Há coisas realmente altruístas que, pelo facto de o serem, ninguém se atreve a esboroar-lhe a parvoíce, sob pena de ser considerado parvo. Falo, como já devem ter reparado, do programa Novas oportunidades que, tal como um Reality Show, entretém as pessoas por um canudo mas não ensina nada a ninguém.
Oh heresia! Coisa feia de se dizer! – Mas muito fácil de explicar!
O programa Novas Oportunidades serve para certificar conhecimentos e atribuir graus de instrução a pessoas que, pelos mais diversos (e mesmo nobres) motivos não puderam ir à escola. No entanto, ao longo da vida, essas mesmas pessoas acumularam conhecimentos suficientes para se equipararem (e mesmo suplantarem) às outras que lá andaram. Tomemos como exemplo os nossos pais. Grande parte deles nunca fez muito mais do que a 4.ª classe e, no entanto, só com muita arrogância é que não seríamos capazes de reconhecer o valor das suas vivências e experiências. Os sacrifícios por que passaram durante todos estes anos, inventou-os para a existência com um leque de conhecimentos muito mais vasto e transversal do que um canudo da universidade com uma folha de papel timbrado lá dentro. Como tal, é de uma injustiça atroz que essas pessoas não tenham a mesma igualdade de oportunidades que uma pessoa formada na universidade. É injusto que se pretira toda uma vida de trabalho e suor e se dê mais valor a um acéfalo que fez a escolinha toda a chupar sugus.
Ora, até aqui eu compreendo. O que eu não concebo é que a solução apresentada para combater esta descriminação seja dar diplomas a quem não os tem, ainda que tenha conhecimentos para isso.
Investem-se milhões para dar canudos em vez de formação. Ou seja, a lógica do canudo continua a vigorar. Continuar-se-á a dar valor a quem tem um canudo e não a quem acumulou uma vida de saberes. A linha é ténue, bem sei. Mas o que seria realmente importante e no que valeria a pena investir, seria na educação e na formação, combatendo, ao mesmo tempo a discriminação no acesso ao mercado de trabalho. Mas não. O título é que importa, o grau é que importa e quem quiser ser apreciado pelo valor que tem, obrigue-se a passar pelo esquema das Novas Oportunidades. E é se quer! Porque se for analfabeto e quiser ser jardineiro da Câmara Municipal, ainda que não tenha feito outra coisa na vida senão trabalhar no campo, vai ficar de fora por não ter o nono ano. Se ao menos lhe dessem a possibilidade de ser bom naquilo que é, e depois o ensinassem a ler e a escrever… talvez as Oportunidades merecessem considerar-se Novas. Mas por enquanto é mais do mesmo e muito dinheiro mal gasto…
Assim não vamos lá!
.
15 de jul. de 2009
8 de jul. de 2009
Conspiração com Bisnetos II
Tenho adiado a publicação deste segundo capítulo, não por preguiça ou falta de vontade, mas por dificuldade em balizar o que importa ser dito, sem perder o fio à meada ou deixar-me enovelar na emoção do discurso. É sempre assim! Quando falamos de temas capitais como a Política, a Religião ou Futebol, a métrica que vai de alhos a bugalhos pode ser tão densa como ténue. Como se para ir à raiz das coisas, tivéssemos sempre de entrar num labirinto de canalizações subterrâneas. Em suma, justifica-se nessa complexidade, tanto o meu atraso como a ideia de chamar Conspiração com Bisnetos a esta série de cartas.
Não sou anárquico! A Anarquia assemelha-se-me, muitas vezes, a uma casaca política da Teoria do Caos. Para os menos familiarizados com esta teoria, vou tentar explicá-la à minha maneira. Imagine-se por exemplo a cidade do Porto. Tem um espólio arquitectónico fabuloso, porém desordenado; tem edifícios lindíssimos, porém a cair aos bocados; ruas de uma riqueza histórica inexcedível, mas por onde é impossível passar de carro… Não defendo, obviamente, a destruição do património, muito pelo contrário! Imaginemos agora que um terramoto destruía a cidade do Porto. Morreria muita gente, choraríamos muito todas as perdas, tudo aquilo em que acreditávamos, blá blá, etc.
Finda a choradeira, teríamos de nos unir, pôr a trabalhar os bulldozers e lançar mãos à obra para limpar a merda toda e dar novo rumo às nossas vidas.
Surgiriam novas visões arquitectónicas com avenidas largas e ruas simétricas; os edifícios seriam independentes energeticamente e sem emissões de carbono; as linhas de metro e transportes públicos seriam mais rectilíneas, rápidas e eficientes; graças às novas tecnologias, poderia rapidamente tornar-se na cidade mais avançada e sustentável do mundo. Houvesse vontade e visão…
Isto não é Utopia. Lisboa, depois do terramoto de 1755 ganhou a preponderância necessária para se tornar na capital do país; no fim da II Guerra Mundial, a Alemanha era um país em ruínas, mas rapidamente se inventou como uma das mais preponderantes potências mundiais, assim como o Japão…
A Teoria do Caos é basicamente isto. Queiramos ou não, as catástrofes são, não raras vezes, revoluções sem encomenda.
Não tenhamos medo de encarar a verdade das palavras. Chamemos-lhe caos sem qualquer juízo de valor. Não vale a pena continuarmos em negação. O Capitalismo vem-nos ensinando a pôr de lado as palavras quando o significado delas engorda. Tudo é retórica para sossegar o espírito. O desemprego passou a chamar-se downsizing ou layout. Até soa a promoção…
Habituamo-nos a contornar a realidade e tornamo-nos escravos incapazes de pensar por nós mesmos. Gajos sem ética, mas com muito dinheiro e poder, inventaram-nos uma Educação orientada para o curral. Fizeram crer a toda a gente que era importante passarmos vinte anos na escola a aprender um ofício específico, descurando todos os outros. Findo o processo, e incapazes de garantir a nossa própria sobrevivência, eles aparecem com côdeas de broa para nos seleccionarem como gado, em função das “necessidades de mercado”, vulgo propósitos monetários. Ou seja, escolhem entre nós os mais aptos a cuidar de um determinado parafuso da engrenagem, premiando os que menos valores humanos demonstrem na persecução dos objectivos.
Sem sabermos plantar uma couve, lançar um fio de sediela com anzol ou sequer atirar chumbo numa perdiz, vamos engrossando o cortejo dos desempregados e dos amarradinhos, com a mão estendida…
Poderão dizer-me que posso sempre abrir o meu próprio negócio. Pois posso. E posso até admirar quem persegue a via-sacra para cumprir os seus sonhos empresariais. O mais provável é que o faça porque, pese a falta de modéstia, até me julgo com suficiente capacidade para vencer nele. Mas, pergunto-me, não será essa uma forma de entrar no sistema, de aceitá-lo como ele é, de engrossá-lo, de me permitir aos seus defeitos? Sem dúvida que sim e, pese agora o meu idealismo, também eu preciso de comer as minhas sopas. Mas isso são contas de outro rosário…
O que me interessa com esta missiva, não é fazer despontar em mim a forma de ser grande e sustentado neste sistema. Interessa-me, isso sim, desmascará-lo porque é falso e vendido; porque concentra o poder; porque nos educa para a subserviência; porque nos educa para o conflito; porque nos inebria os sonhos com ideais consumistas; porque nos vende como mercadoria; porque nos rouba o ar dos pulmões e infesta de veneno os rios; porque ensina o endividamento; porque permite entendimentos de lei diferentes para crimes iguais; porque persiste na guerra; porque é impossível acreditar na paz enquanto as fábricas de armas continuarem a laborar; porque põe placas de proibição em tudo o que dá prazer; porque é intolerante e ensina os putos na escola a desprezar o próximo só porque é mais feio ou gordo; porque destrói a natureza; porque retira poder à vida humana; porque faz a corrupção parecer normal; porque poupa os corvos e persegue as pombas; porque justifica todos os meios para se atingirem determinados fins e, acima de tudo, porque ensina uma infelicidade sem entendimento que conduz ao vício e ao adiamento das responsabilidades, à existência virtual; porque adia o amor e faz-nos desejar ser más pessoas para suportar a existência com algum conforto; porque temos de lutar contra tudo e contra todos para sermos felizes quando, no fundo, o que mais desejamos é ser amados.
E é contra esta merda toda que se impõe largar uma bomba de Cultura e começar do zero. E não, não é depositando todas as esperanças num governante a falar de ventura que se vai fazer a grande revolução…
Continua…
.
Não sou anárquico! A Anarquia assemelha-se-me, muitas vezes, a uma casaca política da Teoria do Caos. Para os menos familiarizados com esta teoria, vou tentar explicá-la à minha maneira. Imagine-se por exemplo a cidade do Porto. Tem um espólio arquitectónico fabuloso, porém desordenado; tem edifícios lindíssimos, porém a cair aos bocados; ruas de uma riqueza histórica inexcedível, mas por onde é impossível passar de carro… Não defendo, obviamente, a destruição do património, muito pelo contrário! Imaginemos agora que um terramoto destruía a cidade do Porto. Morreria muita gente, choraríamos muito todas as perdas, tudo aquilo em que acreditávamos, blá blá, etc.
Finda a choradeira, teríamos de nos unir, pôr a trabalhar os bulldozers e lançar mãos à obra para limpar a merda toda e dar novo rumo às nossas vidas.
Surgiriam novas visões arquitectónicas com avenidas largas e ruas simétricas; os edifícios seriam independentes energeticamente e sem emissões de carbono; as linhas de metro e transportes públicos seriam mais rectilíneas, rápidas e eficientes; graças às novas tecnologias, poderia rapidamente tornar-se na cidade mais avançada e sustentável do mundo. Houvesse vontade e visão…
Isto não é Utopia. Lisboa, depois do terramoto de 1755 ganhou a preponderância necessária para se tornar na capital do país; no fim da II Guerra Mundial, a Alemanha era um país em ruínas, mas rapidamente se inventou como uma das mais preponderantes potências mundiais, assim como o Japão…
A Teoria do Caos é basicamente isto. Queiramos ou não, as catástrofes são, não raras vezes, revoluções sem encomenda.
Não tenhamos medo de encarar a verdade das palavras. Chamemos-lhe caos sem qualquer juízo de valor. Não vale a pena continuarmos em negação. O Capitalismo vem-nos ensinando a pôr de lado as palavras quando o significado delas engorda. Tudo é retórica para sossegar o espírito. O desemprego passou a chamar-se downsizing ou layout. Até soa a promoção…
Habituamo-nos a contornar a realidade e tornamo-nos escravos incapazes de pensar por nós mesmos. Gajos sem ética, mas com muito dinheiro e poder, inventaram-nos uma Educação orientada para o curral. Fizeram crer a toda a gente que era importante passarmos vinte anos na escola a aprender um ofício específico, descurando todos os outros. Findo o processo, e incapazes de garantir a nossa própria sobrevivência, eles aparecem com côdeas de broa para nos seleccionarem como gado, em função das “necessidades de mercado”, vulgo propósitos monetários. Ou seja, escolhem entre nós os mais aptos a cuidar de um determinado parafuso da engrenagem, premiando os que menos valores humanos demonstrem na persecução dos objectivos.
Sem sabermos plantar uma couve, lançar um fio de sediela com anzol ou sequer atirar chumbo numa perdiz, vamos engrossando o cortejo dos desempregados e dos amarradinhos, com a mão estendida…
Poderão dizer-me que posso sempre abrir o meu próprio negócio. Pois posso. E posso até admirar quem persegue a via-sacra para cumprir os seus sonhos empresariais. O mais provável é que o faça porque, pese a falta de modéstia, até me julgo com suficiente capacidade para vencer nele. Mas, pergunto-me, não será essa uma forma de entrar no sistema, de aceitá-lo como ele é, de engrossá-lo, de me permitir aos seus defeitos? Sem dúvida que sim e, pese agora o meu idealismo, também eu preciso de comer as minhas sopas. Mas isso são contas de outro rosário…
O que me interessa com esta missiva, não é fazer despontar em mim a forma de ser grande e sustentado neste sistema. Interessa-me, isso sim, desmascará-lo porque é falso e vendido; porque concentra o poder; porque nos educa para a subserviência; porque nos educa para o conflito; porque nos inebria os sonhos com ideais consumistas; porque nos vende como mercadoria; porque nos rouba o ar dos pulmões e infesta de veneno os rios; porque ensina o endividamento; porque permite entendimentos de lei diferentes para crimes iguais; porque persiste na guerra; porque é impossível acreditar na paz enquanto as fábricas de armas continuarem a laborar; porque põe placas de proibição em tudo o que dá prazer; porque é intolerante e ensina os putos na escola a desprezar o próximo só porque é mais feio ou gordo; porque destrói a natureza; porque retira poder à vida humana; porque faz a corrupção parecer normal; porque poupa os corvos e persegue as pombas; porque justifica todos os meios para se atingirem determinados fins e, acima de tudo, porque ensina uma infelicidade sem entendimento que conduz ao vício e ao adiamento das responsabilidades, à existência virtual; porque adia o amor e faz-nos desejar ser más pessoas para suportar a existência com algum conforto; porque temos de lutar contra tudo e contra todos para sermos felizes quando, no fundo, o que mais desejamos é ser amados.
E é contra esta merda toda que se impõe largar uma bomba de Cultura e começar do zero. E não, não é depositando todas as esperanças num governante a falar de ventura que se vai fazer a grande revolução…
Continua…
.
7 de jul. de 2009
Obsessões
Olho-a quando passo por aquela vitrina situada na baixa da cidade.
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
Olho-a quando passo a passo pela baixa da cidade.
Falo-lhe quando tenho tempo, não obtenho nenhuma resposta
Passo e falo-lhe, falo-lhe e passo - não obtenho nada
A mulher de quem falo, á qual falo e não obtenho nenhuma resposta é MUDA.
E um mudo fica rouco de tanto estar calado.
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
É uma manequim muda, situada naquela vitrina da baixa da cidade,
É ela a quem falo e não obtenho nada,
A manequim calada e muda, a manequim...
Se é manequim e se é muda, então ser mudo está na moda?
Shiiiiiiiiiuuuuuuu!!
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
Olho-a quando passo a passo pela baixa da cidade.
Falo-lhe quando tenho tempo, não obtenho nenhuma resposta
Passo e falo-lhe, falo-lhe e passo - não obtenho nada
A mulher de quem falo, á qual falo e não obtenho nenhuma resposta é MUDA.
E um mudo fica rouco de tanto estar calado.
Dia... Noite... Dia... Noite... Sol... Lua... Sol...
É uma manequim muda, situada naquela vitrina da baixa da cidade,
É ela a quem falo e não obtenho nada,
A manequim calada e muda, a manequim...
Se é manequim e se é muda, então ser mudo está na moda?
Shiiiiiiiiiuuuuuuu!!
Miminhos
Eu quero uma cesta de piquenique
E uma mota com side-car
A tombar de putas…
Eu quero um capacete com cornos de marfim,
Uns sapatos iguais aos do Papa
Ou os cornos dele no meu farolim.
Eu quero um Ayatolah talibã a lançar girândolas
E fogo de cana no meu funeral.
O Territory dos Sepultura na marcha-lenta
E um bando de grávidas a segurar na placenta.
Ser enterrado com um par de sapatilhas ardidas
E o ministro da Cultura em stockings servindo bebidas.
Ser estrangulado pelos paramentos do padre até me vir
E uma mentirosa a gritar que me viu sorrir.
Um canibal a trincar-me os dedos
E uma placa a dizer: - Morreu de nervos!
.
E uma mota com side-car
A tombar de putas…
Eu quero um capacete com cornos de marfim,
Uns sapatos iguais aos do Papa
Ou os cornos dele no meu farolim.
Eu quero um Ayatolah talibã a lançar girândolas
E fogo de cana no meu funeral.
O Territory dos Sepultura na marcha-lenta
E um bando de grávidas a segurar na placenta.
Ser enterrado com um par de sapatilhas ardidas
E o ministro da Cultura em stockings servindo bebidas.
Ser estrangulado pelos paramentos do padre até me vir
E uma mentirosa a gritar que me viu sorrir.
Um canibal a trincar-me os dedos
E uma placa a dizer: - Morreu de nervos!
.
Ode a um Capuccino Vermelho
Fiquei sem Net por uns instantes e, enquanto o Google se esgadanhava para abrir como uma virgem assustada, houve uma mosca que se deu ao desplante de parar no meio do ecrã branco a esfregar as patas de contente, metendo a cabeça entre elas como se ajeitasse o cabelo comprido ou coçasse piolhos. Só para me irritar. Apanhei-a num lanço e comi-a. Confesso que gosto mais de lagartas. Fico sempre com uma sensação de borboletas na barriga, como se estivesse apaixonado. Vem depois um Whisky de Mal a chover-lhes nas asas coloridas e o meu amor desbota. Dá para dormir mais descansado, ainda que sem antídoto ou remédio para as penas de corvo que me chegam à boca na metamorfose das manhãs.
.
.
6 de jul. de 2009
Entro às nove
Entro às nove
Com uma convicção que tem de durar até às cinco.
Espero uma semana,
Adio um mês,
Para o ano é que vai ser!
Vinte anos de escola
A esculpir um analfabeto sem mão
Para arrancar da terra o próprio pão.
Ganha-se depois um rosto de tristeza ao fim do dia e do fundo
E um copo com duas doses bem servidas
Para anestesiar as certezas que se tinha do mundo.
Abro depois as gavetas onde me pus arrumado
E deito fora as memórias irrelevantes para o meu passado.
Livro-me do pó, escrevo post-hits com letra bonita
E vou levar o lixo para o caixote do mundo
Com um cheiro de armário lavado,
Outra vez engavetado.
Troco de religião
E vendo os serviços do que valho a um outro patrão.
Levo para abate a furgoneta dos sonhos
E passo a andar de camião.
Troco a mulher que me ganhou os filhos
E saio a viver por baixo de uma pensão
De alimentação.
Procuro depois amor na solidão de uma puta
Sem mais coração para outra luta.
Deixo para trás um resquício de esperma sem herança
E saio para o espaço vazio sem dizer “boa noite” ao segurança.
Sinto o chão nos pés caminhando até ao carro,
E arranco para lado nenhum a fumar um cigarro.
Incorporo uma música triste a passar na rádio
E atalho voando
Para uma serenidade sem lágrimas no lábio.
Os arbustos gritam no vidro por uma estrada inventada,
O carro salta
E eu fecho os olhos para uma surdez que troca tudo
Por nada.
Virão depois buscar-me os ouvidos cheios de sangue
E a carne acessória que o distribuía com disciplina.
Silêncio sem consciência…
Ficarei nas palavras que escrevi,
Na carne que me comeu,
Na memória dos outros onde vivi.
Passarão depois dez ou duzentos anos
E a sepultura que me tiver os ossos engavetados
Dará lugar a outros estropiados.
Não valerá de nada guardarem o que fui.
Tudo morre para o que pensa o tempo,
E tudo vale para quem se beija ao vento…
Viver é sorrir amor ao momento…
.
Com uma convicção que tem de durar até às cinco.
Espero uma semana,
Adio um mês,
Para o ano é que vai ser!
Vinte anos de escola
A esculpir um analfabeto sem mão
Para arrancar da terra o próprio pão.
Ganha-se depois um rosto de tristeza ao fim do dia e do fundo
E um copo com duas doses bem servidas
Para anestesiar as certezas que se tinha do mundo.
Abro depois as gavetas onde me pus arrumado
E deito fora as memórias irrelevantes para o meu passado.
Livro-me do pó, escrevo post-hits com letra bonita
E vou levar o lixo para o caixote do mundo
Com um cheiro de armário lavado,
Outra vez engavetado.
Troco de religião
E vendo os serviços do que valho a um outro patrão.
Levo para abate a furgoneta dos sonhos
E passo a andar de camião.
Troco a mulher que me ganhou os filhos
E saio a viver por baixo de uma pensão
De alimentação.
Procuro depois amor na solidão de uma puta
Sem mais coração para outra luta.
Deixo para trás um resquício de esperma sem herança
E saio para o espaço vazio sem dizer “boa noite” ao segurança.
Sinto o chão nos pés caminhando até ao carro,
E arranco para lado nenhum a fumar um cigarro.
Incorporo uma música triste a passar na rádio
E atalho voando
Para uma serenidade sem lágrimas no lábio.
Os arbustos gritam no vidro por uma estrada inventada,
O carro salta
E eu fecho os olhos para uma surdez que troca tudo
Por nada.
Virão depois buscar-me os ouvidos cheios de sangue
E a carne acessória que o distribuía com disciplina.
Silêncio sem consciência…
Ficarei nas palavras que escrevi,
Na carne que me comeu,
Na memória dos outros onde vivi.
Passarão depois dez ou duzentos anos
E a sepultura que me tiver os ossos engavetados
Dará lugar a outros estropiados.
Não valerá de nada guardarem o que fui.
Tudo morre para o que pensa o tempo,
E tudo vale para quem se beija ao vento…
Viver é sorrir amor ao momento…
.
2 de jul. de 2009
A Grande Viagem
Ir nu,
Sem dinheiro ou passagem, sem férias
Ou banho de véspera.
Esgrimir de raiz uma viagem
Sem reserva de hotel ou estalagem;
Vir de Paris com um bordel atrelado,
Arrestar com tremoços a alma ao diabo.
Fundar as mãos num veio de mar
E virem de Lisboa Tágides me pentear;
Um fraque de algas costurado por cachalotes
E o Adamastor a cobrar-me os calotes.
Subir de muletas à lua por uma escada de vindima
E cair de costas num abismo que me redima;
Acordar num pântano salvo por crocodilos
E uma merenda de avelãs trazida por esquilos.
Tocar a rebate os sinos de um campanário
E provocar um motim de galinhas no aviário;
Ovular desejo nas mulheres que passam por mim,
Oferecer o Benfica a um travesti de Turim.
Fazer check in com um machado nas costas
E um braçado de bacalhau às postas;
Partir as janelas do avião para entrar ar,
Aterrá-lo em segurança para depois o incendiar.
A Poesia a tudo me permite
E a morte, para mim, assoa a sinusite!
Pensar o infinito pode soar imoral
Mas, tal como a lei, é legal!...
