12 de jun. de 2009
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3 de jun. de 2009
Todos somos esculturas!
Não sei se deva considerá-los rituais, mas tenho hábitos geometricamente definidos. Não serão tão românticos como os de um Pessoa ou de um Eça que, entretanto valoraram graças à dimensão da sua escrita, não reconhecida a tempo de se lhes proporcionar uma existência mais ligeira e cómoda. O copo e o cinzeiro dispostos ao lado do portátil, a caixa de cigarrilhas com o isqueiro em cima, uma cadeira de palha feita pelos ciganos com upgrades de almofadas e o frigorífico atrás das costas, não vá esta merda debandar em terramoto e eu ficar sob os escombros longe das garrafas que não partiram.
E os génios, os grandes inventores da literatura universal? Que hábitos terão quando se abeiram do computador para escrever e não lhes ocorre nada? Será que bebem como eu ou fumam como eu fumo? Será que se levantam da cadeira em tronco nu para ir mijar? Gritarão silenciosamente a sua verdade ao mundo de modo a não acordar a mulher e os filhos que dormem?
Atentai: - Todos somos esculturas!
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2 de jun. de 2009
Conspiração com Bisnetos
Tenho, não raras vezes, acabado as noites de boémia a discutir matérias do foro da Ciência Política. Convém que assim o nomeie para que não se confunda o retrato com aqueloutro da politiquice. E tenho, quase sempre, dito o seguinte:
-“Estou a ficar cada vez mais anárquico!” mas, como o tempo e o palco nem sempre são os mais adequados à dissecação de temáticas tão profundas, e visto andar prometendo uma dissertação adequada sobre elas, decidi-me a não mais adiar este post.
Antes de mais, convém referir que não estou enrabichado com nenhum partido político. E a explicação é simples: - os partidos políticos tomam partidos! Como tal, enquanto os estivermos acreditando, vamos andar neste limbo de interesses que, ora pingam para a direita, ora pingam para a esquerda, dependendo de quem se ocupa da coutada dos poderes públicos.
A vida não está fácil para quem se recusa às cunhas, garanto-vos. Sou um sonhador, portanto. Cheio de sonhos como um qualquer adolescente, cujas lambadas da vida o vão tornando mais adulto e mais filho-da-puta.
Deste meu cantinho humilde e honesto estou, tão só e apenas, ideologicamente comprometido com a Verdade e com a Liberdade. Ora, o modelo anarquista defende afincadamente esses valores. Valores esses que rareiam, não só na sociedade portuguesa, mas também na generalidade das sociedades ocidentais. Dir-me-ão que não. Que há liberdade a mais e que os valores estão a perder-se, dando lugar a uma tremenda falta de respeito. Posso até concordar com a segunda parte da afirmação, mas a falta de respeito não resulta do excesso de liberdade mas sim da falta de educação. A Liberdade é um conceito demasiado vasto para se esgotar na conivência de um pai perante a parvoíce do filho que decidiu atirar garrafas de cerveja aos carros ou partir uma montra.
A convivência em sociedade sempre teve de lidar com ameaças à ordem estabelecida e obrigou-se a encontrar soluções para se refundar estruturalmente, de forma a tornar a convivência social mais serena, mas nem sempre mais justa e livre.
Nós somos apenas seres vivos. Somos, geneticamente, animais como todos os outros. Mas dispomos de características avançadas que nos permitem estar no topo da cadeia. Somos capazes de optar por não reagir animalmente, de não sermos violentos, de nos impormos um conjunto de regras capazes de tornar possível a nossa convivência. Somos capazes disso mas não o fazemos ou fazemo-lo erradamente. E, como tal, não só desmerecemos a nossa racionalidade, como deveríamos considerar-nos o mais reles e medíocre de todos os animais.
Rousseau defendia que a existência perfeita assentava numa relação de proximidade com a natureza. Ou seja, o ser humano, para ser perfeito, deveria viver em comunhão com a natureza. No entanto, e consciente das características inerentes à espécie, concluiu que o Homem se distanciou dela e se avizinhou dos seus pares com o intuito de se proteger. Porque tinha medo de morrer sozinho, de fome ou doença ou de outra coisa qualquer. O Homem uniu-se com medo da realidade envolvente e, ainda que não tenha formalizado teoricamente os seus motivos, a verdade é que o grémio não parou de crescer e, cedo se pôde comprovar, que o maior inimigo do Homem era o próprio Homem, com a sua sanha de poder, ambição e glória.
Não me interessa aqui fazer uma resenha histórica sobre a evolução das sociedades, tampouco desenovelar uma História carniceira que elevou mitos com bandeiras fundados sobre ossos e sangue de outra carne que não importa para a posteridade porque era fraca e, como ainda hoje repetimos acéfalamente, “dos fracos não reza a História”. Interessa-me, isso sim, tal como Rousseau, esmiuçar um conceito que ele avançou – O Contrato Social.
O Contrato Social é, basicamente, um conjunto de normas, direitos e deveres pelos quais se rege toda uma comunidade. Ou seja, um conjunto de leis, o mais unanimemente possíveis e passíveis de serem partilhadas por todos ou, se quiserem, uma ideologia comum. A isso chama-se Democracia. A palavra deriva do etímologo grego Demos (Povo) e do sufixo Cracia (Kpateía) que significa força ou poder. Nas palavras de Abraham Lincoln, “A Democracia é governo do povo, pelo povo e para o povo”. Eu entendo nelas uma intenção de dar voz à pretensão maioritária, ou seja, é a vontade da maioria que prevalece sobre todas as outras querenças.
Se a Democracia é o mais perfeito e acabado dos modelos, não sei. Por enquanto, parece-me o mais justo. Se vivemos em Democracia? Garanto-vos que não!
E sinto-me em condições de vos garantir que não, por duas razões:
- Em primeiro lugar, porque o Contrato Social deveria resumir-se a um resumido conjunto de normas que todos conhecêssemos e partilhássemos, de forma a erradicar qualquer tipo de violência entre a nossa espécie. Ao invés, o nosso Contrato Social é um magote de leis e merdinhas que permite aos ricos e poderosos um regime de impunidade, que em nada se assemelha ao propósito das maiorias.
- Em segundo lugar, e por razões que ainda não destrincei totalmente, mas sobre os quais me deterei em outras ocasiões, não me parece que os caminhos da Democracia e, principalmente, os da felicidade que todos desejamos, se persigam pelo abismo dos calmantes à noite ou em colheradas de antidepressivos para suportar os dias…
…Este post, definitivamente, não acaba aqui!
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30 de mai. de 2009
Movimento
Tenho sido solicitado para fazer coisas em vez de só as referir. Não é que me importe muito com a visão que cada um tem do mundo, ainda que esse espectro tenha alguma validade. No entanto, correm rumores de que a próxima gerência municipal também tem uma visão do mundo…
Há por aí utopias que pretendem acabar com a diversão nocturna no Marco de Canaveses. E por muito vaga que possa parecer a ideia, todos sabemos que basta soltar a cadelice policial para que o famigerado propósito se cumpra.
Pelos vistos, para resolver a crise, não chega picar o boi de sol-a-sol durante toda semana. Não! Mal a malta começa a descomprimir duma semana de trabalho, chega a ASAE e/ou a polícia para acabar com a festa. No tempo do Salazar, apareciam montados a cavalo. Hoje, e porque vivemos em democracia (!), farejam-nos os cães. É caso para dizer:
- “Que se foda o melhor amigo do homem. O bacalhau é que é o fiel amigo!”
Sem eira nem beira, esta gentalha frustrada quer acabar com o divertimento da malta. Roubam-nos a casa e aparece-nos um polícia a perguntar o que aconteceu; saímos para jantar e beber um copo com os amigos e é vê-los em magotes para fechar o bar; pedimos a intervenção da polícia num acidente e eles respondem-nos que o jipe não está disponível, que vai demorar. E, no entanto, não faltam carros e “meio humanos” para cercar uma cidade às sextas e sábados à noite. Identificamos os criminosos e a polícia aconselha-nos a enfiar-lhes um enxerto de porrada…
A isto, caros senhores - chamo eu - deslocação de objectivos.
Pela minha parte, dispenso uma autoridade que serve só para passar multas.
Não se julgue, porém, que a polícia apareceu porque se lembrou de acabar com o barulho. Não. Estas práticas resultam de “aconselhamento camarário”. E, depois, bem podemos gastar todos os euros no telemóvel por altura das festas municipais, que a polícia não vai suspender o fogo-de-artifício ou o ruído do Tony Carreira…
Quanto a vós, não sei. Pela minha parte, não estou disposto a abdicar das minhas noitadas no Woodrock, no Red Box, no Jamaica, no Etc. e etecétera…
Estou disposto a encabeçar um movimento que espante esta passarada de frustrados que tentam acabar com a nossa diversão para nos empurrar para as suas festinhas de anho assado com arroz de forno ou às festas com melão do Castelinho, em que o líder espiritual se confunde com o presidente da Câmara.
Sou uma pessoa de paz mas não suporto atropelos à liberdade. Como diria Agostinho da Silva, “nascemos de graça e passamos o resto da vida a pagá-la”. E porquê? Porque alguém decidiu que nos devia proteger de nós mesmos, acabando por se proteger a si mesmo, mantendo-se no poder ou lutando para o atingir.
Estou em guerra. Não me interessa convencer-vos ou convocar-vos. Interessa-me apenas saber quantos de vós partilhais este propósito.
Estais comigo?
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28 de mai. de 2009
25 de mai. de 2009
Ensaio sobre a Sociedade
Ora eu diria ainda mais, somos cegos sim, mas também somos estúpidos que nem um tamanco esculpido por um sapateiro punheteiro.
