse geral, relegando para outro plano, ou até mesmo desprezando, o campo dos interesses particulares. Ora, como é mais que sabido, na democracia de hoje o que mais se pode constatar são interesses particulares avançando por cima, bem mais por cima, dos interesses gerais, comuns a todos ou a uma grande maioria. A democracia deveria ser soberana, senhora de si mesma, segura e não susceptível, ou colocar-se a modos de ser corrompida por poderios, riquezas ou influencias aviltas á consciência do mais puro e justo dos homens, ainda que esse mesmo seja desfavorecido, quer pela sua condição social e económica ou por a sua origem genealógica. Deve a democracia, proteger os fracos dos atrevimentos dos fortes e os pobres dos possíveis abusos dos ricos e também do excesso da sua pobreza. Sendo, sempre, inspirada nos mais elevados conceitos, baseando-se na mais sólida moral, respeitando o mais vasto espírito do humanismo e equidade social. Contornando, combatendo e aniquilando a estreiteza de ideias e horizontes limitados, que têm como objectivo máximo, não raras vezes, a sobrevalorização e beneficio de elites.
Nas sociedades actuais verifica-se que quem não reservar algo para si, quem não se submeter ao egoísmo existencial, depressa perecerá, embora faça parte e esteja inserido, obrigatoriamente, numa nação ou num país que muito frequentemente tem posses monetárias para acabar com a mingua existencial das suas populações. Países e nações que ostentam bases e valores democráticos, mas que constantemente recusam dignar-se estender a mão á própria sociedade, exigindo, sem qualquer tipo de escrúpulo, que se nomeiem os dirigentes e responsáveis máximos para levarem ao rumo que melhor lhes aprouver as vidas dos que até então saíram sempre a perder com tais valores.

12 de dez. de 2009

a propósito de dizer tudo e não dizer coisa nenhuma e, ainda por cima, não ter vontade de corrigir

Não tem sido fácil aturar-me,
Explicar-me.
O cortejo fúnebre já saiu do adro
E eu pintando à pressa o meu quadro.

A morte vem como altura de exames
Apanhando desprevenido
Um copo deixado meio.

Foi-se a vida como a de um cão.
O deus não existia,
E o morcão que tudo comia
Não falou em reencarnação.

E o universo que não tinha emoção
Continuou o seu caminho
Para lado nenhum.

Vê-se da lua a nossa desilusão!
Que pequenos somos,
Inventando, ainda assim, a depressão
Como se o chão que nos come não bastasse, e
Ou inventar um poço para fora nos empurrasse.

Inventaram-nos com uma enxada na mão
E uma certeza motivada para a competição.
Uns encontraram terreno fértil para cultivar
E os outros, sem querer sepultura,
Puseram-se a cavar.

Uns acharam água
E outros petróleo.
Uns acharam saibro e pedra dura
E outros aqueloutra sepultura.

Foi no que deu pôr toda a gente de enxada na mão.
A ideologia vigente residia no chão,
E os bisnetos dos visionários
A passar visionando com o nome dum avião.

A verdade dos poetas reside num só segredo:
- o adiamento do degredo
Reside no pressentimento de tudo existir com espaço
E a felicidade resiste num espaço de tempo
A que se pode pôr um laço.

Em suma,
Tudo o que existe pode ser apropriado.
Num bocado de ar pode fazer-se uma jangada,
Num veio de tesão pode existir uma gémea gemendo,
Ou uma namorada.
Num copo de vinho uma clareira
Numa cona fria, uma lareira.

Se abrisse agora a janela
Poderia estar nela se ajeitando uma coordenada
Uma nau procurando simetria
Com roldanas,
Um zepelim com pedais,
Libelinha gigante de conversar qualquer coisa
Antes de dormir,
Capitulando um fim de noite á janela
Com ar puro.

Mas a manhã vem
E a gente olha para tudo como um sonho esquisito
Que urge pôr terra em cima
Suspeita de insanidade.
Volta-se a fazer o mesmo
Como é do costume,
Fala-se de cumprir os sonhos
Que não são sonhos nem são lume…

Bebe-se um copo de água
Para tirar o gosto da pasta de dentes;
Acende-se um cigarro a caminho do trabalho,
Mudança abaixo, mudança acima…

Ajuda à vida o locutor da manhã
Que sempre se faz de palhaço contente.
E é impossível não ser fã
De alguém que parece nunca
Estar doente…


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10 de dez. de 2009

Exorcismo

Eras tão linda e tão tudo e eu estraguei-nos a ver fotografias fora do contexto. Hoje o mundo é diferente e tu tens como eu, provavelmente, um parente, outros gostos e um filho. Eu era puro com todos os defeitos e não tinha defesas. Amei-te como um homem nu a dizer que amava e, depois disso, nunca mais tirei roupa da carne.

Hoje, não te queria para minha mulher. Talvez me levasse para a cama contigo, - isso sim – um rendez-vous para tomares de novo o meu cheiro e eu recuperar o meu coração. Mas tu és inteligente como o diabo e não devolves almas, tampouco te seduzem os estados alterados de consciência onde sou, emocionalmente, cientista do acaso e variável de ciência.

Não é por nada,
E eu bem sei que fazes colecção…
Mas, se não te importasses,
Eu queria de volta
O cromo
Do meu coração.