.
Sem dinheiro ou passagem, sem férias
Ou banho de véspera.
Esgrimir de raiz uma viagem
Sem reserva de hotel ou estalagem;
Vir de Paris com um bordel atrelado,
Arrestar com tremoços a alma ao diabo.
Fundar as mãos num veio de mar
E virem de Lisboa Tágides me pentear;
Um fraque de algas costurado por cachalotes
E o Adamastor a cobrar-me os calotes.
Subir de muletas à lua por uma escada de vindima
E cair de costas num abismo que me redima;
Acordar num pântano salvo por crocodilos
E uma merenda de avelãs trazida por esquilos.
Tocar a rebate os sinos de um campanário
E provocar um motim de galinhas no aviário;
Ovular desejo nas mulheres que passam por mim,
Oferecer o Benfica a um travesti de Turim.
Fazer check in com um machado nas costas
E um braçado de bacalhau às postas;
Partir as janelas do avião para entrar ar,
Aterrá-lo em segurança para depois o incendiar.
A Poesia a tudo me permite
E a morte, para mim, assoa a sinusite!
Pensar o infinito pode soar imoral
Mas, tal como a lei, é legal!...
.
30 de jun. de 2009
Imperfecionista II
Não é fácil concordarmos. Se nos arriscássemos a uma definição pela rama, julgar-me-ias utópico e idealista, mimado, um talento desaproveitado (talvez). Sobre ti, arriscaria o epíteto de conservadora liberal. Que tens um emprego bem remunerado mensalmente, estável, e uma posição social com alguns privilégios…
Disposto assim o cenário, é possível que a balança da razão pese mais para o prato. Na verdade, se um de nós fosse o palhaço, seria eu. Tu serias o público em manada a sair do circo com um quarto de sorriso brie na boca e passos firmes em direcção ao estacionamento.
No espelho do bastidor, poupando na realidade por uma garrafa de cognac meia vazia, veria o meu rosto de sonho alegre desmaquilhar-se, com resquícios de algodão a prender-se na barba escanhoada sem esmero nem garantias de um amanhã com devir.
A caminho de casa tu irias trocando de emissora, talvez fumasses um cigarro para te ajudar a pensar nos deveres do dia seguinte e na melhor forma de vazar pilhas de papel sem provimento.
Reedificado homem, e depois de recolhidos às roulottes todos os artistas, eu voltaria ao silêncio da lona tricolor como um general em fato de treino, recolhendo no suor das tuas palmas uma glória invisível, vassourando a solidão…
Num gesto de perplexa humildade, inventando a tua presença, poria de lado a vassoura, e faria uma última vénia…
.
Disposto assim o cenário, é possível que a balança da razão pese mais para o prato. Na verdade, se um de nós fosse o palhaço, seria eu. Tu serias o público em manada a sair do circo com um quarto de sorriso brie na boca e passos firmes em direcção ao estacionamento.
No espelho do bastidor, poupando na realidade por uma garrafa de cognac meia vazia, veria o meu rosto de sonho alegre desmaquilhar-se, com resquícios de algodão a prender-se na barba escanhoada sem esmero nem garantias de um amanhã com devir.
A caminho de casa tu irias trocando de emissora, talvez fumasses um cigarro para te ajudar a pensar nos deveres do dia seguinte e na melhor forma de vazar pilhas de papel sem provimento.
Reedificado homem, e depois de recolhidos às roulottes todos os artistas, eu voltaria ao silêncio da lona tricolor como um general em fato de treino, recolhendo no suor das tuas palmas uma glória invisível, vassourando a solidão…
Num gesto de perplexa humildade, inventando a tua presença, poria de lado a vassoura, e faria uma última vénia…
.
29 de jun. de 2009
Manifesto de Mário Rôstes
Vote em Mário Rôstes,
Insista em Mário Rôstes.
Mário Rôstes a Presidente!
Autor do livro “Animais faz-me rir!”, vendeu a fábrica de semi-condutores e distribuiu o dinheiro pela criadagem. Está de volta para fazer a diferença e ingressou na política para mudar o mundo.
Mário Rôstes só não é saudável
De resto, é Impecável!
.
Insista em Mário Rôstes.
Mário Rôstes a Presidente!
Autor do livro “Animais faz-me rir!”, vendeu a fábrica de semi-condutores e distribuiu o dinheiro pela criadagem. Está de volta para fazer a diferença e ingressou na política para mudar o mundo.
Mário Rôstes só não é saudável
De resto, é Impecável!
.
Os cães
Os cães são reencarnações
Educadas para a subserviência da amizade.
Os cães aproximam-se da sua espécie
Em quatro patas.
Os cães não são atropelados.
Suicidam-se nas estradas.
.
Educadas para a subserviência da amizade.
Os cães aproximam-se da sua espécie
Em quatro patas.
Os cães não são atropelados.
Suicidam-se nas estradas.
.
Cervejário
Por isso eu tomo chope.
Que remédio! Sou um cliente do Woodrock
Moro numa carrinha da Super Bock
E ver passar a bebida
Faz-me sede
A sério!
.
Que remédio! Sou um cliente do Woodrock
Moro numa carrinha da Super Bock
E ver passar a bebida
Faz-me sede
A sério!
.
18 de jun. de 2009
Chute no marasmo
.
Batei a todas as portas
Roubai-me às horas mortas,
O virtual é um mundinho pequeno
E lá fora o teatro é terreno.
Vou travar os vossos intentos
E estancar como o ir dos jumentos.
Mas vendei o que eu tiver para dizer,
O breu de fora vale mais que o meu querer.
Ainda que eu jure com força
Ou quiser salvar alguém da forca,
Os macacos no sótão podem esperar
Por mais um dia sem comida eu lhes levar.
Eu vou trincar o vidro das garrafas
Querendo abrir um postigo às girafas…
Vou exigir compor um mal preciso
E inventar um vão maior que o prejuízo.
“As nuvens parecem-me estranhas
E assobiam as minhas entranhas…
Não tarda nada e vai começar a chover,
Ide embora! Caiu-me mal o comer…”
Mas por mais que eu vos convença
De uma chamada a vir de Olivença…
Às malvas o fazer do meu pensar
Quem está, está! E quem não está, foi passear!
.
Batei a todas as portas
Roubai-me às horas mortas,
O virtual é um mundinho pequeno
E lá fora o teatro é terreno.
Vou travar os vossos intentos
E estancar como o ir dos jumentos.
Mas vendei o que eu tiver para dizer,
O breu de fora vale mais que o meu querer.
Ainda que eu jure com força
Ou quiser salvar alguém da forca,
Os macacos no sótão podem esperar
Por mais um dia sem comida eu lhes levar.
Eu vou trincar o vidro das garrafas
Querendo abrir um postigo às girafas…
Vou exigir compor um mal preciso
E inventar um vão maior que o prejuízo.
“As nuvens parecem-me estranhas
E assobiam as minhas entranhas…
Não tarda nada e vai começar a chover,
Ide embora! Caiu-me mal o comer…”
Mas por mais que eu vos convença
De uma chamada a vir de Olivença…
Às malvas o fazer do meu pensar
Quem está, está! E quem não está, foi passear!
.
16 de jun. de 2009
Diploma
.
Terminei o curso mas nunca fui buscar o diploma.
Por alturas da cerimónia, estava a braços com um coma.
Não foram os shots na queima das fitas,
Mas os socos dos pais das rapariguitas…
Percebi da pior maneira
O quanto custa a um pai pagar um curso à filha rameira.
Trabalha-se muito para se ter aqueles calos nas mãos
E ganha-se força impondo à vontade muitos nãos.
As horas passam e a gente a pensar que os pais dormem.
Mas a indisciplina impõe tabefes com gritinhos.
Acordam os pais
E acordam a miar os gatinhos…
Dá sede acordar para o relincho dos pais inconformados.
Com a sela longe e os óculos mal pousados,
Pego no uísque que ficou à cabeceira
E vejo, por um fundo de garrafa, a vir para mim
O pai da rameira.
Exijo silêncio e grito shhhhhhiiu!
Amortalho-me com uma beira de edredão
E o uísque por biberão.
Dou duas chupadelas no que resta
E acordo no hospital de S. João
Com enfermeiras a dizer: - “este não presta!”
Eis a estória da minha formatura!
A das enfermeiras virá noutra altura…
.
Terminei o curso mas nunca fui buscar o diploma.
Por alturas da cerimónia, estava a braços com um coma.
Não foram os shots na queima das fitas,
Mas os socos dos pais das rapariguitas…
Percebi da pior maneira
O quanto custa a um pai pagar um curso à filha rameira.
Trabalha-se muito para se ter aqueles calos nas mãos
E ganha-se força impondo à vontade muitos nãos.
As horas passam e a gente a pensar que os pais dormem.
Mas a indisciplina impõe tabefes com gritinhos.
Acordam os pais
E acordam a miar os gatinhos…
Dá sede acordar para o relincho dos pais inconformados.
Com a sela longe e os óculos mal pousados,
Pego no uísque que ficou à cabeceira
E vejo, por um fundo de garrafa, a vir para mim
O pai da rameira.
Exijo silêncio e grito shhhhhhiiu!
Amortalho-me com uma beira de edredão
E o uísque por biberão.
Dou duas chupadelas no que resta
E acordo no hospital de S. João
Com enfermeiras a dizer: - “este não presta!”
Eis a estória da minha formatura!
A das enfermeiras virá noutra altura…
.
Música de se cantar a correr num passadão com sotaque brasileiro ou...
...Aventuras e desventuras de um Menino de Talho por terras de Vera Cruz.
(cante-se rapidamente e com sotaque, carregando na última sílaba antes dos hífens, quedando logo a seguir)
Eu dei uma saltada em copa-cabana
Pra bebê um chôpe com a irmã de uma tal de-Joana
Casada com um negão que era um sa-lafrário
Meteu na praia a mão no shorte que eu paguei com o meu pobre-salário.
Refrão
Eu pulei da areia puxando acima-o shorte
Joana riu com o susto que eu apanhei-de morte
Eu só queria fugir dali correndo pelo passadão-à toa
Mas a irmã, cunhada do negão era-tão boa…
Refrão
Fiquei um pouco mais para ver no-que dava
Mas o negão piscava o olho com a mão-fisgada.
Joana dava na irmã alheada passando creme-cotovelada
E eu a ver que aquela merda, merda nenhuma-mais dava…
Refrão
Pela calada, amandei uma joelhada à penca do-negão,
Pisei no silicone de Joana e agarrei a irmã pelo-bundão.
Meti fundo e à pressa o dedo grande em su-a racha
E saí correndo, correndo atrás de mim a-caixa baixa…
Refrão
Pela noite arrisquei ir no baile funk da-favela
Não estava lá o negão, Joana nem a ir-mã dela
Passei a noite assoprando cai-pirinha
E o puteiro todo assobiando prá minhá-cobrinha.
Refrão
Cumprido como Vasco da Gama voltei a Por-tugau
Esfregando creme para não apanhar doençá-no pau.
Fui postar foto do meu Brasiu-Good Vibe
E encontrei negão com penso me adicionando no-Hi-five…
PS: precisa-se Refrão…
.
(cante-se rapidamente e com sotaque, carregando na última sílaba antes dos hífens, quedando logo a seguir)
Eu dei uma saltada em copa-cabana
Pra bebê um chôpe com a irmã de uma tal de-Joana
Casada com um negão que era um sa-lafrário
Meteu na praia a mão no shorte que eu paguei com o meu pobre-salário.
Refrão
Eu pulei da areia puxando acima-o shorte
Joana riu com o susto que eu apanhei-de morte
Eu só queria fugir dali correndo pelo passadão-à toa
Mas a irmã, cunhada do negão era-tão boa…
Refrão
Fiquei um pouco mais para ver no-que dava
Mas o negão piscava o olho com a mão-fisgada.
Joana dava na irmã alheada passando creme-cotovelada
E eu a ver que aquela merda, merda nenhuma-mais dava…
Refrão
Pela calada, amandei uma joelhada à penca do-negão,
Pisei no silicone de Joana e agarrei a irmã pelo-bundão.
Meti fundo e à pressa o dedo grande em su-a racha
E saí correndo, correndo atrás de mim a-caixa baixa…
Refrão
Pela noite arrisquei ir no baile funk da-favela
Não estava lá o negão, Joana nem a ir-mã dela
Passei a noite assoprando cai-pirinha
E o puteiro todo assobiando prá minhá-cobrinha.
Refrão
Cumprido como Vasco da Gama voltei a Por-tugau
Esfregando creme para não apanhar doençá-no pau.
Fui postar foto do meu Brasiu-Good Vibe
E encontrei negão com penso me adicionando no-Hi-five…
PS: precisa-se Refrão…
.
14 de jun. de 2009
12 de jun. de 2009
...
A miúda loira sorriu para mim, exibindo-me os seus dentes podres dos excessos doces da vida. Viagens acrobáticas ao longo de uma corda a arder, estendida, esticada, abandonada no vertiginoso e escarpado precipício de suas diversas vidas esbanjadas.... ela sorriu-me estranhamente, com os lábios visivelmente tortos, sinal da sua incompleta alegria, como se uma parte de si mostrasse alguma tristeza e quisesse assinalar o facto, moldando a parte anti-sorridente de seus lábios em direcção á terra, ao chão ao esterco... De seu colo, pequeno, seco e mirrado emanava uma aura, um estigma, uma luz ofuscante em forma de estrela, semelhante á imagem de um santo pintado ao estilo kitsh por um Rafael, também, naif dos tempos modernos. A vanguarda renascentista, acompanhada por um folclóre com tendências retro. Das pernas maioritariamente destapadas, deliniadas e finas, visivelmente cansadas das acrobacias circenses praticadas em delirio estridente, escorria um liquido viscoso e altamente contagioso e nocivo a toda a morte que em si existia... era o liquido da vida, o fluido dum corpo masculino em delirio, em frenesi, em extase... Vi, nas suas mãos pequenas e sujas de sangue e terra, chagas do tamanho de diamantes, rubis ou ametistas... era a virgem da cruz, desflorada por um espirito santo encarnado no animal, na besta no pequeno homem que escapou para o museu de arte, onde se infiltrou num quadro surrealista da exposição...
3 de jun. de 2009
Todos somos esculturas!
Passo a vida nisto de escrever. A minha vida não é muito interessante. Durmo de manhã, trabalho à tarde e estrago-me em comunhão ao fim-de-semana. Pelo meio, faço umas refeições e despejo-me neste paletó rectangular, como se fosse um altar para onde se rezam novenas.
Não sei se deva considerá-los rituais, mas tenho hábitos geometricamente definidos. Não serão tão românticos como os de um Pessoa ou de um Eça que, entretanto valoraram graças à dimensão da sua escrita, não reconhecida a tempo de se lhes proporcionar uma existência mais ligeira e cómoda. O copo e o cinzeiro dispostos ao lado do portátil, a caixa de cigarrilhas com o isqueiro em cima, uma cadeira de palha feita pelos ciganos com upgrades de almofadas e o frigorífico atrás das costas, não vá esta merda debandar em terramoto e eu ficar sob os escombros longe das garrafas que não partiram.
E os génios, os grandes inventores da literatura universal? Que hábitos terão quando se abeiram do computador para escrever e não lhes ocorre nada? Será que bebem como eu ou fumam como eu fumo? Será que se levantam da cadeira em tronco nu para ir mijar? Gritarão silenciosamente a sua verdade ao mundo de modo a não acordar a mulher e os filhos que dormem?
Atentai: - Todos somos esculturas!
.
Não sei se deva considerá-los rituais, mas tenho hábitos geometricamente definidos. Não serão tão românticos como os de um Pessoa ou de um Eça que, entretanto valoraram graças à dimensão da sua escrita, não reconhecida a tempo de se lhes proporcionar uma existência mais ligeira e cómoda. O copo e o cinzeiro dispostos ao lado do portátil, a caixa de cigarrilhas com o isqueiro em cima, uma cadeira de palha feita pelos ciganos com upgrades de almofadas e o frigorífico atrás das costas, não vá esta merda debandar em terramoto e eu ficar sob os escombros longe das garrafas que não partiram.
E os génios, os grandes inventores da literatura universal? Que hábitos terão quando se abeiram do computador para escrever e não lhes ocorre nada? Será que bebem como eu ou fumam como eu fumo? Será que se levantam da cadeira em tronco nu para ir mijar? Gritarão silenciosamente a sua verdade ao mundo de modo a não acordar a mulher e os filhos que dormem?
Atentai: - Todos somos esculturas!
.
2 de jun. de 2009
Conspiração com Bisnetos
.
Tenho, não raras vezes, acabado as noites de boémia a discutir matérias do foro da Ciência Política. Convém que assim o nomeie para que não se confunda o retrato com aqueloutro da politiquice. E tenho, quase sempre, dito o seguinte:
-“Estou a ficar cada vez mais anárquico!” mas, como o tempo e o palco nem sempre são os mais adequados à dissecação de temáticas tão profundas, e visto andar prometendo uma dissertação adequada sobre elas, decidi-me a não mais adiar este post.
Antes de mais, convém referir que não estou enrabichado com nenhum partido político. E a explicação é simples: - os partidos políticos tomam partidos! Como tal, enquanto os estivermos acreditando, vamos andar neste limbo de interesses que, ora pingam para a direita, ora pingam para a esquerda, dependendo de quem se ocupa da coutada dos poderes públicos.
A vida não está fácil para quem se recusa às cunhas, garanto-vos. Sou um sonhador, portanto. Cheio de sonhos como um qualquer adolescente, cujas lambadas da vida o vão tornando mais adulto e mais filho-da-puta.
Deste meu cantinho humilde e honesto estou, tão só e apenas, ideologicamente comprometido com a Verdade e com a Liberdade. Ora, o modelo anarquista defende afincadamente esses valores. Valores esses que rareiam, não só na sociedade portuguesa, mas também na generalidade das sociedades ocidentais. Dir-me-ão que não. Que há liberdade a mais e que os valores estão a perder-se, dando lugar a uma tremenda falta de respeito. Posso até concordar com a segunda parte da afirmação, mas a falta de respeito não resulta do excesso de liberdade mas sim da falta de educação. A Liberdade é um conceito demasiado vasto para se esgotar na conivência de um pai perante a parvoíce do filho que decidiu atirar garrafas de cerveja aos carros ou partir uma montra.
A convivência em sociedade sempre teve de lidar com ameaças à ordem estabelecida e obrigou-se a encontrar soluções para se refundar estruturalmente, de forma a tornar a convivência social mais serena, mas nem sempre mais justa e livre.
Nós somos apenas seres vivos. Somos, geneticamente, animais como todos os outros. Mas dispomos de características avançadas que nos permitem estar no topo da cadeia. Somos capazes de optar por não reagir animalmente, de não sermos violentos, de nos impormos um conjunto de regras capazes de tornar possível a nossa convivência. Somos capazes disso mas não o fazemos ou fazemo-lo erradamente. E, como tal, não só desmerecemos a nossa racionalidade, como deveríamos considerar-nos o mais reles e medíocre de todos os animais.
Rousseau defendia que a existência perfeita assentava numa relação de proximidade com a natureza. Ou seja, o ser humano, para ser perfeito, deveria viver em comunhão com a natureza. No entanto, e consciente das características inerentes à espécie, concluiu que o Homem se distanciou dela e se avizinhou dos seus pares com o intuito de se proteger. Porque tinha medo de morrer sozinho, de fome ou doença ou de outra coisa qualquer. O Homem uniu-se com medo da realidade envolvente e, ainda que não tenha formalizado teoricamente os seus motivos, a verdade é que o grémio não parou de crescer e, cedo se pôde comprovar, que o maior inimigo do Homem era o próprio Homem, com a sua sanha de poder, ambição e glória.
Não me interessa aqui fazer uma resenha histórica sobre a evolução das sociedades, tampouco desenovelar uma História carniceira que elevou mitos com bandeiras fundados sobre ossos e sangue de outra carne que não importa para a posteridade porque era fraca e, como ainda hoje repetimos acéfalamente, “dos fracos não reza a História”. Interessa-me, isso sim, tal como Rousseau, esmiuçar um conceito que ele avançou – O Contrato Social.
O Contrato Social é, basicamente, um conjunto de normas, direitos e deveres pelos quais se rege toda uma comunidade. Ou seja, um conjunto de leis, o mais unanimemente possíveis e passíveis de serem partilhadas por todos ou, se quiserem, uma ideologia comum. A isso chama-se Democracia. A palavra deriva do etímologo grego Demos (Povo) e do sufixo Cracia (Kpateía) que significa força ou poder. Nas palavras de Abraham Lincoln, “A Democracia é governo do povo, pelo povo e para o povo”. Eu entendo nelas uma intenção de dar voz à pretensão maioritária, ou seja, é a vontade da maioria que prevalece sobre todas as outras querenças.
Se a Democracia é o mais perfeito e acabado dos modelos, não sei. Por enquanto, parece-me o mais justo. Se vivemos em Democracia? Garanto-vos que não!
E sinto-me em condições de vos garantir que não, por duas razões:
- Em primeiro lugar, porque o Contrato Social deveria resumir-se a um resumido conjunto de normas que todos conhecêssemos e partilhássemos, de forma a erradicar qualquer tipo de violência entre a nossa espécie. Ao invés, o nosso Contrato Social é um magote de leis e merdinhas que permite aos ricos e poderosos um regime de impunidade, que em nada se assemelha ao propósito das maiorias.
- Em segundo lugar, e por razões que ainda não destrincei totalmente, mas sobre os quais me deterei em outras ocasiões, não me parece que os caminhos da Democracia e, principalmente, os da felicidade que todos desejamos, se persigam pelo abismo dos calmantes à noite ou em colheradas de antidepressivos para suportar os dias…
…Este post, definitivamente, não acaba aqui!
.
Tenho, não raras vezes, acabado as noites de boémia a discutir matérias do foro da Ciência Política. Convém que assim o nomeie para que não se confunda o retrato com aqueloutro da politiquice. E tenho, quase sempre, dito o seguinte:
-“Estou a ficar cada vez mais anárquico!” mas, como o tempo e o palco nem sempre são os mais adequados à dissecação de temáticas tão profundas, e visto andar prometendo uma dissertação adequada sobre elas, decidi-me a não mais adiar este post.