Vivemos numa era em que a tecnologia reina, e quem dela sober retirar proveito, poderá ver a sua vida muita facilitada (daí roubos e falcatruas electronicas existirem desde o inicio da mesma), mas isto também veio criar um novo tipo de personalidades. Uma espécie demora muitos anos a evoluír e adaptar-se (ler "On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or The Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life") no entanto Darwin não contava com a personalidade intrínseca do Ser Humano ao escrever este magnifico livro. Esta sim, evolui em pouquíssimo tempo, e quando digo evolui quero dizer "altera", "muda", "adapta-se", todo um rol de termos que explicam que o Ser Humano se APROVEITA do que lhe é dado. E o que foi dado nesta era tecnologica? A hipotese de ser jornalista, crítico, historiador, matemático, escritor, cientista, biólogo, letrista, músico, etc, etc, etc... Um sem fim de profissões e saberes, que num momento real da vida duma pessoa teria de ser comprovado com um diploma ou atestado superior, mas que nesta era se resume a assinar por "Anonimo". Depois disso, já posso dizer o que quiser, quando quiser, contra ou a favor de quem quiser. Não se lhe deve dar atenção, pois claro que não, mas estou farto de ignorar borrifanas deste género. Estou farto de ser acusado, mal-tratado, muitas vezes na minha própria "casa" por pessoas que no mínimo da ignorância, não sabem escrever o próprio nome.
Muito já terá sido dito e escrito sobre este tema, e sei muito bem que as eleições não se ganham por um voto, mas está um tempo maravilhoso para atirar um balde de água fria.
Poderei um ser criticado pelo mesmo? Não estarei eu a fazer o mesmo ao assinar como "Moço do Chapéu"? Não.. Este sou eu mesmo, o Sr. Mal conheço eu muito bem, e confirmo todos os seus ditos. Tónio Cuco é sem dúvida uma personagem única. E todos encontramos aqui uma mesa para as nossas comezainas e deprovações, não permitindo esta nossa pública partilha de estórias e saber, que alguém chegue e derrame o nosso vinho.
Deixemos de ser cegos, e deixemos de nos acanhar com as livres declarações de estupidez que nos são passadas sem fundamento algum, só para não nos "rebaixarmos". Rebaixar-me-ei sempre que necessário para mostrar quem sou, olhando olhos nos olhos, de quem me põe em dúvida.
Mais uma vez, tenho dito.
O Imperfeccionista
Aqui cheira às minhas entranhas e ao meu pus. A minha presença empesta o ar como um quarto de doença, com lenços usados e copos de vidro vazios na mesinha de cabeceira; uma colher de ter comido sobremesa ou diluído barbitúricos.
A luz é frouxa neste prostíbulo mal arejado e vós continuais vindo para assistir ao espectáculo das minhas misérias circences, pagando ad eternum por um bilhete com data vencida. Circo velho que foi ficando e viu morrer, de coração e vício, os palhaços que conduziam as carrinhas. O trapézio ganhou ferrugem e uma chiadeira que se ouve quando venta. Só as aranhas se aventuram agora nele, em coreografias já vistas, mas com um trabalho sincero e sem rede que faz sonhar um casal de trapezistas reformados. A humidade instalou-se nos nossos ossos e em largas poças sobre a tenda de lona que, durante o dia, tentamos salvar empurrando a água por dentro com uma vassoura; os módulos de madeira rangem como as escadas de uma casa abandonada, ameaçando colapsar; a atenção do público divide-se entre a nossa encenação e o espectáculo dos pingos de chuva nas bacias, espalhadas um pouco por toda a parte.
Neste circo de velhos saltimbancos, só o freak show maturou.
Eu, Sr. Mal, serei o vosso anfitrião para esta noite! - Aristocrata maldito caído em desgraça. Nos galões descosidos do meu casaco, há uma nobreza que rasteja transbordante. Flor-de-lis entre ervas daninhas que crescem como pêlos nas orelhas.
Dizem que maltrato as pessoas com o meu feitio; que faço discursos filosóficos cortantes às empregadas que vêm fazer meios-dias e me empestam a morada com um cheiro desumano a lixívia.
Ando branco como o engolidor de espadas que, dias antes de morrer, abismava a plateia tragando o vidro das nossas lâmpadas fundidas.
Não vos prometo cá estar no próximo inverno mas enquanto o arco sob as costelas demandar pão e vinho, deverei andar por aí, entretendo-nos.
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23 de mai. de 2009
Morri-vos
A sagrada escritura, Jó 26:6, antecipou-se a este dia:
O inferno está nu perante ele, e não há coberta para a perdição.
Morri-vos, como uma vaidosa borboleta sucumbi aos pés de um eco-sistema adverso após breves dias, vivi com a corajem de um inconsciente selvagem, morri por profundas facadas no meu ego, morri atingido por coisas em que não acredito, morri por ignorância alheia, pior, morri por intolerância, nada sei, é verdade, mas sei o que me magoa e incomoda, a censura incomoda-me e magoa-me a falta de tolerância de pessoas para quem as artérias são meros tubos que permitem o funcionamento do coração a frio, nas minhas, o sangue corre quente, tenho a capacidade de viver com paixão, sei que sou um biltre e que não interesso a mais ninguém que não os meus amigos, para mim chega, amo essa corja, eles ocupam o meu tempo e pensamentos, não tenho a necessidade de criticar, perseguir, insultar debaixo de um capote de falsa moralidade a sociedade que desconheço, não tenho tempo para isso, estou morto!
Mudei, não para os meus amigos, sei que me amam, mas mudei para os outros, tornei-me no mais novo dos hipócritas, sinto-me desterrado das minhas ideias, mas com a certeza que estaria pronto para acolher no meu âmago a mais estúpida criatura!
Fui lambido pelo Diabo, não há salvação para mim...
Espero-vos impolutos!
Tónio Cuco - o finado
Tónio Cuco era um homem que prezava a fornicação. Dedicou-se com solicitude aos caprichos de uma carne em vinha-d’alhos que lhe não dava descanso. Mas, longe de ser um homem egoísta, Tónio Cuco amou-a, mimou-a e condenou a sua existência para que ela se cumprisse, namoradeira. Ofertou-se como uma chave de ouro sempre pronta a desaferrolhar grilhões alheios e, imbuído a dar uso aos dons com que foi molestado pela natureza, cumpriu-se.
Ele foi a verdadeira antítese da privação e, ainda que lhe possa ter pesado o fardo de arejar regaços várias vezes ao dia, Tónio Cuco não vacilou.
Confessou-me não ser um homem de palavras, mas de actos. Pensar demasiado – dizia – dá-me sede!
À sua maneira, foi nobre e não desperdiçou talentos. Nesta latrina a que chamamos sociedade, Tónio Cuco mijou como um cão nas valetas e amorteceu as suas virtudes no álcool, como um génio literário novecentista, cujo abraço era demasiado grande para abarcar uma realidade de enguias mais pequena do que ele. Tónio Cuco era, na verdadeira acepção da palavra, um fornicador e, como tal, capaz de estar ainda dando horas ao desejo na madeira do caixão.
Levante-se do lazúli caixotão
Ou de lá diga de sua justiça
Aquele cujo tesão
Não se comprometa com esta missa.
Tónio Cuco
A libertinagem canta-te.
Tónio Cuco… ALEVANTA-TE!
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21 de mai. de 2009
O que é o Cabaret des Morts? - I Capítulo
O blog é o ponto de partida de um conceito com propósitos mais elevados. Tornou-se, entretanto, e perdoem-me o egoísmo, uma espécie de sótão para pensamentos e memórias, um recanto de caixotes guardando o enxoval para um casamento que pode não vir.
O desígnio a que me propus é utópico e quase tão difícil de balizar como de concretizar. Mas ilumina-me os sonhos com o seu néon decadente e eu pernoito debaixo dele como um mendigo esfomeado, com um punhado de cêntimos no bolso, nas traseiras de uma padaria que tarda em abrir.
The Last Pit Before a Suicide…
Uma farmácia para enfermos da verdade, um teatro de bastidores sem tempos para a representação, oficina de montar a animalidade onde ela é devida e a cultura onde ela é precisa.
Mas, entretanto, faça-se a boda...
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19 de mai. de 2009
Tempo perdido
Mais nível, senhores! Isto é um Cabaré e não um puteiro onde se vendam sandes.
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18 de mai. de 2009
Melodias Trágico Irónicas 3
Por outro lado, a advogada no seu Ipod, ouvia incessantemente "...And Justice For All" dos Metallica.
14 de mai. de 2009
O Sentido da Vida
ESTOU A MORRER! Não se trata de um mero exercício de retórica. Estou mesmo a morrer! Mais dia, menos dia, mais ano ou menos ano, mais década (eh lá! – viva o optimismo!) ou menos década, vou-me. E vós também. Não adianta negá-lo. O único sentido da vida é a morte. Pelo menos é para lá que ela caminha. Ainda que se troque de rins ou se ponha um par de mamas novas, vamos todos morrer.
Agora que estamos todos elucidados com este reconfortante pensamento, sentemo-nos à mesa. Depois de comer e beber, acendamos o tabaco. Um a um, despejemos sobre a mesa os despojos do assalto que fizemos à vida, como se estivéssemos perante o criador a prestar contas. Vamos supor que Ele existe e ordenou uma pausa para balanço, como se a nossa vida fosse um jogo de futebol com intervalo.
Devo lembrar-vos que a vida não tem intervalo. Ela não pára de perseguir esse instinto de morte. E, por isso, proponho-vos este exercício para discutirmos novas tácticas para combater um universo sem complacências para os nossos elevados desejos. Se nós, os grânulos de pó celeste, não formos capazes de reinventar o cosmos com nova Lei, resta-nos pensar no que pode fazer a nossa bela equipa de gorduchos e esqueléticos amadores perante o 0-15 com que vamos começar a segunda parte.