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3 de dez. de 2009

Levantem-se muros

Tanta gente a queixar-se da existência de muros. Haja coragem para se dizer que há muros que fazem falta! O Muro de Berlim foi uma vergonha, ok! Mas foi uma vergonha porque ainda o é, porque dividiu pessoas que, à partida, estavam unidas. E em nome de quê? De um confronto de ideologias – comunismo versus capitalismo. Levantou-se um muro como quem faz um estudo de mercado e, por isso mesmo, não admira que o capitalismo tenha vencido…

Mas há feridas de guerra que precisam de tempo e compressas de muro para sarar. Levante-se um muro em Israel ou, se quiserem, na Palestina, se isso servir para estancar o sangue de inocentes. Deixe-se passar o tempo, - e acusem-me depois de fascismo quando vier a altura de deitar abaixo muros da vergonha. Mas, - lembrai-vos – enquanto houver muros na Irlanda entre católicos e protestantes e escassearem pedradas nos miúdos a caminho da escola; enquanto a Internet não provar que o tesão de uns é o tesão encastrado dos outros, a paz vale o que vale… isto é, a ausência de sangue derramado estupidamente.

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1 de dez. de 2009

Carrousel des Morts ou o proto-manifesto para um carrossel com mortos

Caixa de música com bailarina no interior
Em película de terror…

Circo eremita
Cansado de público,
Compondo árias
Com tarefas diárias.

Senhores das clareiras herméticas,
Cientistas da fantasia,
Escultores de ferro velho
E nómadas dos cemitérios de fadas…
Dissidentes do orgasmo protocolado.

Todos os dias,
Uma bacia e uma canção.

O sol existe para aquecer frestas de luz,
E lamber os olhos dos monstros
Que espreitam pelas fechaduras
Dos baús.

Serpentinas de vento e mofo, entretanto assobiam,
Amarelas, vermelhas, azuis…

Vem depois o frescor e a noite.
As luzes acendem-se nos estendais de fio eléctrico
Como num pomar simétrico,
Cheio de lâmpadas.

Ouvem-se os primeiros acordes da afinação,
Electrocuta-se a realidade com a morte de um cão
E a magia acontece nas almas! –
Sem necessidade de palmas

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26 de nov. de 2009

Nova Festa

Temo, não raras vezes, estar estimulando pessoas para festas que não existem. Como se eu estivesse dizendo “ faz o que eu digo mas não faças o que eu faço” e, sinceramente, isto incomoda-me. E incomoda-me porque me apetece fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. O tédio faz-me espécie…

Por isso, lanço-vos daqui um repto: - uma FESTA, lá para o fim de Janeiro de 2010, para celebrar o aniversário do Cabaret des Morts.

Não me façam questões! Ou é ou não é!

Aceitam-se inscrições aqui, - e apenas aqui! – até ao fim do ano.

A festa faz-se com quem, de direito e vontade, estiver propenso à celebração...

Um mundo imenso de possibilidades

Vou contar-vos, à minha maneira, uma história horrível. Tantos filmes ma contaram de maneira diferente, tantas canções, e um livro de filosofia dos tempos de liceu. Tomai, portanto, esta missiva como um plágio adaptado às lições que a vida me deu…

A vida cansa, - a sério! – Uma pessoa levanta-se de manhã, a fazer de conta que corre atrás de um sonho, faz via-sacra pelo destino, chega ao trabalho e está lá um pesadelo que acordou maldisposto…

Com o passar do tempo, a consciência rejeita-se a adiamentos e ataca onde mais dói. Bate nas têmporas como um coração que não pára de ladrar a noite inteira. Calçam-se os chinelos de quarto e vem-se à cozinha abrir-lhe a porta, fumar um cigarro.

As horas de sono escasseiam, o tempo discorre naturalmente e o relógio aponta à luz da manhã como um carro de polícia num beco sem saída. Quer-se mergulhar de novo em sono profundo mas, vai-se a ver, e os sonhos são publicitários: - carro, renda, dinheiro para as contas do bar; casamento, casa própria, carro familiar, roupa nova para os miúdos; liceu, universidade. Vem pelo meio uma depressão e depois cunhas na repartição…

…e o tempo passou!

Pelo caminho finaram-se veios de tesão, adiados para venturas maiores. Ah! Mas negai essa falsa volúpia. Perderam-se almas grandiosas por adiamento, em copos e partidas de cartas e, hoje, mijando pelas pernas abaixo, sepultados vivos nos lares, se dirigem aos netos com o maior descaramento do mundo: - “se eu tivesse a tua idade…”


Acreditai em mim quando vos digo: - “SEREIS AMADOS POR DEUS E PELO DIABO ENQUANTO VOS DURAR A FOGUEIRA DA MOCIDADE! E TUDO VOS É POSSÍVEL!”

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21 de nov. de 2009

A Lei


Diz a Lei que o desconhecimento desta não serve de atenuante em caso de prevaricação. Ou seja, por mais calhamaços escritos em aramaico, números, artigos e outras disposições em que assente a Lei, está o cidadão tolhido se proceder contrariamente ao previsto.

Conheço, felizmente, muitas pessoas inteligentes, bem formadas, informadas, com uma cultura geral irrepreensível mas, as únicas realmente capazes de me assessorar dúvidas jurídicas, cursaram Direito. Porque será? – Pergunto-me.