Antes de mais, convém referir que não estou enrabichado com nenhum partido político. E a explicação é simples: - os partidos políticos tomam partidos! Como tal, enquanto os estivermos acreditando, vamos andar neste limbo de interesses que, ora pingam para a direita, ora pingam para a esquerda, dependendo de quem se ocupa da coutada dos poderes públicos.
A vida não está fácil para quem se recusa às cunhas, garanto-vos. Sou um sonhador, portanto. Cheio de sonhos como um qualquer adolescente, cujas lambadas da vida o vão tornando mais adulto e mais filho-da-puta.
Deste meu cantinho humilde e honesto estou, tão só e apenas, ideologicamente comprometido com a Verdade e com a Liberdade. Ora, o modelo anarquista defende afincadamente esses valores. Valores esses que rareiam, não só na sociedade portuguesa, mas também na generalidade das sociedades ocidentais. Dir-me-ão que não. Que há liberdade a mais e que os valores estão a perder-se, dando lugar a uma tremenda falta de respeito. Posso até concordar com a segunda parte da afirmação, mas a falta de respeito não resulta do excesso de liberdade mas sim da falta de educação. A Liberdade é um conceito demasiado vasto para se esgotar na conivência de um pai perante a parvoíce do filho que decidiu atirar garrafas de cerveja aos carros ou partir uma montra.
A convivência em sociedade sempre teve de lidar com ameaças à ordem estabelecida e obrigou-se a encontrar soluções para se refundar estruturalmente, de forma a tornar a convivência social mais serena, mas nem sempre mais justa e livre.
Nós somos apenas seres vivos. Somos, geneticamente, animais como todos os outros. Mas dispomos de características avançadas que nos permitem estar no topo da cadeia. Somos capazes de optar por não reagir animalmente, de não sermos violentos, de nos impormos um conjunto de regras capazes de tornar possível a nossa convivência. Somos capazes disso mas não o fazemos ou fazemo-lo erradamente. E, como tal, não só desmerecemos a nossa racionalidade, como deveríamos considerar-nos o mais reles e medíocre de todos os animais.
Rousseau defendia que a existência perfeita assentava numa relação de proximidade com a natureza. Ou seja, o ser humano, para ser perfeito, deveria viver em comunhão com a natureza. No entanto, e consciente das características inerentes à espécie, concluiu que o Homem se distanciou dela e se avizinhou dos seus pares com o intuito de se proteger. Porque tinha medo de morrer sozinho, de fome ou doença ou de outra coisa qualquer. O Homem uniu-se com medo da realidade envolvente e, ainda que não tenha formalizado teoricamente os seus motivos, a verdade é que o grémio não parou de crescer e, cedo se pôde comprovar, que o maior inimigo do Homem era o próprio Homem, com a sua sanha de poder, ambição e glória.
Não me interessa aqui fazer uma resenha histórica sobre a evolução das sociedades, tampouco desenovelar uma História carniceira que elevou mitos com bandeiras fundados sobre ossos e sangue de outra carne que não importa para a posteridade porque era fraca e, como ainda hoje repetimos acéfalamente, “dos fracos não reza a História”. Interessa-me, isso sim, tal como Rousseau, esmiuçar um conceito que ele avançou – O Contrato Social.
O Contrato Social é, basicamente, um conjunto de normas, direitos e deveres pelos quais se rege toda uma comunidade. Ou seja, um conjunto de leis, o mais unanimemente possíveis e passíveis de serem partilhadas por todos ou, se quiserem, uma ideologia comum. A isso chama-se Democracia. A palavra deriva do etímologo grego Demos (Povo) e do sufixo Cracia (Kpateía) que significa força ou poder. Nas palavras de Abraham Lincoln, “A Democracia é governo do povo, pelo povo e para o povo”. Eu entendo nelas uma intenção de dar voz à pretensão maioritária, ou seja, é a vontade da maioria que prevalece sobre todas as outras querenças.
Se a Democracia é o mais perfeito e acabado dos modelos, não sei. Por enquanto, parece-me o mais justo. Se vivemos em Democracia? Garanto-vos que não!
E sinto-me em condições de vos garantir que não, por duas razões:
- Em primeiro lugar, porque o Contrato Social deveria resumir-se a um resumido conjunto de normas que todos conhecêssemos e partilhássemos, de forma a erradicar qualquer tipo de violência entre a nossa espécie. Ao invés, o nosso Contrato Social é um magote de leis e merdinhas que permite aos ricos e poderosos um regime de impunidade, que em nada se assemelha ao propósito das maiorias.
- Em segundo lugar, e por razões que ainda não destrincei totalmente, mas sobre os quais me deterei em outras ocasiões, não me parece que os caminhos da Democracia e, principalmente, os da felicidade que todos desejamos, se persigam pelo abismo dos calmantes à noite ou em colheradas de antidepressivos para suportar os dias…
…Este post, definitivamente, não acaba aqui!
.
30 de mai. de 2009
Movimento
.
Tenho sido solicitado para fazer coisas em vez de só as referir. Não é que me importe muito com a visão que cada um tem do mundo, ainda que esse espectro tenha alguma validade. No entanto, correm rumores de que a próxima gerência municipal também tem uma visão do mundo…
Há por aí utopias que pretendem acabar com a diversão nocturna no Marco de Canaveses. E por muito vaga que possa parecer a ideia, todos sabemos que basta soltar a cadelice policial para que o famigerado propósito se cumpra.
Pelos vistos, para resolver a crise, não chega picar o boi de sol-a-sol durante toda semana. Não! Mal a malta começa a descomprimir duma semana de trabalho, chega a ASAE e/ou a polícia para acabar com a festa. No tempo do Salazar, apareciam montados a cavalo. Hoje, e porque vivemos em democracia (!), farejam-nos os cães. É caso para dizer:
- “Que se foda o melhor amigo do homem. O bacalhau é que é o fiel amigo!”
Sem eira nem beira, esta gentalha frustrada quer acabar com o divertimento da malta. Roubam-nos a casa e aparece-nos um polícia a perguntar o que aconteceu; saímos para jantar e beber um copo com os amigos e é vê-los em magotes para fechar o bar; pedimos a intervenção da polícia num acidente e eles respondem-nos que o jipe não está disponível, que vai demorar. E, no entanto, não faltam carros e “meio humanos” para cercar uma cidade às sextas e sábados à noite. Identificamos os criminosos e a polícia aconselha-nos a enfiar-lhes um enxerto de porrada…
A isto, caros senhores - chamo eu - deslocação de objectivos.
Pela minha parte, dispenso uma autoridade que serve só para passar multas.
Não se julgue, porém, que a polícia apareceu porque se lembrou de acabar com o barulho. Não. Estas práticas resultam de “aconselhamento camarário”. E, depois, bem podemos gastar todos os euros no telemóvel por altura das festas municipais, que a polícia não vai suspender o fogo-de-artifício ou o ruído do Tony Carreira…
Quanto a vós, não sei. Pela minha parte, não estou disposto a abdicar das minhas noitadas no Woodrock, no Red Box, no Jamaica, no Etc. e etecétera…
Estou disposto a encabeçar um movimento que espante esta passarada de frustrados que tentam acabar com a nossa diversão para nos empurrar para as suas festinhas de anho assado com arroz de forno ou às festas com melão do Castelinho, em que o líder espiritual se confunde com o presidente da Câmara.
Sou uma pessoa de paz mas não suporto atropelos à liberdade. Como diria Agostinho da Silva, “nascemos de graça e passamos o resto da vida a pagá-la”. E porquê? Porque alguém decidiu que nos devia proteger de nós mesmos, acabando por se proteger a si mesmo, mantendo-se no poder ou lutando para o atingir.
Estou em guerra. Não me interessa convencer-vos ou convocar-vos. Interessa-me apenas saber quantos de vós partilhais este propósito.
Estais comigo?
.
Tenho sido solicitado para fazer coisas em vez de só as referir. Não é que me importe muito com a visão que cada um tem do mundo, ainda que esse espectro tenha alguma validade. No entanto, correm rumores de que a próxima gerência municipal também tem uma visão do mundo…
Há por aí utopias que pretendem acabar com a diversão nocturna no Marco de Canaveses. E por muito vaga que possa parecer a ideia, todos sabemos que basta soltar a cadelice policial para que o famigerado propósito se cumpra.
Pelos vistos, para resolver a crise, não chega picar o boi de sol-a-sol durante toda semana. Não! Mal a malta começa a descomprimir duma semana de trabalho, chega a ASAE e/ou a polícia para acabar com a festa. No tempo do Salazar, apareciam montados a cavalo. Hoje, e porque vivemos em democracia (!), farejam-nos os cães. É caso para dizer:
- “Que se foda o melhor amigo do homem. O bacalhau é que é o fiel amigo!”
Sem eira nem beira, esta gentalha frustrada quer acabar com o divertimento da malta. Roubam-nos a casa e aparece-nos um polícia a perguntar o que aconteceu; saímos para jantar e beber um copo com os amigos e é vê-los em magotes para fechar o bar; pedimos a intervenção da polícia num acidente e eles respondem-nos que o jipe não está disponível, que vai demorar. E, no entanto, não faltam carros e “meio humanos” para cercar uma cidade às sextas e sábados à noite. Identificamos os criminosos e a polícia aconselha-nos a enfiar-lhes um enxerto de porrada…
A isto, caros senhores - chamo eu - deslocação de objectivos.
Pela minha parte, dispenso uma autoridade que serve só para passar multas.
Não se julgue, porém, que a polícia apareceu porque se lembrou de acabar com o barulho. Não. Estas práticas resultam de “aconselhamento camarário”. E, depois, bem podemos gastar todos os euros no telemóvel por altura das festas municipais, que a polícia não vai suspender o fogo-de-artifício ou o ruído do Tony Carreira…
Quanto a vós, não sei. Pela minha parte, não estou disposto a abdicar das minhas noitadas no Woodrock, no Red Box, no Jamaica, no Etc. e etecétera…
Estou disposto a encabeçar um movimento que espante esta passarada de frustrados que tentam acabar com a nossa diversão para nos empurrar para as suas festinhas de anho assado com arroz de forno ou às festas com melão do Castelinho, em que o líder espiritual se confunde com o presidente da Câmara.
Sou uma pessoa de paz mas não suporto atropelos à liberdade. Como diria Agostinho da Silva, “nascemos de graça e passamos o resto da vida a pagá-la”. E porquê? Porque alguém decidiu que nos devia proteger de nós mesmos, acabando por se proteger a si mesmo, mantendo-se no poder ou lutando para o atingir.
Estou em guerra. Não me interessa convencer-vos ou convocar-vos. Interessa-me apenas saber quantos de vós partilhais este propósito.
Estais comigo?
.
28 de mai. de 2009
25 de mai. de 2009
Ensaio sobre a Sociedade
Um certo senhor, dotado duma escrita maravilhosa, fê-la um dia cega. Descreveu-a sobre um dos maiores dos seus castigos e fez uma alegoria com o contra-senso de talvez não ser necessária a privaçao da visão para já sermos realmente cegos.
Ora eu diria ainda mais, somos cegos sim, mas também somos estúpidos que nem um tamanco esculpido por um sapateiro punheteiro.
Vivemos numa era em que a tecnologia reina, e quem dela sober retirar proveito, poderá ver a sua vida muita facilitada (daí roubos e falcatruas electronicas existirem desde o inicio da mesma), mas isto também veio criar um novo tipo de personalidades. Uma espécie demora muitos anos a evoluír e adaptar-se (ler "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life") no entanto Darwin não contava com a personalidade intrínseca do Ser Humano ao escrever este magnifico livro. Esta sim, evolui em pouquíssimo tempo, e quando digo evolui quero dizer "altera", "muda", "adapta-se", todo um rol de termos que explicam que o Ser Humano se APROVEITA do que lhe é dado. E o que foi dado nesta era tecnologica? A hipotese de ser jornalista, crítico, historiador, matemático, escritor, cientista, biólogo, letrista, músico, etc, etc, etc... Um sem fim de profissões e saberes, que num momento real da vida duma pessoa teria de ser comprovado com um diploma ou atestado superior, mas que nesta era se resume a assinar por "Anonimo". Depois disso, já posso dizer o que quiser, quando quiser, contra ou a favor de quem quiser. Não se lhe deve dar atenção, pois claro que não, mas estou farto de ignorar borrifanas deste género. Estou farto de ser acusado, mal-tratado, muitas vezes na minha própria "casa" por pessoas que no mínimo da ignorância, não sabem escrever o próprio nome.
Muito já terá sido dito e escrito sobre este tema, e sei muito bem que as eleições não se ganham por um voto, mas está um tempo maravilhoso para atirar um balde de água fria.
Poderei um ser criticado pelo mesmo? Não estarei eu a fazer o mesmo ao assinar como "Moço do Chapéu"? Não.. Este sou eu mesmo, o Sr. Mal conheço eu muito bem, e confirmo todos os seus ditos. Tónio Cuco é sem dúvida uma personagem única. E todos encontramos aqui uma mesa para as nossas comezainas e deprovações, não permitindo esta nossa pública partilha de estórias e saber, que alguém chegue e derrame o nosso vinho.
Deixemos de ser cegos, e deixemos de nos acanhar com as livres declarações de estupidez que nos são passadas sem fundamento algum, só para não nos "rebaixarmos". Rebaixar-me-ei sempre que necessário para mostrar quem sou, olhando olhos nos olhos, de quem me põe em dúvida.
Mais uma vez, tenho dito.
Ora eu diria ainda mais, somos cegos sim, mas também somos estúpidos que nem um tamanco esculpido por um sapateiro punheteiro.
Vivemos numa era em que a tecnologia reina, e quem dela sober retirar proveito, poderá ver a sua vida muita facilitada (daí roubos e falcatruas electronicas existirem desde o inicio da mesma), mas isto também veio criar um novo tipo de personalidades. Uma espécie demora muitos anos a evoluír e adaptar-se (ler "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life") no entanto Darwin não contava com a personalidade intrínseca do Ser Humano ao escrever este magnifico livro. Esta sim, evolui em pouquíssimo tempo, e quando digo evolui quero dizer "altera", "muda", "adapta-se", todo um rol de termos que explicam que o Ser Humano se APROVEITA do que lhe é dado. E o que foi dado nesta era tecnologica? A hipotese de ser jornalista, crítico, historiador, matemático, escritor, cientista, biólogo, letrista, músico, etc, etc, etc... Um sem fim de profissões e saberes, que num momento real da vida duma pessoa teria de ser comprovado com um diploma ou atestado superior, mas que nesta era se resume a assinar por "Anonimo". Depois disso, já posso dizer o que quiser, quando quiser, contra ou a favor de quem quiser. Não se lhe deve dar atenção, pois claro que não, mas estou farto de ignorar borrifanas deste género. Estou farto de ser acusado, mal-tratado, muitas vezes na minha própria "casa" por pessoas que no mínimo da ignorância, não sabem escrever o próprio nome.
Muito já terá sido dito e escrito sobre este tema, e sei muito bem que as eleições não se ganham por um voto, mas está um tempo maravilhoso para atirar um balde de água fria.
Poderei um ser criticado pelo mesmo? Não estarei eu a fazer o mesmo ao assinar como "Moço do Chapéu"? Não.. Este sou eu mesmo, o Sr. Mal conheço eu muito bem, e confirmo todos os seus ditos. Tónio Cuco é sem dúvida uma personagem única. E todos encontramos aqui uma mesa para as nossas comezainas e deprovações, não permitindo esta nossa pública partilha de estórias e saber, que alguém chegue e derrame o nosso vinho.
Deixemos de ser cegos, e deixemos de nos acanhar com as livres declarações de estupidez que nos são passadas sem fundamento algum, só para não nos "rebaixarmos". Rebaixar-me-ei sempre que necessário para mostrar quem sou, olhando olhos nos olhos, de quem me põe em dúvida.
Mais uma vez, tenho dito.
O Imperfeccionista
.
Aqui cheira às minhas entranhas e ao meu pus. A minha presença empesta o ar como um quarto de doença, com lenços usados e copos de vidro vazios na mesinha de cabeceira; uma colher de ter comido sobremesa ou diluído barbitúricos.
A luz é frouxa neste prostíbulo mal arejado e vós continuais vindo para assistir ao espectáculo das minhas misérias circences, pagando ad eternum por um bilhete com data vencida. Circo velho que foi ficando e viu morrer, de coração e vício, os palhaços que conduziam as carrinhas. O trapézio ganhou ferrugem e uma chiadeira que se ouve quando venta. Só as aranhas se aventuram agora nele, em coreografias já vistas, mas com um trabalho sincero e sem rede que faz sonhar um casal de trapezistas reformados. A humidade instalou-se nos nossos ossos e em largas poças sobre a tenda de lona que, durante o dia, tentamos salvar empurrando a água por dentro com uma vassoura; os módulos de madeira rangem como as escadas de uma casa abandonada, ameaçando colapsar; a atenção do público divide-se entre a nossa encenação e o espectáculo dos pingos de chuva nas bacias, espalhadas um pouco por toda a parte.
Neste circo de velhos saltimbancos, só o freak show maturou.
Eu, Sr. Mal, serei o vosso anfitrião para esta noite! - Aristocrata maldito caído em desgraça. Nos galões descosidos do meu casaco, há uma nobreza que rasteja transbordante. Flor-de-lis entre ervas daninhas que crescem como pêlos nas orelhas.
Dizem que maltrato as pessoas com o meu feitio; que faço discursos filosóficos cortantes às empregadas que vêm fazer meios-dias e me empestam a morada com um cheiro desumano a lixívia.
Ando branco como o engolidor de espadas que, dias antes de morrer, abismava a plateia tragando o vidro das nossas lâmpadas fundidas.
Não vos prometo cá estar no próximo inverno mas enquanto o arco sob as costelas demandar pão e vinho, deverei andar por aí, entretendo-nos.
.
Aqui cheira às minhas entranhas e ao meu pus. A minha presença empesta o ar como um quarto de doença, com lenços usados e copos de vidro vazios na mesinha de cabeceira; uma colher de ter comido sobremesa ou diluído barbitúricos.
A luz é frouxa neste prostíbulo mal arejado e vós continuais vindo para assistir ao espectáculo das minhas misérias circences, pagando ad eternum por um bilhete com data vencida. Circo velho que foi ficando e viu morrer, de coração e vício, os palhaços que conduziam as carrinhas. O trapézio ganhou ferrugem e uma chiadeira que se ouve quando venta. Só as aranhas se aventuram agora nele, em coreografias já vistas, mas com um trabalho sincero e sem rede que faz sonhar um casal de trapezistas reformados. A humidade instalou-se nos nossos ossos e em largas poças sobre a tenda de lona que, durante o dia, tentamos salvar empurrando a água por dentro com uma vassoura; os módulos de madeira rangem como as escadas de uma casa abandonada, ameaçando colapsar; a atenção do público divide-se entre a nossa encenação e o espectáculo dos pingos de chuva nas bacias, espalhadas um pouco por toda a parte.
Neste circo de velhos saltimbancos, só o freak show maturou.
Eu, Sr. Mal, serei o vosso anfitrião para esta noite! - Aristocrata maldito caído em desgraça. Nos galões descosidos do meu casaco, há uma nobreza que rasteja transbordante. Flor-de-lis entre ervas daninhas que crescem como pêlos nas orelhas.
Dizem que maltrato as pessoas com o meu feitio; que faço discursos filosóficos cortantes às empregadas que vêm fazer meios-dias e me empestam a morada com um cheiro desumano a lixívia.
Ando branco como o engolidor de espadas que, dias antes de morrer, abismava a plateia tragando o vidro das nossas lâmpadas fundidas.
Não vos prometo cá estar no próximo inverno mas enquanto o arco sob as costelas demandar pão e vinho, deverei andar por aí, entretendo-nos.
.
23 de mai. de 2009
Morri-vos
Morri-vos, escrevo das profundezas, no purgatório decidi, desço, Deus é demasiado justo, com o Diabo viverei como sempre vivi, na injustiça.
A sagrada escritura, Jó 26:6, antecipou-se a este dia:
O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição.
Morri-vos, como uma vaidosa borboleta sucumbi aos pés de um eco-sistema adverso após breves dias, vivi com a corajem de um inconsciente selvagem, morri por profundas facadas no meu ego, morri atingido por coisas em que não acredito, morri por ignorância alheia, pior, morri por intolerância, nada sei, é verdade, mas sei o que me magoa e incomoda, a censura incomoda-me e magoa-me a falta de tolerância de pessoas para quem as artérias são meros tubos que permitem o funcionamento do coração a frio, nas minhas, o sangue corre quente, tenho a capacidade de viver com paixão, sei que sou um biltre e que não interesso a mais ninguém que não os meus amigos, para mim chega, amo essa corja, eles ocupam o meu tempo e pensamentos, não tenho a necessidade de criticar, perseguir, insultar debaixo de um capote de falsa moralidade a sociedade que desconheço, não tenho tempo para isso, estou morto!
Mudei, não para os meus amigos, sei que me amam, mas mudei para os outros, tornei-me no mais novo dos hipócritas, sinto-me desterrado das minhas ideias, mas com a certeza que estaria pronto para acolher no meu âmago a mais estúpida criatura!
Fui lambido pelo Diabo, não há salvação para mim...
Espero-vos impolutos!
A sagrada escritura, Jó 26:6, antecipou-se a este dia:
O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição.
Morri-vos, como uma vaidosa borboleta sucumbi aos pés de um eco-sistema adverso após breves dias, vivi com a corajem de um inconsciente selvagem, morri por profundas facadas no meu ego, morri atingido por coisas em que não acredito, morri por ignorância alheia, pior, morri por intolerância, nada sei, é verdade, mas sei o que me magoa e incomoda, a censura incomoda-me e magoa-me a falta de tolerância de pessoas para quem as artérias são meros tubos que permitem o funcionamento do coração a frio, nas minhas, o sangue corre quente, tenho a capacidade de viver com paixão, sei que sou um biltre e que não interesso a mais ninguém que não os meus amigos, para mim chega, amo essa corja, eles ocupam o meu tempo e pensamentos, não tenho a necessidade de criticar, perseguir, insultar debaixo de um capote de falsa moralidade a sociedade que desconheço, não tenho tempo para isso, estou morto!