Quanto a mim, podermos jogar contra as Leis do Universo United já é uma grande honra. Logo, resta-nos pouco mais que levar mais 15 em cima, tal como os nossos antepassados, que julgaram poder vencê-la e morreram de abafo, ou doentes, atropelados em passadeiras, incendiados em casa, engasgados com ossos de frango, entalados na construção civil, de cirrose, afogados, intoxicados a limpar fossas, esmagados por tractores de vindima, caídos dos trapézios, mordidos por animais, assassinados, violados, de fome, de sede, caídos em buracos, torturados por raptores até à morte, roubados para tráfico de órgãos, vendidos pela pátria à guerra, baleados em manifestações, em atentados terroristas, esmagados contra as grades em concertos de música, de hipotermia, de intoxicação alimentar, de pneumonia ou gripe, de coma alcoólico, de overdose, de porrada à saída de uma discoteca, acidente de (a)viação, de exaustão, paragem cardíaca, sida, cancro, doenças em geral, de catástrofe natural, sepultados em minas, caídos de pontes e de pontes caídas, por inalação de gases tóxicos, acidentes de trabalho em geral, a desmontar bombas, comendo cogumelos venenosos, infectados por mijo de ratos, fulminados pela trovoada e pelo Viagra, como escudos humanos, por uma causa qualquer, por uma mulher, por um filho, porque alguém não aguentou mais e disparou bem sem olhar a quem, por ter uma arma, de solidão, de velhice, de medo, de loucura, de tanto sentir… de outro grandes Etecéteras…
E vai começar a segunda parte das nossas vidas. A primeira parte durou 45 minutos o que, traduzido em linguagem cósmica, equivale a 45 anos. A maior parte de nós não conseguirá chegar aos 90. Possivelmente o jogo acabará sem que nenhum de nós chegue ao período de descontos e, mesmo assim, para quê? Não há mercado de transferências para nonagenários. Esqueçamos o futebol. A vida não é um jogo e, se o fosse, seria uma espécie de solitário sem solução possível.
Como diria esse grande JP Simões no final do desabafo 1970 – “O que vamos fazer?”
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7 de mai. de 2009
MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA III
“Não há duas sem três” – essa bela frase que tanto pode servir para dar mais uma como para pedir outra…
Neste momento, enquanto dormem os belos corpos em fim de orgia, dou um jeito às pernas, coço a barba e acendo um cigarro despenteado. Resgato o uísque de uma alcova de pernas cruzadas e bebo do seu gargalo salgado. Disponho o laptop num belo costado sem hérnias, demasiado cansado para acordar e que, não sendo de macho, deve ser de uma rapariga muito peludita e má. Esperem lá… já sei quem é! É má, sim senhor.
Deixo cair, inadvertidamente, uma unha de cinza neste agremiado de carnes octópodes em que me encontro (octopussy) e logo ele se ondula como se afastasse com os tentáculos uma mosca vareja.
Tudo repousa, como no fim das batalhas, mas em lona vermelha, e ocorre-me falar-vos de Paredes de Coura. Bela festa!
No dia seguinte aqueloutro, choveu pela madrugada e manhã, dissipando no rio Tabuão as provas de um assassínio hediondo sobre o qual não me pronunciarei até que apareçam os corpos das vítimas (espero que ainda amarradas e adornadas com os instrumentos na nossa criatividade). Depois de um banho revigorante, que serviu para arrancar das unhas restos de pele e sangue ressequido, eu e o Anatoly Zerka deambulamos pela Vila à procura de impermeáveis baratos. Na ressaca de tão voluptuosa maldade que nos fazia ranger os dentes, vislumbramos aquela que, nitidamente, seria a versão punk de D. Quixote, mas sem o seu fiel escudeiro. Se um Sancho houve, terá deixado alforges e largado o burro, correndo sem olhar para trás. Quais Moinhos? A visão deste gigante assemelhava-se a um hospital abandonado com ratos encavalitados nos caixotes, roendo gaze empapada de sangue, num bouquet com seringas infectadas… Depois fomos comer.
Pedimos uns petiscos que estavam bastante bons e só o vislumbre de uma divindade de vestido branco me arrancou os olhos dos pires de moelas. Apesar de quase ter sofrido um esquentamento mental não deixei de dar uso ao faqueiro que esmagava violentamente côdeas de broa. Boa, boa, boa!!!
De seguida, fomos receber em procissão os nossos condiscípulos que não puderam estar presentes no deboche da noite anterior. Seríamos seus guias até ao acampamento. Entre abraços, soou um baque de cisne que só as rolhas de cortiça conseguem imitar quando se apartam do gargalo de garrafas tintas…
Nesse momento precioso de divino simbolismo, refundamos a nossa fé e entregamo-nos a um renovado cardápio de hercúleos esforços e consequente perda de faculdades.
Juntamo-nos ao resto da malta e, sem jantar, fomos para o recinto inaugurar depravações…
No capítulo dos concertos, a coisa esteve composta. As bandas portuguesas Ex-Wife e Bunnyranch portaram-se muito bem. Não me lembro bem qual deles (acham que foram as divorciadas) nos brindaram com a presença em palco da Raquel Ralha, dos Wraygun, mas gostei bastante. Aquele coxão é um espectáculo e se ela me pegasse pela mão e dissesse “anda!”, eu ia. Ah pois com certeza que ia!
Bellrays foi excelente. Não conhecia a banda nem a vocalista. Tufão de senhora, coxa grossa, poderosa. Uma Tina Turner com acrescentos de soul. Que grande concerto! Quase nem fui buscar baldes de cerveja…
Tive medo que ela me pegasse na mão e dissesse “anda”, pois já estava arranjado para a Raquel.
Os Sex Pistols foram engraçados, tentando disfarçar o tesão que já não têm. Pediram vinho rasca só para chafurdar o palco com bisgas venenosas. O Jony Roto (para amigos) ainda mantém uma expressão de puto reguila e aquela boca torta com o maxilar superior lançado para a frente como se fosse espetar com viço os dentes num pão com chouriço.
Quando um punk conseguiu transpor a barreira de segurança e subir ao palco (não se sabe muito bem se era para lhe partir os cornos ou lhe oferecer um botão de rosa), foi imediatamente abatido pelos snippers do cabedal. O Jony limitou-se a aconselhar o público: - “DO NOT DO THAT! THIS IS MAAA STAGE! RESPECT!”
Bom, a partir daqui, fui emborcar baldes de cerveja. Quando um punk chega ao ponto de dizer que é para haver respeito é porque estamos perto do fim do mundo. E se o fim do mundo viesse, ninguém me iria apanhar sóbrio, não senhor! Portanto, fui beber como se não houvesse amanhã. Ainda cheguei a tempo dos “vivas à rainha” – essa sem futuro que ameaça durar mais que eu!
Por agora, não me apetece contar-vos mais nada. Está aqui uma ninfa a puxar-me pelas pernas. Acordou a ressacar sexo e está a pedir-me que lhe administre mais uma dose desse soro da vida. Vou só pô-la a dormir e já volto…
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5 de mai. de 2009
O tema deste Post...
Nessa altura, que não era nitidamente o meu tempo, lembro-me dos bancos que havia. Eram poucos e, no geral, só lá trabalhava quem fosse rápido a contar notas. Íamos ao Banco Fonsecas & Burnay e havia a Caixa Geral de Depósitos (a grande Madame), que era onde o meu avô teimosamente depositava as lecas. Depois fomos mudando, saltando de banco em banco, como os saltimbancos. Lembro-me do Montepio Geral, do Banco Borges e Irmão, do Crédito Predial Português e de surgir a Nova Rede, essa novidade de outrora com imagem juvenil, ecoando hoje à craveira de um qualquer partido político minoritário a pôr-se em bicos de pés.
Na altura, como hoje, não dominava essa linguagem de escravos que é o Economês. Mas suponho que os métodos fossem semelhantes. – ponha aqui o seu dinheiro. Nós somos do Best e a sua reforma vai parecer a lotaria (hoje, o Euromilhões, porque a bazófia também fez filhos e agigantou-se com upgrades).
O que me leva a crer o seguinte: - quem são estas bestas que nos juram fidelidade eterna e depois se vendem aos outros. Quem são estas putas de alterne que fundam bordéis e depois desaparecem? Vale a pena acreditar? Não creio. Grande parte das putas que conheço (assumidas e, portanto, as verdadeiramente dignas de respeito) carregam um fado qualquer, uma culpa de amor em saldo que elas não puderam comprar e a que, sem grande acometimento de valores, me atrevo a chamar de consciência. Não deve haver muitas verdades maiores do que uma puta a assumir que o é. E, como tal, merece respeito. Bem mais do que aqueloutras que namoram futebolistas e falseiam, não só o prazer mas também o Amor (essa sim, a mais reles das putarias).
Ora bem, bancos e putaria é quase a mesma coisa. Enquanto umas nos puxam pelas peles no colchão, os outros fazem-nos acreditar que as peles debaixo dele, estão mais seguras na sua caixa forte, o que, como sabemos, é uma grandessíssima mentira. Sei de uma estória. Senhora velhinha, com colhão e meio de euros, peintelhos de tostões. Pediu para levantar o dinheiro. Demorou a contá-lo. Feita a conversão para contos de rei, retorquiu: - “Está certinho! As notas é que já não são as mesmas!” – disse em tom de repreensão por lhe terem andado a mexer no dinheirinho. “Pode voltar a guardar!”
Inocência gira dirão uns, selvajaria grotesca, outros dirão. Na verdade, a velhinha não sabe o que é um banco ou o que representa, mas este sabe bem o que ela é. Se lhe contassem a história toda, dava-lhe um ataque nos órgãos mais sensíveis. Ela levantava as notas trocadas e sujeitar-se-ia às manápulas de um drogado a virar-lhe o colchão ou a comprar-lhe vinho com notas falsas, com troco verdadeiro e combinação de caixa fraca.