Há por aí muita gente que, se soubesse a Lei, não teria a profissão que tem porque, pese a cegueira a que nos habituamos, um advogado goza de mais estatuto e ordenado que uma empregada de limpeza. Julgo haver por aí muitos trolhas que preferiam ser advogados. Não tenho nada contra os advogados e, se tiver, deixo-o de parte nestas minhas considerações. Os primeiros, porém, desconhecendo os trâmites legais, podem estar neste preciso momento incorrendo em prevaricações muito estudadas e para as quais existe moldura penal.

Ora, o problema não reside no facto de um trolha não conhecer a lei, mas na possibilidade quase matemática de ninguém a conhecer na sua plenitude. E isto, para quem aspira andar de costas direitas, faz hérnia. E porquê? Porque andar nos trilhos de uma Lei suficientemente vasta para tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente, implica andar derreado perante os que, podendo adulterá-la em interpretações de bel-prazer e ganhando dinheiro com isso, demitem franqueza e seriedade aos corações mais puros.

Ora, uma Lei partilhada por todos deveria resumir-se a uma carta, a um código deontológico suficientemente altruísta e esclarecedor como a Carta dos Direitos Humanos. Não adianta de muito alargá-la, quando nem esses direitos tão básicos continuam a ser atropelados. Isto incomoda-me.

Incomoda-me ter de pautar a minha existência por uma cartilha de mentiras travestidas de virtude e assentá-la, não em factos, mas em percepções de factos, e suportar-me ignorantemente acorrentado. Viver em democracia não nos iliba a ignorância; vestir a mesma roupa não nos bane a falta de gosto; dizermos todos o mesmo não basta para ter razão.

Os ideais reinventam-se a cada geração. Em contrapartida, as ficções sociais a que nos sujeitamos são tão reais como as telenovelas e actuais como as tragédias gregas, triando ad libitum os bons dos maus, sem régua para as pessoas que tomam boas e más decisões.

E é precisamente aqui, entre as normas inventadas para a coexistência do ser humano em sociedade e a anarquia de ser livre como um animal à solta, que entra a Ética, enquanto esforço filosófico de questionamento da moral.

É, nesse permeio, entre o ser animal e o agir social, que reside o excremento e a excelência da raça humana. Também aí, e não sei se por condição ou intervenção divina (razão pela qual tanto duvido como acredito) se instalou o livre arbítrio, - a mais perfeita das ironias!
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15 de nov. de 2009

-" Estou atrasada! Estou atrasada!", disse a Amora Silvestre ao entrar no País das Maravilhas.
- "Oh... perdão, no Cabaret! Estou atrasada, estou atrasada!"


Eu , sou Amora, a fada. Sim, porque no Cabaret tudo é permitido e ainda que a magia tenha caído em descrédito, nós fadas existimos e aqui estou eu para o comprovar.
Resolvi deixar os bosques, sair do anonimato e aceitar o convite do Mal para assim colorir a negrito também, se for o caso, a tela encantada do pensamento.
Sem mais demora e porque o tempo para praticar o bem é escasso, lanço aqui um "Manto de Estrelas" para que o encantamento possa principiar.

Imagino-me,

Deitada sob um manto de estrelas,

suspensa,

de corpo invisível,

com contornos de luz.

o meu corpo corpóreo e incorpóreo

viaja até ti por espaços perdidos,

tocando teus lábios- borboleta,

selando,

imprimindo,

mágico e transcendente sentir

coeso e disperso no devir...

Imagino-te,

Árvore branca nascida de uma constelação

Iluminada,

singela,

ardente de paixão.

Oscilo nos teus ramos,

como num baloiço de infância,

sentindo a brisa no rosto

e a alma a rodopiar

numa valsa interminável...

Lanço beijos e caricias ao luar,

no desejo pleno de te alcançar.


Beijos coloridos e sonhadores.



12 de nov. de 2009

A Festa só agora começou...

O sobreviver a uma catástrofe, ou ser subjulgado em grupo por alguém, tende a unir as pessoas, dar força ao grupo para ultrapassar as advertências... Mas porquê esperar por isso para estarmos unidos? Porque não dar uma Festa?
Assim foi, um festim como manda a regra, gente vestida a rigor com toda a vontade de se libertar e estar em liberdade, passo a redundância. Pessoas com mentalidades, aberturas, crenças, vontades, limites diferentes, mas que naquele dia decidiram deixar tudo isso para trás...

Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a quem decidiu bater o pé a todos esses moralismos, e se sentiu a vontade com as pessoas que estavam de braços abertos para os receber. O meu agradecimento também a quem se despojou de manias e costumes e deu o passo em frente para organizar aquele Banquete. Parabéns

Nada acabou, tudo começou...

9 de nov. de 2009

E pronto. Acabou-se a festa.

No cinema recorre-se por vezes à técnica de filmar uma grande chuvada depois de uma série de acontecimentos com forte carga emocional. O objectivo é basicamente fechar um capítulo e desembargar a tensão acumulada. Na verdade, e não apenas no cinema, o elemento água é talvez o veio purificador mais poderoso que a natureza nos colocou à disposição.