Mudei, não para os meus amigos, sei que me amam, mas mudei para os outros, tornei-me no mais novo dos hipócritas, sinto-me desterrado das minhas ideias, mas com a certeza que estaria pronto para acolher no meu âmago a mais estúpida criatura!
Fui lambido pelo Diabo, não há salvação para mim...
Espero-vos impolutos!
Tónio Cuco - o finado
Na qualidade de compincha e amigo de Tónio Cuco, pediram-me que dissesse algumas palavras em sua memória:
Tónio Cuco era um homem que prezava a fornicação. Dedicou-se com solicitude aos caprichos de uma carne em vinha-d’alhos que lhe não dava descanso. Mas, longe de ser um homem egoísta, Tónio Cuco amou-a, mimou-a e condenou a sua existência para que ela se cumprisse, namoradeira. Ofertou-se como uma chave de ouro sempre pronta a desaferrolhar grilhões alheios e, imbuído a dar uso aos dons com que foi molestado pela natureza, cumpriu-se.
Ele foi a verdadeira antítese da privação e, ainda que lhe possa ter pesado o fardo de arejar regaços várias vezes ao dia, Tónio Cuco não vacilou.
Confessou-me não ser um homem de palavras, mas de actos. Pensar demasiado – dizia – dá-me sede!
À sua maneira, foi nobre e não desperdiçou talentos. Nesta latrina a que chamamos sociedade, Tónio Cuco mijou como um cão nas valetas e amorteceu as suas virtudes no álcool, como um génio literário novecentista, cujo abraço era demasiado grande para abarcar uma realidade de enguias mais pequena do que ele. Tónio Cuco era, na verdadeira acepção da palavra, um fornicador e, como tal, capaz de estar ainda dando horas ao desejo na madeira do caixão.
Levante-se do lazúli caixotão
Ou de lá diga de sua justiça
Aquele cujo tesão
Não se comprometa com esta missa.
Tónio Cuco
A libertinagem canta-te.
Tónio Cuco… ALEVANTA-TE!
.
Tónio Cuco era um homem que prezava a fornicação. Dedicou-se com solicitude aos caprichos de uma carne em vinha-d’alhos que lhe não dava descanso. Mas, longe de ser um homem egoísta, Tónio Cuco amou-a, mimou-a e condenou a sua existência para que ela se cumprisse, namoradeira. Ofertou-se como uma chave de ouro sempre pronta a desaferrolhar grilhões alheios e, imbuído a dar uso aos dons com que foi molestado pela natureza, cumpriu-se.
Ele foi a verdadeira antítese da privação e, ainda que lhe possa ter pesado o fardo de arejar regaços várias vezes ao dia, Tónio Cuco não vacilou.
Confessou-me não ser um homem de palavras, mas de actos. Pensar demasiado – dizia – dá-me sede!
À sua maneira, foi nobre e não desperdiçou talentos. Nesta latrina a que chamamos sociedade, Tónio Cuco mijou como um cão nas valetas e amorteceu as suas virtudes no álcool, como um génio literário novecentista, cujo abraço era demasiado grande para abarcar uma realidade de enguias mais pequena do que ele. Tónio Cuco era, na verdadeira acepção da palavra, um fornicador e, como tal, capaz de estar ainda dando horas ao desejo na madeira do caixão.
Levante-se do lazúli caixotão
Ou de lá diga de sua justiça
Aquele cujo tesão
Não se comprometa com esta missa.
Tónio Cuco
A libertinagem canta-te.
Tónio Cuco… ALEVANTA-TE!
.
21 de mai. de 2009
O que é o Cabaret des Morts? - I Capítulo
É uma boa pergunta. Já definição do que é um cabaré não me interessa tanto. Um dicionário razoável pode dar-nos essa explicação. O que cada um acha que é ou deve ser um cabaré, interessa-me tanto como as dioptrias da irmã Lúcia. No entanto, não é pelo facto de uma máquina de rebites responder pelo nome de máquina que se lhe devam atribuir as características de uma máquina registadora, ou vice-versa. De igual modo, o conceito Cabaret des Morts não se esgota na definição de cabaré.
O blog é o ponto de partida de um conceito com propósitos mais elevados. Tornou-se, entretanto, e perdoem-me o egoísmo, uma espécie de sótão para pensamentos e memórias, um recanto de caixotes guardando o enxoval para um casamento que pode não vir.
O desígnio a que me propus é utópico e quase tão difícil de balizar como de concretizar. Mas ilumina-me os sonhos com o seu néon decadente e eu pernoito debaixo dele como um mendigo esfomeado, com um punhado de cêntimos no bolso, nas traseiras de uma padaria que tarda em abrir.
The Last Pit Before a Suicide…
Uma farmácia para enfermos da verdade, um teatro de bastidores sem tempos para a representação, oficina de montar a animalidade onde ela é devida e a cultura onde ela é precisa.
Mas, entretanto, faça-se a boda...
.
O blog é o ponto de partida de um conceito com propósitos mais elevados. Tornou-se, entretanto, e perdoem-me o egoísmo, uma espécie de sótão para pensamentos e memórias, um recanto de caixotes guardando o enxoval para um casamento que pode não vir.
O desígnio a que me propus é utópico e quase tão difícil de balizar como de concretizar. Mas ilumina-me os sonhos com o seu néon decadente e eu pernoito debaixo dele como um mendigo esfomeado, com um punhado de cêntimos no bolso, nas traseiras de uma padaria que tarda em abrir.
The Last Pit Before a Suicide…
Uma farmácia para enfermos da verdade, um teatro de bastidores sem tempos para a representação, oficina de montar a animalidade onde ela é devida e a cultura onde ela é precisa.
Mas, entretanto, faça-se a boda...
.
19 de mai. de 2009
Tempo perdido
Aos palanques sobem os enforcados, os vendedores da banha de cobra, os políticos em campanha eleitoral e os artistas de variedades nas festas de província. Logo, eu não subo a porra nenhuma para me fazer ouvir. Não preciso e, se precisasse, não seria para me defender de atoardas de pipa aberta.
Mais nível, senhores! Isto é um Cabaré e não um puteiro onde se vendam sandes.
.
Mais nível, senhores! Isto é um Cabaré e não um puteiro onde se vendam sandes.
.
18 de mai. de 2009
Melodias Trágico Irónicas 3
Um condenado a 5 anos de prisão por furto, viu a sua pena ser reduzida para metade depois da sua advogada provar que este padecia de cleptomania. A defensora constatou esse facto depois de descobrir que o arguido passava horas a ouvir a musica "Steal My Kisses" de Ben Harper and the Innocent Criminals.
Por outro lado, a advogada no seu Ipod, ouvia incessantemente "...And Justice For All" dos Metallica.
Por outro lado, a advogada no seu Ipod, ouvia incessantemente "...And Justice For All" dos Metallica.
14 de mai. de 2009
O Sentido da Vida
.
ESTOU A MORRER! Não se trata de um mero exercício de retórica. Estou mesmo a morrer! Mais dia, menos dia, mais ano ou menos ano, mais década (eh lá! – viva o optimismo!) ou menos década, vou-me. E vós também. Não adianta negá-lo. O único sentido da vida é a morte. Pelo menos é para lá que ela caminha. Ainda que se troque de rins ou se ponha um par de mamas novas, vamos todos morrer.
Agora que estamos todos elucidados com este reconfortante pensamento, sentemo-nos à mesa. Depois de comer e beber, acendamos o tabaco. Um a um, despejemos sobre a mesa os despojos do assalto que fizemos à vida, como se estivéssemos perante o criador a prestar contas. Vamos supor que Ele existe e ordenou uma pausa para balanço, como se a nossa vida fosse um jogo de futebol com intervalo.
Devo lembrar-vos que a vida não tem intervalo. Ela não pára de perseguir esse instinto de morte. E, por isso, proponho-vos este exercício para discutirmos novas tácticas para combater um universo sem complacências para os nossos elevados desejos. Se nós, os grânulos de pó celeste, não formos capazes de reinventar o cosmos com nova Lei, resta-nos pensar no que pode fazer a nossa bela equipa de gorduchos e esqueléticos amadores perante o 0-15 com que vamos começar a segunda parte.
Quanto a mim, podermos jogar contra as Leis do Universo United já é uma grande honra. Logo, resta-nos pouco mais que levar mais 15 em cima, tal como os nossos antepassados, que julgaram poder vencê-la e morreram de abafo, ou doentes, atropelados em passadeiras, incendiados em casa, engasgados com ossos de frango, entalados na construção civil, de cirrose, afogados, intoxicados a limpar fossas, esmagados por tractores de vindima, caídos dos trapézios, mordidos por animais, assassinados, violados, de fome, de sede, caídos em buracos, torturados por raptores até à morte, roubados para tráfico de órgãos, vendidos pela pátria à guerra, baleados em manifestações, em atentados terroristas, esmagados contra as grades em concertos de música, de hipotermia, de intoxicação alimentar, de pneumonia ou gripe, de coma alcoólico, de overdose, de porrada à saída de uma discoteca, acidente de (a)viação, de exaustão, paragem cardíaca, sida, cancro, doenças em geral, de catástrofe natural, sepultados em minas, caídos de pontes e de pontes caídas, por inalação de gases tóxicos, acidentes de trabalho em geral, a desmontar bombas, comendo cogumelos venenosos, infectados por mijo de ratos, fulminados pela trovoada e pelo Viagra, como escudos humanos, por uma causa qualquer, por uma mulher, por um filho, porque alguém não aguentou mais e disparou bem sem olhar a quem, por ter uma arma, de solidão, de velhice, de medo, de loucura, de tanto sentir… de outro grandes Etecéteras…
E vai começar a segunda parte das nossas vidas. A primeira parte durou 45 minutos o que, traduzido em linguagem cósmica, equivale a 45 anos. A maior parte de nós não conseguirá chegar aos 90. Possivelmente o jogo acabará sem que nenhum de nós chegue ao período de descontos e, mesmo assim, para quê? Não há mercado de transferências para nonagenários. Esqueçamos o futebol. A vida não é um jogo e, se o fosse, seria uma espécie de solitário sem solução possível.
Como diria esse grande JP Simões no final do desabafo 1970 – “O que vamos fazer?”
.
ESTOU A MORRER! Não se trata de um mero exercício de retórica. Estou mesmo a morrer! Mais dia, menos dia, mais ano ou menos ano, mais década (eh lá! – viva o optimismo!) ou menos década, vou-me. E vós também. Não adianta negá-lo. O único sentido da vida é a morte. Pelo menos é para lá que ela caminha. Ainda que se troque de rins ou se ponha um par de mamas novas, vamos todos morrer.
Agora que estamos todos elucidados com este reconfortante pensamento, sentemo-nos à mesa. Depois de comer e beber, acendamos o tabaco. Um a um, despejemos sobre a mesa os despojos do assalto que fizemos à vida, como se estivéssemos perante o criador a prestar contas. Vamos supor que Ele existe e ordenou uma pausa para balanço, como se a nossa vida fosse um jogo de futebol com intervalo.
Devo lembrar-vos que a vida não tem intervalo. Ela não pára de perseguir esse instinto de morte. E, por isso, proponho-vos este exercício para discutirmos novas tácticas para combater um universo sem complacências para os nossos elevados desejos. Se nós, os grânulos de pó celeste, não formos capazes de reinventar o cosmos com nova Lei, resta-nos pensar no que pode fazer a nossa bela equipa de gorduchos e esqueléticos amadores perante o 0-15 com que vamos começar a segunda parte.
Quanto a mim, podermos jogar contra as Leis do Universo United já é uma grande honra. Logo, resta-nos pouco mais que levar mais 15 em cima, tal como os nossos antepassados, que julgaram poder vencê-la e morreram de abafo, ou doentes, atropelados em passadeiras, incendiados em casa, engasgados com ossos de frango, entalados na construção civil, de cirrose, afogados, intoxicados a limpar fossas, esmagados por tractores de vindima, caídos dos trapézios, mordidos por animais, assassinados, violados, de fome, de sede, caídos em buracos, torturados por raptores até à morte, roubados para tráfico de órgãos, vendidos pela pátria à guerra, baleados em manifestações, em atentados terroristas, esmagados contra as grades em concertos de música, de hipotermia, de intoxicação alimentar, de pneumonia ou gripe, de coma alcoólico, de overdose, de porrada à saída de uma discoteca, acidente de (a)viação, de exaustão, paragem cardíaca, sida, cancro, doenças em geral, de catástrofe natural, sepultados em minas, caídos de pontes e de pontes caídas, por inalação de gases tóxicos, acidentes de trabalho em geral, a desmontar bombas, comendo cogumelos venenosos, infectados por mijo de ratos, fulminados pela trovoada e pelo Viagra, como escudos humanos, por uma causa qualquer, por uma mulher, por um filho, porque alguém não aguentou mais e disparou bem sem olhar a quem, por ter uma arma, de solidão, de velhice, de medo, de loucura, de tanto sentir… de outro grandes Etecéteras…
E vai começar a segunda parte das nossas vidas. A primeira parte durou 45 minutos o que, traduzido em linguagem cósmica, equivale a 45 anos. A maior parte de nós não conseguirá chegar aos 90. Possivelmente o jogo acabará sem que nenhum de nós chegue ao período de descontos e, mesmo assim, para quê? Não há mercado de transferências para nonagenários. Esqueçamos o futebol. A vida não é um jogo e, se o fosse, seria uma espécie de solitário sem solução possível.
Como diria esse grande JP Simões no final do desabafo 1970 – “O que vamos fazer?”
.
7 de mai. de 2009
MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA III
.
“Não há duas sem três” – essa bela frase que tanto pode servir para dar mais uma como para pedir outra…
Neste momento, enquanto dormem os belos corpos em fim de orgia, dou um jeito às pernas, coço a barba e acendo um cigarro despenteado. Resgato o uísque de uma alcova de pernas cruzadas e bebo do seu gargalo salgado. Disponho o laptop num belo costado sem hérnias, demasiado cansado para acordar e que, não sendo de macho, deve ser de uma rapariga muito peludita e má. Esperem lá… já sei quem é! É má, sim senhor.
Deixo cair, inadvertidamente, uma unha de cinza neste agremiado de carnes octópodes em que me encontro (octopussy) e logo ele se ondula como se afastasse com os tentáculos uma mosca vareja.
Tudo repousa, como no fim das batalhas, mas em lona vermelha, e ocorre-me falar-vos de Paredes de Coura. Bela festa!
No dia seguinte aqueloutro, choveu pela madrugada e manhã, dissipando no rio Tabuão as provas de um assassínio hediondo sobre o qual não me pronunciarei até que apareçam os corpos das vítimas (espero que ainda amarradas e adornadas com os instrumentos na nossa criatividade). Depois de um banho revigorante, que serviu para arrancar das unhas restos de pele e sangue ressequido, eu e o Anatoly Zerka deambulamos pela Vila à procura de impermeáveis baratos. Na ressaca de tão voluptuosa maldade que nos fazia ranger os dentes, vislumbramos aquela que, nitidamente, seria a versão punk de D. Quixote, mas sem o seu fiel escudeiro. Se um Sancho houve, terá deixado alforges e largado o burro, correndo sem olhar para trás. Quais Moinhos? A visão deste gigante assemelhava-se a um hospital abandonado com ratos encavalitados nos caixotes, roendo gaze empapada de sangue, num bouquet com seringas infectadas… Depois fomos comer.
Pedimos uns petiscos que estavam bastante bons e só o vislumbre de uma divindade de vestido branco me arrancou os olhos dos pires de moelas. Apesar de quase ter sofrido um esquentamento mental não deixei de dar uso ao faqueiro que esmagava violentamente côdeas de broa. Boa, boa, boa!!!
De seguida, fomos receber em procissão os nossos condiscípulos que não puderam estar presentes no deboche da noite anterior. Seríamos seus guias até ao acampamento. Entre abraços, soou um baque de cisne que só as rolhas de cortiça conseguem imitar quando se apartam do gargalo de garrafas tintas…
Nesse momento precioso de divino simbolismo, refundamos a nossa fé e entregamo-nos a um renovado cardápio de hercúleos esforços e consequente perda de faculdades.
Juntamo-nos ao resto da malta e, sem jantar, fomos para o recinto inaugurar depravações…
No capítulo dos concertos, a coisa esteve composta. As bandas portuguesas Ex-Wife e Bunnyranch portaram-se muito bem. Não me lembro bem qual deles (acham que foram as divorciadas) nos brindaram com a presença em palco da Raquel Ralha, dos Wraygun, mas gostei bastante. Aquele coxão é um espectáculo e se ela me pegasse pela mão e dissesse “anda!”, eu ia. Ah pois com certeza que ia!
Bellrays foi excelente. Não conhecia a banda nem a vocalista. Tufão de senhora, coxa grossa, poderosa. Uma Tina Turner com acrescentos de soul. Que grande concerto! Quase nem fui buscar baldes de cerveja…
Tive medo que ela me pegasse na mão e dissesse “anda”, pois já estava arranjado para a Raquel.
Os Sex Pistols foram engraçados, tentando disfarçar o tesão que já não têm. Pediram vinho rasca só para chafurdar o palco com bisgas venenosas. O Jony Roto (para amigos) ainda mantém uma expressão de puto reguila e aquela boca torta com o maxilar superior lançado para a frente como se fosse espetar com viço os dentes num pão com chouriço.
Quando um punk conseguiu transpor a barreira de segurança e subir ao palco (não se sabe muito bem se era para lhe partir os cornos ou lhe oferecer um botão de rosa), foi imediatamente abatido pelos snippers do cabedal. O Jony limitou-se a aconselhar o público: - “DO NOT DO THAT! THIS IS MAAA STAGE! RESPECT!”
Bom, a partir daqui, fui emborcar baldes de cerveja. Quando um punk chega ao ponto de dizer que é para haver respeito é porque estamos perto do fim do mundo. E se o fim do mundo viesse, ninguém me iria apanhar sóbrio, não senhor! Portanto, fui beber como se não houvesse amanhã. Ainda cheguei a tempo dos “vivas à rainha” – essa sem futuro que ameaça durar mais que eu!
Por agora, não me apetece contar-vos mais nada. Está aqui uma ninfa a puxar-me pelas pernas. Acordou a ressacar sexo e está a pedir-me que lhe administre mais uma dose desse soro da vida. Vou só pô-la a dormir e já volto…
.
“Não há duas sem três” – essa bela frase que tanto pode servir para dar mais uma como para pedir outra…
Neste momento, enquanto dormem os belos corpos em fim de orgia, dou um jeito às pernas, coço a barba e acendo um cigarro despenteado. Resgato o uísque de uma alcova de pernas cruzadas e bebo do seu gargalo salgado. Disponho o laptop num belo costado sem hérnias, demasiado cansado para acordar e que, não sendo de macho, deve ser de uma rapariga muito peludita e má. Esperem lá… já sei quem é! É má, sim senhor.
Deixo cair, inadvertidamente, uma unha de cinza neste agremiado de carnes octópodes em que me encontro (octopussy) e logo ele se ondula como se afastasse com os tentáculos uma mosca vareja.
Tudo repousa, como no fim das batalhas, mas em lona vermelha, e ocorre-me falar-vos de Paredes de Coura. Bela festa!
No dia seguinte aqueloutro, choveu pela madrugada e manhã, dissipando no rio Tabuão as provas de um assassínio hediondo sobre o qual não me pronunciarei até que apareçam os corpos das vítimas (espero que ainda amarradas e adornadas com os instrumentos na nossa criatividade). Depois de um banho revigorante, que serviu para arrancar das unhas restos de pele e sangue ressequido, eu e o Anatoly Zerka deambulamos pela Vila à procura de impermeáveis baratos. Na ressaca de tão voluptuosa maldade que nos fazia ranger os dentes, vislumbramos aquela que, nitidamente, seria a versão punk de D. Quixote, mas sem o seu fiel escudeiro. Se um Sancho houve, terá deixado alforges e largado o burro, correndo sem olhar para trás. Quais Moinhos? A visão deste gigante assemelhava-se a um hospital abandonado com ratos encavalitados nos caixotes, roendo gaze empapada de sangue, num bouquet com seringas infectadas… Depois fomos comer.
Pedimos uns petiscos que estavam bastante bons e só o vislumbre de uma divindade de vestido branco me arrancou os olhos dos pires de moelas. Apesar de quase ter sofrido um esquentamento mental não deixei de dar uso ao faqueiro que esmagava violentamente côdeas de broa. Boa, boa, boa!!!
De seguida, fomos receber em procissão os nossos condiscípulos que não puderam estar presentes no deboche da noite anterior. Seríamos seus guias até ao acampamento. Entre abraços, soou um baque de cisne que só as rolhas de cortiça conseguem imitar quando se apartam do gargalo de garrafas tintas…
Nesse momento precioso de divino simbolismo, refundamos a nossa fé e entregamo-nos a um renovado cardápio de hercúleos esforços e consequente perda de faculdades.
Juntamo-nos ao resto da malta e, sem jantar, fomos para o recinto inaugurar depravações…
No capítulo dos concertos, a coisa esteve composta. As bandas portuguesas Ex-Wife e Bunnyranch portaram-se muito bem. Não me lembro bem qual deles (acham que foram as divorciadas) nos brindaram com a presença em palco da Raquel Ralha, dos Wraygun, mas gostei bastante. Aquele coxão é um espectáculo e se ela me pegasse pela mão e dissesse “anda!”, eu ia. Ah pois com certeza que ia!
Bellrays foi excelente. Não conhecia a banda nem a vocalista. Tufão de senhora, coxa grossa, poderosa. Uma Tina Turner com acrescentos de soul. Que grande concerto! Quase nem fui buscar baldes de cerveja…
Tive medo que ela me pegasse na mão e dissesse “anda”, pois já estava arranjado para a Raquel.
Os Sex Pistols foram engraçados, tentando disfarçar o tesão que já não têm. Pediram vinho rasca só para chafurdar o palco com bisgas venenosas. O Jony Roto (para amigos) ainda mantém uma expressão de puto reguila e aquela boca torta com o maxilar superior lançado para a frente como se fosse espetar com viço os dentes num pão com chouriço.