Eu também poderia chegar a velho. E se isso acontecesse poderia rir-me com toda a masculinidade dos meus ossos, uma espécie de escárnio em relação aos mal coçados. Imaginemos, um velho sem rapidez de movimentos ou raciocínio a lidar com a tecnologia de amanhã. É para rir e, no entanto, sem valores que nos protejam, nós somos hoje o sulfato e enxofre para essa colheita de amanhã. Invariavelmente, acabaremos por dizer: - “se eu tivesse a tua idade” e, muito pior, “o mundo é assim”. Diremos a mesma merda que ouvimos, ainda que tenhamos hoje quilhapos para virar o sistema pelo avesso. Mas definhamos. Ganhamos filhos e, com eles, um amor que não se permite a revoluções, porque não lhes desejamos fome nem abalos maiores na cadeirinha do carro que preenche todos os requisitos de segurança em caso de acidente. Pois claro. Na melhor das hipóteses são os primeiros a ficar órfãos. Dir-me-ão que pode salvar-se vidas. Não duvido, mas não é esse o tema deste post. Gosto muito de criancinhas, principalmente quando estão caladas ou a chupar cornettos. Podia até trazer uma ou duas a este mundo, partindo do princípio que elas andam pelo cosmos a voar. Podia até provocar-lhes uma infância feliz mas… e depois de sair da cadeirinha? “Este país não é para velhos” e muito menos para crianças que deixam as cadeirinhas. Portugal é, quando muito, para corruptos que se encavalitam em Bancos. Dir-me-ão que posso sempre emigrar (e viver fugindo do chafariz de merda com que nos contempla o Sr. Poder). Dir-me-ão que um dia, quem sabe, talvez esta gente que cria leis e nos obriga a cumprir normas de segurança se lembre de nos inventar uma cadeirinha para nos proteger dos Bancos. Sim, mas não é esse o tema deste post...
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28 de abr. de 2009
Livro de Estórias e Comezainas
- “Vamos escrever um livro das nossas estórias de estudantes, com receitas de culinária pelo meio. Aquelas comezainas que ninguém adivinha que os estudantes fazem, porque a maioria só come batatas fritas e ovos estrelados?”
Aquiesci com agrado e pusemo-nos a recordar alarvices que a nossa memória preservou em vinagre e vinha-d’alhos para empregos maiores, um dia.
Como tal, e porque prevemos vender pelo menos uns 10 livros, dispõe-se aqui, e em primeira mão, uma receita com ligeiro travo a hortelã…
Receita de sangria
(3-4 estudantes)
Ingredientes:
- 10 maçãs
- 10 laranjas
- 15 limões
- 3 kg de morangos
- Espumante
- Vodka
- Triple Sec
- Hortelã
-Disponham-se num jigo de vindima trazido da terra, 10 maçãs, 10 laranjas, 15 limões e 3 kg de morangos. Tudo partido aos bocados. Junte-se com generosidade meia garrafa de Vodka e outra meia de Triple Sec. Perfume-se com um pequeno ramo de hortelã;
-Faça-se uma pausa para uma partida de Pro Evolution Soccer;
-Verifique-se se entretanto ninguém urinou no preparado. Em caso afirmativo, obrigue-se o prevaricador a beber tudo por um funil, retomando o processo quantas vezes for necessário;
-Abram-se 8 garrafas de espumante branco. Beba-se 1 para louvar o vencedor da partida e despejem-se as outras 7 no jigo, juntamente com 3 garrafas de gasosa;
-Deixa-se de um dia para o outro a refrescar num frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima;
Opcional:
No caso de não se dispor de um frigorífico suficientemente grande para lá caber um jigo de vindima:
1. Caga-se na Sangria e vai-se à D.ª Rosa comprar cerveja, onde se pode levar o vasilhame no dia seguinte, sem pagar antecipadamente a tara (a D.ª Rosa é sempre five stars e crente nos meninos que estudam para ser doutores).
2. Junta-se o espumante bem fresco ao preparado, juntamente com a gasosa congelada e, quando esta derreter, bebe-se como se não houvesse amanhã.
3. Pode juntar-se bastante gelo mas, como toda a gente sabe, a água combina mal com bebidas alcoólicas. É preferível congelar garrafas de água e dispô-las bem fechadas no jigo para refrescar a sangria. Esta opção permite que se tenha uma conversa digna com os deuses sem grandes alucinações.
4. Em preparados menores, pode sempre dispôr-se bagos de uva congelados, em vez de gelo. Deus Baco agradece.
Nota:
-Nunca congelar garrafas de vidro! Revelam-se bastante indigestas, especialmente depois de partirem.
- DEVE BEBER-SE VERY FUCKIN FRESH!
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24 de abr. de 2009
O pão que o diabo amassou
Sem grande coisa para fazer neste momento, encontro-me naquele limbo meio parvo entre beber mais um copo e comer uma sandes ou bater uma e dormir. Bater píveas é para os fracos e, como tal, bebo mais um copo, acumulando esperma para a próxima reencarnação…
Hoje a moça da padaria tocou-me nas mãos por várias vezes. Agarrou-as para me dar uma sugestão gastronómica de sandes depois de eu lhe ter pedido uma baguete. Devia ter-lhe pedido o número de telefone. Devia mas não pedi. Não me detenho nas mãos que me fazem o pão mas penso no seu jeito para o manejo da farinha amolecida algures no pré-pão. Deve haver alguma pornografia nas argamassas manejadas com tesão. E depois o calor do forno… não é coisa para se tratar com indiferença.
Ela tocou-me nas mãos, não com o viço de quem amassa farinha, mas com o cuidado de quem lhe bota o sal. E eu pensei para os meus fechos éclair, - tal como os bolos da sua vitrine: - “esta garota quer que lhe amassem a sêmea!”
Tenho pensado na sua regueifa dominical e, um dia destes, vou perguntar-lhe se quer ajuda para fazer pão com chouriço. Ah pois com certeza que vou!
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Breve lição de Teologia
Tenho formação católica, apostólica e romana. Isto é, andei a correr para a catequese e para a igreja durante quase todos os sábados e domingos enquanto fui catraio. Depois de dez anos de (in e desin)formação, depois de fazer a 1.ª e 2.ª Comunhões e o Crisma, comecei a questionar-me. Tão vigorosas foram as dúvidas como parcas as respostas. Não indaguei tanto a validade dos valores professados por Jesus Cristo ou mesmo a existência de Deus. Não. Nenhum filósofo professou tão bem, como Cristo, o amor ao próximo e o desprendimento das coisas materiais. E, nesse sentido, nunca poderia guardar-lhe rancor. Bom, o que realmente me chateia é mesmo a Igreja…
Como devem saber, a Bíblia foi escrita por pessoas e, ainda que se advogue intervenção divina, não foi tão divina a selecção dos textos e sua tradução. Independentemente das suas valências, e apesar de não figurarem na Bíblia os escritos apócrifos (possivelmente redigidos pelo próprio Jesus Cristo e considerados hereges pelo Vaticano), a verdade é que a Igreja parece não querer parar de praticar uma ideologia diferente daquela que advoga. Senão vejamos:
- Cristo dizia coisas tão insignificantes como “deixa tudo e segue-me”. Quando os apóstolos decidiram, à revelia d’ Ele, fazer um peditório e depois O presentearam com as moedas, Cristo retorquiu: - “distribuam-nas pelos pobres”. Os apóstolos, não convencidos, ainda tentaram argumentar que aquele dinheiro poderia ser útil e tal… mas sem sucesso. Jesus não queria nada com o vil metal. Mas porque o dinheiro faz rodar meio mundo (e não é de agora!) ainda lhe convocaram um pensamento político a propósito de impostos. Como Ele se estava a cagar para o dinheiro, interessando-lhe muito mais a questão espiritual, disparou a célebre frase: - “ a César o que é de César. A Deus o que é de Deus”. Pelo meio, expulsou os “vendilhões do templo” que se serviam daquela morada para exercer o comércio. E pregou por aí adiante o desprendimento material e o amor ao próximo. Coisa esquisita, portanto.
Ora, o que fazem os seguidores de Cristo, dois mil anos depois? Correm a encher os cofres do Vaticano, agigantando-o com o estatuto de Estado mais rico do mundo, onde não parece entrar a crise. Quem já foi a Fátima ou a Roma e foi capaz de se questionar sobre estas matérias, deve achar, como eu, que há qualquer coisa que não bate certo, que o fausto nada deve ter a ver com as questões espirituais, que aquela riqueza toda dava para acabar com a fome no mundo, que Cristo não desejou esta merda…
Como o texto vai longo, não me vou deter muito nas Cruzadas, na Inquisição ou no Index, nem no sangue que se derramou em nome de Deus. Convém lembrar que a Igreja católica foi responsável por mais mortes do que todas as pestes e doenças juntas. Convém, no entanto, lembrar que a Inquisição não surgiu durante a Idade Média, ao contrário do que muitos possam pensar. Durante esse período vigorou um paradigma (modelo de explicação do real) no qual Deus estava no centro de todas as coisas. Foi no Concílio de Trento, na alvorada do Renascimento, que surgiu a Inquisição. E porquê? Porque o Renascimento ousou colocar o Homem no centro de todas as coisas. Cantou o Homem e a sua beleza, esculpiu-lhe estátuas, desenhou-o em toda a sua força e plenitude. Ora, isto soou a heresia e, um pouco por toda a Europa, a Inquisição perseguiu e assassinou toda e qualquer tentativa de pensamento divergente. Naturalmente, esse movimento de perseguição, ganhou maior dimensão nas nações mais atrasadas, ignorantes e incultas. Ou seja, Portugal e Espanha…
Para outras noitadas, me deterei nestas matérias, até porque há muito a dizer sobre a conivência da Igreja para com os ditadores e acusar o seu infindável namoro com o Poder e as suas instituições. Cristo foi o primeiro comunista da História. E falar também sobre o Deus intervencionista e validade das preces e cenários possíveis do mundo sem religião. Mas para essa seca convocar-nos-ei para outras noitadas.
Resta-me abordar o tema pelo qual me obriguei a escrever esta… crónica.