Ocorreu-me isto porque hoje choveu e eu sinto-me lavado. Por dentro, a sensação é de rescaldo depois de um incêndio e o meu corpo reage com cautela às arranhadelas deixadas por esfregões ávidos e escovas de arame…

A vida poderia ser uma festa e nós só teríamos de continuá-la. Mas abateu-se sobre o nosso tempo uma forma de pensar que roça a doença. Vigora entre nós uma corrente de pensamento que nos impele a impor sevícias ao corpo e à alma, para que mereçamos a felicidade. Ah, mas eu gosto de me vestir pelo avesso e fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. O tédio embaraça-me, o costume atrapalha-me e a afinação da virtude por lamirés roubados enoja-me. Não me quero envenenado. Quero-me livre e experimentado. Faça-se a festa. Para grandes males, grandes remédios e, se for preciso, tome-se o xarope todo.

PS: Os meus mais sentidos agradecimentos a todos quantos se livraram de preconceitos e abrilhantaram o Ultimate Sex Power Fest com a sua presença. Um agradecimento muito especial ao meu grande amigo e camarada da Comissão Instaladora, sem o qual este deboche não se teria realizado...
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29 de out. de 2009

ULTIMATE SEX POWER FEST

Minhas ricas pombas e ilustres gaviões,

Como já deveis saber, vai realizar-se no Convento de Alpendurada, no próximo dia 7 de Novembro, um grandioso festim que dá pelo nome de Ultimate Sex Power Fest.

Temos confirmadas mulheres nuas, cavalos e anões. Está apenas pendente a confirmação de um triciclo com pratos de choque e… uma meia dúzia de malandros que gosta de se guardar para a última. No entanto, e porque urge confirmar o número de gamelas e as cestas de trigo recesso, eis-me por este meio a reclamar pela vossa atenção.

O manjar implica uma liquidação de 15 euros, com bebidas à descrição enquanto durar o jantar. Depois disso, acaba-se a mama… ou não! Estamos autorizados a levar umas garrafitas para continuar a festa. Tragam-nas!

A indumentária deverá ser burlesca-circence-cabaret-excêntrica-erótica-sexy podendo ter reminiscências góticas ou à belle époque. Por isso, meninas, puxem-me essas saias para cima de modo a ver-se as ligas, apertem os corpetes e venham com cheiro de flores; Os coiotes amanhem-se nos armários à procura daquele casaco do avô que um dia juraram nunca vestir. Ah! E suspensórios - é uma imposição delas! As bengalas e os chapéus também são muito bem vindos…

Sejam arrojados, - não há que ter medo! Não vai ser por uma muda de roupa mais extravagante que a vossa pele vai arder no inferno… antes pelos motivos que vós sabeis!

Mais coisas…

Estamos a negociar um autocarro que arrancará do Marco (junto à Câmara) às 19:30 (é para cumprir). Por volta da meia-noite, o mesmo veículo nos trará de volta ao Marco. Ainda não sabemos o preço do autocarro, mas o bilhete de ida e volta deverá rondar os 4 euros (pelo que importa também confirmar quem deseje ser guiado)

Resumindo e concluindo,

É fundamental confirmar presença e/ ou autocarro. No próximo sábado, eu e o Romeu estaremos no woodrock, pelo que se puderem pagar nessa altura, melhor.

Podem também confirmar através do blog http://cabaretdesmorts.blogspot.com ou pelos números 961 942 118 ou 918 901 593

Resolvam lá isso… vá!

Sr. Mal

26 de out. de 2009

Ultimate Sex Power Fest


Diz-se por aí, à boca fechada, que a malta anda com falta de criatividade no que diz respeito à escolha da indumentária para o Ultimate Sex Power Fest. Eu não acredito. Quanto a mim, isso é boato! No entanto, e para que não restem dúvidas quanto ao carácter excêntrico-burlesco-circente-erótico com possíveis reminiscências góticas, deixo-vos aqui algumas sugestões para que se possam inspirar…

Ah! E sejam arrojados, - não há que ter medo! Não vai ser de certeza uma muda de roupa mais extravagante que vos fará arder no inferno… antes aquelas coisas lindas que andais a fazer durante o resto do ano!
PS: Agradece-se confirmação para a festa o quanto antes...
*fotos com direitos reservados
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22 de out. de 2009

Ao ritmo da tempestade

Cheguei tarde a casa e entrei em bicos de pés para não acordar ninguém. Vivo num quarto alugado, como já deveis ter prognosticado, - bem barato comme il faut! Entretanto o senhorio faliu e veio para aqui viver também, e alugou o outro quarto a uma levada grávida que passa as noites a correr para a casa de banho, condimentando com vómitos os meus devaneios e as minhas leituras. Enfim, para meu desprazer a casa tornou-se habitada.