Quando um punk conseguiu transpor a barreira de segurança e subir ao palco (não se sabe muito bem se era para lhe partir os cornos ou lhe oferecer um botão de rosa), foi imediatamente abatido pelos snippers do cabedal. O Jony limitou-se a aconselhar o público: - “DO NOT DO THAT! THIS IS MAAA STAGE! RESPECT!”
Bom, a partir daqui, fui emborcar baldes de cerveja. Quando um punk chega ao ponto de dizer que é para haver respeito é porque estamos perto do fim do mundo. E se o fim do mundo viesse, ninguém me iria apanhar sóbrio, não senhor! Portanto, fui beber como se não houvesse amanhã. Ainda cheguei a tempo dos “vivas à rainha” – essa sem futuro que ameaça durar mais que eu!
Por agora, não me apetece contar-vos mais nada. Está aqui uma ninfa a puxar-me pelas pernas. Acordou a ressacar sexo e está a pedir-me que lhe administre mais uma dose desse soro da vida. Vou só pô-la a dormir e já volto…
.
5 de mai. de 2009
O tema deste Post...
Quando era miúdo, ia com os meus pais ao domingo levar o depósito nocturno ao banco. Não era bem nocturno. Saíamos de casa ainda era dia. Lembro-me de contar cerca de 100 árvores de natal nas janelas, da primeira churrasqueira que abriu em Alpendurada e de me fazer um esfomeado manhoso para irmos comer um prego com batatas fritas ao Gato Negro, ou Preto, ou a puta que o pariu…
Nessa altura, que não era nitidamente o meu tempo, lembro-me dos bancos que havia. Eram poucos e, no geral, só lá trabalhava quem fosse rápido a contar notas. Íamos ao Banco Fonsecas & Burnay e havia a Caixa Geral de Depósitos (a grande Madame), que era onde o meu avô teimosamente depositava as lecas. Depois fomos mudando, saltando de banco em banco, como os saltimbancos. Lembro-me do Montepio Geral, do Banco Borges e Irmão, do Crédito Predial Português e de surgir a Nova Rede, essa novidade de outrora com imagem juvenil, ecoando hoje à craveira de um qualquer partido político minoritário a pôr-se em bicos de pés.
Na altura, como hoje, não dominava essa linguagem de escravos que é o Economês. Mas suponho que os métodos fossem semelhantes. – ponha aqui o seu dinheiro. Nós somos do Best e a sua reforma vai parecer a lotaria (hoje, o Euromilhões, porque a bazófia também fez filhos e agigantou-se com upgrades).
O que me leva a crer o seguinte: - quem são estas bestas que nos juram fidelidade eterna e depois se vendem aos outros. Quem são estas putas de alterne que fundam bordéis e depois desaparecem? Vale a pena acreditar? Não creio. Grande parte das putas que conheço (assumidas e, portanto, as verdadeiramente dignas de respeito) carregam um fado qualquer, uma culpa de amor em saldo que elas não puderam comprar e a que, sem grande acometimento de valores, me atrevo a chamar de consciência. Não deve haver muitas verdades maiores do que uma puta a assumir que o é. E, como tal, merece respeito. Bem mais do que aqueloutras que namoram futebolistas e falseiam, não só o prazer mas também o Amor (essa sim, a mais reles das putarias).
Ora bem, bancos e putaria é quase a mesma coisa. Enquanto umas nos puxam pelas peles no colchão, os outros fazem-nos acreditar que as peles debaixo dele, estão mais seguras na sua caixa forte, o que, como sabemos, é uma grandessíssima mentira. Sei de uma estória. Senhora velhinha, com colhão e meio de euros, peintelhos de tostões. Pediu para levantar o dinheiro. Demorou a contá-lo. Feita a conversão para contos de rei, retorquiu: - “Está certinho! As notas é que já não são as mesmas!” – disse em tom de repreensão por lhe terem andado a mexer no dinheirinho. “Pode voltar a guardar!”
Inocência gira dirão uns, selvajaria grotesca, outros dirão. Na verdade, a velhinha não sabe o que é um banco ou o que representa, mas este sabe bem o que ela é. Se lhe contassem a história toda, dava-lhe um ataque nos órgãos mais sensíveis. Ela levantava as notas trocadas e sujeitar-se-ia às manápulas de um drogado a virar-lhe o colchão ou a comprar-lhe vinho com notas falsas, com troco verdadeiro e combinação de caixa fraca.
Eu também poderia chegar a velho. E se isso acontecesse poderia rir-me com toda a masculinidade dos meus ossos, uma espécie de escárnio em relação aos mal coçados. Imaginemos, um velho sem rapidez de movimentos ou raciocínio a lidar com a tecnologia de amanhã. É para rir e, no entanto, sem valores que nos protejam, nós somos hoje o sulfato e enxofre para essa colheita de amanhã. Invariavelmente, acabaremos por dizer: - “se eu tivesse a tua idade” e, muito pior, “o mundo é assim”. Diremos a mesma merda que ouvimos, ainda que tenhamos hoje quilhapos para virar o sistema pelo avesso. Mas definhamos. Ganhamos filhos e, com eles, um amor que não se permite a revoluções, porque não lhes desejamos fome nem abalos maiores na cadeirinha do carro que preenche todos os requisitos de segurança em caso de acidente. Pois claro. Na melhor das hipóteses são os primeiros a ficar órfãos. Dir-me-ão que pode salvar-se vidas. Não duvido, mas não é esse o tema deste post. Gosto muito de criancinhas, principalmente quando estão caladas ou a chupar cornettos. Podia até trazer uma ou duas a este mundo, partindo do princípio que elas andam pelo cosmos a voar. Podia até provocar-lhes uma infância feliz mas… e depois de sair da cadeirinha? “Este país não é para velhos” e muito menos para crianças que deixam as cadeirinhas. Portugal é, quando muito, para corruptos que se encavalitam em Bancos. Dir-me-ão que posso sempre emigrar (e viver fugindo do chafariz de merda com que nos contempla o Sr. Poder). Dir-me-ão que um dia, quem sabe, talvez esta gente que cria leis e nos obriga a cumprir normas de segurança se lembre de nos inventar uma cadeirinha para nos proteger dos Bancos. Sim, mas não é esse o tema deste post...
.
Nessa altura, que não era nitidamente o meu tempo, lembro-me dos bancos que havia. Eram poucos e, no geral, só lá trabalhava quem fosse rápido a contar notas. Íamos ao Banco Fonsecas & Burnay e havia a Caixa Geral de Depósitos (a grande Madame), que era onde o meu avô teimosamente depositava as lecas. Depois fomos mudando, saltando de banco em banco, como os saltimbancos. Lembro-me do Montepio Geral, do Banco Borges e Irmão, do Crédito Predial Português e de surgir a Nova Rede, essa novidade de outrora com imagem juvenil, ecoando hoje à craveira de um qualquer partido político minoritário a pôr-se em bicos de pés.
Na altura, como hoje, não dominava essa linguagem de escravos que é o Economês. Mas suponho que os métodos fossem semelhantes. – ponha aqui o seu dinheiro. Nós somos do Best e a sua reforma vai parecer a lotaria (hoje, o Euromilhões, porque a bazófia também fez filhos e agigantou-se com upgrades).
O que me leva a crer o seguinte: - quem são estas bestas que nos juram fidelidade eterna e depois se vendem aos outros. Quem são estas putas de alterne que fundam bordéis e depois desaparecem? Vale a pena acreditar? Não creio. Grande parte das putas que conheço (assumidas e, portanto, as verdadeiramente dignas de respeito) carregam um fado qualquer, uma culpa de amor em saldo que elas não puderam comprar e a que, sem grande acometimento de valores, me atrevo a chamar de consciência. Não deve haver muitas verdades maiores do que uma puta a assumir que o é. E, como tal, merece respeito. Bem mais do que aqueloutras que namoram futebolistas e falseiam, não só o prazer mas também o Amor (essa sim, a mais reles das putarias).
Ora bem, bancos e putaria é quase a mesma coisa. Enquanto umas nos puxam pelas peles no colchão, os outros fazem-nos acreditar que as peles debaixo dele, estão mais seguras na sua caixa forte, o que, como sabemos, é uma grandessíssima mentira. Sei de uma estória. Senhora velhinha, com colhão e meio de euros, peintelhos de tostões. Pediu para levantar o dinheiro. Demorou a contá-lo. Feita a conversão para contos de rei, retorquiu: - “Está certinho! As notas é que já não são as mesmas!” – disse em tom de repreensão por lhe terem andado a mexer no dinheirinho. “Pode voltar a guardar!”
Inocência gira dirão uns, selvajaria grotesca, outros dirão. Na verdade, a velhinha não sabe o que é um banco ou o que representa, mas este sabe bem o que ela é. Se lhe contassem a história toda, dava-lhe um ataque nos órgãos mais sensíveis. Ela levantava as notas trocadas e sujeitar-se-ia às manápulas de um drogado a virar-lhe o colchão ou a comprar-lhe vinho com notas falsas, com troco verdadeiro e combinação de caixa fraca.
Eu também poderia chegar a velho. E se isso acontecesse poderia rir-me com toda a masculinidade dos meus ossos, uma espécie de escárnio em relação aos mal coçados. Imaginemos, um velho sem rapidez de movimentos ou raciocínio a lidar com a tecnologia de amanhã. É para rir e, no entanto, sem valores que nos protejam, nós somos hoje o sulfato e enxofre para essa colheita de amanhã. Invariavelmente, acabaremos por dizer: - “se eu tivesse a tua idade” e, muito pior, “o mundo é assim”. Diremos a mesma merda que ouvimos, ainda que tenhamos hoje quilhapos para virar o sistema pelo avesso. Mas definhamos. Ganhamos filhos e, com eles, um amor que não se permite a revoluções, porque não lhes desejamos fome nem abalos maiores na cadeirinha do carro que preenche todos os requisitos de segurança em caso de acidente. Pois claro. Na melhor das hipóteses são os primeiros a ficar órfãos. Dir-me-ão que pode salvar-se vidas. Não duvido, mas não é esse o tema deste post. Gosto muito de criancinhas, principalmente quando estão caladas ou a chupar cornettos. Podia até trazer uma ou duas a este mundo, partindo do princípio que elas andam pelo cosmos a voar. Podia até provocar-lhes uma infância feliz mas… e depois de sair da cadeirinha? “Este país não é para velhos” e muito menos para crianças que deixam as cadeirinhas. Portugal é, quando muito, para corruptos que se encavalitam em Bancos. Dir-me-ão que posso sempre emigrar (e viver fugindo do chafariz de merda com que nos contempla o Sr. Poder). Dir-me-ão que um dia, quem sabe, talvez esta gente que cria leis e nos obriga a cumprir normas de segurança se lembre de nos inventar uma cadeirinha para nos proteger dos Bancos. Sim, mas não é esse o tema deste post...
.
28 de abr. de 2009
Livro de Estórias e Comezainas
Era impossível esquecer-me! Foi no sábado passado. Chovia a cântaros, não havia polícia e estávamos no Red Box… esperem lá… Não. Foi no Jamaica e eu estava a acabar um sumo mas… Foi na sexta-feira, assim é que é, estava no Woodrock a pedir uma mini ao balcão, o Marco estava cercado de polícia e um amigo a quem guardo copiosa estima propôs-me a seguinte ideia:
- “Vamos escrever um livro das nossas estórias de estudantes, com receitas de culinária pelo meio. Aquelas comezainas que ninguém adivinha que os estudantes fazem, porque a maioria só come batatas fritas e ovos estrelados?”
Aquiesci com agrado e pusemo-nos a recordar alarvices que a nossa memória preservou em vinagre e vinha-d’alhos para empregos maiores, um dia.
Como tal, e porque prevemos vender pelo menos uns 10 livros, dispõe-se aqui, e em primeira mão, uma receita com ligeiro travo a hortelã…
Receita de sangria
(3-4 estudantes)
Ingredientes:
- 10 maçãs
- 10 laranjas
- 15 limões
- 3 kg de morangos
- Espumante
- Vodka
- Triple Sec
- Hortelã
-Disponham-se num jigo de vindima trazido da terra, 10 maçãs, 10 laranjas, 15 limões e 3 kg de morangos. Tudo partido aos bocados. Junte-se com generosidade meia garrafa de Vodka e outra meia de Triple Sec. Perfume-se com um pequeno ramo de hortelã;
-Faça-se uma pausa para uma partida de Pro Evolution Soccer;
-Verifique-se se entretanto ninguém urinou no preparado. Em caso afirmativo, obrigue-se o prevaricador a beber tudo por um funil, retomando o processo quantas vezes for necessário;
-Abram-se 8 garrafas de espumante branco. Beba-se 1 para louvar o vencedor da partida e despejem-se as outras 7 no jigo, juntamente com 3 garrafas de gasosa;
-Deixa-se de um dia para o outro a refrescar num frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima;
Opcional:
No caso de não se dispor de um frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima:
1. Caga-se na Sangria e vai-se à D.ª Rosa comprar cerveja, onde se pode levar o vasilhame no dia seguinte, sem pagar antecipadamente a tara (a D.ª Rosa é sempre five stars e crente nos meninos que estudam para ser doutores).
2. Junta-se o espumante bem fresco ao preparado, juntamente com a gasosa congelada e, quando esta derreter, bebe-se como se não houvesse amanhã.
3. Pode juntar-se bastante gelo mas, como toda a gente sabe, a água combina mal com bebidas alcoólicas. É preferível congelar garrafas de água e dispô-las bem fechadas no jigo para refrescar a sangria. Esta opção permite que se tenha uma conversa digna com os deuses sem grandes alucinações.
4. Em preparados menores, pode sempre dispôr-se bagos de uva congelados, em vez de gelo. Deus Baco agradece.
Nota:
-Nunca congelar garrafas de vidro! Revelam-se bastante indigestas, especialmente depois de partirem.
- DEVE BEBER-SE VERY FUCKIN FRESH!
.
- “Vamos escrever um livro das nossas estórias de estudantes, com receitas de culinária pelo meio. Aquelas comezainas que ninguém adivinha que os estudantes fazem, porque a maioria só come batatas fritas e ovos estrelados?”
Aquiesci com agrado e pusemo-nos a recordar alarvices que a nossa memória preservou em vinagre e vinha-d’alhos para empregos maiores, um dia.
Como tal, e porque prevemos vender pelo menos uns 10 livros, dispõe-se aqui, e em primeira mão, uma receita com ligeiro travo a hortelã…
Receita de sangria
(3-4 estudantes)
Ingredientes:
- 10 maçãs
- 10 laranjas
- 15 limões
- 3 kg de morangos
- Espumante
- Vodka
- Triple Sec
- Hortelã
-Disponham-se num jigo de vindima trazido da terra, 10 maçãs, 10 laranjas, 15 limões e 3 kg de morangos. Tudo partido aos bocados. Junte-se com generosidade meia garrafa de Vodka e outra meia de Triple Sec. Perfume-se com um pequeno ramo de hortelã;
-Faça-se uma pausa para uma partida de Pro Evolution Soccer;
-Verifique-se se entretanto ninguém urinou no preparado. Em caso afirmativo, obrigue-se o prevaricador a beber tudo por um funil, retomando o processo quantas vezes for necessário;
-Abram-se 8 garrafas de espumante branco. Beba-se 1 para louvar o vencedor da partida e despejem-se as outras 7 no jigo, juntamente com 3 garrafas de gasosa;
-Deixa-se de um dia para o outro a refrescar num frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima;
Opcional:
No caso de não se dispor de um frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima:
1. Caga-se na Sangria e vai-se à D.ª Rosa comprar cerveja, onde se pode levar o vasilhame no dia seguinte, sem pagar antecipadamente a tara (a D.ª Rosa é sempre five stars e crente nos meninos que estudam para ser doutores).
2. Junta-se o espumante bem fresco ao preparado, juntamente com a gasosa congelada e, quando esta derreter, bebe-se como se não houvesse amanhã.
3. Pode juntar-se bastante gelo mas, como toda a gente sabe, a água combina mal com bebidas alcoólicas. É preferível congelar garrafas de água e dispô-las bem fechadas no jigo para refrescar a sangria. Esta opção permite que se tenha uma conversa digna com os deuses sem grandes alucinações.
4. Em preparados menores, pode sempre dispôr-se bagos de uva congelados, em vez de gelo. Deus Baco agradece.
Nota:
-Nunca congelar garrafas de vidro! Revelam-se bastante indigestas, especialmente depois de partirem.
- DEVE BEBER-SE VERY FUCKIN FRESH!
.
24 de abr. de 2009
O pão que o diabo amassou
.
Sem grande coisa para fazer neste momento, encontro-me naquele limbo meio parvo entre beber mais um copo e comer uma sandes ou bater uma e dormir. Bater píveas é para os fracos e, como tal, bebo mais um copo, acumulando esperma para a próxima reencarnação…
Hoje a moça da padaria tocou-me nas mãos por várias vezes. Agarrou-as para me dar uma sugestão gastronómica de sandes depois de eu lhe ter pedido uma baguete. Devia ter-lhe pedido o número de telefone. Devia mas não pedi. Não me detenho nas mãos que me fazem o pão mas penso no seu jeito para o manejo da farinha amolecida algures no pré-pão. Deve haver alguma pornografia nas argamassas manejadas com tesão. E depois o calor do forno… não é coisa para se tratar com indiferença.
Ela tocou-me nas mãos, não com o viço de quem amassa farinha, mas com o cuidado de quem lhe bota o sal. E eu pensei para os meus fechos éclair, - tal como os bolos da sua vitrine: - “esta garota quer que lhe amassem a sêmea!”
Tenho pensado na sua regueifa dominical e, um dia destes, vou perguntar-lhe se quer ajuda para fazer pão com chouriço. Ah pois com certeza que vou!
.
Sem grande coisa para fazer neste momento, encontro-me naquele limbo meio parvo entre beber mais um copo e comer uma sandes ou bater uma e dormir. Bater píveas é para os fracos e, como tal, bebo mais um copo, acumulando esperma para a próxima reencarnação…
Hoje a moça da padaria tocou-me nas mãos por várias vezes. Agarrou-as para me dar uma sugestão gastronómica de sandes depois de eu lhe ter pedido uma baguete. Devia ter-lhe pedido o número de telefone. Devia mas não pedi. Não me detenho nas mãos que me fazem o pão mas penso no seu jeito para o manejo da farinha amolecida algures no pré-pão. Deve haver alguma pornografia nas argamassas manejadas com tesão. E depois o calor do forno… não é coisa para se tratar com indiferença.
Ela tocou-me nas mãos, não com o viço de quem amassa farinha, mas com o cuidado de quem lhe bota o sal. E eu pensei para os meus fechos éclair, - tal como os bolos da sua vitrine: - “esta garota quer que lhe amassem a sêmea!”
Tenho pensado na sua regueifa dominical e, um dia destes, vou perguntar-lhe se quer ajuda para fazer pão com chouriço. Ah pois com certeza que vou!
.
Breve lição de Teologia
.
Tenho formação católica, apostólica e romana. Isto é, andei a correr para a catequese e para a igreja durante quase todos os sábados e domingos enquanto fui catraio. Depois de dez anos de (in e desin)formação, depois de fazer a 1.ª e 2.ª Comunhões e o Crisma, comecei a questionar-me. Tão vigorosas foram as dúvidas como parcas as respostas. Não indaguei tanto a validade dos valores professados por Jesus Cristo ou mesmo a existência de Deus. Não. Nenhum filósofo professou tão bem, como Cristo, o amor ao próximo e o desprendimento das coisas materiais. E, nesse sentido, nunca poderia guardar-lhe rancor. Bom, o que realmente me chateia é mesmo a Igreja…
Como devem saber, a Bíblia foi escrita por pessoas e, ainda que se advogue intervenção divina, não foi tão divina a selecção dos textos e sua tradução. Independentemente das suas valências, e apesar de não figurarem na Bíblia os escritos apócrifos (possivelmente redigidos pelo próprio Jesus Cristo e considerados hereges pelo Vaticano), a verdade é que a Igreja parece não querer parar de praticar uma ideologia diferente daquela que advoga. Senão vejamos:
- Cristo dizia coisas tão insignificantes como “deixa tudo e segue-me”. Quando os apóstolos decidiram, à revelia d’ Ele, fazer um peditório e depois O presentearam com as moedas, Cristo retorquiu: - “distribuam-nas pelos pobres”. Os apóstolos, não convencidos, ainda tentaram argumentar que aquele dinheiro poderia ser útil e tal… mas sem sucesso. Jesus não queria nada com o vil metal. Mas porque o dinheiro faz rodar meio mundo (e não é de agora!) ainda lhe convocaram um pensamento político a propósito de impostos. Como Ele se estava a cagar para o dinheiro, interessando-lhe muito mais a questão espiritual, disparou a célebre frase: - “ a César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Pelo meio, expulsou os “vendilhões do templo” que se serviam daquela morada para exercer o comércio. E pregou por aí adiante o desprendimento material e o amor ao próximo. Coisa esquisita, portanto.
Ora, o que fazem os seguidores de Cristo, dois mil anos depois? Correm a encher os cofres do Vaticano, agigantando-o com o estatuto de Estado mais rico do mundo, onde não parece entrar a crise. Quem já foi a Fátima ou a Roma e foi capaz de se questionar sobre estas matérias, deve achar, como eu, que há qualquer coisa que não bate certo, que o fausto nada deve ter a ver com as questões espirituais, que aquela riqueza toda dava para acabar com a fome no mundo, que Cristo não desejou esta merda…
Como o texto vai longo, não me vou deter muito nas Cruzadas, na Inquisição ou no Index, nem no sangue que se derramou em nome de Deus. Convém lembrar que a Igreja católica foi responsável por mais mortes do que todas as pestes e doenças juntas. Convém, no entanto, lembrar que a Inquisição não surgiu durante a Idade Média, ao contrário do que muitos possam pensar. Durante esse período vigorou um paradigma (modelo de explicação do real) no qual Deus estava no centro de todas as coisas. Foi no Concílio de Trento, na alvorada do Renascimento, que surgiu a Inquisição. E porquê? Porque o Renascimento ousou colocar o Homem no centro de todas as coisas. Cantou o Homem e a sua beleza, esculpiu-lhe estátuas, desenhou-o em toda a sua força e plenitude. Ora, isto soou a heresia e, um pouco por toda a Europa, a Inquisição perseguiu e assassinou toda e qualquer tentativa de pensamento divergente. Naturalmente, esse movimento de perseguição, ganhou maior dimensão nas nações mais atrasadas, ignorantes e incultas. Ou seja, Portugal e Espanha…
Para outras noitadas, me deterei nestas matérias, até porque há muito a dizer sobre a conivência da Igreja para com os ditadores e acusar o seu infindável namoro com o Poder e as suas instituições. Cristo foi o primeiro comunista da História. E falar também sobre o Deus intervencionista e validade das preces e cenários possíveis do mundo sem religião. Mas para essa seca convocar-nos-ei para outras noitadas.