Não sei se tenho fé ou, se tenho, devo chamar-lhe cepticismo. Mas há uma coisa em que realmente acredito: - NA FALTA DE DEUS, FOI A NATUREZA QUEM NOS CRIOU! Se Ele existe, como eu espero que exista, a Natureza foi a sua grande obra. E é, precisamente, essa grande obra que nós, católicos ou não, insistimos em destruir. Como é possível que alguém se considere católico ou cristão ou outra coisa qualquer e não se esforce por poupar a sua obra mais bela? Como é possível que a Igreja não se manifeste com afinco na luta pela preservação da espécie “criada à sua imagem e semelhança”? Como se pode conceber que a Igreja se preocupe mais com as suas caixas de esmolas do que com o aquecimento global, a extinção de espécies (animais ou vegetais)?
As perguntas são intermináveis. Não conheço nenhuma associação sem fins lucrativos (?) com tamanho poder para reunir e mobilizar os seus associados como a Igreja Católica. E não me cabe, pura e simplesmente, não me cabe no cérebro nem no coração, como é que esse agremiado de acéfalos não é capaz de assumir uma posição suficientemente vigorosa relativamente à preservação da obra de Deus. E é por isso que, se me resta alguma fé nos ossos, me demito de qualquer relacionamento com Deus através destes intermediários vendidos ao diabo.
Tenho dito...
...e não me tenho detido!
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22 de abr. de 2009
Explicação de um menino
O mundo compõe-se de animais racionais e irracionais. Os animais racionais são os que fazem a guerra, destroem a natureza e têm vergonha de andar nus. Os outros são os irracionais…
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21 de abr. de 2009
Morte
Tenho um certo respeito pela Morte. – Não se deixa corromper! Propõe-se, na sua ditadura, a uma higiene democrática que não poupa ninguém.
Não a temo. Preocupa-me, isso sim, a falta de valores e ferramentas para ma administrarem com dignidade. Sou um homem de desistências. Desisti de tudo na alvorada de tudo acontecer para ir à casa de banho. Vim de lá a apertar o cinto, menos agoniado e mais lavado e a perguntar como tudo foi. Não atiro senão palitos para a engrenagem onde se mereciam chaves de fendas.
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Oh heresia! Bem sei a falta que nos fazem as pessoas quando morrem. Só elas nos poderiam enxugar as lágrimas naquele momento. Fazemos poemas para a vida e a Morte vai-nos roubando os versos. Questionamos tudo. Assim é impossível. Ninguém pode fazer nada? – dizemos com um discernimento que lembra uma reportagem sobre a fome em África, antes de entrar a publicidade do tempo, a esgadanhar para a frente.
Na maior parte das vezes, não é a Morte que nos leva, mas esse tapete do tempo a enrolar-se. Se estivesse para morrer ou, pior, alguém estivesse a morrer-se em mim, teria outra perspectiva. Talvez escrevesse um testamento que obrigasse os meus amigos a uma grande festa. Na segunda hipótese, talvez me obrigasse ao fiel depósito de vontades moribundas não cumpridas.
A Morte “é um mal que vem por bem” e deve servir como lembrete para o que nos falta cumprir.
Em jeito de Post Scriptum,
Não esqueçamos, porém, de aliviar a dor aos que mais de perto vêem os outros partir. Cabe-nos tanto enterrar os mortos como assistir à aparição dos que nos irão sepultar. Pelo meio, legitimarmo-nos como médicos sem juramento, e levar um fardo de melancolia pelos outros ao abismo do tempo.
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Époque Lips Now
Farto de tanto se conspurcar a sua obra,
De religião e vendilhões
Deus avisou os homens:
“Amanhã mesmo sereis expulsos da minha morada. Deixai-a limpa
E preparai-vos!”
Mas os homens atrasaram-se
Nas demolições,
Não tanto no que sentiu Deus quando destruíam a sua obra,
Mas no prejuízo da empreitada.
E puseram-se a rezar uma novena de promessas
E fizeram-se ofertórios
E sacrifícios de animais,
E deu-se a Deus o que era dele, cozinhado
E meia dúzia de bons uísques que nunca se deram à boca de ninguém
E um cubano.
Deus viu com tristeza
Que as pessoas se agarravam às sacolas de metal
Quando a maré começou a subir.
Sobrou para a eternidade da sua memória
Aqueles que faziam um piquenique
No cume dos montes.
Dando as mãos
Aos beijos
E os últimos sopros ao amor.
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19 de abr. de 2009
Os cães do Sr. Poder
Receita gorada! Apareceu a polícia e as minhas esperanças boémias desvaneceram-se como um resto de espuma a vagar pelo ralo depois de um banho de felicidade quente.
Num sábado à noite? Tornar-me-ia missionário de uma crença qualquer se a mesma canzoada verde irrompesse Parlamento adentro a algemar corruptos. Deixemo-nos de sonhos!
Desliga-se a música (a Cultura) que faz pensar. Impõe-se a apresentação de licenças! Isto é um bar ou uma discoteca? A discoteca pode, o bar não, “ainda que tenha razão”, como dizia o Pessoa, detido na problemática dos mandadores do mundo.
Breve nota sobre Democracia:
Do grego Demo (povo) e Cracia (Lei). Ou seja, a lei do povo, entendida como o cumprimento da vontade maioritária. Roosevelt definiu Democracia como “o governo do povo, pelo povo e para o povo”. Entenda-se o povo como a maioria das pessoas que constituem uma sociedade, independentemente do estrato social, cultura… etc. etc….
Não vivemos em Democracia, como nos querem impingir. Se a maioria do povo disser que os professores não devem ser avaliados (apesar do rico exemplo dos países nórdicos e dos mais ricos), cague-se na avaliação. A vontade maioritária assim o exige e ordena. A validade dessas políticas são contas de outro rosário…
Democracia é vontade maioritária e mais nada.
Prefiro ser atropelado por um bêbado a ver-me subjugado e condenado por um crime que ainda não cometi. Vivemos numa sociedade que pune o crime antes de este ser cometido mas liberta o crime consumado. Estranha antítese. Vem da Grécia Antiga (A.C.), a expressão “a censura persegue as pombas e poupa os corvos”. Vejam lá há quantas milhas de séculos esta merda se prolonga…
Sou uma pessoa de Bem… não sei por quanto tempo! Apetece-me ser corrupto. Usar a minha inteligência para o contorno das correntes que nos amordaça aos muros. Eu tenho ideias. Tenho, sim senhor! E quem se vê fornicado como eu por uma vontade, tida por maioritária para virtude de todos, tem ideias também.
A polícia fechou a minha segunda casa, o lar onde recebo os meus amigos sem a jurisdição dos meus pais; a polícia que é o cão de guarda do poder instituído e instrumento de fazer pagar a crise que a corrupção montou.
Vi ontem, numa revista de elites o seguinte título: - “traficante na lista da Forbes como um dos mais ricos do mundo”, numa foto com o dito, armado e sorridente.
A lei não o condena.
A lei cheira mal da boca
Morra a lei
Pim.
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9 de abr. de 2009
Medina Carreira
Atentem, seus miseráveis, nas palavras do Homem-que-não-consegue-parar-de-mascar-Smints...
http://www.youtube.com/watch?v=LffslKoCqZo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=l6BvcZzRM6I&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=LhnGuKPQbzo&feature=related
Este sim, fala-me ao coração.
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1 de abr. de 2009
FOGO FÁTUO
Os repetidos fogos do mandato lavram incessantemente, tendo já devastado milhares de euros provenientes do Freeport directamente para a gaveta mais à direita da secretária de Sua Exa. O Primeiro de todos nós...
As várias corporações de bombeiros, destacadas para o local, são unânimes ao afirmarem que muito provavelmente esta catástrofe dantesca tem mão criminosa. Foi encontrado no Ground Zero, aquilo que se julga ser uma fogueira de vaidades, onde se começou por consumir, com o objectivo de atear melhor o fogo, um diploma mal amanhado onde ainda são visíveis as palavras "Engenheiro Civil". A acrescentar a isto e para engrossar as labaredas, julga-se que o criminoso terá juntado alguns projectos bizarros, dos quais ainda se notam alguns vestígios por consumir. São eles, esboços e traçados com dizeres como "OTA" e "TGV".
Esta fogueira está na origem de todo o fogo, que ainda lavra por todos os ministérios, vários, que constituem esta selva democrática e que muito dificilmente escapará ilesa a esta calamidade.
Foi já decretado o Estado de sítio, sendo no entanto, desconhecidas as medidas preventivas a tomar para proteger a populaça em geral.
31 de mar. de 2009
Concurso literário
Perdoar-me-ão os desgraçados que convivem com os infortúnios desta morada mas, por mercenários motivos, terei de apagar alguns poemas aqui veiculados. Pretendo levá-los a um concurso de beleza...
Pensemos neles como meninos que levo ao “desobriga” pela tutora e sábia mão de um Menino de Talho. Não se apoquentem. Voltarão cumpridos com renovado cardápio de doenças...
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27 de mar. de 2009
Blindness ou a mesma (In)justiça de sempre
Pessoalmente gostei mais do livro do que do filme. Ou melhor, ao ler o livro fiz o meu próprio filme e esse era bem mais noir que o do Meirelles. Acho que no livro há uma violência refinada, cheio de crueza em cada acção, e as personagens são rasgadas (literalmente) ao virar de cada página.
Cada vez mais Portugal se assemelha ao espaço físico onde a história da cegueira decorre. Vejamos: todos os dias somos bombardeados com acontecimentos vergonhosos - SENHORES que roubam; que abusam do poder; que fazem desaparecer provas e pessoas, melhor, que constroem a realidade a seu bel-prazer, sem haver nada nem ninguém que os pare, que os faça pagar por essa selvajaria desenfreada na subida para a avareza das suas vidas.
(refrão) Mas está tudo cego, ou ninguém quer ver?
A cegueira afecta todos os governantes, juízes e agentes de autoridade, quando neste país quase se cortam as mãos a quem rouba pão para comer, ou deixa de pagar a prestação mensal do carro e da casa porque a empresa onde trabalhava faliu ou está em processo de insolvência devido a gestão danosa dos administradores e a estes nada acontece... a empresa onde trabalhavam está em processo de falência, o que é certo é que estes colarinhos brancos vão á garagem e os seus porches e mercedes estão lá, brilhantes como nunca; e as mãos dos assalariados, onde estão? DECEPADAS, no caixote do lixo do desemprego e da reforma!!