Mas hoje a noite discorreu engraçada e eu tive de vir a casa buscar bebidas e camisas para rufar mais calor no carro que ficou de porta aberta e a música alta. Deixei as botas à porta, como se fosse fazer menos barulho correndo em peúgas pela escada alcatifada. Calcei uns sapatos de sola silenciosa; abri gavetas em desespero, arrancando de lá preservativos à mão-cheia; entrei por uma porta do armário e saí correndo por outra, deixando um rasto de garrafas vazias atrás de mim, e a colecção de bebidas em miniatura abraçada ao peito, como se levasse o filho de uma ex-mulher que o tribunal me proibiu de educar…

Entrei no carro como um tufão e as garrafas tilintaram como um candelabro dado ao vento de Penha Longa. A moça que estava no banco da frente agarrou-me pelo queixo e beijou-me a boca. Eu estiquei o pé no acelerador, o carro derrapou no alcatrão cheio de folhas molhadas, ela agarrou-se com afinco na minha camisa suada, um tornozelo de trás cravou-se-me no pescoço com o tacão a bater no vidro e a estrada seguiu o nosso veio ao ritmo da tempestade…

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20 de out. de 2009

ULTIMATE SEX POWER FEST

Tenho uma visão desinspirada do mundo. Não só não o consigo mudar para melhor como não vejo, nas pessoas que podem, um altruísmo ou nobreza capazes de tornar a existência dos outros mais livre e autónoma. Arrisquei pensar o mundo como numa equação matemática, mas pus demasiada emoção nas contas e o resultado veio-se em mim como uma biblioteca de auto-ajuda…

Fartei-me de ouvir os conselhos dos outros; de ter uma identidade com deveres acessórios; de esperar em filas; de desligar a televisão; de esperar que algo bom aconteça; de me querer vestido e penteado como um nova-iorquino só porque os padrões de beleza se homogeneizaram a uma escala global…

Fartei-me de tanta coisa e encontrei-me isolado como um eremita. O mundo espera de nós uma contribuição para a correcta lubrificação das suas rodas dentadas. Ora, isso não me apetece. Cravaram-nos a religião nos corações e outros ideais de perfeição que nos juram a pele a uma cama de pregos se não os cumprirmos. E, mesmo que os cumpramos, esses ideais não nos ilibam de ser atropelados ou morrer à fome com as pernas partidas no fundo de um poço que alguém abriu e se esqueceu de tapar porque secou. Longe de querer culpar a humanidade por abrir poços ou deixar as suas crianças morrer afogadas em tanques, importa-me antes não fazer juízos de valor.

Cedo ou tarde, vamos todos morrer! Ter assim uma certeza, consola e apazigua. O que fazer então da vida? Prolongá-la por mais um ano ou dois, impondo sevícias ao corpo? Domesticar a alma? Cada um responderá por si, se acreditar que tem mais vida para além do corpo que preside…

Quanto a mim, prefiro seguir o conselho de Agostinho da Silva, e vou fazer exactamente o contrário daquilo que me faz infeliz. Ainda que os relógios torçam o nariz, ainda que a decência, o bom-gosto e o bom-nome achem “por bem” fazer juízos de valor, eu vou inventar a minha história. Começou mal, - com um baptismo à pressa - não fosse eu ferrar nos anjos como um menino selvagem com a dentição toda aguçada. A infância foi bonita, ainda que sem pedófilas; a adolescência foi o que é, e a idade rouba-me fatias de fígado por cada borracheira que apanho. Uma vez chegado a este ponto, importa-me tão-somente reunir as pessoas e ser feliz com elas, traficar o ânimo contra a lei vigente e inventar a felicidade.

Seremos capazes de nos reinventarmos, livres de preconceitos? Seremos capazes de aproximar a alma ao corpo e, mesmo assim, conviver harmoniosa e tolerantemente? A ver, vamos, no ULTIMATE SEX POWER FEST!


PS: aceitam-se inscrições. A festa terá lugar no Convento de Alpendurada, no dia 7 de Novembro. Arranjou-se a brincadeira pela módica quantia de 15 euros (jantar incluído). Depois da comezaina, acabou-se o vinho! Por isso, vamos lá surripiar uma garrafita à garrafeira do velhote, - ele faz menos caso se lhe disserem que a garrafa desaparecida se esfumou no Natal passado, quando ele “foi para a cama de gatas”…

A indumentária é livre, desde que seja sexy. Dão-se alvíssaras a quem aparecer de corpete e meia liga (a ver-se!). A ideia é fazer-se uma festa que combine os estilos Burlesco-Circence-Belle-époque-Gothic-Cabaret. Os homens devem comparecer de chapéu ou cartola, com indumentária Dandy, - dão-se alvíssaras a quem apareça de fato cor-de-rosa, camisa branca e laço verde-alface, calça curta e meias de riscas às cores. Os suspensórios são uma condição exigida pelo sexo feminino…

- Não esqueçamos que este jantar pretende ser uma ode à excentricidade. Os mais mirrados pela educação podem sempre dizer que vão a um carnaval de inverno. Sejam inventivos!

Libertem-se de preconceitos e vamos fazer a festa. Morrer pode ser para amanhã…

...

19 de out. de 2009

O verdadeiro artista... em Bollywood

O artista é um ser incompleto. Ser completo é próprio dos parvos. O verdadeiro artista é uma invenção do erro. Ele pega no mundo todo e num molho de roupa suja com a mesma convicção, ao vir do banho. O artista incomoda-se, o artista deprime-se por ter de encontrar uma forma de explicar a sua visão do mundo. Ele é significante e significado em constante mutação e mexe na merda, provando com as mãos em vaporosa que ela cheira mal. O artista também existe para desmistificar os dogmas que a publicidade e a propaganda vendem como ideais de virtude e perfeição. Acresce ainda ter de inventar os códigos linguísticos mais acessíveis ao entendimento da sua visão e, nesse sentido, o verdadeiro artista deve também ser capaz de reinventar o seu discurso nos códigos já existentes. A sua forja é o mundo todo e o seu castelo uma torre de latão e marfim com apliques e farolins, por onde ele mesmo sobe, arriscando a gravidade dos seus pensamentos.