Resta-me abordar o tema pelo qual me obriguei a escrever esta… crónica.
Não sei se tenho fé ou, se tenho, devo chamar-lhe cepticismo. Mas há uma coisa em que realmente acredito: - NA FALTA DE DEUS, FOI A NATUREZA QUEM NOS CRIOU! Se Ele existe, como eu espero que exista, a Natureza foi a sua grande obra. E é, precisamente, essa grande obra que nós, católicos ou não, insistimos em destruir. Como é possível que alguém se considere católico ou cristão ou outra coisa qualquer e não se esforce por poupar a sua obra mais bela? Como é possível que a Igreja não se manifeste com afinco na luta pela preservação da espécie “criada à sua imagem e semelhança”? Como se pode conceber que a Igreja se preocupe mais com as suas caixas de esmolas do que com o aquecimento global, a extinção de espécies (animais ou vegetais)?
As perguntas são intermináveis. Não conheço nenhuma associação sem fins lucrativos (?) com tamanho poder para reunir e mobilizar os seus associados como a Igreja Católica. E não me cabe, pura e simplesmente, não me cabe no cérebro nem no coração, como é que esse agremiado de acéfalos não é capaz de assumir uma posição suficientemente vigorosa relativamente à preservação da obra de Deus. E é por isso que, se me resta alguma fé nos ossos, me demito de qualquer relacionamento com Deus através destes intermediários vendidos ao diabo.
Tenho dito...
...e não me tenho detido!
.
Tenho formação católica, apostólica e romana. Isto é, andei a correr para a catequese e para a igreja durante quase todos os sábados e domingos enquanto fui catraio. Depois de dez anos de (in e desin)formação, depois de fazer a 1.ª e 2.ª Comunhões e o Crisma, comecei a questionar-me. Tão vigorosas foram as dúvidas como parcas as respostas. Não indaguei tanto a validade dos valores professados por Jesus Cristo ou mesmo a existência de Deus. Não. Nenhum filósofo professou tão bem, como Cristo, o amor ao próximo e o desprendimento das coisas materiais. E, nesse sentido, nunca poderia guardar-lhe rancor. Bom, o que realmente me chateia é mesmo a Igreja…
Como devem saber, a Bíblia foi escrita por pessoas e, ainda que se advogue intervenção divina, não foi tão divina a selecção dos textos e sua tradução. Independentemente das suas valências, e apesar de não figurarem na Bíblia os escritos apócrifos (possivelmente redigidos pelo próprio Jesus Cristo e considerados hereges pelo Vaticano), a verdade é que a Igreja parece não querer parar de praticar uma ideologia diferente daquela que advoga. Senão vejamos:
- Cristo dizia coisas tão insignificantes como “deixa tudo e segue-me”. Quando os apóstolos decidiram, à revelia d’ Ele, fazer um peditório e depois O presentearam com as moedas, Cristo retorquiu: - “distribuam-nas pelos pobres”. Os apóstolos, não convencidos, ainda tentaram argumentar que aquele dinheiro poderia ser útil e tal… mas sem sucesso. Jesus não queria nada com o vil metal. Mas porque o dinheiro faz rodar meio mundo (e não é de agora!) ainda lhe convocaram um pensamento político a propósito de impostos. Como Ele se estava a cagar para o dinheiro, interessando-lhe muito mais a questão espiritual, disparou a célebre frase: - “ a César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Pelo meio, expulsou os “vendilhões do templo” que se serviam daquela morada para exercer o comércio. E pregou por aí adiante o desprendimento material e o amor ao próximo. Coisa esquisita, portanto.
Ora, o que fazem os seguidores de Cristo, dois mil anos depois? Correm a encher os cofres do Vaticano, agigantando-o com o estatuto de Estado mais rico do mundo, onde não parece entrar a crise. Quem já foi a Fátima ou a Roma e foi capaz de se questionar sobre estas matérias, deve achar, como eu, que há qualquer coisa que não bate certo, que o fausto nada deve ter a ver com as questões espirituais, que aquela riqueza toda dava para acabar com a fome no mundo, que Cristo não desejou esta merda…
Como o texto vai longo, não me vou deter muito nas Cruzadas, na Inquisição ou no Index, nem no sangue que se derramou em nome de Deus. Convém lembrar que a Igreja católica foi responsável por mais mortes do que todas as pestes e doenças juntas. Convém, no entanto, lembrar que a Inquisição não surgiu durante a Idade Média, ao contrário do que muitos possam pensar. Durante esse período vigorou um paradigma (modelo de explicação do real) no qual Deus estava no centro de todas as coisas. Foi no Concílio de Trento, na alvorada do Renascimento, que surgiu a Inquisição. E porquê? Porque o Renascimento ousou colocar o Homem no centro de todas as coisas. Cantou o Homem e a sua beleza, esculpiu-lhe estátuas, desenhou-o em toda a sua força e plenitude. Ora, isto soou a heresia e, um pouco por toda a Europa, a Inquisição perseguiu e assassinou toda e qualquer tentativa de pensamento divergente. Naturalmente, esse movimento de perseguição, ganhou maior dimensão nas nações mais atrasadas, ignorantes e incultas. Ou seja, Portugal e Espanha…
Para outras noitadas, me deterei nestas matérias, até porque há muito a dizer sobre a conivência da Igreja para com os ditadores e acusar o seu infindável namoro com o Poder e as suas instituições. Cristo foi o primeiro comunista da História. E falar também sobre o Deus intervencionista e validade das preces e cenários possíveis do mundo sem religião. Mas para essa seca convocar-nos-ei para outras noitadas.
Resta-me abordar o tema pelo qual me obriguei a escrever esta… crónica.
Não sei se tenho fé ou, se tenho, devo chamar-lhe cepticismo. Mas há uma coisa em que realmente acredito: - NA FALTA DE DEUS, FOI A NATUREZA QUEM NOS CRIOU! Se Ele existe, como eu espero que exista, a Natureza foi a sua grande obra. E é, precisamente, essa grande obra que nós, católicos ou não, insistimos em destruir. Como é possível que alguém se considere católico ou cristão ou outra coisa qualquer e não se esforce por poupar a sua obra mais bela? Como é possível que a Igreja não se manifeste com afinco na luta pela preservação da espécie “criada à sua imagem e semelhança”? Como se pode conceber que a Igreja se preocupe mais com as suas caixas de esmolas do que com o aquecimento global, a extinção de espécies (animais ou vegetais)?
As perguntas são intermináveis. Não conheço nenhuma associação sem fins lucrativos (?) com tamanho poder para reunir e mobilizar os seus associados como a Igreja Católica. E não me cabe, pura e simplesmente, não me cabe no cérebro nem no coração, como é que esse agremiado de acéfalos não é capaz de assumir uma posição suficientemente vigorosa relativamente à preservação da obra de Deus. E é por isso que, se me resta alguma fé nos ossos, me demito de qualquer relacionamento com Deus através destes intermediários vendidos ao diabo.
Tenho dito...
...e não me tenho detido!
.
22 de abr. de 2009
Explicação de um menino
.
O mundo compõe-se de animais racionais e irracionais. Os animais racionais são os que fazem a guerra, destroem a natureza e têm vergonha de andar nus. Os outros são os irracionais…
.
O mundo compõe-se de animais racionais e irracionais. Os animais racionais são os que fazem a guerra, destroem a natureza e têm vergonha de andar nus. Os outros são os irracionais…
.
21 de abr. de 2009
Morte
Temos dificuldade em conviver com a Morte. Toca-se no assunto como no clítoris de uma freira a quem não se podem arrancar orgasmos. Pois sabei que me abeiro com o dedo em riste de quem se arrisca à heresia de a conversar. Falo com propriedade. A Morte levou grande parte dos meus antepassados e, se não for eu primeiro, encavalitará na sua barca aqueles que me são mais queridos.
Tenho um certo respeito pela Morte. – Não se deixa corromper! Propõe-se, na sua ditadura, a uma higiene democrática que não poupa ninguém.
Não a temo. Preocupa-me, isso sim, a falta de valores e ferramentas para ma administrarem com dignidade. Sou um homem de desistências. Desisti de tudo na alvorada de tudo acontecer para ir à casa de banho. Vim de lá a apertar o cinto, menos agoniado e mais lavado e a perguntar como tudo foi. Não atiro senão palitos para a engrenagem onde se mereciam chaves de fendas.
.
Oh heresia! Bem sei a falta que nos fazem as pessoas quando morrem. Só elas nos poderiam enxugar as lágrimas naquele momento. Fazemos poemas para a vida e a Morte vai-nos roubando os versos. Questionamos tudo. Assim é impossível. Ninguém pode fazer nada? – dizemos com um discernimento que lembra uma reportagem sobre a fome em África, antes de entrar a publicidade do tempo, a esgadanhar para a frente.
Na maior parte das vezes, não é a Morte que nos leva, mas esse tapete do tempo a enrolar-se. Se estivesse para morrer ou, pior, alguém estivesse a morrer-se em mim, teria outra perspectiva. Talvez escrevesse um testamento que obrigasse os meus amigos a uma grande festa. Na segunda hipótese, talvez me obrigasse ao fiel depósito de vontades moribundas não cumpridas.
A Morte “é um mal que vem por bem” e deve servir como lembrete para o que nos falta cumprir.
Em jeito de Post Scriptum,
Não esqueçamos, porém, de aliviar a dor aos que mais de perto vêem os outros partir. Cabe-nos tanto enterrar os mortos como assistir à aparição dos que nos irão sepultar. Pelo meio, legitimarmo-nos como médicos sem juramento, e levar um fardo de melancolia pelos outros ao abismo do tempo.
.
Tenho um certo respeito pela Morte. – Não se deixa corromper! Propõe-se, na sua ditadura, a uma higiene democrática que não poupa ninguém.
Não a temo. Preocupa-me, isso sim, a falta de valores e ferramentas para ma administrarem com dignidade. Sou um homem de desistências. Desisti de tudo na alvorada de tudo acontecer para ir à casa de banho. Vim de lá a apertar o cinto, menos agoniado e mais lavado e a perguntar como tudo foi. Não atiro senão palitos para a engrenagem onde se mereciam chaves de fendas.
.
Oh heresia! Bem sei a falta que nos fazem as pessoas quando morrem. Só elas nos poderiam enxugar as lágrimas naquele momento. Fazemos poemas para a vida e a Morte vai-nos roubando os versos. Questionamos tudo. Assim é impossível. Ninguém pode fazer nada? – dizemos com um discernimento que lembra uma reportagem sobre a fome em África, antes de entrar a publicidade do tempo, a esgadanhar para a frente.
Na maior parte das vezes, não é a Morte que nos leva, mas esse tapete do tempo a enrolar-se. Se estivesse para morrer ou, pior, alguém estivesse a morrer-se em mim, teria outra perspectiva. Talvez escrevesse um testamento que obrigasse os meus amigos a uma grande festa. Na segunda hipótese, talvez me obrigasse ao fiel depósito de vontades moribundas não cumpridas.
A Morte “é um mal que vem por bem” e deve servir como lembrete para o que nos falta cumprir.
Em jeito de Post Scriptum,
Não esqueçamos, porém, de aliviar a dor aos que mais de perto vêem os outros partir. Cabe-nos tanto enterrar os mortos como assistir à aparição dos que nos irão sepultar. Pelo meio, legitimarmo-nos como médicos sem juramento, e levar um fardo de melancolia pelos outros ao abismo do tempo.
.
Époque Lips Now
.
Farto de tanto se conspurcar a sua obra,
De religião e vendilhões
Deus avisou os homens:
“Amanhã mesmo sereis expulsos da minha morada. Deixai-a limpa
E preparai-vos!”
Mas os homens atrasaram-se
Nas demolições,
Não tanto no que sentiu Deus quando destruíam a sua obra,
Mas no prejuízo da empreitada.
E puseram-se a rezar uma novena de promessas
E fizeram-se ofertórios
E sacrifícios de animais,
E deu-se a Deus o que era dele, cozinhado
E meia dúzia de bons uísques que nunca se deram à boca de ninguém
E um cubano.
Deus viu com tristeza
Que as pessoas se agarravam às sacolas de metal
Quando a maré começou a subir.
Sobrou para a eternidade da sua memória
Aqueles que faziam um piquenique
No cume dos montes.
Dando as mãos
Aos beijos
E os últimos sopros ao amor.
.
Farto de tanto se conspurcar a sua obra,
De religião e vendilhões
Deus avisou os homens:
“Amanhã mesmo sereis expulsos da minha morada. Deixai-a limpa
E preparai-vos!”
Mas os homens atrasaram-se
Nas demolições,
Não tanto no que sentiu Deus quando destruíam a sua obra,
Mas no prejuízo da empreitada.
E puseram-se a rezar uma novena de promessas
E fizeram-se ofertórios
E sacrifícios de animais,
E deu-se a Deus o que era dele, cozinhado
E meia dúzia de bons uísques que nunca se deram à boca de ninguém
E um cubano.
Deus viu com tristeza
Que as pessoas se agarravam às sacolas de metal
Quando a maré começou a subir.
Sobrou para a eternidade da sua memória
Aqueles que faziam um piquenique
No cume dos montes.
Dando as mãos
Aos beijos
E os últimos sopros ao amor.
.
19 de abr. de 2009
Os cães do Sr. Poder
Deve ser ódio aquilo que sinto neste momento. Permiti-me a uma semana de trabalho com certo romantismo: - chegar ao fim-de-semana e gozar uma boa borga de bar entre amigos. Era só isto. Entrar no Woodrock e “curtir como um porco”. Era só isto que eu queria! Estar com os meus amigos, beber uns copos e conversar.
Receita gorada! Apareceu a polícia e as minhas esperanças boémias desvaneceram-se como um resto de espuma a vagar pelo ralo depois de um banho de felicidade quente.
Num sábado à noite? Tornar-me-ia missionário de uma crença qualquer se a mesma canzoada verde irrompesse Parlamento adentro a algemar corruptos. Deixemo-nos de sonhos!
Desliga-se a música (a Cultura) que faz pensar. Impõe-se a apresentação de licenças! Isto é um bar ou uma discoteca? A discoteca pode, o bar não, “ainda que tenha razão”, como dizia o Pessoa, detido na problemática dos mandadores do mundo.
Breve nota sobre Democracia:
Do grego Demo (povo) e Cracia (Lei). Ou seja, a lei do povo, entendida como o cumprimento da vontade maioritária. Roosevelt definiu Democracia como “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. Entenda-se o povo como a maioria das pessoas que constituem uma sociedade, independentemente do estrato social, cultura… etc. etc….
Não vivemos em Democracia, como nos querem impingir. Se a maioria do povo disser que os professores não devem ser avaliados (apesar do rico exemplo dos países nórdicos e dos mais ricos), cague-se na avaliação. A vontade maioritária assim o exige e ordena. A validade dessas políticas são contas de outro rosário…
Democracia é vontade maioritária e mais nada.
Prefiro ser atropelado por um bêbado a ver-me subjugado e condenado por um crime que ainda não cometi. Vivemos numa sociedade que pune o crime antes de este ser cometido mas liberta o crime consumado. Estranha antítese. Vem da Grécia Antiga (A.C.), a expressão “a censura persegue as pombas e poupa os corvos”. Vejam lá há quantas milhas de séculos esta merda se prolonga…
Sou uma pessoa de Bem… não sei por quanto tempo! Apetece-me ser corrupto. Usar a minha inteligência para o contorno das correntes que nos amordaça aos muros. Eu tenho ideias. Tenho, sim senhor! E quem se vê fornicado como eu por uma vontade, tida por maioritária para virtude de todos, tem ideias também.
A polícia fechou a minha segunda casa, o lar onde recebo os meus amigos sem a jurisdição dos meus pais; a polícia que é o cão de guarda do poder instituído e instrumento de fazer pagar a crise que a corrupção montou.
Vi ontem, numa revista de elites o seguinte título: - “traficante na lista da Forbes como um dos mais ricos do mundo”, numa foto com o dito, armado e sorridente.
A lei não o condena.
A lei cheira mal da boca
Morra a lei
Pim.
.
Receita gorada! Apareceu a polícia e as minhas esperanças boémias desvaneceram-se como um resto de espuma a vagar pelo ralo depois de um banho de felicidade quente.
Num sábado à noite? Tornar-me-ia missionário de uma crença qualquer se a mesma canzoada verde irrompesse Parlamento adentro a algemar corruptos. Deixemo-nos de sonhos!
Desliga-se a música (a Cultura) que faz pensar. Impõe-se a apresentação de licenças! Isto é um bar ou uma discoteca? A discoteca pode, o bar não, “ainda que tenha razão”, como dizia o Pessoa, detido na problemática dos mandadores do mundo.
Breve nota sobre Democracia:
Do grego Demo (povo) e Cracia (Lei). Ou seja, a lei do povo, entendida como o cumprimento da vontade maioritária. Roosevelt definiu Democracia como “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. Entenda-se o povo como a maioria das pessoas que constituem uma sociedade, independentemente do estrato social, cultura… etc. etc….
Não vivemos em Democracia, como nos querem impingir. Se a maioria do povo disser que os professores não devem ser avaliados (apesar do rico exemplo dos países nórdicos e dos mais ricos), cague-se na avaliação. A vontade maioritária assim o exige e ordena. A validade dessas políticas são contas de outro rosário…
Democracia é vontade maioritária e mais nada.
Prefiro ser atropelado por um bêbado a ver-me subjugado e condenado por um crime que ainda não cometi. Vivemos numa sociedade que pune o crime antes de este ser cometido mas liberta o crime consumado. Estranha antítese. Vem da Grécia Antiga (A.C.), a expressão “a censura persegue as pombas e poupa os corvos”. Vejam lá há quantas milhas de séculos esta merda se prolonga…
Sou uma pessoa de Bem… não sei por quanto tempo! Apetece-me ser corrupto. Usar a minha inteligência para o contorno das correntes que nos amordaça aos muros. Eu tenho ideias. Tenho, sim senhor! E quem se vê fornicado como eu por uma vontade, tida por maioritária para virtude de todos, tem ideias também.
A polícia fechou a minha segunda casa, o lar onde recebo os meus amigos sem a jurisdição dos meus pais; a polícia que é o cão de guarda do poder instituído e instrumento de fazer pagar a crise que a corrupção montou.
Vi ontem, numa revista de elites o seguinte título: - “traficante na lista da Forbes como um dos mais ricos do mundo”, numa foto com o dito, armado e sorridente.
A lei não o condena.
A lei cheira mal da boca
Morra a lei
Pim.
.
9 de abr. de 2009
Medina Carreira
.
Atentem, seus miseráveis, nas palavras do Homem-que-não-consegue-parar-de-mascar-Smints...
http://www.youtube.com/watch?v=LffslKoCqZo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=l6BvcZzRM6I&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=LhnGuKPQbzo&feature=related
Este sim, fala-me ao coração.
.
Atentem, seus miseráveis, nas palavras do Homem-que-não-consegue-parar-de-mascar-Smints...
http://www.youtube.com/watch?v=LffslKoCqZo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=l6BvcZzRM6I&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=LhnGuKPQbzo&feature=related
Este sim, fala-me ao coração.
.
1 de abr. de 2009
FOGO FÁTUO
Está tudo em chamas, da frondosa selva até ao gabinete do Primeiro Ministro.
Os repetidos fogos do mandato lavram incessantemente, tendo já devastado milhares de euros provenientes do Freeport directamente para a gaveta mais à direita da secretária de Sua Exa. O Primeiro de todos nós...
As várias corporações de bombeiros, destacadas para o local, são unânimes ao afirmarem que muito provavelmente esta catástrofe dantesca tem mão criminosa. Foi encontrado no Ground Zero, aquilo que se julga ser uma fogueira de vaidades, onde se começou por consumir, com o objectivo de atear melhor o fogo, um diploma mal amanhado onde ainda são visíveis as palavras "Engenheiro Civil". A acrescentar a isto e para engrossar as labaredas, julga-se que o criminoso terá juntado alguns projectos bizarros, dos quais ainda se notam alguns vestígios por consumir. São eles, esboços e traçados com dizeres como "OTA" e "TGV".
Esta fogueira está na origem de todo o fogo, que ainda lavra por todos os ministérios, vários, que constituem esta selva democrática e que muito dificilmente escapará ilesa a esta calamidade.
Foi já decretado o Estado de sítio, sendo no entanto, desconhecidas as medidas preventivas a tomar para proteger a populaça em geral.
Os repetidos fogos do mandato lavram incessantemente, tendo já devastado milhares de euros provenientes do Freeport directamente para a gaveta mais à direita da secretária de Sua Exa. O Primeiro de todos nós...
As várias corporações de bombeiros, destacadas para o local, são unânimes ao afirmarem que muito provavelmente esta catástrofe dantesca tem mão criminosa. Foi encontrado no Ground Zero, aquilo que se julga ser uma fogueira de vaidades, onde se começou por consumir, com o objectivo de atear melhor o fogo, um diploma mal amanhado onde ainda são visíveis as palavras "Engenheiro Civil". A acrescentar a isto e para engrossar as labaredas, julga-se que o criminoso terá juntado alguns projectos bizarros, dos quais ainda se notam alguns vestígios por consumir. São eles, esboços e traçados com dizeres como "OTA" e "TGV".