(refrão) Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que acontece aos "chicos espertos" dos autarcas de Felgueiras; Gondomar ou Marco de Canaveses por abuso de poder, desvio de fundos e um rol sem fim de crimes públicos e outros dos quais não sei os nomes? Não acontece NADA! Comem, bebem e festejam as suas ilibações e escapadelas á justiça para mais tarde repetirem mais do mesmo.
(refrão)Mas está tudo cego ou ninguém quer ver?
O que vos digo é que estes biltres, abutres e cleptomaníacos só param de cegar a justiça e o povo nacional, quando tiverem um acidente e venham a falecer de MORTE VIOLENTA.
24 de mar. de 2009
MEMÓRIAS DE PAREDES DE COURA II
Tenho recebido várias cartas de gente anónima, e outra cadastrada, a dizer-me coisas desagradáveis relativamente à minha falta de disponibilidade para tornar públicas as minhas memórias de Paredes de Coura. O que as pessoas pensam não acrescenta nenhum upgrade ao incómodo que os chatos, por si só, já me provocam.
No entanto, muito mais estimulado pelas demonstrações de carinho provindas de um grupo de fãs suecas (que tanto me têm aquecido nestas madrugadas frias), resolvi-me e disse para comigo: “Olha lá, ó Mal, tu não és preto nem presidente da América mas esta gente precisa de ser iluminada por ti…” Fiz um silêncio e depois respondi-me: “és capaz de ter razão. Não és burro, não senhor!” e mantive-me neste estranho diálogo até que alguém, agarrando o meu braço, gritou: “Ó senhor, espere aí! – olhe que o semáforo dos peões ainda tá vermelho!”…
Adiante,
Convoquei os meus doces nórdicos para uma tertúlia balear ao redor da fogueira em cuja ordem de trabalhos constava o descerramento do II capítulo das ditas memórias. Depois de um acrobático número de sexo, que aprendi quando vaguei em digressão com o Cirque du Soleil, dispu-las confortavelmente, abri uma botelha de scotch com o meu sabre, dei uma bombada valente e comecei:
- Chegamos um dia antes do festival, propriamente dito. Ultimava-se a montagem das tendas onde se iria improvisar o nosso harém. Nesse momento, começamos a ouvir os primeiros “Foda-ses” que se iriam prolongar até ao fim do festival. Era “Foda-se” para aqui, “Foda-se” para ali… Por cada sonoro “Foda-se” que se ouvia, logo um outro se lhe seguia, ecoando sem limites numa apoteose acéfala. Tamanho espanto, ainda que despropositado, parecia dever-se a um conjunto de fait divers (ou métiers?) com chancela da nossa confraria. Consta que, em ano transacto, a água dos chuveiros era fria e, um senhor que bem sabeis, se arrepiou com a sua frescura, vociferando um sonoro “Fôô ah ah- daa-sssse!!!”. E pronto! Aquela merda fez eco no tempo. Bonito serviço, Mike!
Bom. A sangria estava meio para o roskoff e depois de a acabar fomos passear para a vila à procura de comida, como cães de farejo. Só havia frango a sair. Mal eu sabia que esse era o único pito mastigado que me haveria de calhar em Paredes de Coura… mas terá havido coelho?...
Depois fomos ao talho encomendar corações de frango (não havia de puta)… paramos para sorver as primeiras diuréticas num café que não me lembro o nome. Creio que o dono desse café também não sabe o meu nome, e ainda bem, pois vandalizei a porcelana da toilette sem respeito algum pelos cus que lá assentaram praça nos dias seguintes…
À noite, cozinhamos para um regimento de herbanários. Viramos fêveras com a convicção de resgatar soldados moribundos das trincheiras da morte, numa guerra desigual. O vinho sumiu-se, as tropas ganharam novo alento e um propósito imorredoiro fê-los saltar da trincheira. Mas ao primeiro arranque, carnificina. O Homem da Ripa dizimou quase todos. Muitas baixas e éne louça para lavar… Um conselho: - nunca se deve fumar a camuflagem em tempo de guerra!
Pela madrugada, calhou-nos o carrego de uma adolescente com aspirações a enfermagem. Malta da Cruz Vermelha, portanto. Aterrou na erva com convulsões. As amigas da pobre onça estavam demasiado etilizadas para aquele exorcismo, que lhe revolvia as entranhas e lhe embravecia a voz…
Com ela sentada na grama, encostei a sua nuca aos meus testículos e agarrando as suas orelhas frias, abanei-lhe a cabeça com vigor, tentando expulsar o espírito maligno que a pôs naquele estado e que, teimosamente, se recusava a pôr-lhe as mamas à mostra. Meti-lhe a mão nas calças e, sentindo a formosura seca do seu fresco tufo, percebi que se tratava de um espírito benigno e, como tal, imotivável para misérias festivaleiras. Ainda arrisquei extrair-lhe por ali o demónio, e pelas traseiras, apanhando-o desprevenido. Em vão. O maroto era preguiçoso e teimava por um exorcismo profissionalizado, vulgo medicamente assistido.
O estado da saúde nas Universidades é sintomático da sindicância de males que devassa o país. A possessa não queria ir ao INEM. Dizia que aquilo ficaria no seu cadastro. Até podia ser conversa de bêbada (o que me parece um pouco rebuscado) mas se o álcool é vedado aos profissionais da medicina como é que se explica o estado de embriaguez afecto à maioria das suas práticas? E se as enfermeiras não podem tocar no álcool quem é que nos esfrega as feridas ou o rabinho antes de administrar a penicilina? E o éter? Foda-se, - o Éter!...
Ocorriam-me estes pensamentos de alto coturno quando, abraçado à dor de ter carregado um enfermo, mastigava silenciosamente um pão com chouriço naquela cabana que mediava a “Ponte do Tralho” e as casas de banho (ou de butano?). Acho que a urina tem aquele cheiro que arranha na garganta precisamente para evitar que, quem passe junto dos toys, se espicace a acender um cigarro… Estão a ver o mesmo que eu? Espero que sim. – Um girândola de gente cagadoira feita fogo-de-artifício em apoteose estelar. E eu a fumar um cigarrito todo contente… no epicentro daquele espectáculo de misérias sem pára-quedas. A malta a aterrar nas roulottes, no corrimão da ponte e o pessoal, ao passar, vendo as bilhas borraditas caindo do céu, desapertando instintivamente os cintos com uma bebedeira sem expressão facial…
Depois fomos para o Punkalhoto beber cerveja e falar de cinema. Longa-metragem de cervejas e muitos rolos de fita para achar a consciência na tenda. E não, ninguém levou este urso de ouro para casa…
Continua...
23 de mar. de 2009
Operação Stop
Fico no meu carro com as portas trancadas. A polícia, ainda que perto, pouco mais do que um encolher de ombros teria para mim se me roubassem. Durmo desligado do mundo na minha máquina assassina onde, esporadicamente, faço amor sem autoridade, atentando ao pudor.
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18 de mar. de 2009
Para os que confundiram Epitáfio com...
Desejo doar o meu corpo a quem dele tirar melhor partido que eu. Tudo menos tráfico de órgãos. Quando muito (e preferencialmente), reencaminhe-se a genitália para um tarado que deseje cumprir-se em todas as línguas e nacionalidades. De resto, desejo ser trinchado às postas na seguinte disposição:
- As mãos ou dedos a um escultor ou guitarrista amputado
- As costelas, temperadas apenas com uma mão-cheia de sal, assadas em churrasco de madeira e atiradas da varanda aos meus cães ou a quem, achando-se capaz de competir com a sua gulodice, queira apanhá-las com os dentes.
- Os rins a uma velha boa, militante do sexo anal que, tendo os seus esmurrados de pancada, se veja privada de cumprir os divinos ensinamentos de Sade.
- A tíbia da minha perna direita oferecida ao Woodrock no Wine Festival, para se ter na prateleira, atrás das bebidas, autografada por Lambidos pelo Diabo. Se por acaso se fecharem as suas portas, enterre-se no Jardim Mágico numa alvorada sem testemunhas.
- O fígado para quem der e vier
- Os olhos para um ou dois cegos (não vá um ficar a rir-se do outro)
- Os dentes para apreciadores de nozes e avelãs
- A expressão encerada das minhas faces mortas em frascos a uma vara de padres
- Os ouvidos aos surdos e as orelhas (de preferência, com pêlos) disfarçadas num pires de orelheira servido num restaurante com estrelas Michelin.
- Tripas e restos de carne magra para salpicões canibais.
- O esqueleto a um conluio de necrófilas
Continua…
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14 de mar. de 2009
Retrato de uma Falência
12 de mar. de 2009
9 de mar. de 2009
Pensamento do dia
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4 de mar. de 2009
Inauguração
Não há paciência para um Deus que quer,
Para os homens que sonham
Nem para as obras que nascem…
Coitado do Fernando,
Gozar-se assim com os versos que lhe eram tão queridos!
Valia mais ter fodido a Ofélia comme il faut!
Quem sabe, ela teria gostado mais do seu Álvaro nos Campos.
Por cada troço de estrada inaugurado
Nasce um homem novo obrado por Deus
E o sonho cumpre-se numa mão cheia de votos.
Soubesse Pessoa, de antemão, que a sua poesia serviria o discurso político de circunstância e as fotografias que lhe conhecemos seriam bem diferentes. Menos chique, os bigodes atulhados de fluido vaginal e o olhar estrábico de quem não se ficou pelas bagaceiras no Martinho da Arcada. Hoje sem mesa reservada, lembrado como um pulha que partia mesas com cadeiras. A sua amada, Ofélia, uma pin-up desempregada, consciente da escrita que lhe escorria pelas pernas, amando o seu Pessoa, guardada para a história como um tesão sorridente de saias curtas.