Essa mesma condição inventou-me um lugar no cinema e, sem mais delongas, proporcionar-vos-ei, sem quaisquer interesses comerciais, o desfrute de algumas cenas que me tornaram mais conhecido em Bombaim do que a Angelina Jolie no Cambodja…

O Último Tangas em Paris
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-559f51775ca97efa8b44858146fe398a.html

Carolina Estende a Toalha:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-005d37149bbe8a4f5b450a9b4f54c281.html

Manif:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-6169d8b1507630634135dfd25acbd207.html

Gina Lombriga:
http://www.grapheine.com/bombaytv/movie-uk-a38ade88d60bed82a39c2091c872bfe2.html


Brevemente, há mais...

15 de out. de 2009

Ultimate Sex Power Fest

Acordai,
Que ainda sois jovens!

Bem sabeis que o tempo passa
E não há velhice de mel nos olhos
Para quem se adiou aos encontros.

Enoja-me o vosso peito a tinir de medo,
As conas secas e as pilas murchas!
Ide embora!
Comprai uma caixa de pau-santo
E metei-vos lá dentro para que nunca vos toquem!

Ou então arrependei-vos
E bebei comigo um trago de honra
Pelo tesão que vos gerou!

Ainda é possível desfazer o mal, -
O vosso mal!

Renegai o mundo que vos querem vender.
Renegai-o! – digo-vos eu!
Tendes beleza,
Tendes talento e terreno de pele que baste
Para inventar um museu de memórias
Na própria carne.

O vosso peito é tenro – eu sei-o!
Não espereis mais um quarto de século
Para o ofertar a um calor de mãos.

O sentido da vida é a morte!
É melhor que o saibam por mim!

Tirai essas mãos sujas dos bolsos
E dançai. E roçai
E devolvei a Bruxelas essa educação que vos obrigou a cobrir o corpo…
Como se a vontade de fazer amor fosse pecado!

Inventai comigo, outra vez, o amor.

Tomai-vos,
E comei-vos!

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4 de out. de 2009

Era uma vez...

Admiro as pessoas que são natas contadoras de histórias. Não faço distinção quanto a idades, ou até mesmo a experiência de vida, tanto me apraz ouvir um velho ancião calejado e marcado pela existência, como um pequeno ser que ainda não saiu debaixo das saias da mãe… especialmente se ainda estiver debaixo dessas saias, bens sabereis o porquê, mas isso são outros caminhos, pelos quais não quero enveredar neste momento.
Ora, a natureza de um contador de historias faz com que essa criatura seja um ponto atractivo, uma pessoa na qual vamos para casa a pensar, em que por vezes estamos na cama a olhar para o escuro do quarto ou até na sanita (utensílio muito apreciado pelos pensadores) e nos surge na lembrança, é um espírito sempre presente, mesmo quando não o sentimos.
Foi com uma pessoa destas que tive o imenso gosto de contactar aquando das minhas férias na minha outra pátria. Inúmeras histórias me confidenciou a pessoa á qual me refiro, mas nenhuma me marcou tanto como esta que de seguida irei partilhar convosco, meus caros compinchas.
Não vos irei pedir que para tal narrativa (tal como me foi pedido a mim), depositeis a vossa crença, ou até o vosso interesse, abandonai, pois, este conto e este vosso humilde narrador, no ponto que acheis mais adequado para prosseguirdes o vosso caminho. Se por um feliz acaso o seguires até ao fim, estais desde já convidados a brindar-me com um copo do vosso juízo ou opinião.
Assim, passai a ouvir-me não só com os tímpanos, mas também com os olhos!