Esta fogueira está na origem de todo o fogo, que ainda lavra por todos os ministérios, vários, que constituem esta selva democrática e que muito dificilmente escapará ilesa a esta calamidade.
Foi já decretado o Estado de sítio, sendo no entanto, desconhecidas as medidas preventivas a tomar para proteger a populaça em geral.
31 de mar. de 2009
Concurso literário
.
Perdoar-me-ão os desgraçados que convivem com os infortúnios desta morada mas, por mercenários motivos, terei de apagar alguns poemas aqui veiculados. Pretendo levá-los a um concurso de beleza...
Pensemos neles como meninos que levo ao “desobriga” pela tutora e sábia mão de um Menino de Talho. Não se apoquentem. Voltarão cumpridos com renovado cardápio de doenças...
.
Perdoar-me-ão os desgraçados que convivem com os infortúnios desta morada mas, por mercenários motivos, terei de apagar alguns poemas aqui veiculados. Pretendo levá-los a um concurso de beleza...
Pensemos neles como meninos que levo ao “desobriga” pela tutora e sábia mão de um Menino de Talho. Não se apoquentem. Voltarão cumpridos com renovado cardápio de doenças...
.
27 de mar. de 2009
Blindness ou a mesma (In)justiça de sempre
Não há muito tempo li o romance do Nobel, José Saramago, intitulado "Ensaio sobre a Cegueira", cerca de dois dias depois não quis deixar de "VER" o filme de Fernando Meirelles, "Blindness", inspirado nessa mesma obra.
Pessoalmente gostei mais do livro do que do filme. Ou melhor, ao ler o livro fiz o meu próprio filme e esse era bem mais noir que o do Meirelles. Acho que no livro há uma violência refinada, cheio de crueza em cada acção, e as personagens são rasgadas (literalmente) ao virar de cada página.
Cada vez mais Portugal se assemelha ao espaço físico onde a história da cegueira decorre. Vejamos: todos os dias somos bombardeados com acontecimentos vergonhosos - SENHORES que roubam; que abusam do poder; que fazem desaparecer provas e pessoas, melhor, que constroem a realidade a seu bel-prazer, sem haver nada nem ninguém que os pare, que os faça pagar por essa selvajaria desenfreada na subida para a avareza das suas vidas.
(refrão) Mas está tudo cego, ou ninguém quer ver?
A cegueira afecta todos os governantes, juízes e agentes de autoridade, quando neste país quase se cortam as mãos a quem rouba pão para comer, ou deixa de pagar a prestação mensal do carro e da casa porque a empresa onde trabalhava faliu ou está em processo de insolvência devido a gestão danosa dos administradores e a estes nada acontece... a empresa onde trabalhavam está em processo de falência, o que é certo é que estes colarinhos brancos vão á garagem e os seus porches e mercedes estão lá, brilhantes como nunca; e as mãos dos assalariados, onde estão? DECEPADAS, no caixote do lixo do desemprego e da reforma!!
(refrão) Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que acontece aos "chicos espertos" dos autarcas de Felgueiras; Gondomar ou Marco de Canaveses por abuso de poder, desvio de fundos e um rol sem fim de crimes públicos e outros dos quais não sei os nomes? Não acontece NADA! Comem, bebem e festejam as suas ilibações e escapadelas á justiça para mais tarde repetirem mais do mesmo.
(refrão)Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que vos digo é que estes biltres, abutres e cleptomaníacos só param de cegar a justiça e o povo nacional, quando tiverem um acidente e venham a falecer de MORTE VIOLENTA.
Pessoalmente gostei mais do livro do que do filme. Ou melhor, ao ler o livro fiz o meu próprio filme e esse era bem mais noir que o do Meirelles. Acho que no livro há uma violência refinada, cheio de crueza em cada acção, e as personagens são rasgadas (literalmente) ao virar de cada página.
Cada vez mais Portugal se assemelha ao espaço físico onde a história da cegueira decorre. Vejamos: todos os dias somos bombardeados com acontecimentos vergonhosos - SENHORES que roubam; que abusam do poder; que fazem desaparecer provas e pessoas, melhor, que constroem a realidade a seu bel-prazer, sem haver nada nem ninguém que os pare, que os faça pagar por essa selvajaria desenfreada na subida para a avareza das suas vidas.
(refrão) Mas está tudo cego, ou ninguém quer ver?
A cegueira afecta todos os governantes, juízes e agentes de autoridade, quando neste país quase se cortam as mãos a quem rouba pão para comer, ou deixa de pagar a prestação mensal do carro e da casa porque a empresa onde trabalhava faliu ou está em processo de insolvência devido a gestão danosa dos administradores e a estes nada acontece... a empresa onde trabalhavam está em processo de falência, o que é certo é que estes colarinhos brancos vão á garagem e os seus porches e mercedes estão lá, brilhantes como nunca; e as mãos dos assalariados, onde estão? DECEPADAS, no caixote do lixo do desemprego e da reforma!!
(refrão) Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que acontece aos "chicos espertos" dos autarcas de Felgueiras; Gondomar ou Marco de Canaveses por abuso de poder, desvio de fundos e um rol sem fim de crimes públicos e outros dos quais não sei os nomes? Não acontece NADA! Comem, bebem e festejam as suas ilibações e escapadelas á justiça para mais tarde repetirem mais do mesmo.
(refrão)Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que vos digo é que estes biltres, abutres e cleptomaníacos só param de cegar a justiça e o povo nacional, quando tiverem um acidente e venham a falecer de MORTE VIOLENTA.
24 de mar. de 2009
MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA II
.
Tenho recebido várias cartas de gente anónima, e outra cadastrada, a dizer-me coisas desagradáveis relativamente à minha falta de disponibilidade para tornar públicas as minhas memórias de Paredes de Coura. O que as pessoas pensam não acrescenta nenhum upgrade ao incómodo que os chatos, por si só, já me provocam.
No entanto, muito mais estimulado pelas demonstrações de carinho provindas de um grupo de fãs suecas (que tanto me têm aquecido nestas madrugadas frias), resolvi-me e disse para comigo: “Olha lá, ó Mal, tu não és preto nem presidente da América mas esta gente precisa de ser iluminada por ti…” Fiz um silêncio e depois respondi-me: “és capaz de ter razão. Não és burro, não senhor!” e mantive-me neste estranho diálogo até que alguém, agarrando o meu braço, gritou: “Ó senhor, espere aí! – olhe que o semáforo dos peões ainda tá vermelho!”…
Adiante,
Convoquei os meus doces nórdicos para uma tertúlia balear ao redor da fogueira em cuja ordem de trabalhos constava o descerramento do II capítulo das ditas memórias. Depois de um acrobático número de sexo, que aprendi quando vaguei em digressão com o Cirque du Soleil, dispu-las confortavelmente, abri uma botelha de scotch com o meu sabre, dei uma bombada valente e comecei:
- Chegamos um dia antes do festival, propriamente dito. Ultimava-se a montagem das tendas onde se iria improvisar o nosso harém. Nesse momento, começamos a ouvir os primeiros “Foda-ses” que se iriam prolongar até ao fim do festival. Era “Foda-se” para aqui, “Foda-se” para ali… Por cada sonoro “Foda-se” que se ouvia, logo um outro se lhe seguia, ecoando sem limites numa apoteose acéfala. Tamanho espanto, ainda que despropositado, parecia dever-se a um conjunto de fait divers (ou métiers?) com chancela da nossa confraria. Consta que, em ano transacto, a água dos chuveiros era fria e, um senhor que bem sabeis, se arrepiou com a sua frescura, vociferando um sonoro “Fôô ah ah- daa-sssse!!!”. E pronto! Aquela merda fez eco no tempo. Bonito serviço, Mike!
Bom. A sangria estava meio para o roskoff e depois de a acabar fomos passear para a vila à procura de comida, como cães de farejo. Só havia frango a sair. Mal eu sabia que esse era o único pito mastigado que me haveria de calhar em Paredes de Coura… mas terá havido coelho?...
Depois fomos ao talho encomendar corações de frango (não havia de puta)… paramos para sorver as primeiras diuréticas num café que não me lembro o nome. Creio que o dono desse café também não sabe o meu nome, e ainda bem, pois vandalizei a porcelana da toilette sem respeito algum pelos cus que lá assentaram praça nos dias seguintes…
À noite, cozinhamos para um regimento de herbanários. Viramos fêveras com a convicção de resgatar soldados moribundos das trincheiras da morte, numa guerra desigual. O vinho sumiu-se, as tropas ganharam novo alento e um propósito imorredoiro fê-los saltar da trincheira. Mas ao primeiro arranque, carnificina. O Homem da Ripa dizimou quase todos. Muitas baixas e éne louça para lavar… Um conselho: - nunca se deve fumar a camuflagem em tempo de guerra!
Pela madrugada, calhou-nos o carrego de uma adolescente com aspirações a enfermagem. Malta da Cruz Vermelha, portanto. Aterrou na erva com convulsões. As amigas da pobre onça estavam demasiado etilizadas para aquele exorcismo, que lhe revolvia as entranhas e lhe embravecia a voz…
Com ela sentada na grama, encostei a sua nuca aos meus testículos e agarrando as suas orelhas frias, abanei-lhe a cabeça com vigor, tentando expulsar o espírito maligno que a pôs naquele estado e que, teimosamente, se recusava a pôr-lhe as mamas à mostra. Meti-lhe a mão nas calças e, sentindo a formosura seca do seu fresco tufo, percebi que se tratava de um espírito benigno e, como tal, imotivável para misérias festivaleiras. Ainda arrisquei extrair-lhe por ali o demónio, e pelas traseiras, apanhando-o desprevenido. Em vão. O maroto era preguiçoso e teimava por um exorcismo profissionalizado, vulgo medicamente assistido.
O estado da saúde nas Universidades é sintomático da sindicância de males que devassa o país. A possessa não queria ir ao INEM. Dizia que aquilo ficaria no seu cadastro. Até podia ser conversa de bêbada (o que me parece um pouco rebuscado) mas se o álcool é vedado aos profissionais da medicina como é que se explica o estado de embriaguez afecto à maioria das suas práticas? E se as enfermeiras não podem tocar no álcool quem é que nos esfrega as feridas ou o rabinho antes de administrar a penicilina? E o éter? Foda-se, - o Éter!...
Ocorriam-me estes pensamentos de alto coturno quando, abraçado à dor de ter carregado um enfermo, mastigava silenciosamente um pão com chouriço naquela cabana que mediava a “Ponte do Tralho” e as casas de banho (ou de butano?). Acho que a urina tem aquele cheiro que arranha na garganta precisamente para evitar que, quem passe junto dos toys, se espicace a acender um cigarro… Estão a ver o mesmo que eu? Espero que sim. – Um girândola de gente cagadoira feita fogo-de-artifício em apoteose estelar. E eu a fumar um cigarrito todo contente… no epicentro daquele espectáculo de misérias sem pára-quedas. A malta a aterrar nas roulottes, no corrimão da ponte e o pessoal, ao passar, vendo as bilhas borraditas caindo do céu, desapertando instintivamente os cintos com uma bebedeira sem expressão facial…
Depois fomos para o Punkalhoto beber cerveja e falar de cinema. Longa-metragem de cervejas e muitos rolos de fita para achar a consciência na tenda. E não, ninguém levou este urso de ouro para casa…
Continua...
Tenho recebido várias cartas de gente anónima, e outra cadastrada, a dizer-me coisas desagradáveis relativamente à minha falta de disponibilidade para tornar públicas as minhas memórias de Paredes de Coura. O que as pessoas pensam não acrescenta nenhum upgrade ao incómodo que os chatos, por si só, já me provocam.
No entanto, muito mais estimulado pelas demonstrações de carinho provindas de um grupo de fãs suecas (que tanto me têm aquecido nestas madrugadas frias), resolvi-me e disse para comigo: “Olha lá, ó Mal, tu não és preto nem presidente da América mas esta gente precisa de ser iluminada por ti…” Fiz um silêncio e depois respondi-me: “és capaz de ter razão. Não és burro, não senhor!” e mantive-me neste estranho diálogo até que alguém, agarrando o meu braço, gritou: “Ó senhor, espere aí! – olhe que o semáforo dos peões ainda tá vermelho!”…
Adiante,
Convoquei os meus doces nórdicos para uma tertúlia balear ao redor da fogueira em cuja ordem de trabalhos constava o descerramento do II capítulo das ditas memórias. Depois de um acrobático número de sexo, que aprendi quando vaguei em digressão com o Cirque du Soleil, dispu-las confortavelmente, abri uma botelha de scotch com o meu sabre, dei uma bombada valente e comecei:
- Chegamos um dia antes do festival, propriamente dito. Ultimava-se a montagem das tendas onde se iria improvisar o nosso harém. Nesse momento, começamos a ouvir os primeiros “Foda-ses” que se iriam prolongar até ao fim do festival. Era “Foda-se” para aqui, “Foda-se” para ali… Por cada sonoro “Foda-se” que se ouvia, logo um outro se lhe seguia, ecoando sem limites numa apoteose acéfala. Tamanho espanto, ainda que despropositado, parecia dever-se a um conjunto de fait divers (ou métiers?) com chancela da nossa confraria. Consta que, em ano transacto, a água dos chuveiros era fria e, um senhor que bem sabeis, se arrepiou com a sua frescura, vociferando um sonoro “Fôô ah ah- daa-sssse!!!”. E pronto! Aquela merda fez eco no tempo. Bonito serviço, Mike!
Bom. A sangria estava meio para o roskoff e depois de a acabar fomos passear para a vila à procura de comida, como cães de farejo. Só havia frango a sair. Mal eu sabia que esse era o único pito mastigado que me haveria de calhar em Paredes de Coura… mas terá havido coelho?...
Depois fomos ao talho encomendar corações de frango (não havia de puta)… paramos para sorver as primeiras diuréticas num café que não me lembro o nome. Creio que o dono desse café também não sabe o meu nome, e ainda bem, pois vandalizei a porcelana da toilette sem respeito algum pelos cus que lá assentaram praça nos dias seguintes…
À noite, cozinhamos para um regimento de herbanários. Viramos fêveras com a convicção de resgatar soldados moribundos das trincheiras da morte, numa guerra desigual. O vinho sumiu-se, as tropas ganharam novo alento e um propósito imorredoiro fê-los saltar da trincheira. Mas ao primeiro arranque, carnificina. O Homem da Ripa dizimou quase todos. Muitas baixas e éne louça para lavar… Um conselho: - nunca se deve fumar a camuflagem em tempo de guerra!
Pela madrugada, calhou-nos o carrego de uma adolescente com aspirações a enfermagem. Malta da Cruz Vermelha, portanto. Aterrou na erva com convulsões. As amigas da pobre onça estavam demasiado etilizadas para aquele exorcismo, que lhe revolvia as entranhas e lhe embravecia a voz…
Com ela sentada na grama, encostei a sua nuca aos meus testículos e agarrando as suas orelhas frias, abanei-lhe a cabeça com vigor, tentando expulsar o espírito maligno que a pôs naquele estado e que, teimosamente, se recusava a pôr-lhe as mamas à mostra. Meti-lhe a mão nas calças e, sentindo a formosura seca do seu fresco tufo, percebi que se tratava de um espírito benigno e, como tal, imotivável para misérias festivaleiras. Ainda arrisquei extrair-lhe por ali o demónio, e pelas traseiras, apanhando-o desprevenido. Em vão. O maroto era preguiçoso e teimava por um exorcismo profissionalizado, vulgo medicamente assistido.
O estado da saúde nas Universidades é sintomático da sindicância de males que devassa o país. A possessa não queria ir ao INEM. Dizia que aquilo ficaria no seu cadastro. Até podia ser conversa de bêbada (o que me parece um pouco rebuscado) mas se o álcool é vedado aos profissionais da medicina como é que se explica o estado de embriaguez afecto à maioria das suas práticas? E se as enfermeiras não podem tocar no álcool quem é que nos esfrega as feridas ou o rabinho antes de administrar a penicilina? E o éter? Foda-se, - o Éter!...
Ocorriam-me estes pensamentos de alto coturno quando, abraçado à dor de ter carregado um enfermo, mastigava silenciosamente um pão com chouriço naquela cabana que mediava a “Ponte do Tralho” e as casas de banho (ou de butano?). Acho que a urina tem aquele cheiro que arranha na garganta precisamente para evitar que, quem passe junto dos toys, se espicace a acender um cigarro… Estão a ver o mesmo que eu? Espero que sim. – Um girândola de gente cagadoira feita fogo-de-artifício em apoteose estelar. E eu a fumar um cigarrito todo contente… no epicentro daquele espectáculo de misérias sem pára-quedas. A malta a aterrar nas roulottes, no corrimão da ponte e o pessoal, ao passar, vendo as bilhas borraditas caindo do céu, desapertando instintivamente os cintos com uma bebedeira sem expressão facial…
Depois fomos para o Punkalhoto beber cerveja e falar de cinema. Longa-metragem de cervejas e muitos rolos de fita para achar a consciência na tenda. E não, ninguém levou este urso de ouro para casa…
Continua...
23 de mar. de 2009
Operação Stop
Quando me disseram “a polícia está a fazer Operação Stop” resolvi pedir mais um shot e uma cerveja. Pelos vistos, a coisa ia durar até às sete da manhã e a minha segunda casa não tem camas para mim. Quando cheguei ao carro, consegui avistar a malta dos coletes amarelos. Estavam num cruzamento, encruzilhada de incómodos para quem vai lambido ou possuído pelo diabo. Ainda me passou pela cabeça dar um salto até à discoteca para fazer horas, mas a música é sempre tão fraca… fui buscar sandes e batatas fritas e fiquei no carro a ouvir Chico Buarque. Depois da ceia, mijei num canteiro, pus o relógio para despertar e deitei-me no banco de trás, onde dormi sem conforto nem cobertor. O purgatório do mundo, lá fora, esperava por mim com o seu rosário de punições. Gente sóbria e austera a saltar no tempo para me deter a possibilidade de matar alguém. Os criminosos devem pensar assim. Apesar de não ter matado ninguém, devo ser um, também, por encerrar um potencial de maldade sem cumprimento.
Fico no meu carro com as portas trancadas. A polícia, ainda que perto, pouco mais do que um encolher de ombros teria para mim se me roubassem. Durmo desligado do mundo na minha máquina assassina onde, esporadicamente, faço amor sem autoridade, atentando ao pudor.
.
Fico no meu carro com as portas trancadas. A polícia, ainda que perto, pouco mais do que um encolher de ombros teria para mim se me roubassem. Durmo desligado do mundo na minha máquina assassina onde, esporadicamente, faço amor sem autoridade, atentando ao pudor.
.
18 de mar. de 2009
Para os que confundiram Epitáfio com...
TESTAMENTO:
Desejo doar o meu corpo a quem dele tirar melhor partido que eu. Tudo menos tráfico de órgãos. Quando muito (e preferencialmente), reencaminhe-se a genitália para um tarado que deseje cumprir-se em todas as línguas e nacionalidades. De resto, desejo ser trinchado às postas na seguinte disposição:
- As mãos ou dedos a um escultor ou guitarrista amputado
- As costelas, temperadas apenas com uma mão-cheia de sal, assadas em churrasco de madeira e atiradas da varanda aos meus cães ou a quem, achando-se capaz de competir com a sua gulodice, queira apanhá-las com os dentes.
- Os rins a uma velha boa, militante do sexo anal que, tendo os seus esmurrados de pancada, se veja privada de cumprir os divinos ensinamentos de Sade.
- A tíbia da minha perna direita oferecida ao Woodrock no Wine Festival, para se ter na prateleira, atrás das bebidas, autografada por Lambidos pelo Diabo. Se por acaso se fecharem as suas portas, enterre-se no Jardim Mágico numa alvorada sem testemunhas.
- O fígado para quem der e vier
- Os olhos para um ou dois cegos (não vá um ficar a rir-se do outro)
- Os dentes para apreciadores de nozes e avelãs
- A expressão encerada das minhas faces mortas em frascos a uma vara de padres
- Os ouvidos aos surdos e as orelhas (de preferência, com pêlos) disfarçadas num pires de orelheira servido num restaurante com estrelas Michelin.
- Tripas e restos de carne magra para salpicões canibais.
- O esqueleto a um conluio de necrófilas
Continua…
.
Desejo doar o meu corpo a quem dele tirar melhor partido que eu. Tudo menos tráfico de órgãos. Quando muito (e preferencialmente), reencaminhe-se a genitália para um tarado que deseje cumprir-se em todas as línguas e nacionalidades. De resto, desejo ser trinchado às postas na seguinte disposição:
- As mãos ou dedos a um escultor ou guitarrista amputado
- As costelas, temperadas apenas com uma mão-cheia de sal, assadas em churrasco de madeira e atiradas da varanda aos meus cães ou a quem, achando-se capaz de competir com a sua gulodice, queira apanhá-las com os dentes.
- Os rins a uma velha boa, militante do sexo anal que, tendo os seus esmurrados de pancada, se veja privada de cumprir os divinos ensinamentos de Sade.
- A tíbia da minha perna direita oferecida ao Woodrock no Wine Festival, para se ter na prateleira, atrás das bebidas, autografada por Lambidos pelo Diabo. Se por acaso se fecharem as suas portas, enterre-se no Jardim Mágico numa alvorada sem testemunhas.
- O fígado para quem der e vier
- Os olhos para um ou dois cegos (não vá um ficar a rir-se do outro)
- Os dentes para apreciadores de nozes e avelãs
- A expressão encerada das minhas faces mortas em frascos a uma vara de padres
- Os ouvidos aos surdos e as orelhas (de preferência, com pêlos) disfarçadas num pires de orelheira servido num restaurante com estrelas Michelin.
- Tripas e restos de carne magra para salpicões canibais.
- O esqueleto a um conluio de necrófilas
Continua…
.