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2 de mar. de 2009
A realidade acerta-se pela técnica dos relógios que evoluem e o tempo, que não teve freio, aburguesou-se a uma New Way. Dínamo de esquecer. Sem recobro nem esperança, a fotocopiadora é um museu que faliu. Não existem verdades universais. A arte pratica-se na potência de existir, sonho de uma ideologia sem memória. Nada é duradouro. Acreditar demasiado é vender a alma a uma existência sem vencimento. Tudo passa e o sol, que assiste à nossa mediocridade, continua entrando pelas frinchas de entulho universal que foram os nossos sonhos. Somos um bando de intelectuais idosos lançando sementes à terra, sem prognóstico de colheita ou seguro de terrorismo ambiental. Falimos todos os dias e o mundo reinventa-se em renovadas promessas. Fé dourada, luz que envelhece. A roupa guardada pelos nossos avós foi para um aterro sanitário, mortalha de um sem-abrigo abraçado aos próprios ossos, sobrevivente da fome e parente próximo do caixote que um camião do lixo levou. A minha mãe guardou toalhas com fio de ouro para que eu secasse os seus netos quando nascessem e eu vendi-lhe as esperanças à pornografia. Se o mundo parasse, eu acreditaria nele. Mas o carrossel da vida continua a sua marcha sem alma para travar sobre a carne que trilha os mais velhos. Não faço parágrafos. O único sentido para a vida é a morte. Não creio em verdade maior. Os cemitérios e os hospitais, as pedreiras mortas e as fábricas abandonadas são, para mim, monumentos de uma realidade que corre para a inexistência, questionada por ideais de felicidade. Acredito na minha verdade como na poesia dos faraós enterrada pelos desertos e não tenho mais perguntas para esvaziar o bolso roto de respostas onde meto as mãos, assobiando, cioso de coçar as minhas próprias misérias…
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27 de fev. de 2009
E eu que levei lambadas por dar erros. Não me quero debater nas desenvolturas da educação, até porque as visões que se merecem à memória me surgem floreadas, romantismo de levar lambadas com pressa nas pernas para correr atrás da bola. Nesse tempo não havia o Magalhães. Aliás, o único Magalhães ao nosso alcance era o contínuo que se substituía ao professor nas lambadas. Para além dos meus pais, esses eram os únicos correctores informáticos de que me lembro.
Sem computadores, ou liberdade para estudar os dínamos do mundo com a minha espada de libertar, arrancada a um pinheiro, ou caída para fazer sonhar crianças, aquele quarto de costura, com um saco pendurado atrás da porta, onde a minha avó costurava e me contava anedotas brejeiras intercaladas por explicações sobre a importância de ser alguém na vida, era o meu canto dos deveres. Apesar de nunca ter perguntado para que era o saco ou de não ter recebido uma explicação satisfatória ao alcance da minha memória, aquele saco permanece em mim como as borrachas que apagavam os meus erros e me adiavam a brincadeira.
Salto no tempo. Penso em Camões e Gil Vicente. Ainda hoje sou quase incapaz de os tomar como antecedentes próximos. Vejo-os sempre como irrealidades históricas que existiram, fobias passíveis de tratamento, mas recolhidas ao sótão dos cobertores, onde os ratos discorrem em animada tertúlia a sobrevivência dos medos, entre sandes de queijo e uma cartada de charutos.
Tempos de escola com memória de sótão. Olho com algum desprezo a poesia ensinada com fórmulas matemáticas. Versos decassilábicos, campos cor de limão e um poeta que sofria de ausência, mulher amada, - queria fornicá-la mas, sobre isso, nada. Até Pessoa me desiludiu quando não quis escrever nada que fosse erótico. Mas escreveu, o fingidor, encapotou-se e ejaculou como os outros safados do seu tempo... E os professores que o sabiam, mesmo não sabendo, ocultaram-nos o devasso. Eu ponho-te lá fora! – disse-me a professora quando eu propus que o Álvaro de Campos poderia estar mocado quando escreveu o Ópiario. Nem este corrector informático admite a leviandade do poeta. A professora de filosofia saltou o Carpe Diem nas duas ou três páginas que sublimavam o Clube dos Portas Mortos como verdade maior de pensar livremente e arriscar um pensamento diferente, bacoco mas diferente…
Desculpem-me se não concordo com esta cartilha, mas eu, que sou campónio, fugia de casa à noite e refugiei-me na beira dos penedos, em casas abandonadas ou em construção, no refúgio de uma garrafa de lixívia que rodou para o monte e nós dissemos: - é para ali que vamos, e inventamos canções sem saber cantar.
Na potência de existir tinhamos outros nomes e um maior que nos abarcava. Escrevíamos poemas sobre dor e mar/ vou morrer de amor/ só me apetece chorar. E o sentimento que era sublime, ainda que sem argumentos, ganhou asas e cantou o universo pela rede de um galinheiro. Para não me acusarem de plágio, devo dizer que o F.P. Gigante disse uma coisa parecida num dos seus escritos (para o caso de pesquisarem por mim). Depois dele, as coisas complicaram-se para os poetas dispostos na dimensão em que ele sonhou, como se nos roubasse a um tempo que é nosso. Devemos também nós sonhar o amanhã, apesar dele nos acordar?
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25 de fev. de 2009
Epitáfio
Perspectiva dos relógios mais duradouros.
Esbanjei tempo e, apesar disso, nem sempre me tolhi
De dizer às pessoas o quanto gostava delas
Nos momentos em que romanceei com elas,
Apesar de dormirem.
Faltou-me dizê-lo à família
Não sei bem se quero entender os porquês.
Terei feito voto de me livrar de culpas?
Amo sem compromisso
Como um viajante que não se detém em revisitações,
Um passo ao lado do passeio das emoções.
Escrevo este epitáfio
Como se gozasse as melhoras da morte.
Como se estivesse para morrer
E amanhã não me sobrasse tempo para dizer o que fosse
E todos velassem ou carpissem o que fui
E não o que me ficou por dizer.
Vejo-me como numa cama de hospital
Debatido no limbo da doença que me consome
E ventilado pelo desejo de arrancar mais viagens ao corpo moribundo.
Não me ponham a meia-luz com uma campainha,
Não me visitem senão com promessas de boémia
E a gargalhada de quem chegou para se divertir,
Um abraço aberto de garrafa na mão ao vir da porta.
Tranquem o quarto,
Saltemos todos para cima desta cama ventilada por mangueiras de soro;
Deixemos os profissionais de saúde batendo à porta,
Clementes de uma ordem vencida à chave pela alegria
A música alta pontuando um motim na enfermaria.
Fornicar putas sublimes, ainda que cheias de doença,
Não mo dêem a saber,
Amá-las como o refúgio de mim sem noção de refugo
Lancemos em chamas o colchão pela janela.
Se, finda a festa,
Me detiver exausto num cadeirão,
Que os últimos movíveis me dêem a extrema unção:
Uma anestesia de massagens com morfina
E um beijo no coração.
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17 de fev. de 2009
Até os bichinhos gostam...
Uma vez acesa a discussão… intervalo. E o pessoal começou a levantar-se. Sim, a publicidade é fundamental. Que se fodam os direitos das pessoas se a máquina não vender as suas escovas de dentes e tampões para o fluxo...
No preciso momento em que escrevo estas linhas, estará no WC da Casa do Artista um curioso agremiado de posições divergentes, ditosas de alívio. Imagino com gozo, a expressão de um cónego que aperta o cinto de castidade, desviando a pila para o lado no mictório, o mijo descompassado, o esfíncter retraído… nem uma ervilha se atreveria a balir-lhe as campainhas, quanto mais tocar-lhe o badalo…
Nestes preparos, com que me divirto, confesso encontrar-me em harmónica cantoria anal. Não, ninguém me sopra por onde o Sr. Castanho abre caminho. A ele sou fiel como as margens de um rio que corre para jusante. Peido-me, portanto. E quero eu lá saber se os gays casam ou não. Cago para a questão. E cago porque o cerne da questão não reside na possibilidade de consagrar o amor homossexual num ritual público com direitos sociais idênticos à classe heterossexual. O que está em causa é reajustar uma ideia conservadora de amor à imagem de um caralho imputado nas cavidades de alguém do mesmo sexo. Anda tudo assustado com a sua própria sexualidade (à excepção das pitas que se andam para aí a lamber umas às outras) e é esse medo de abrir as portas à diferença, como se daí viesse uma avalanche de piças, que circuncida a liberdade dos outros...
Por mim, coço os tomates com uma verdade mal lavada e rio-me. Apetece-me entrar num bar com quarentonas, barba por fazer… peço um whisky capaz de ser bebido à pressa, em copo quadrado, e acendo um cigarro contra as regras. Dou duas passas e antes de ser repreendido pelo desaforo, convoco-me numa velha boa, bebo de estalo e saio com ela sem esperar pelo troco de uma nota deixada ao balcão. O barman olha-me como se um louco lhe tivesse metido o dedo no cu, mas eu nem reparo…
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16 de fev. de 2009
Ebrithingue zgonabi óraite!
Fazendo a tradução:
- “O piloto morreu.
Alguém sabe pilotar o avião?”
Não, não sabe. Somos comandados por um vazio de gente sem ideias que fez da retórica um modo de vida mas não sabe muito sobre ela. Condutores de homens, - disseram-nos. Apanhados ébrios pelas câmaras de vigilância, na contra-mão dos cortejos que mirram.
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16 de jan. de 2009
Carta aberta ao Sr. Zerka
Escrevo-lhe obrigado à partilha de experiências pontuadas no trato das suas melodias trágico-irónicas, em particular àqueloutras clericais...
Eu próprio já experimentei as maravilhas que o vinho das santas galhetas pode proporcionar. Por alguma razão o padre da minha freguesia bebeu um petróleo dominical enganado. Soube mais tarde que, a caminho do hospital, teve de encostar para puxar um segundo grego que lhe incendiou as entranhas. Na rádio, "the Gasoline Man", dos Young Gods, regurgitou-lhe ódios musicais adormecidos. Não será, portanto, de estranhar que no domingo seguinte a homilia se centrasse na má influência dos ambientes e sonoridades roqueiras. Que bem me soube ouvi-lo! Palavras encorpadas, cheias e aromáticas, ligeiro travo, final longo e persistente que me fez revirar os olhos e lamber os beiços... Abençoado!