Lá na Ucrânia; bem na Ucrânia profunda, onde e como dizem os locais que Cristo não passou, existe um vilarejo, uma pequena comunidade, com não mais de cinco centenas de habitantes, pessoas modestas que vivem da terra e daquilo que esta lhes oferece mediante o seu trabalho sazonal. Essa terra de seu nome Pukalyak é maioritariamente cercada por bosques e vegetação bastante densa, que dá ao lugar um aspecto bastante sombrio. Mas essa densidade de florestação não é o único elemento a rodear Pukalyak. No lado sul do vilarejo existe um lago, de águas bastante calmas, mas também bastante negras e profundas. Diz-se até, que este lago encerra segredos de uma aldeia submersa pelas suas águas… factor que contribui para que os locais dificilmente o frequentem. È como que um local proibido.
Na localidade, existia uma rapariguinha, como tantas outras da sua jovem idade, Oksana era o seu nome. Era alta e magra, de longos cabelos negros e de olhos verdes escuros como a vegetação que circundava Pukalyak, vegetação que exercia um enorme poder sobre a rapariga. Dizia-se enormemente atraída pela floresta, como se esta sussurrasse o seu nome, afirmando, até, que um dia iria explora-la apesar de todas as tentativas dissuasoras de sua velha mãe, sua única e fraca família.
Os dias e os meses, assim como as estações passavam sempre toldadas pela constante e doentia névoa e o desejo de se entregar á floresta de Oksana, não parava de crescer. Era Janeiro e o dia estava mais frio que qualquer outro, sua mãe morrera há precisamente um mês, na noite de natal… presente envenenado com que fora brindada a nossa rapariga pelos santos e personagens natalícios. Hoje, Oksana decidiu libertar-se desse desejo que já há muito a sufocava, precisamente hoje iria entregar-se á densa e proibida floresta sombria…
O que por lá se passou com a jovem é de todo desconhecido, uma coisa, porém, é certa, quando regressou, um par de anos depois, não era a mesma rapariga. Vestia as mesmas roupas com que partiu, ou melhor vestia o pouco que delas restava, pois não passavam de trapos gastos, rotos e sujos. Os seus longos cabelos negros estavam ainda mais longos, mas também bastante estragados, sujos e como que viscosos. Os olhos sem brilho, bastante enterrados acrescentavam uma expressão ainda mais demoníaca á sua face pálida. Não falava ou sorria, não gemia ou chorava, simplesmente se notava ausência de expressões em toda a sua pessoa. Trazia consigo uma criança nos braços, um recém-nascido, que diziam os locais ser fruto gerado no seu ventre depois de concebido entre si e uma das muitas criaturas demoníacas que povoavam a escura floresta. Razões de sobra para que a população local começasse a desprezar, escorraçar e criar mitos em relação a estes dois miseráveis seres.
Admiravelmente a jovem sempre se conseguiu manter viva e ao rebento, sem que para isso necessitasse da ajuda alheia. Receosa das represálias da população, Oksana mantinha-se sempre retirada do resto da pequena vila, arranjando-se, desta forma, sempre o melhor que lhe era permitido. Certo dia, tentada pela fome desenfreada com que vinha sendo assaltada ultimamente, não aguentou os espasmos do seu corpo e mais uma vez aventurou-se floresta adentro, desta vez, somente, com o intuito de caçar para se saciar do seu apetite e por sua vez proporcionar uma refeição mais digna ao pequeno ser que a acompanhava. Saiu logo pelo romper da manhã, com uma névoa cerrada e um silencio de morte, entrecortado pelo som da luta de um bando de corvos ao longe. Á criança, deixou-a muito aconchegada, num cantinho resguardado da casa.
Ao meio da manhã, ainda nem todos haviam despertado e a caça já havia saído da floresta. Uma lebre iria servir de repasto… Mas ao entrar em casa e para seu desespero e terror, Oksana constatou que o seu pequeno ente desaparecera. Pela primeira vez nos últimos anos, o seu rosto assumiu uma expressão, a sua minúscula boca suja abriu-se violentamente emitindo um som semelhante ao de um uivo e o desespero tomou conta da sua alma, se é que ainda a possuía. Saiu, aturdida com o acontecido e veio grunhir por auxílio para junto do vilarejo e dos seus habitantes, que logo se puseram a bramir insultos e ameaças contra ela. O chefe dos anciãos assumiu o seu posto e tomou a palavra, dirigiu-se a ela nos seguintes modos:
- «Avistamos sim, o fantasma de uma criança a chorar e a correr em direcção ao lago, mergulhando na sua escuridão. Com certeza, ficou nas ruínas da aldeia submersa, habitada por algumas pragas aquáticas. Reza pela alma do teu filho! Talvez tenha virado comida dessas pragas, procurando nas suas fezes, talvez o encontres…»
Nisto, agarrou a cabeça de Oksana, com as duas mãos, muito firmemente e gritou-lhe: - «Acorda, mãe aflita, liberta o filho que está perdido no teu sonho. Abre os olhos, deixa-o sair do teu interior!»

24 de set. de 2009

O Ócio e o Negócio

Calem-se os cépticos! Eis-me chegado de um longo período de marasmo, hibernação e/ou descanso. Vejam-me, os que em mim não acreditaram, como um bombom desses que a televisão publicita, desses chocolates que são retirados do mercado durante a estação das secas, do sol e do calor, para que não percam nenhuma das suas qualidades… podem ver-me assim, os que me julgavam desaparecido, ou ter desistido de comunicar no Cabaret… A verdade, meus caros amigos, é que este vosso humilde narrador só se ausentou por uns tempos, por ter ido de férias ao meu país natal.
Retirei-me, portanto do “negócio”, para gozar uma temporada de ócio. Mas afinal é sempre a isto que a vivencia humana se resume – ao ócio e ao negócio.
Foram umas grandes férias, vividas intensamente e até ao limite. Família, amigos, copos, comida da boa e muitas amigas sempre a entrarem pelos meus aposentos adentro. Ainda agora regressei e já sinto a falta desses regalos tamanhos. O mesmo senti por tudo isto e especialmente por vós meus caros cúmplices, quando me encontrava na mãe Ucrânia.
Já tomei conhecimento de algumas novidades do país e da terrinha e mais particularmente aqui do Cabaret. Desde a minha ausência, soube que mais alguns compinchas se juntaram ao elenco de comunicadores cá do blogue, a todos eles os meus mais sinceros e cordiais cumprimentos e boas vindas.
Assim, não sei se para rejúbilo geral, afianço a continuação da minha escrita neste local, que particularmente deveras me apraz.
Portanto, gozado que está o ócio, vamos ao nosso negócio!