14 de mar. de 2009
Retrato de uma Falência
Pisamos uma linha de tempo que, vista da lua, não vale a métrica de um cabelo. Valemos quase nada e a roda, que ainda dura, foi incapaz de guardar para a história o nome do seu inventor numa campa de flores. E, mesmo assim, para quê? De nada serve a eterna glória se estiverem certos os ateus.Todos os dias, abrem falência fábricas de sonhos sem compaixão para os pensamentos realmente grandiosos. Não há freio que segure o tempo, e a morte, que é certa como eu estar escrevendo agora sobre verdades perenes, virá para todos como um exemplo de eu estar certo também, mas por estar vivo e não ter falsas esperanças na sua absolvição. Verdades universais e certezas absolutas guardam-nas os deuses no seu relicário de cemitérios. Os deuses que jogam à bola nas imediações das fábricas abandonadas…
.
12 de mar. de 2009
9 de mar. de 2009
Pensamento do dia
A solução para o conflito Israelo-Palestiniano pode estar num homem-bomba que, ao estourar, atire uma moeda ao ar...
.
.
4 de mar. de 2009
Inauguração
.
Não há paciência para um Deus que quer,
Para os homens que sonham
Nem para as obras que nascem…
Coitado do Fernando,
Gozar-se assim com os versos que lhe eram tão queridos!
Valia mais ter fodido a Ofélia comme il faut!
Quem sabe, ela teria gostado mais do seu Álvaro nos Campos.
Por cada troço de estrada inaugurado
Nasce um homem novo obrado por Deus
E o sonho cumpre-se numa mão cheia de votos.
Soubesse Pessoa, de antemão, que a sua poesia serviria o discurso político de circunstância e as fotografias que lhe conhecemos seriam bem diferentes. Menos chique, os bigodes atulhados de fluido vaginal e o olhar estrábico de quem não se ficou pelas bagaceiras no Martinho da Arcada. Hoje sem mesa reservada, lembrado como um pulha que partia mesas com cadeiras. A sua amada, Ofélia, uma pin-up desempregada, consciente da escrita que lhe escorria pelas pernas, amando o seu Pessoa, guardada para a história como um tesão sorridente de saias curtas.
.
Não há paciência para um Deus que quer,
Para os homens que sonham
Nem para as obras que nascem…
Coitado do Fernando,
Gozar-se assim com os versos que lhe eram tão queridos!
Valia mais ter fodido a Ofélia comme il faut!
Quem sabe, ela teria gostado mais do seu Álvaro nos Campos.
Por cada troço de estrada inaugurado
Nasce um homem novo obrado por Deus
E o sonho cumpre-se numa mão cheia de votos.
Soubesse Pessoa, de antemão, que a sua poesia serviria o discurso político de circunstância e as fotografias que lhe conhecemos seriam bem diferentes. Menos chique, os bigodes atulhados de fluido vaginal e o olhar estrábico de quem não se ficou pelas bagaceiras no Martinho da Arcada. Hoje sem mesa reservada, lembrado como um pulha que partia mesas com cadeiras. A sua amada, Ofélia, uma pin-up desempregada, consciente da escrita que lhe escorria pelas pernas, amando o seu Pessoa, guardada para a história como um tesão sorridente de saias curtas.
.
2 de mar. de 2009
.
A realidade acerta-se pela técnica dos relógios que evoluem e o tempo, que não teve freio, aburguesou-se a uma New Way. Dínamo de esquecer. Sem recobro nem esperança, a fotocopiadora é um museu que faliu. Não existem verdades universais. A arte pratica-se na potência de existir, sonho de uma ideologia sem memória. Nada é duradouro. Acreditar demasiado é vender a alma a uma existência sem vencimento. Tudo passa e o sol, que assiste à nossa mediocridade, continua entrando pelas frinchas de entulho universal que foram os nossos sonhos. Somos um bando de intelectuais idosos lançando sementes à terra, sem prognóstico de colheita ou seguro de terrorismo ambiental. Falimos todos os dias e o mundo reinventa-se em renovadas promessas. Fé dourada, luz que envelhece. A roupa guardada pelos nossos avós foi para um aterro sanitário, mortalha de um sem-abrigo abraçado aos próprios ossos, sobrevivente da fome e parente próximo do caixote que um camião do lixo levou. A minha mãe guardou toalhas com fio de ouro para que eu secasse os seus netos quando nascessem e eu vendi-lhe as esperanças à pornografia. Se o mundo parasse, eu acreditaria nele. Mas o carrossel da vida continua a sua marcha sem alma para travar sobre a carne que trilha os mais velhos. Não faço parágrafos. O único sentido para a vida é a morte. Não creio em verdade maior. Os cemitérios e os hospitais, as pedreiras mortas e as fábricas abandonadas são, para mim, monumentos de uma realidade que corre para a inexistência, questionada por ideais de felicidade. Acredito na minha verdade como na poesia dos faraós enterrada pelos desertos e não tenho mais perguntas para esvaziar o bolso roto de respostas onde meto as mãos, assobiando, cioso de coçar as minhas próprias misérias…
.
A realidade acerta-se pela técnica dos relógios que evoluem e o tempo, que não teve freio, aburguesou-se a uma New Way. Dínamo de esquecer. Sem recobro nem esperança, a fotocopiadora é um museu que faliu. Não existem verdades universais. A arte pratica-se na potência de existir, sonho de uma ideologia sem memória. Nada é duradouro. Acreditar demasiado é vender a alma a uma existência sem vencimento. Tudo passa e o sol, que assiste à nossa mediocridade, continua entrando pelas frinchas de entulho universal que foram os nossos sonhos. Somos um bando de intelectuais idosos lançando sementes à terra, sem prognóstico de colheita ou seguro de terrorismo ambiental. Falimos todos os dias e o mundo reinventa-se em renovadas promessas. Fé dourada, luz que envelhece. A roupa guardada pelos nossos avós foi para um aterro sanitário, mortalha de um sem-abrigo abraçado aos próprios ossos, sobrevivente da fome e parente próximo do caixote que um camião do lixo levou. A minha mãe guardou toalhas com fio de ouro para que eu secasse os seus netos quando nascessem e eu vendi-lhe as esperanças à pornografia. Se o mundo parasse, eu acreditaria nele. Mas o carrossel da vida continua a sua marcha sem alma para travar sobre a carne que trilha os mais velhos. Não faço parágrafos. O único sentido para a vida é a morte. Não creio em verdade maior. Os cemitérios e os hospitais, as pedreiras mortas e as fábricas abandonadas são, para mim, monumentos de uma realidade que corre para a inexistência, questionada por ideais de felicidade. Acredito na minha verdade como na poesia dos faraós enterrada pelos desertos e não tenho mais perguntas para esvaziar o bolso roto de respostas onde meto as mãos, assobiando, cioso de coçar as minhas próprias misérias…
.
27 de fev. de 2009
Há dias, estava a escrever no blog e… esperem lá, a palavra blog dá erro. Claro, já me esquecia, blog agora escreve-se blogue. Que parvoíce a minha… estar a beber e não me ter lembrado que os linguistas andam agora a trocar as palavras todas. A esta hora, todos temos isso em comum. De facto, é de uma nobreza inexcedível a intenção de nos pôr todos a falar a mesma língua! Como se a grande Babel fosse uma obra continuada por engenheiros residentes, permitindo na sua velhice um bairro social a jovens estrangeiros, uma verdade inconsistente habitada, tida como um capricho de juventude desenraizada de existir com argumentos vincados e, ao mesmo tempo, semente.
E eu que levei lambadas por dar erros. Não me quero debater nas desenvolturas da educação, até porque as visões que se merecem à memória me surgem floreadas, romantismo de levar lambadas com pressa nas pernas para correr atrás da bola. Nesse tempo não havia o Magalhães. Aliás, o único Magalhães ao nosso alcance era o contínuo que se substituía ao professor nas lambadas. Para além dos meus pais, esses eram os únicos correctores informáticos de que me lembro.
Sem computadores, ou liberdade para estudar os dínamos do mundo com a minha espada de libertar, arrancada a um pinheiro, ou caída para fazer sonhar crianças, aquele quarto de costura, com um saco pendurado atrás da porta, onde a minha avó costurava e me contava anedotas brejeiras intercaladas por explicações sobre a importância de ser alguém na vida, era o meu canto dos deveres. Apesar de nunca ter perguntado para que era o saco ou de não ter recebido uma explicação satisfatória ao alcance da minha memória, aquele saco permanece em mim como as borrachas que apagavam os meus erros e me adiavam a brincadeira.
Salto no tempo. Penso em Camões e Gil Vicente. Ainda hoje sou quase incapaz de os tomar como antecedentes próximos. Vejo-os sempre como irrealidades históricas que existiram, fobias passíveis de tratamento, mas recolhidas ao sótão dos cobertores, onde os ratos discorrem em animada tertúlia a sobrevivência dos medos, entre sandes de queijo e uma cartada de charutos.
Tempos de escola com memória de sótão. Olho com algum desprezo a poesia ensinada com fórmulas matemáticas. Versos decassilábicos, campos cor de limão e um poeta que sofria de ausência, mulher amada, - queria fornicá-la mas, sobre isso, nada. Até Pessoa me desiludiu quando não quis escrever nada que fosse erótico. Mas escreveu, o fingidor, encapotou-se e ejaculou como os outros safados do seu tempo... E os professores que o sabiam, mesmo não sabendo, ocultaram-nos o devasso. Eu ponho-te lá fora! – disse-me a professora quando eu propus que o Álvaro de Campos poderia estar mocado quando escreveu o Ópiario. Nem este corrector informático admite a leviandade do poeta. A professora de filosofia saltou o Carpe Diem nas duas ou três páginas que sublimavam o Clube dos Portas Mortos como verdade maior de pensar livremente e arriscar um pensamento diferente, bacoco mas diferente…
Desculpem-me se não concordo com esta cartilha, mas eu, que sou campónio, fugia de casa à noite e refugiei-me na beira dos penedos, em casas abandonadas ou em construção, no refúgio de uma garrafa de lixívia que rodou para o monte e nós dissemos: - é para ali que vamos, e inventamos canções sem saber cantar.
Na potência de existir tinhamos outros nomes e um maior que nos abarcava. Escrevíamos poemas sobre dor e mar/ vou morrer de amor/ só me apetece chorar. E o sentimento que era sublime, ainda que sem argumentos, ganhou asas e cantou o universo pela rede de um galinheiro. Para não me acusarem de plágio, devo dizer que o F.P. Gigante disse uma coisa parecida num dos seus escritos (para o caso de pesquisarem por mim). Depois dele, as coisas complicaram-se para os poetas dispostos na dimensão em que ele sonhou, como se nos roubasse a um tempo que é nosso. Devemos também nós sonhar o amanhã, apesar dele nos acordar?
.
E eu que levei lambadas por dar erros. Não me quero debater nas desenvolturas da educação, até porque as visões que se merecem à memória me surgem floreadas, romantismo de levar lambadas com pressa nas pernas para correr atrás da bola. Nesse tempo não havia o Magalhães. Aliás, o único Magalhães ao nosso alcance era o contínuo que se substituía ao professor nas lambadas. Para além dos meus pais, esses eram os únicos correctores informáticos de que me lembro.
Sem computadores, ou liberdade para estudar os dínamos do mundo com a minha espada de libertar, arrancada a um pinheiro, ou caída para fazer sonhar crianças, aquele quarto de costura, com um saco pendurado atrás da porta, onde a minha avó costurava e me contava anedotas brejeiras intercaladas por explicações sobre a importância de ser alguém na vida, era o meu canto dos deveres. Apesar de nunca ter perguntado para que era o saco ou de não ter recebido uma explicação satisfatória ao alcance da minha memória, aquele saco permanece em mim como as borrachas que apagavam os meus erros e me adiavam a brincadeira.
Salto no tempo. Penso em Camões e Gil Vicente. Ainda hoje sou quase incapaz de os tomar como antecedentes próximos. Vejo-os sempre como irrealidades históricas que existiram, fobias passíveis de tratamento, mas recolhidas ao sótão dos cobertores, onde os ratos discorrem em animada tertúlia a sobrevivência dos medos, entre sandes de queijo e uma cartada de charutos.
Tempos de escola com memória de sótão. Olho com algum desprezo a poesia ensinada com fórmulas matemáticas. Versos decassilábicos, campos cor de limão e um poeta que sofria de ausência, mulher amada, - queria fornicá-la mas, sobre isso, nada. Até Pessoa me desiludiu quando não quis escrever nada que fosse erótico. Mas escreveu, o fingidor, encapotou-se e ejaculou como os outros safados do seu tempo... E os professores que o sabiam, mesmo não sabendo, ocultaram-nos o devasso. Eu ponho-te lá fora! – disse-me a professora quando eu propus que o Álvaro de Campos poderia estar mocado quando escreveu o Ópiario. Nem este corrector informático admite a leviandade do poeta. A professora de filosofia saltou o Carpe Diem nas duas ou três páginas que sublimavam o Clube dos Portas Mortos como verdade maior de pensar livremente e arriscar um pensamento diferente, bacoco mas diferente…
Desculpem-me se não concordo com esta cartilha, mas eu, que sou campónio, fugia de casa à noite e refugiei-me na beira dos penedos, em casas abandonadas ou em construção, no refúgio de uma garrafa de lixívia que rodou para o monte e nós dissemos: - é para ali que vamos, e inventamos canções sem saber cantar.
Na potência de existir tinhamos outros nomes e um maior que nos abarcava. Escrevíamos poemas sobre dor e mar/ vou morrer de amor/ só me apetece chorar. E o sentimento que era sublime, ainda que sem argumentos, ganhou asas e cantou o universo pela rede de um galinheiro. Para não me acusarem de plágio, devo dizer que o F.P. Gigante disse uma coisa parecida num dos seus escritos (para o caso de pesquisarem por mim). Depois dele, as coisas complicaram-se para os poetas dispostos na dimensão em que ele sonhou, como se nos roubasse a um tempo que é nosso. Devemos também nós sonhar o amanhã, apesar dele nos acordar?
.
25 de fev. de 2009
Epitáfio
Sei que posso morrer relativamente jovem
Perspectiva dos relógios mais duradouros.
Esbanjei tempo e, apesar disso, nem sempre me tolhi
De dizer às pessoas o quanto gostava delas
Nos momentos em que romanceei com elas,
Apesar de dormirem.
Faltou-me dizê-lo à família
Não sei bem se quero entender os porquês.
Terei feito voto de me livrar de culpas?
Amo sem compromisso
Como um viajante que não se detém em revisitações,
Um passo ao lado do passeio das emoções.
Escrevo este epitáfio
Como se gozasse as melhoras da morte.
Como se estivesse para morrer
E amanhã não me sobrasse tempo para dizer o que fosse
E todos velassem ou carpissem o que fui
E não o que me ficou por dizer.
Vejo-me como numa cama de hospital
Debatido no limbo da doença que me consome
E ventilado pelo desejo de arrancar mais viagens ao corpo moribundo.
Não me ponham a meia-luz com uma campainha,
Não me visitem senão com promessas de boémia
E a gargalhada de quem chegou para se divertir,
Um abraço aberto de garrafa na mão ao vir da porta.
Tranquem o quarto,
Saltemos todos para cima desta cama ventilada por mangueiras de soro;
Deixemos os profissionais de saúde batendo à porta,
Clementes de uma ordem vencida à chave pela alegria
A música alta pontuando um motim na enfermaria.
Fornicar putas sublimes, ainda que cheias de doença,
Não mo dêem a saber,
Amá-las como o refúgio de mim sem noção de refugo
Lancemos em chamas o colchão pela janela.
Se, finda a festa,
Me detiver exausto num cadeirão,
Que os últimos movíveis me dêem a extrema unção:
Uma anestesia de massagens com morfina
E um beijo no coração.
.
Perspectiva dos relógios mais duradouros.
Esbanjei tempo e, apesar disso, nem sempre me tolhi
De dizer às pessoas o quanto gostava delas
Nos momentos em que romanceei com elas,
Apesar de dormirem.
Faltou-me dizê-lo à família
Não sei bem se quero entender os porquês.
Terei feito voto de me livrar de culpas?
Amo sem compromisso
Como um viajante que não se detém em revisitações,
Um passo ao lado do passeio das emoções.
Escrevo este epitáfio
Como se gozasse as melhoras da morte.
Como se estivesse para morrer
E amanhã não me sobrasse tempo para dizer o que fosse
E todos velassem ou carpissem o que fui
E não o que me ficou por dizer.
Vejo-me como numa cama de hospital
Debatido no limbo da doença que me consome
E ventilado pelo desejo de arrancar mais viagens ao corpo moribundo.
Não me ponham a meia-luz com uma campainha,
Não me visitem senão com promessas de boémia
E a gargalhada de quem chegou para se divertir,
Um abraço aberto de garrafa na mão ao vir da porta.
Tranquem o quarto,
Saltemos todos para cima desta cama ventilada por mangueiras de soro;
Deixemos os profissionais de saúde batendo à porta,
Clementes de uma ordem vencida à chave pela alegria
A música alta pontuando um motim na enfermaria.
Fornicar putas sublimes, ainda que cheias de doença,
Não mo dêem a saber,
Amá-las como o refúgio de mim sem noção de refugo
Lancemos em chamas o colchão pela janela.
Se, finda a festa,
Me detiver exausto num cadeirão,
Que os últimos movíveis me dêem a extrema unção:
Uma anestesia de massagens com morfina
E um beijo no coração.
.
17 de fev. de 2009
Até os bichinhos gostam...
Estava a ver o Prós e Contras na RTP, subordinado ao tema do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Obviamente, a minha atenção centrou-se naquilo que é acessório ao debate, ou seja, o que realmente importa.
Uma vez acesa a discussão… intervalo. E o pessoal começou a levantar-se. Sim, a publicidade é fundamental. Que se fodam os direitos das pessoas se a máquina não vender as suas escovas de dentes e tampões para o fluxo...
No preciso momento em que escrevo estas linhas, estará no WC da Casa do Artista um curioso agremiado de posições divergentes, ditosas de alívio. Imagino com gozo, a expressão de um cónego que aperta o cinto de castidade, desviando a pila para o lado no mictório, o mijo descompassado, o esfíncter retraído… nem uma ervilha se atreveria a balir-lhe as campainhas, quanto mais tocar-lhe o badalo…
Nestes preparos, com que me divirto, confesso encontrar-me em harmónica cantoria anal. Não, ninguém me sopra por onde o Sr. Castanho abre caminho. A ele sou fiel como as margens de um rio que corre para jusante. Peido-me, portanto. E quero eu lá saber se os gays casam ou não. Cago para a questão. E cago porque o cerne da questão não reside na possibilidade de consagrar o amor homossexual num ritual público com direitos sociais idênticos à classe heterossexual. O que está em causa é reajustar uma ideia conservadora de amor à imagem de um caralho imputado nas cavidades de alguém do mesmo sexo. Anda tudo assustado com a sua própria sexualidade (à excepção das pitas que se andam para aí a lamber umas às outras) e é esse medo de abrir as portas à diferença, como se daí viesse uma avalanche de piças, que circuncida a liberdade dos outros...
Por mim, coço os tomates com uma verdade mal lavada e rio-me. Apetece-me entrar num bar com quarentonas, barba por fazer… peço um whisky capaz de ser bebido à pressa, em copo quadrado, e acendo um cigarro contra as regras. Dou duas passas e antes de ser repreendido pelo desaforo, convoco-me numa velha boa, bebo de estalo e saio com ela sem esperar pelo troco de uma nota deixada ao balcão. O barman olha-me como se um louco lhe tivesse metido o dedo no cu, mas eu nem reparo…
.
Uma vez acesa a discussão… intervalo. E o pessoal começou a levantar-se. Sim, a publicidade é fundamental. Que se fodam os direitos das pessoas se a máquina não vender as suas escovas de dentes e tampões para o fluxo...
No preciso momento em que escrevo estas linhas, estará no WC da Casa do Artista um curioso agremiado de posições divergentes, ditosas de alívio. Imagino com gozo, a expressão de um cónego que aperta o cinto de castidade, desviando a pila para o lado no mictório, o mijo descompassado, o esfíncter retraído… nem uma ervilha se atreveria a balir-lhe as campainhas, quanto mais tocar-lhe o badalo…
Nestes preparos, com que me divirto, confesso encontrar-me em harmónica cantoria anal. Não, ninguém me sopra por onde o Sr. Castanho abre caminho. A ele sou fiel como as margens de um rio que corre para jusante. Peido-me, portanto. E quero eu lá saber se os gays casam ou não. Cago para a questão. E cago porque o cerne da questão não reside na possibilidade de consagrar o amor homossexual num ritual público com direitos sociais idênticos à classe heterossexual. O que está em causa é reajustar uma ideia conservadora de amor à imagem de um caralho imputado nas cavidades de alguém do mesmo sexo. Anda tudo assustado com a sua própria sexualidade (à excepção das pitas que se andam para aí a lamber umas às outras) e é esse medo de abrir as portas à diferença, como se daí viesse uma avalanche de piças, que circuncida a liberdade dos outros...
Por mim, coço os tomates com uma verdade mal lavada e rio-me. Apetece-me entrar num bar com quarentonas, barba por fazer… peço um whisky capaz de ser bebido à pressa, em copo quadrado, e acendo um cigarro contra as regras. Dou duas passas e antes de ser repreendido pelo desaforo, convoco-me numa velha boa, bebo de estalo e saio com ela sem esperar pelo troco de uma nota deixada ao balcão. O barman olha-me como se um louco lhe tivesse metido o dedo no cu, mas eu nem reparo…
.
16 de fev. de 2009
Ebrithingue zgonabi óraite!
Espírito positivo! É assim que a classe política pretende dar a volta à crise.
Fazendo a tradução:
- “O piloto morreu.
Alguém sabe pilotar o avião?”
Não, não sabe. Somos comandados por um vazio de gente sem ideias que fez da retórica um modo de vida mas não sabe muito sobre ela. Condutores de homens, - disseram-nos. Apanhados ébrios pelas câmaras de vigilância, na contra-mão dos cortejos que mirram.
.
Fazendo a tradução:
- “O piloto morreu.
Alguém sabe pilotar o avião?”
Não, não sabe. Somos comandados por um vazio de gente sem ideias que fez da retórica um modo de vida mas não sabe muito sobre ela. Condutores de homens, - disseram-nos. Apanhados ébrios pelas câmaras de vigilância, na contra-mão dos cortejos que mirram.
.
Assinar:
Postagens (Atom)