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Tou sim?... Tou?... TOU!... TOOOU!!!
Em relação a essa tal de Pinheirinha, tudo me leva a crer que seja uma árvore de Natal que alguém atirou pela janela e caiu aqui no blogue. Mas não me quero aventurar a chateá-la muito, até porque pode ser uma moça jeitosa a quem se deite a mão. Espero ansiosamente que ela se manifeste. Faz-me falta um tête-à-tête ou quiçá um rendez-vous. Oh lá-lá!!
Aproveito, já agora, caso esta gente continue a recusar mostrar o aparelho nos dentes, para meter as minhas cunhas junto do Sr. Mal. Conheço pessoas bem interessantes, capazes de ombrear com distinção e honra a possibilidade de se exprimirem na sua morada. Falo de nobres gentes como O Descendente d’Ourives; Javali, o Porco; Antunes, o Impostor ou A Cega Rali, minha supervisora no talho, uma senhora muito higiénica capaz de trinchar cabritinhos em Braille.
Sujeitado à sua sábia jurisprudência, subscrevo-me com elevada estima,
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10 de jan. de 2009
Lisboa
Achou-me reservado mas suficientemente vivido para lhe proporcionar qualquer coisa sem perder o controlo da situação. Queria manter os pés na terra mas esticar-se até ao céu sem perder a compostura. Decalquei-lhe isto enquanto dançávamos. Ela contava os passos. Eu trocava-lhe as voltas, mas sem parecer demasiado espertalhão. Estava encantado por financiar a sua desinibição mas não quis desequilibrar aquela equação de casino que ela jurava a si mesma controlar. Eu divertia-me mas, atenção! Terreno verde não é terreno seguro. Conheço muitos agricultores e muitos mais intelectuais. O terreno da razão é pantanoso e nem sempre se dá a sementes exóticas.
Sou gajo de balcão. Queria desinibi-la um pouco mais mas não regá-la com shots ou vodkas. Fui buscar-lhe um copo de vinho. Não me perguntem como o consegui num clube. Cada um inventa os seus propósitos e, quanto a mim, o mundo pode ser bastante enfadonho quando nos contentamos com os firmamentos que outros inventaram para a nossa própria alegria. Não quis que ela se embebedasse. Plantas biológicas carecem de estrumes mais refinados...
Ela recebeu bem a graça mas pôs-se a olhar em volta, não fosse o barman estar a rir-se dela, qual passarinha apanhada numa jogada batida. Nada. Tudo lhe terá parecido profissional e descomprometido. O DJ, já bem bebido, fez rolar "After Dark" dos Tito & Tarântula e toda aquela equação de cálculos se precipitou como flocos de neve. Ela agarrou-me e eu apertei-a. Ela apertou-me e eu agarrei-a. E beijámo-nos...
...Quanto ao resto, ide bater punhetas para casa seus filhos-da-puta!
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19 de dez. de 2008
Melodias Trágico Irónicas 2
Findada a eucaristia, dirigiu-se para o seu automóvel desportivo, de gama superior, e a caminho de casa, sintonizou uma rádio local que passava "Highway to Hell" dos AC/DC e que era bem audível à
sua passagem.
A D. Clotilde, beata devota dessa paróquia ia feliz com o sermão escutado na igreja, «mas que bem... que bem...» - afirmava ela, quase em prantos. Mas quando chegou a sua casa, não foi capaz de desligar o televisor que passava a musica "Sex on Fire" dos Kings of Leon.
18 de dez. de 2008
Maduro Tinto Revisitado
Quando estou bêbado,
No meio de toda a parvoíce que digo,
Há um fundo de verdade
Que não existe...
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11 de nov. de 2008
Carta de um libertino a um Juiz
Escrevo-lhe, obrigado à defesa da minha honra, pois não encontrei advogado algum capaz de interceder por ela com mais honestidade, obrigada por minha justiça a manter-se impoluta e encimada por uma auréola de verdade.
Como sabemos, esperam-me desconfortos de variada espécie por me ter enovelado em sevícias com uma moça de 16 anos com pai rigoroso. Afianço-vos que me perdi de encantos por ela, não penso que de amores, pois nesses preparos me perdi com idade mais tenra…
Sei também com que resma de leis pretende Vossa Exa. carregar-me o dorso. Poderia até tentar compreender os vossos propósitos, mas creio em tal discorrer de papéis utilidade maior se me apertassem os intestinos numa serrania, se por acaso caçasse coelhos. Mesma utilidade pode dar Vossa Exa. a esta missiva se lhe parecer de conveniência, pois não lhe desejo mal, nem tão pouco apertar-lhe as mãos se um dia me aparecesse com uma obrigação dos seus mais distintos odores.
A mesma agremiação que lhe encomendou a aplicação da lei, poderá descansar em consciência, mas eu não. É que, enquanto eu me amanho a tentar convencê-lo da minha legítima inocência, os legisladores que o precedem e encimam encontrar-se-ão, em refasteladas desovas, louvando a bel-prazer as belezas da nossa espécie. Ora, como ambos sabemos, as formas que instituem os cânones do ideal feminino são verdes e magras, pueril e inocentemente juvenis, e apresentam-se nuas comme il faut…
No que à construção artística diz respeito, tudo parece permitido e ainda bem. A classe retórica e, portanto, governativa, sempre acurou na sua ignorância, um cabimento feito aplauso para os artefactos que não domina. Haja verdade, quem a desobstrua das silvas e quem a poupe! – Sempre foi esse o meu firmamento.
Poderá contrapor-me dizendo que a sua classe não frequenta a libertinagem que institui o prazer no mundo; que não se atenta nas publicações da celebridade porca que vende o corpo, ainda que o influencie a comprar férias num destino paradisíaco (o que é isso? – pergunto-nos) …
Poderá dizer-me que a sua classe não se entretém com o mundo que dá valor às celebridades e se endivida frustrado com os ideais de felicidade vendidos pela televisão. E, se assim for, obrigo-me a crer que tanto os legisladores como os aplicadores da lei vivem num mundo diferente para o qual são convocados a legislar.
Bem sabemos que não é assim. As moças que desfilam e instituem os cânones da beleza feminina são menores de idade e insuflam o tesão a quem dele dispõe. Têm menos de 15 anos, são mulheres e “boas como o milho”.
Pese a sua sanha em tentar condenar-me, tudo isto é público e consentido. Permita-me, enfim, ciente da sua capacidade de armar uma esparrela aos miolos, que lhe segrede: -
“não é por ter cheiro de perfume e sotaque francês, que esta realidade vos exclui de encalhar na mesma esteira de merda dos seus pares”. Em boa verdade, a sanha de perseguir as pombas e poupar os corvos é matéria sobre qual já se escreviam monografias na Grécia e Roma Antigas, jurisprudências que, como sabe, fundaram o Direito Contemporâneo.
Por fim, para desgraça e choro do vosso violino de valores, devo dizer-vos: - não fui eu quem lhe roubou as virginais virtudes. Foi ela que me tomou para lápide e desprezo dos valores apreendidos. Não querendo para mim uma camisa de sete-varas, nem para ela uma pena de bestialismo por ter escovado um animal da minha envergadura…
Subscrevo-me à atenção das suas mais recalcadas virtudes,
Anarquista Juvenal ou, se quiser, Sr. Mal
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10 de nov. de 2008
O MELHOR POEMA DO MUNDO
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos
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3 de nov. de 2008
Era a estrear!!!
Tudo se passou no restaurante onde vou chafurdar, digo almoçar, diariamente. Ao entrar no dito estabelecimento reparei que contrariamente ao que é habitual, hoje o local estava muito bem frequentado no que diz a pessoas do sexo feminino... Uma das mesas estava ocupada por o que supostamente seria um pai (e quero acreditar que era) e uma deliciosa filha de vinte e poucos anos, ciente do impacto que a sua pessoa causava nos demais... Noutra mesa, logo a beira da anterior, estava uma solitária cliente, sofisticada, mulher de negócios que com certeza estaria somente de passagem nesta terriola... No outro lado da sala estavam ainda duas mesas, ocupadas cada uma delas com um casal em que as senhoras eram qualquer coisa de fantástico, boas, boas, boas... Intimamente, sei que os demais clientes já haviam reparado nas tais beldades, não fossem eles maioritariamente trolhas , sedentos de carne fresca.
Sem qualquer alarido emocional sentei-me e fui consolando a vistinha enquanto aguardava pelo repasto. Tinha investido na chafurda havia uns 5 minutos, quando um dos casais que ocupava uma das mesas do outro lado da sala se levanta para abandonar o local. Escusado será dizer que a Sra. mal deu o primeiro passo em direcção à porta foi comida como sobremesa um infinito numero de vezes (chegando alguns, inclusive, a repetir tão delicioso doce, sem se preocuparem com a linha). Ninguém ousou proferir um "ai" que fosse, mas todos suspiravam para dentro, havendo até quem se coçasse abruptamente.
Foi precisamente nesta cena do filme que tudo parou e eu descobri o ser com a tal qualidade...
Quando ninguém, nem os demais trolhas (como eu), teve a audácia de dizer palavra alguma, houve uma alma iluminada que sem qualquer embaraço, ou sequer levantar a cabeça para desviar os olhos da comida proferiu estas acertadas palavras: - «Era a estrear!!!».
Foi mágico o momento... discurso nenhum, feito por o mais sábio de todos os doutos encaixaria tão bem na situação.
Sorri-lhe, piscou-me aquele brilhante olho coberto de maldade e por momentos pensei que fosse o demónio, mas não, era também uma mulher que sabia apreciar a sua semelhante...
A propósito, o prato do dia era Massa à Lavrador e estava intragável, comi só sobremesa aquando da saída das demais fêmeas...