23 de set. de 2009

Outono

Chegou o Outono, a minha estação preferida. Deixamos de suar como porcos, as cobras hibernam e os coretos demitem-se de acolher artistas pimba; as árvores que não arderam largam a mão das folhas, cobrindo o chão pejado de pevides e cascas de melão; o sol põe-se com um gosto de fruta madura e troca-se uma roupa por outra com mais ternura. Depois a carne tem outro gosto, convidando mais ao deleite e ao vinho chambriado. Sirvo Two Shots of Happy, One Shot of Sad de uma Nancy Sinatra em copos de cristal e os relógios entram em greve para me dar razão.

Por esta altura, as fadas deixam pistas da sua passagem pelos montes. Lenços de luz nas árvores e cabelos de oiro penteados sobre as pedras. As fadas são ninfas tímidas sujeitas à lei dos pássaros, instruídas para fugir dos homens. Mas há, em todas as criaturas de Deus, rebeldia e pendor para o desconhecido. À sombra do sono parecemos menos maus e as fadas arriscam o toque e beijam-nos a boca.

Acordamos depois revigorados, sem fada ou fado, com um gosto de flores na boca e o mesmo entendimento relativizado do mundo, confusos, mas sem noção de ter infectado a doença do amor num coração puro.

A fada morre depois, virgem, como uma borboleta mirrada de sede, e um ancião de tal adverte para os perigos num palanque de flores improvisado…

Chegou o Outono e a dor ouve-se como o vir da festa…


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17 de set. de 2009

Carta aberta ao Bebé Delícia

Nunca antes tinha pensado na adopção...

Com este post, o menino fez-me reviver uma infância que eu julgava perdida, muito por culpa de uma orfandade que me atirou cedo para a fábrica de sapatos. Uma infância com meninas que gostavam de brincar às casinhas em cabanas com pilares e cheiro de eucalipto. Uma infância feliz e poligâmica cimentada em camas de giesta. Uma infância em que eu mostrava a pila às meninas, e elas, ainda sem pelugem de mocho, baixavam as cuequinhas até aos joelhos e deixavam-se inspeccionar.

Se, por traquinices do destino, os seus pais adoptivos o voltarem a pôr na cesta e o deixarem à porta de um orfanato, saiba-se avalizado para merecer os meus cuidados paternos. Conheço umas garotas sensíveis com parzorros leitosos, dos quais poderíamos sorver os dois.

Pense bem, menino, e não hesite em contactar-me!

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16 de set. de 2009

Biberão On the Rock's

Oi,

Eu sou o Bebé Delícia e, com o tempo, percebereis que eu sou muito mais cabrão do que vós todos juntos. Vim do futuro com o objectivo bem delineado de me pôr na mira da pedofilia feminina!

Ao contrário do Sr. Mal, que persegue o seu fetiche por pernas com um cabisbaixismo mal disfarçado, eu ando sempre com o pescoço em jeito de periscópio à procura de mamas, como se respirasse um ar mais elevado. É, gosto de mamocas!

Ainda tenho os dentes de leite, ou melhor, tenho os dentes cheios de leite. Às vezes, estou a mamar e tiro a boquinha para lamber as beiças, como um epicurista bêbado degustando um Chianti de 88. Pelos peitos onde a minha boca passa nascem rugas de esvaziamento e erguem-se ao sol mamilos em penitência.

Agora tenho que ir dormir. Gostava de poder escrever posts maiores mas não posso dar muito nas vistas. Estou na sala de jantar a escrever às escuras no Magalhães do meu irmão adoptivo. Está tudo a dormir e eu vim aqui só para cambiar o leite de vaca que me puseram no biberão. Estava a precisar de uma pomadita que me pusesse a roncar mais a jeito. E sim, vou de gatas para a camita.

PS: O gato até foge de mim só de olhar para ele…

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8 de set. de 2009

Chá das cinco

Eu devia era dormir! Deitar-me numa cama fresca e ficar velando, sem grande contrição, por uma associação de ideias e pensamentos que me carregasse as pilhas. Mas há ímpetos que vencem o cansaço, como aquela vontade de querer passar a noite a foder, sem ter ainda com quem. Ímpetos que resvalam no vício e que ninguém gosta de admitir, como escrever bebendo ou conversar à distância…

Gostava de recuperar a prática romana dos banhos públicos, mas cruzado com um “chá das cinco”. Quem fodesse cinco vezes teria direito a um chá…

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5 de set. de 2009

Monólogo amigável nas agitadas paragens de Algures:

-Nunca digo tudo e tudo o que digo é tudo e nunca o todo.

-Criaste um espaço impenetrável e afastado de todos. Nada nos é próximo-lugar longínquo de intima nostalgia.
Falar é dar forma à palavra que está em ti. É ouvir o eco da tua voz interior.

- Não será a palavra que expõe o ser levando-o a provar da ironia e escárnio, deixando nele o sabor a fel?
Tudo o que é dito contém a morte em si. Ditosos os que são em silêncio.
Quantas frases são pronunciadas com o peso da repetição?

- E quando se fala das dores, serão elas também volúveis?
- As dores vivem-se na solidão que é nossa.Tudo o que é dito ou vivido no exterior não é mais do que areia que finca ao decalque da leveza do ser.

-Nunca desiludir-me-às...

-Recordas-te de tudo o que tens dito?
Por vezes penso que nos servimos das palavras quando menos necessitamos delas. Escondem-nos nelas e delas resultam frases feitas e lugares comuns... Prefiro escrever.

-Eu também. Adeus.

-Adeus.